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21/10/2011

às 19:51 \ Sem categoria

Meu diálogo com Michael Chorost

Estive recentemente em Deauville, na França, para debater aspectos éticos relacionados com o Genoma Humano em um Fórum Internacional (Women Forum). Havia 1.400 participantes de vários países discutindo economia, energia sustentável, as guerras no Oriente Médio entre outros assuntos. Logo me recordei de Caroline Glorion, uma jornalista francesa que me contatou em 2000 para participar de um livro que ela chamou: La Course Folle: Les Géneticiens Parlent (A corrida louca: os geneticistas falam). Nesse livro ela entrevistava nove geneticistas de diferentes partes do mundo e apesar da maioria não se conhecer tínhamos muitas opiniões em comum sobre aspectos éticos relacionados com os avanços genéticos. Lembro-me que naquela época ela me perguntou se discutíamos esses assuntos com o público em geral ou só em ambientes acadêmicos. Essas discussões estão restritas a congressos com especialistas, retruquei na época. Mas isso foi em 2000. Felizmente as coisas mudaram. Podemos e devemos abordar esses assuntos com toda a sociedade. E foi o que aconteceu nesse fórum em Deauville.

Para mim, o ponto alto foi meu debate com Michael Chorost

Trata-se de um escritor americano autor de dois livros extremamente interessantes, ainda sem tradução para o português: Rebuilt (reconstruído) e World wide mind (Mente aberta para o mundo). Michael nasceu só com 10% da audição (sua mãe teve rubéola durante a gravidez) e aos 10 anos ele havia perdido totalmente a capacidade de ouvir. Mas graças a um implante coclear ele ouve e fala com um timbre de voz absolutamente normal. E ainda tem uma vantagem que eu certamente gostaria de ter. Poder desligar o implante quando a conversa está muito chata, do mesmo modo que desligamos a TV. Michael aborda no seu livro a integração homem máquina, uma ficção que cada vez se torna mais real. E reclama que apesar de existirem 500.000 pessoas surdas nos Estados Unidos, somente 100.000 tiveram a sorte, como ele, de ter um implante coclear.

Os limites do diagnóstico pré-implantação

Dentre as várias questões éticas que discutimos nesse fórum, falamos da seleção de embriões e a interrupção de gestação no caso de fetos portadores de mutações genéticas. Um assunto muito polêmico – e que discuto no meu livro GenÉTICA – é a opção de casais surdos que recorrem ao diagnóstico pré-implantação porque querem selecionar somente embriões portadores do gene da surdez para implantação. Descartam os embriões com audição normal. O argumento é que a comunicação será muito mais fácil se seus filhos também forem surdos. Defendem “o direito ao silêncio”. O que você pensa sobre isso? perguntei a Michael. Você é a pessoa ideal para responder.

Michael conhece os dois mundos

Michael foi categórico. Sou contra! E não só do diagnóstico pré-implantação para selecionar embriões surdos. Eu interromperia a gestação se soubesse que meu filho iria ser surdo. Apesar de toda a tecnologia, uma pessoa que nasce sem audição tem muitas dificuldades e se pudermos evitá-las devemos fazê-lo, defende ele.

Quem sou eu para opinar?

Alguns minutos de interação com Michael foram suficientes para eu pensar: “Que bom que você nasceu”. Mas quem sou eu para julgar? Só ele sabe das dificuldades que enfrentou na vida e o quanto ele quer ou não transmitir isso para seus filhos. E a grande diferença entre as pessoas que nunca ouviram – e querem isso para seus filhos – e Michael é que ele sabe a diferença. Além das maiores dificuldades sentidas para adaptar-se ao mundo dos “ouvintes” ele sabe o que significa nunca poder sentir o prazer de ouvir uma música, o barulho do mar, o riso de uma criança. Sempre defendi que uma pessoa que vive com um problema ou uma doença genética é certamente a que está mais preparada para saber se quer ou não transmitir essa característica a seus filhos. Não podemos decidir por ela. Michael certamente não quer. Talvez se as pessoas surdas tivessem a oportunidade de conhecer o mundo do barulho além daquele do silêncio, pensariam de modo diferente.

