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15/10/2009

às 22:55 \ Sem categoria

Quebra de sigilo: do Enem ao nosso genoma

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A quebra do sigilo da prova do Enem tem ocupado todos os espaços da mídia. Concordo totalmente com Jorge Forbes quando ele diz: “Não há segurança possível se, por segurança, for entendido o direito de cada um manter indevassado todos os aspectos de sua vida.” (caderno Aliás do jornal Estado de S.Paulo, 11 de outubro). Infelizmente. Isso nos remete a outro assunto, muito polêmico: a quebra de sigilo do nosso genoma, dos segredos contidos no nosso DNA. A quem pertencem essas informações?

Bancos de DNA

Os bancos de DNA armazenados em institutos de pesquisas são controlados por um esquema muito rígido de sigilo. Para ter acesso a essas amostras é necessário passar por rigorosos comitês de ética e justificar muito bem qual será o seu uso. E é claro, sempre com o consentimento dos doadores das amostras. Mas, ao contrário do caso do Enem, de escutas telefônicas ou da quebra de sigilo na internet não é necessário realizar nenhum crime para obter o DNA de alguém.

Nosso DNA está em toda parte

Nós o deixamos em toda  parte: na xícara onde bebemos nossos cafés, nos talheres que usamos nos restaurantes, no lenço de papel onde espirramos, nas cutículas que retiramos ao fazer as unhas nos salões de beleza, nos modess com nosso sangue menstrual (cuidadosamente embalados em invólucros higiênicos e prontos para serem levados) ou na ponta do cigarro que fumamos. Vocês devem se lembrar do caso da Roberta – irmã do Pedrinho que havia sido sequestrado ao nascer – e que teve seu DNA analisado em uma ponta de cigarro descartada, sem o seu consentimento.

Que informações poderão ser obtidas no nosso DNA?

A análise do nosso DNA nunca permitirá descobrir o que pensamos, o que sabemos ou o que sentimos. Mas informações como falsa paternidade ou o risco aumentado para algumas doenças estarão lá, disponíveis para todos. O sequenciamento do DNA vem permitindo obter um número cada vez maior de informações. E quem sabe, no futuro será possível saber se temos mais propensão para alguns traços de personalidade ou comportamento como agressividade, bom humor, otimismo.

A quem interessa?

Para os paparazzi seria um prato cheio. Além de seguir os famosos para obter fotos reveladoras, eles poderiam coletar também seus DNAs.  Já imagino as manchetes sobre os filhos de Michael Jackson, por exemplo. Mas o mais preocupante são as companhias de seguro saúde que certamente gostariam de saber se temos um risco aumentado de termos algumas doenças de alto custo para elas. Nossos empregadores também poderiam querer usar essas informações antes de nos aceitar.

Ético ou não ético?

Talvez você não tenha sido prejudicado pelo exame do Enem e não esteja interessado nas aventuras extra conjugais ou nas intimidades genômicas dos colunáveis. Mas quebrar o sigilo na internet  ou revelar segredos contidos em DNA é um assunto que diz respeito a todos nós. Para alguns juristas o DNA descartado não nos pertence mais. Portanto não é crime ou algo antiético usar ou revelar as informações obtidas nele. E você o que acha?

Por Mayana Zatz
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7 Comentários

  1. Gustavo Monteiro

    -

    31/10/2009 às 19:23

    Para alguns juristas o DNA descartado não nos pertence mais. Portanto não é crime ou algo antiético usar ou revelar as informações obtidas nele. E você o que acha?
    Se formos por esse caminho, e raciocinando por analogia, um extrato bancário jogado no lixo, com dados de nossa conta bancária, também já não nos pertenceria. Qualquer um poderia se apoderar dessas informações (agora “publicas”) e fazer delas o uso que bem entendesse.

