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27/08/2009

às 22:12 \ Sem categoria

Debate já

clone-humano

Acho que está na hora de fazer um grande estudo das diretrizes de direito universal quanto a desenvolvimento de clones humanos e consequentes aperfeiçoamentos genéticos. Nada fará a ciência parar, mas bases para orientação do público leigo e limites técnicos para pesquisadores serão necessários para evitar um choque de realidade ainda não aceitável pela esmagadora maioria. Seu blog é o canal mais dentro do assunto para que isso seja debatido.
(Alexandre)

Tentar fazer clones humanos ficou ainda mais fácil

Neste mês, a revista Nature publicou mais uma série de artigos sobre reprogramação de células adultas para que funcionem como as células-tronco embrionárias. Essas células reprogramadas, conhecidas como  células-tronco pluripotentes induzidas (IPS, na sigla em inglês), são capazes de dar origem a qualquer tipo de tecido. Pela característica polivalente, tanto as células IPS quanto as células-tronco embrionárias podem ser usadas na medicina regenerativa (por exemplo, na recuperação de órgãos e tecidos). Só que, ao contrário das células embrionárias, as IPS podem ser obtidas em laboratório, sem necessidade do embrião.

Os pesquisadores descobriram que o silenciamento (desativação) de um gene específico, o P53, aumenta a eficiência dessa reprogramação da célula, pois uma das funções desse gene é justamente a de impedir modificações. Novamente e surpreendentemente, a mídia deu pouca atenção à descoberta. Acho que não percebeu o impacto dessa e de outras pesquisas recentes. Uma delas demonstrou, pela primeira vez, que é possível clonar um camundongo, a partir de uma célula adulta, sem precisar usar a técnica de clonagem antiga, conhecida como “terapêutica”, que exige a implantação do código genético adulto num óvulo. Basta produzir uma célula IPS e inseri-la num útero. Quem conseguirá evitar que pesquisadores sem ética tentem repetir esse experimento com seres humanos? Ou alertar pessoas dispostas a pagar qualquer preço para ter um descendente, sem avaliar os enormes riscos?

Foi assim com a ovelha Dolly

Quando o cientista Keith Campbell, responsável pela clonagem da ovelha Dolly, veio ao Brasil, há cerca de dois anos, explicou como se sentiu com a repercussão internacional suscitada pelo nascimento do animal. Disse que o primeiro experimento revolucionário, demonstrando que era possível clonar um mamífero, na verdade havia sido publicado uma ano antes. Mas a mídia, na ocasião, não lhe dera atenção. Provavelmente, segundo ele, porque tinham assuntos mais interessantes a tratar.

Qual é a diferença entre clonagem terapêutica e células IPS?

Não custa repetir: ambas as técnicas de clonagem, na prática, têm como objetivo reprogramar células adultas para que se comportem como embrionárias. Na clonagem terapêutica, a célula adulta (ou melhor, o núcleo da célula onde está quase todo o DNA) é inserida em um óvulo sem núcleo. Já no caso das células IPS, não é preciso óvulo nenhum. Basta ativar alguns genes, que na célula adulta estão silenciados, para que elas voltem ao estado embrionário. A expressão “clonagem terapêutica” muitas vezes dificulta a compreensão. O certo seria dizer que é possível reprogramar células adultas para que voltem ao estado embrionário de dois modos:

a) usando-se óvulos – que é a clonagem terapêutica ou

b) sem óvulos – a técnica IPS. Nos dois casos, a célula reprogramada precisa ser inserida em um útero para  gerar um clone ou cópia de um animal.

Riscos potenciais são muito maiores

É claro que é muito mais fácil reprogramar uma célula sem usar óvulos, que no caso dos humanos são muito difíceis de serem obtidos. “Qualquer um pode fazer as células IPS”, afirma o jornalista David Cyranoski, também na revista Nature. Para pesquisas relacionadas com diferenciação de tecidos, é o melhor dos mundos. O perigo é o uso dessas células para tentar criar clones humanos. Por enquanto, os cientistas conseguiram clonar só camundongos com a técnica IPS. Mas certamente já deve ter gente por aí experimentando com células humanas. Para isso – o que é assustador – essas pessoas teriam de inserir as células num útero e ver o que acontece. Pelo que já aprendemos de clonagem reprodutiva, os riscos potenciais de se formarem embriões anormais são gigantescos.

O Japão já está preocupado com a regulamentação

O Dr. Shinya Yamanaka, o primeiro a descobrir as famosas células IPS, já propôs uma regulamentação ao governo japonês  (ver artigo de David Cyranoski na revista Nature). O ministério de Ciências do Japão enviou a todas as universidades e agências que subsidiam pesquisas científicas uma notificação proibindo a implantação de embriões feitos com células IPS em úteros (humanos ou de animais), a produção de qualquer indivíduo a partir de células IPS ou a produção de células germinativas (que dão origem aos óvulos e aos espermatozoides) derivadas de células IPS.

