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17/12/2009

às 21:54 \ Sem categoria

Prêmio México de Ciência e Tecnologia

No dia 16 de julho passado eu estava em meu laboratório na USP quando recebi um telefonema e uma voz feminina muito simpática me disse: “Dra. Mayana? Estou ligando do México, do Conselho de Ciência e Tecnologia. Quero confirmar seu número de telefone porque vão ligar em breve para lhe dar uma boa notícia”. Embora eu suspeitasse o que poderia ser a boa notícia, foram quase dois meses até que fui oficialmente informada de que havia sido escolhida para o prêmio mexicano de ciência e tecnologia. Não podia imaginar um presente melhor: dia 16 de julho é meu aniversário.

Esse prêmio, que existe desde 1990, é outorgado todo ano a um cientista da América Latina, Portugal ou Espanha que tenha se destacado por suas pesquisas e “impacto social”. O prêmio tem duas características especiais: os mexicanos não podem concorrer e ele é entregue pelo próprio presidente da República mexicana, uma clara demonstração da valorização da ciência e tecnologia pelo governo mexicano. Os premiados têm o compromisso de passar uma semana no México dando palestras em diferentes centros universitários.

Transcrevo aqui meu discurso emocionado no momento da entrega do prêmio, na manhã do dia 14 de dezembro, pelo presidente Felipe Calderón:

É impossível descrever como me senti honrada quando soube que eu havia sido selecionada entre tantos grandes cientistas para receber o prêmio México de Ciência e Tecnologia e a emoção de recebê-lo das próprias mãos do presidente Felipe Calderón.

Desde muito jovem eu sabia que queria ser uma cientista. Me apaixonei pela genética quando ainda era adolescente e decidi que era essa a carreira que queria seguir. Escolhi pesquisar doenças neuromusculares que afetam 1 em cada 1000 indivíduos ao redor do mundo. Nas formas mais severas, como a distrofia de Duchenne, meninos afetados que são aparentemente normais na primeira infância perdem  progressivamente seus músculos e sua força e, ao redor dos 10 anos, tornam-se dependentes de uma cadeira de rodas. Prevenir o nascimento de novos casos e procurar a cura  para essas doenças tem sido meu projeto de vida. Mas, morando em um país como o Brasil, logo me dei conta de que, além da doença dos problemas genéticos, as famílias pobres tinham que enfrentar grandes problemas sociais. Ao visitá-las em casa, me vi diante de uma triste realidade: crianças que não tinham como sair de casa porque não tinham uma cadeira de rodas, sem acesso a uma fisioterapia ou à escola,  totalmente excluídas da vida social. Decidi então que ser só uma cientista era muito pouco. Eu não podia fechar meus olhos e fundei a Associação Brasileira de Distrofia Muscular- a ABDIM. Hoje, com o apoio de uma equipe multidisciplinar, a ABDIM luta para estender e melhorar a qualidade de vida dos afetados em todos os aspectos possíveis. Com cuidados especiais, tem sido possível estender sua expectativa de vida em pelo menos 10 anos. E existe uma luz no fim do túnel. Esperamos que antes disso seja possível achar um tratamento para essas doenças através da terapia gênica ou celular com células-tronco, que tem sido o foco de minhas pesquisas.

Mais recentemente descobri que, como cientistas, também devemos atuar em decisões políticas relacionadas à ciência. E lutei pela aprovação das pesquisas com células-tronco embrionárias no Brasil, que foram definitivamente aprovadas pelo STF em maio de 2008.

Além de professores universitários, podemos também ter um papel importante na divulgação e importância  das ciências e tentando motivar jovens a serem cientistas. Tento convencê-los de que você não precisa ser maluco para ser um cientista. Somos pessoas normais (pelo menos fingimos que somos… ). A única diferença  é que somos contaminados pelo vírus da curiosidade. Para nós, cientistas, observar não é o suficiente. Queremos entender: como? Por quê? E para  quem trabalha com doenças, como tratar? Como curar? E são essas infinitas questões que nos dão a energia para lutar e que tornam nossa vida tão fascinante.