Por Mayana Zatz

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8 Comentários

  1. Angela Guimarães

    -

    09/01/2012 às 20:15

    sou implantada coclear (IC) há 3 anos, já li os dois livros do mike: Eebuilt e WWM, e foi ele o autor que mais me ajudou durante meu processo de adaptação ao IC, além disso concordo com as observações levantadas pela Mayana: “Talvez se as pessoas surdas tivessem a oportunidade de conhecer o mundo do barulho além daquele do silêncio, pensariam de modo diferente.” foi o que aconteceu comigo que nasci ouvinte e fiquei surda depois de adulta, nunca voltar a ouvir fez tanta diferença!!!!

  2. Eliane Maria Soares Leite

    -

    12/12/2011 às 0:08

    Interessante essa dos casais quererem gerar filhos com o mesmo defeito genético q eles, sendo no caso a surdez…geralmente não queremos passa-lo aos descendentes. E a discussão vai muito mais além como a de se temos mesmo direito de fazer essa seleção de embriões sadios ou não…

  3. Mayana Zatz

    -

    05/11/2011 às 11:09

    Ola Igor
    Lucas e realmente um felizardo por ter pais como voces.
    Grande abraco

  4. Mayana Zatz

    -

    05/11/2011 às 11:05

    Rosana
    Teus comentarios sao sempre pertinentes. Te admiro muito.
    Beijo grande

  5. Mayana Zatz

    -

    05/11/2011 às 11:04

    Muito obrigada Odiney. A genetica e realmente fascinante. Va em frente. Grande abraco

  6. Odiney

    -

    25/10/2011 às 10:46

    gostei muito dessa postagem, não só dessa, mas também de todas as outras. Sou estudante de biologia e, tenho pensado seriamente em me especializar em genética voltado pro campo da ética. Admiro muito a senhora, Mayana Zatz, os seus textos e como a senhora trata da ética/bioética.. Parabéns pelo seu trabalho, a senhora tem me ajudado a me interessar ainda mais por bioética, genética, biologia…

  7. Igor Almeida

    -

    24/10/2011 às 12:11

    Olá, sou pai de um menino, chamado Lucas, que nasceu com surdez profunda bilateral, tal como Michael o meu filho é um dos felizardos que foi implantado com 1 ano e 1 mês.
    Será que se eu tivesse tido acesso à tecnologia e tivéssemos decidido escolher um embrião sem a mutação genética o Lucas seria o mesmo? É difícil saber, o percurso do Lucas começou há muito pouco tempo, ainda não consigo prever as dificuldades que ele terá na sua vida, mas se pudesse evita-la-ias com toda a certeza.
    Se quiser pode ver o percurso, até à data, do Lucas no blog que a minha mulher tem escrito:
    surdeznainfancia.weebly.com/croacutenicas-da-minha-surdez.html

  8. Rosana Martinez

    -

    23/10/2011 às 20:04

    Concordo inteiramente com Michael Chorost! Como mãe de um portador de Distrofia Muscular de Duchenne, já fui criticada por minha posição em relação a esse assunto, que é a seguinte: meu filho é, indiscutivelmente, uma benção na minha vida; orgulho-me dele e de suas conqueistas; sua trajetória fez de mim uma pessoa melhor e sou grata e feliz por isso. Porém, se eu fosse engravidar novamente, nos dias de hoje, com a possibilidade de selecionar um embrião saudável, eu certamente faria isso, pois, apesar das belas histórias de superação que vemos e ouvimos todos os dias – e meu filho é uma delas – o sofrimento, as frustrações, as dificuldades físicas e sociais e as limitações continuam lá. Gerar um ser humano para passar por isso, havendo recursos para evitar, é um contra-senso.

 

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