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05/03/2010

às 19:35 \ Sem categoria

Como dar uma má noticia? Pessoalmente ou por internet?

amor-sem-escalas

Cena do filme 'Amor sem Escalas', com George Clooney

No filme Amor sem Escalas (foto) – com seis indicações ao Oscar – George Clooney representa um alto executivo que viaja por todo o território americano com a missão de demitir pessoas. Eis que surge Natalie, uma jovenzinha recém-formada com uma proposta brilhante: ao invés de um confronto pessoal, ela propõe usar a internet – o skype-MSN ou outro programa semelhante -  para demitir esses funcionários o que, segundo ela, economizaria tempo e dinheiro. O resultado dessa iniciativa no filme é desastroso – aliás, não entendi porque ele foi classificado como comédia. Mas ele me fez refletir sobre uma situação que enfrentamos diariamente. Como explicar a uma pessoa ou a um casal os resultados de  um exame genético? Dar uma boa notícia é ótimo. Mas como lidar com uma má notícia?

Exames genéticos: quem deve se submeter a eles?

Provavelmente em um  futuro próximo, a grande maioria das pessoas queira se submeter a exames genéticos. Hoje eles só são indicados a pessoas que já têm um ou mais parentes afetados na família ou pessoas com risco aumentado de vir a ter uma criança com uma doença genética. Bebês malformados, mães com idade avançada ou que tiveram abortos de repetição sem causa orgânica, são exemplos, entre outros, de indicação de exame genético. Na primeira consulta levantam-se todas as informações e, quando indicado, coleta-se material para confirmar o diagnóstico e saber se há risco de repetição da doença em futura prole. A nossa filosofia sempre tem sido de entregar os resultados dos exames genéticos aos consulentes (pais e/ou pacientes afetados) pessoalmente sem limite de tempo.

Boa notícia é fácil, mas e quando os resultados não são os que gostaríamos?
Dizer a um casal que seu filho tem uma doença genética ainda incurável é sempre doloroso. Assim como informar a uma gestante que o feto em seu ventre será afetado de alguma forma. Embora nada possa diminuir a dor dessas pessoas, acreditamos que o contato pessoal abre mais espaço para esclarecer dúvidas, trocar informações, orientar, contar como estão as pesquisas e dar esperanças que podem ser cruciais no momento da notícia. Mais do que tudo, a proximidade permite trocar emoções, dar um abraço, demonstrar calor humano, coisas difíceis em uma consulta “cibernética”.

E quando o casal mora em outro estado?

Entre as pessoas que atendemos no Centro do Genoma da USP isso é muito comum. Os consulentes às vezes viajam milhares de quilômetros para uma primeira consulta, mas não têm recursos ou disponibilidade de tempo para um retorno. Se a notícia é boa, qualquer meio de comunicação é útil. Mas e quando se trata de uma má notícia, como confirmar um diagnóstico de uma doença, descobrir que o feto será afetado? O que é melhor? Ou menos doloroso? Insistir para que o casal ou consulente volte para uma consulta pessoal obrigando-os com isso a retornar à sua terra natal sozinhos com a sua dor?  Ou utilizar o skype, que permite ao menos a visualização de imagens, para substituir a troca de informações pessoais pelas virtuais?  O que você acha?

Por Mayana Zatz

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13 Comentários

  1. Daniel Chiappini

    -

    26/03/2010 às 14:25

    Olá Mayana,

    Estive pensando em como gostaria de receber uma má notícia caso fosse seu consulente…creio que na primeira consulta isso pode ser passível de acordo com o paciente, ou seja: Caso ocorra um fato desagradável, você prefere ser informado pessoalmente para que possa ser acolhido e ter suas dúvidas sanadas na hora ou prefere a praticidade de um meio eletrônico como MSN ou Skype? Daí o consulente já acorda de antemão por um ou outro método.

    Abraço

    Daniel

  2. Rosana Martinez

    -

    12/03/2010 às 14:36

    Sei por experiência própria o que é isso, pois já ouvi um diagnóstico difícil da senhora e – pior – há muitos anos, quando ainda não se falava em células-tronco, esperança, nada. Lembro das dificuldades financeiras que enfrentava na época e de como era difícil ir até SP. Mas lembro também da expectativa pelo diagnóstico e de como saber a verdade nos ajudou a buscar cada vez mais informação e a tomar decisões ao longo desses anos, o que, na minha opinião, contribuiu para que nosso Pedro ainda esteja conosco, aos 22 anos e graduado em Jornalismo!
    Então….penso que o diagnóstico correto – ainda que difícil – é sempre o melhor caminho – ao vivo ou por que outro meio for.

  3. Anna

    -

    09/03/2010 às 8:50

    Já recebemos pessoalmente o resultado de um exame genético minutos antes de receber nosso bb. O resultado foi desastroso e o chão se abriu na nossa frente. Nos sentimos pequenos, desconsolados e impotentes. Não tivemos as respostas às nossas dúvidas esclarecidas nem os nossos planos se concretizaram.

    Imagino que na na comunicação por Skype seja a melhor alternativa para que o contato pareça o mais próximo possível e tornar-se disponível para os consulentes é fundamental, já que depois do choque é que aparecem as dúvidas (a gente nunca pensa que vai acontecer conosco, tendemos sempre a pensar positivo antes de um exame assim).

    Sou sua grande admiradora. Preferia ter recebido a notícia do meu exame por você pois sei da sua sensibilidade e seriedade.