Para os cientistas existem muitas recompensas. Provar uma hipótese através de um experimento bem-sucedido; ter um trabalho aceito em uma boa revista científica e ser citado por nossos colegas. Mas o maior retorno para um pesquisador é receber um prêmio como esse. É o reconhecimento de nossos pares.

Nenhum trabalho é feito sozinho. Sou extremamente grata a centenas de pessoas que me ajudaram desde o início de minha carreira. Gostaria de agradecer a cada um pessoalmente, mas só me concederam 5 minutos. O suficiente para agradecer profundamente à Academia Brasileira de Ciência, que indicou meu nome para esse prêmio, à Universidade de São Paulo, às nossas agências de fomento FAPESP , CNPq e FINEP, à ABDIM, a meus amigos, meus colegas e colaboradores, meus alunos, minha familia e especialmente ao Conselho de Ciência e Tecnologia do México e ao presidente Felipe Calderón.

Receber um prêmio como esse nos dá uma força enorme para continuar nosso trabalho, tentando fazer cada vez mais e melhor.

Muito obrigada.

Por Mayana Zatz
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12 Comentários

  1. jorge mendes ferreira

    -

    07/02/2010 às 14:11

    bom dia a todos

    Dra. Mayana, também eu tive pais separados e fui consultado pelo juíz, aos cinco anos de idade,
    mas minha mãe fez minha cabeça, para que eu dissesse ao juíz que queria ficar com ela.
    Puro caso de manipulação infantil.
    Mas o fato real é que o MEU CONTAS A PAGAR era com minha mãe, nada tinha a ver com meu pai.
    ou seja, tudo conspirou para que se ministrasse o melhor remédio, que eu precisava tomar, uma vida de controle e desamor, para que só com a idade eu pudesse entender como funcionam as leis da evolução do espírito humano e o que é certo e errado.
    Abraços
    jmf

  2. Elias Neves de Moraes

    -

    07/01/2010 às 16:45

    Dra. Mayana, olhando o site da USP, por curiosidade entrei no site sobre o Genoma Humano. Já tinha visto algumas entrevistas da senhora, e então por curiosidade aprofundei-me mais sobre o seu trabalho. Graças a Deus não tenho ninguem com esse problema na minha casa ou parentes ou mesmo amigos…que eu saiba. Mas é tão emocionante e bonito saber do trabalho da senhora e dos seus companheiros, que quis enviar esse e-mail, parabenizando-a, e esperando que a voces continuem sempre com esse animo e disposição para ajudar muitos que precisam…..
    Um forte abraço e parabéns mais uma vez pelo seu trabalho.

  3. Paulo Roberto da costa chagas junior

    -

    27/12/2009 às 16:04

    Parabéns Dra. Mayana pessoas como a senhora que orgulham o país e não Pelé, Ronaldinho, Kaká, Arruda, Etc…, Queremos mais cientistas e menos jogadores de futebol. Só assim teremos um País melhor.

  4. Catiucha

    -

    27/12/2009 às 15:20

    Parabéns Doutora Mayana, me espelho a cada dia em sua disciplina para que eu possa também ser uma cientista que contribui imensamente com a humanidade, assim como a senhora.

    parabéns pelo reconhecimento de seu trabalho.

  5. laura

    -

    25/12/2009 às 9:04

    Parabéns. Vc faz a diferença nesse planeta.

  6. Baldoino Soares

    -

    22/12/2009 às 22:58

    Cara Dra.
    Ficamos imensamente felizes em saber da premiação,um prêmio mais que merecido, em nome da Diretoria da Associação Brasil Parkinson nossos parabéns. Uma brasileira mostrando a capacidade dos nossos cientistas.

    Lembro-me com orgulho da nossa luta vitoriosa pela liberação pelo STF das pesquisas com células- tronco onde a doutora foi peça fundamental, os Doentes de Parkinson do Brasil estão eternamente agradecidos pela participação nos movimentos.

    Nosso blog vem acompanhando suas matérias publicadas na Veja com muito interesse contribuindo para ampliar nossos conhecimentos em genética.