  2. Carlos Roberto

    -

    26/10/2009 às 8:36

    Parabéns Dra. Mayana! Tenho lido e visto tuas entrevistas e ao meu ver são bastante coerentes. Parabéns também ao Jorji, que demonstrou desde cedo a precupação com a Ética.
    Deus nos criou dentro de uma infinita bondade, justiça e amor. Tanto que concedeu a todos nós o Livre Arbitrio ( o direito de fazer o que quiseres, mas serás chamada para responder por tudo) E na proposta do nosso Criador está o único objetivo: viva, conheça e evolua mas faça tudo com sabedoria.
    Creio que aqui está o principio da Ética.

  3. jorji

    -

    22/10/2009 às 11:25

    Certa vez, em uma sala de aula no segundo grau, eu disse para a professora de biologia que temia muito mais a engenharia genética do que as armas atômicas, eu tinha certeza que chegariamos ao segredo da vida(DNA), que seria o começo do fim, como já dizia o Confucio, o ser humano é o animal dos conhecimentos, não da sabedoria. O uso desse conhecimento tem que ser embasado em leis rígidas e específicas, é necessário definir critérios, ou será realmente o fim.

  4. Renata De Valentim

    -

    19/10/2009 às 17:58

    Ao contrário do que defende o leitor Rodrigo Jacobauskas em seu comentário, penso que a preocupação ética já está inserida de forma indissociável às grandes questões científicas. Por mais fascinantes e amplas que sejam as possibilidades de avanços ou conquistas efetivas proporcionados pela Genética, ignorar eventuais implicações negativas seria um retrocesso na evolução secular da Humanidade.
    Sou favorável a alguma espécie de garantia individual contra a divulgação ou o uso leviano de informações sobre o nosso material genético, o que é perfeitamente factível.

    Abraços,

    Renata De Valentim

  5. Flávia

    -

    17/10/2009 às 21:07

    Realmente não é interessante usar o DNA contra os interesses do dono!! Sou estudante no inicio do curso de Direito e não gostaria de ter esse mesmo ponto de vista…
    Mesmo que tenha descartado o objeto que contém o DNA as informações são “pessoais”, ninguém imagina que está jogando junto com um copo descartável informações preciosas…
    Imaginem o seguinte, num tribunal quando o réu beber água ficar o Ministério Público(acusação) esperando ele descartar o copo para unir provas de sua má conduta ou quem sabe de uma confissão do DNA!!!

    Trágico!

    abraços
    Flávia

  6. Marcela Santos

    -

    16/10/2009 às 21:33

    Acredito que, como na maioria dos assuntos, há os prós e os contras. Só pra ilustrar, vejo o caso do garoto Pedrinho como algo bom; porém, não concordo com um possível sequenciamento nas empresas, para contratar ou não um funcionário, de acordo com as suas tendências genéticas.
    O ideal seria definir o que é bom e o que não é, para liberar ou proibir. Mas, acho que esse é o problema…

  7. Rodrigo Jacobauskas

    -

    16/10/2009 às 17:54

    Temos muitas notícias interessantes no campo da genética explodindo todos os dias no panorama internacional, venho acompanhando as postagens da Dra. e na minha opinião as questões éticas não devem ser o centro do debate, salvo quando tivermos uma situação fática, e não meras prospecções decomo será o futuro, este é um debate que está sendo antecipado, gostaria que se possível a coluna se focasse mais ao tema, pois tenho perdido totalmente o interesse neste debate ético, não focado exclusivamente aos avanços da genética.
    Estão falando em terapia genética contra doenças virais, na cura do mal de parkison em primatas através de células troncos, e vemos sempre o Brasil a reboque do estudos internacionais, o que está sendo feito no Brasil qual nosso papel nessa verdadeirarevolução na medicina, qual o papel da anvisa, no que as big pharma ou os dogmas religiosos podem atrapalhar a cura de doenças crônicas?
    Desculpe a crítica,mas é apenas a opinião de um leitor na intenção de ser uma critica construtiva.


 

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