Poderemos controlar?

A população precisa ser informada sobre os benefícios das novas descobertas, mas também alertada sobre os potenciais riscos. Como você acha que o Brasil deveria atuar? Iniciamos aqui um amplo debate com os vários segmentos da sociedade, como sugere o Alexandre, ou deixamos essa discussão para os cientistas?

Por Mayana Zatz

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13 Comentários

  1. Alexandre de Oliveira Arruda

    -

    06/04/2012 às 9:54

    Tema de extrema relevância!!! Disso não podemos nunca nos esquecer, principalmente no que concerne ao leque enorme de possibilidades de tornar nossa vida melhor, menos dolorosa… Todos temos o direito de poder tratar um cancer por exemplo com o uso de técnica eficiente que, por sua vez, somente foi possível por conta de alguma pesquisa que se afigurou demasiado ousada no passado. Mas!!! – e aí a porca torce o rabo, dois abismos se nos apresentam, e mais, são inevitáveis: 1º – na ciência, não prevalece ética ( aliás, a ética aceitável sempre será a dos poderosos ); 2º – ainda vivemos num mundo onde o capital dita as normas – e isso é fato. Acredito ter chegado, depois de muito matutar,no seguinte raciocínio: Num mundo onde não há lugar pra Deus, onde a ética é a da conveniência, então, espiritualista e céticos terão têm de admitir que – vivemos num planeta que é o lar da espécie humana e, se não cuidarmos desse planeta, se destruirmos fauna e flora, se deixarmos que o capital continue determinando as regras… bem, estaremos destinados a extinção. É preciso que cuidemos da vida em todas as suas formas e tenhamos por ela RESPEITO. Não vejo mal algum em explorarmos, sem limites… mas, no final das contas, nós somos o nosso próprio fantasma. É que bom senso é uma questão de sabedoria – e não de conhecimento. A ciência nos proporciona conhecimento e não sabedoria, sabedoria é algo além, somente possível a quem reflete sobre sua condição no mundo. Não sei exatamente por que, mas isto me faz lembrar do drama de Karl Gustav Yung… após muito pesquisar sobre fenômenos “estranhos”, ditos paranormais, acabou por render-se aos fatos, mas não admitiu a “espiritualidade”… vivemos, segundo ele, num espaço / tempo, onde imperam relações de causa e efeito e, também, relações de significado. Exemplo, certa feita, estava indo pra casa de uma filha e, tendo adormecido no trem, sonhou estar se afogando e, tamanha foi a agonia, acordou. Ora! Não foi nada, pensou. No entanto, ao chegar defronte a casa da filha, percebeu um alvoroço. Curioso, perguntou o que estava havendo, foi quando lho disseram que seu neto por pouco não morrera afogado! Relacionou isso com o sonho que acabara de ter no trem. Premonição? Não, pra ele tudo vem de um universo muito maior e infinitamente mais complexo o INCONSCIENTE. Células tronco, clonagem, fertilização etc. … -que leque maravilhoso se abriu desde Francis Crick, Watson e a garota rica cujo nome não lembro agora e que igualmente contribuiu para a descoberta do DNA. Temos de continuar explorando, temos de honrar precursores como Hernest Semway… Mas o problema ainda continua sendo essa ética da conveniência dos poderosos.

  2. josé márcio dias

    -

    28/07/2010 às 23:42

    Muito bom,informativo e esclarecedor.

  3. Nelson A. Pez

    -

    31/10/2009 às 23:07

    Acho que é impossível deter a ciência genética, isto é um fato que temos que encarar de frente, com leis apropriadas e com ética, tanto dos pesquisadores como dos que podem comprar determinadas manipulações para benefício próprio, sem se preocupar com a ética e a moral. Mas por que tentar clonar se o mais importante e curar os que já estão aí a merce de varios tipos de doênças, ainda incuráveis, será necessário clonar para curar? Acho que não. Deve-se trabalhar mais para descobrir terapias que ajudem aos “vivos” receberem os benefícios desta fantástica técnica geneticista. Mesmo porque a raça humana não está em extinção. Clonar para deleite próprio, é ser muito mesquinho, teria um efeito e um reconhecimento maior descobrindo a cura do câncer; do diabetes; do lupus e milhares de outros males que afligem a humanidade (como dito antes).

  4. Rafael P

    -

    23/10/2009 às 5:31

    Não é falta de éticar clonar alguém se a pessoa autoriza isso. Riscos? Se os envolvidos sabem dos riscos, não há mal. Temos que considerar como isso pode nos beneficiar em vez de fazer um alarde desnecessário.