    Um abraço fraterno,
    Baldoino Soares do Amaral
    Diretor da Associação Brasil Parkinson

  7. Marcelo Gacio

    -

    21/12/2009 às 12:25

    Prezada Dra. parabens pelo prêmio!!!, eu sei bem como vc trabalha sem parar não somente pesquisando ,também procurando deixar um poco mais perto da gente os avances da ciença que detalha de forma bem clara e didática em sua coluna da Veja.
    Um grande abraço desde Argentina da minha mulher Marcia Falluh , Paula , e eu , e muito obrigado por simplesmente ser uma pessoa tan especial em nossas vidas…

  8. Bruno Cerqueira

    -

    20/12/2009 às 23:32

    Em uma de suas entrevistas você falou que fazer ciência é muito pouco, nós precisamos fazer mais coisas, e é isso que vejo no seu trabalho, a indissociabilidade da ciência e a questão social, só quando tivermos essa cosciência aí sim teremos um meio científico que tem a verdadeira responsabilidade.
    Parabéns Dra. Mayana!

  9. Mayana

    -

    19/12/2009 às 13:55

    Muitissimo obrigada Rodrigo
    Vocês é que me dão ânimo, coragem e motivação para lutar

    Um enorme abraço

    Mayana

  10. Rosemeire Moraes Santos

    -

    19/12/2009 às 11:31

    Dra. Mayana,

    Saiba que a divulgação desta premiação nos encheu de orgulho e também de grande emoção.

    Lembro-me da primeira vez em que estive na ABDIM para uma consulta a fim de obter um diagnóstico definitivo, após longos 14 anos de busca por uma resposta sobre o que acontecia com o meu corpo.

    Embora o resultado tenha causado um forte impacto em mim e em minha família, pelo fato de desconhecer a gravidade do que ocorria, além de um prognóstico que, de longe, pudesse ser animador, algumas frases ditas naquele dia me fizeram perceber que estava diante de um SER HUMANO incomparável.

    “Nós não iremos abandoná-los e continuaremos lutando por um tratamento ou pela cura.”
    “Não se preocupe caso não entremos em contato para falar sobre as pesquisas, saibam que continuaremos estudando para proporcionar uma qualidade de vida melhor para vocês”.

    Neste momento, eu tive a certeza de que além de estar diante de uma cientista, havia encontrado uma profissional que preocupava-se com o lado social, com o ser humano com o qual estava lidando.

    Se pensarmos que há 20 anos poucas pessoas tinham acesso a um PC ou à internet, estas palavras me permitiram acreditar que não nos via (pacientes) apenas como um mero número em uma ficha ou protocolo. Mas sim, como pessoas com anseios, desejos, medos e que gostariam de ter uma vida saudável.
    Agradeço imensamente por toda a sua dedicação e de sua equipe.

    Hoje, temos a possibilidade de acompanharmos as pesquisas e acontecimentos quase que em tempo real. E, mais, temos a grata oportunidade de direcionarmos nossos agradecimentos diretamente a esta pessoa e profissional que está deixando uma marca na história e fazendo a diferença em nossas vidas.

    Um forte abraço, com a mesma intensidade que esta força que menciona ter para continuar o seu trabalho.

    Com admiração, respeito e gratidão,
    Rosemeire

  11. Rosana Martinez

    -

    18/12/2009 às 14:19

    Sua dedicação e disposição é um bálsamo para nossas almas. Que Deus te devolva em realizações, alegrias e saúde toda esperança que você nos proporciona! Superparabéns!

  12. Rodrigo

    -

    18/12/2009 às 12:22

    Querida Dra. Mayana,
    Quero parabenizá-la pelo prêmio de merecimento inquestionável e evidente.
    Isso só demonstra o quanto uma pessoa, ainda que especial e fora do comum, pode fazer.
    É incrível e emocionante o impacto que a senhora tem em nossas vidas. Tenho distrofia e acompanho a coluna com esperança e acima de tudo gratidão pelo que a senhora e sua equipe fazem.
    Parabéns e um forte abraço!


 

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