  4. Elisa

    -

    08/03/2010 às 22:14

    Creio que a tecnologia não foi criada para situações como esta e sem contar que falando pessoalmente o ‘baque” pode ser mais aliviado, afinal a pessoa que for informar pode transmitir um sentimento, fazer uma expressão que dê coragem, confiança para o receptor da mensagem saber enfrentar a situação.Isso me criou uma dúvida: os assistentes sociais podem informar o resultado do exame genético ou somente o geneticista?

  5. Adriana Roitman

    -

    08/03/2010 às 17:56

    Mayana,

    Imagino o impasse…acredito que no caso de haver dificuldades financeiras/geográficas, um telefonema ou uma comunicação via skype são a melhor alternativa. A tonalidade da voz, a ternura do olhar podem sim acolher e mostrar o quanto a situação nos comove, oferecendo, com esta postura, a possibilidade de pensar conjuntamente a melhor conduta ou tratamento. Observo, ainda, que é válido colocar-se à disposição para uma visita “ao vivo” se assim quiser o paciente/familiar.

    Admiro muito o seu trabalho! Parabéns!

    Adriana Roitman – psicóloga

  6. Mayana

    -

    08/03/2010 às 15:55

    Fiquei muito sensibilizada com seu comentário Maria Clara. Muitissimo obrigada.

    Um beijo grande

    Mayana

  7. Mayana

    -

    08/03/2010 às 15:40

    Muito obrigada Rodrigo.
    É muito reconfortante ouvir isso de você. Temos que usar a tecnologia moderna da melhor maneira possível.

    Um grande abraço

    Mayana

  8. Maria Clara Gonçalves

    -

    06/03/2010 às 16:34

    Cara Mayana,

    Sinto que por trás de notória inteligência está uma alma boa que sensibiliza-se com o sofrimento alheio, até porque também acredito que sem essa sensibilidade que toca sua carreira nada seria possível, parabéns!

    Maria Clara Gonçalves
    Psicanalista – RJ

  9. Marcelo Oliveira

    -

    06/03/2010 às 16:11

    Difícil tarefa…

    Penso que não existiriam muitas alternativas, mas caso saiba-se de antemão que os consulentes não teriam condições de retornar, uma solução poderia ser a preparação de um relatório médico descrevendo o diagnóstico em detalhes, e deixá-lo pronto para ser remetido (via e-mail, correio, fax) a um outro profissional de saúde que se identifique (CRM) como tal, e esteja próximo aos consulentes.

    Espera-se (em tese) que um profissional de saúde tenha um mínimo de experiência em dar boas e más notícias, e claro, mesmo que fora de sua área, conhecimento para compreender o diagnóstico e suas consequências.

    Abraços
    Marcelo

  10. Maurício Tostes

    -

    06/03/2010 às 15:39

    A Comunicação de Más Notícias é uma das tarefas mais difíceis para o médico. Uma saída para certos impasses com que nos deparamos é conversar com os nossos pacientes, e junto com eles definirmos o que melhor a fazer. Creio que isso se aplica em parte a questão do resultado dos testes genéticos. Duas sugestões para quem quiser ler um pouco sobre o tema: Comunicando malas noticias en Medicina: recomendaciones para hacer de la necesidad virtud. F. Garcia Diaz. Medicina Intensiva, 2006, 30(9): 452-9 e A comunicação de notícias ruins e a pragmática da comunicação humana:
    o uso do cinema em atividades de ensino/aprendizagem na educação médica, Interface – Comunic, Saúde, Educ, v.11, n.21, p.165-72, jan/abr 2007.

  11. Rodrigo wb

    -

    06/03/2010 às 15:16

    Acredito que nessas horas difíceis o contato pessoal seja de grande valia. Porém, na impossibilidade desse contato, melhor o atendimento virtual a nenhum atendimento. Tenho distrofia e já fui consultar pessoalmente a senhora.Infelizmente não tive mais oportunidades de retornar. Por isso, por experiência própria, ficaria muito satisfeito com o msn. Pra mim, não é uma questão de escolher qual o melhor, mas de utilizar o que está em meu alcance.
    Forte abraço!

  12. jorji

    -

    06/03/2010 às 9:16

    Certa vez assisti a um filme, com Brendam Fraser, que fazia o papel de homossexual, tinha uma irmã casada com um judeu que estava grávida, e no exame genético que realizaram no feto, constatou que ele possuia os genes do homossexualismo ( criança do sexo masculino ), a partir desta constatação, começa o drama, o pai da criança queria que a esposa abortasse o próprio filho, a mulher ficara em dúvida, quem lutou para que essa criança tivesse o ” direito de nascer ” foi o irmão dela ( Brendam ), criando uma situação dramática nas famílias envolvidas, onde entrou em conflito todas as formas de princípio. A criança nasceu, o casal se separou, o irmão homossexual que lutara para que a criança nascesse, no fundo tinha toda razão, esse assunto abordado pela Mayana vai gerar uma série de conflitos na sociedade, eu tenho a certeza que até a personalidade, o caráter, o temperamento, enfim tudo que um indivíduo é, se saberá através dos exames genéticos. Eu temo muito mais a engenharia genética do que as armas atômicas, quem sabe um dia o ser humano vai determinar o destino de todas as espécies de seres vivos…………………..

  13. Sady

    -

    06/03/2010 às 7:54

    Nesse caso é melhor falar pessoalmente,dar as devidas explicações.Pelo skype ou qulaquer outra forma virtual,fica muito impessoal,correndo o risco de não ficar bem esclarecido.

 

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