  5. Sophia Meira

    -

    23/09/2009 às 1:20

    Acredito que são válidas as práticas ditas terapêuticas, tanto profiláticas (como em casos em que se detecta doenças ainda não manifestadas e/ou evoluídas), ou em terapias de recuperação celular e de tecidos, mas particularmente condeno toda e qualquer prática de clonagem humana, pois alem de ir de encontro com a “ética comum”, muitas vezes essas práticas estariam ligadas a fatores financeiros por parte de cientistas inescrupulosos, por curiosos inconsequentes e vaidades sem fim.

    Aproveito o ensejo para parabenizar a Dra Mayana e sua equipe!

    Sophia Meira – Arquiteta
    Itaim Bibi – São Paulo – Brasil

  6. si_vallenca

    -

    02/09/2009 às 18:29

    O aperfeiçoamento genético é bastante interessante e necessário. Pesquisas genéticas deveriam ser incentivadas sem confundir ciência com religião. As pessoas tendem a confundir e tomar partidos precipitados e sem nenhum embasamento provocando com isso o questionamento dos valores morais que nada tem a ver com a questão da ética na ciência. Como podemos exigir progresso se continuamos a pensar e agir com a mente no passado?

  7. Rosana Martinez

    -

    31/08/2009 às 11:03

    Penso que a informação, além de um direito de todos, é uma necessidade. Porém é preciso ter em mente que estamos no Brasil – país “sui-gêneres” – onde as coisas não acontecem bem como deveriam acontecer. Nesse caso, a informação tem que ser difundida de forma científica, e não sensasionalista, ou pior, corporativista (com vistas a interesses outros que não sejam os científicos). Por outro lado, também é bom lembrar que o avanço tecnológico e científico é uma realidade irreversível e, como todo o empreeendimento humano, possui fator de risco. Foi assim, no século passado, quando começaram os transplantes de órgãos – hoje plenamente aceitos – mas que trouxeram, junto com sua evolução, o mercado clandestino e ilegal de órgãos. E nem por isso se cogita proibir os transplantes, lógico! Da mesma forma, não podemos correr o risco de que esse “debate”, ao invés de esclarecer, torne-se um empecilho e um atraso para as pesquisas, que podem salvar tantas vidas.

  8. Rafael Riani

    -

    29/08/2009 às 13:06

    Deixemos para os cientistas.

  9. Paula

    -

    29/08/2009 às 9:22

    “De longe tudo parece mais bonito”. Nossos questionamentos, nem sempre respondidos, parecem justificar o valor que se dá a informação.

  10. Alan Sam

    -

    28/08/2009 às 20:42

    Com tecnologia, matar pessoas é também cada dia mais fácil, roubar então nem se fala… Por que não pautamos a nossa moral pelo que é mais fácil de fazer com ajuda tecnológica? Vamos então regulamentar o assassinato e o roubo!
    Quer dizer que a ciência não vai parar? É ela agora quem dita as leis? Piada.

    Não sou contra os benefícios da manipulação genética, mas que tudo seja feito mediante rigoroso debate ético, e não puramente técnico.

  11. Flávia

    -

    28/08/2009 às 20:27

    Confesso que me esses assuntos me animam ao mesmo tempo que me deixa apreensiva. Sem dúvida esses procedimentos são sinais de evolução da genética muito importantes, mas fico preocupada com o que é possível fazer com isso. Existe muita gente inescrupulosa que não pensaria duas vezes para usar todos os conhecimentos que detém para se enaltecer, não seria difícil encontrar alguém disposto a fazer clones para qualquer bobagem. Ainda bem que são procedimentos caros, demandam tempo (ruim para a medicina e tal) mas também dificultam trabalhos não interessados em evolução e sim em promoção pessoal.

    gostei da matéria por não tentar influenciar ninguém.

    Flavia
    estudante

  12. Edson Souza Costa

    -

    28/08/2009 às 12:06

    de Taguatinga – TO – Brasil.

  13. Edson Souza Costa

    -

    28/08/2009 às 12:05

    Tudo que se diz respeito ao futuro da humanidade, deve ser assunto de pauto na mídia, inclusive, em todos os segmentos da sociedade. Digo mais. A Ciência precisa ganhar mais atenção por parte dos governos. No Brasil, não vemos tanta prioridade pelo Governo. É preciso popularizar mais a Ciência no Brasil. Lembremos da importância das descobertas por cientistas brasileiros, por exemplo: o soro antídoto do veneno da cobra, por Vital Brasil.
    O Clone Humano, é sim um assunto que deve ser debatido pela sociedade.
    Eu, por exemplo, gostaria muito de ser um “Pesquisador/Cientista”, mas vejo que no Brasil, ganha muito mal!

    Edson Souza Costa
    Administrador

 

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