28/06/2012
às 8:28 \ Sem categoriaCélulas-tronco gostam de passar fome
Outro dia fui dar uma palestra sobre o impacto da genética nas nossas vidas e acabei falando sobre a nossa pesquisa sobre envelhecimento: o projeto 80mais. Quando terminei um senhor muito simpático me perguntou: “E o que devemos comer para envelhecer com saúde?” Comecei a rir. Infelizmente não tenho uma boa notícia. Todos os estudos recentes apontam não para o que comer, mas para deixar de comer, se queremos estender a vida. Já falei disso em colunas anteriores. Existem várias hipóteses para explicar como a restrição alimentar pode nos beneficiar e é claro quais seriam as alternativas. Isto é, viver muito sem passar fome. Em um trabalho recente, publicado na revista Nature, em maio, cientistas liderados pelo Dr. David Sabatini, nos Estados Unidos, pesquisaram como a restrição alimentar atua nas células-tronco do intestino. Segundo os autores, passar fome , aumentaria o número e ativaria as células-tronco intestinais, pelo menos em camundongos.
O que os cientistas queriam investigar?
O laboratório coordenado pelo Dr. Sabatini dedica-se a pesquisas relacionadas com a regulação do crescimento e metabolismo em mamíferos. Sabemos que os tecidos no corpo são mantidos pelas células-tronco que têm a capacidade de se auto-renovar e diferenciar-se em tecidos específicos. Por outro lado, já foi demonstrado, em diversos organismos que a restrição calórica, preserva a longevidade. Entende-se aqui como restrição calórica, a diminuição da ingestão de calorias, porém mantendo-se uma nutrição adequada. Em algumas linhagens de camundongos, pesquisas anteriores já haviam mostrado que a restrição calórica promove a formação de novos neurônios e previne a diminuição do número de células-tronco hematopoéticas com a idade. Na pesquisa que acaba de ser publicada, os autores quiseram investigar como a restrição calórica atua em células-tronco intestinais denominadas “Paneth cells”.
O que são Paneth Cells ou células de Paneth?
Elas constituem as células principais que formam o “nicho” do epitélio do intestino delgado. Trabalhos anteriores haviam demonstrado que a perda das células de Paneth (CP) causam diminuição das células-tronco intestinais (CTI), enquanto a adição das CP em cultura ( “in vitro”) aumenta o potencial das CTI. Isto é, aparentemente as CP são “parceiras” importantes para as células-tronco intestinais.
Como foi feita a pesquisa?
Os camundongos do experimento foram submetidos a dieta hipocalórica por 4 a 28 semanas e comparados com um grupo controle que alimentava-se sem restrições. No primeiro grupo houve uma perda de cerca de 20% na massa corporal. Obervou-se também uma diminuição na massa do intestino, mas ele manteve-se morfologicamente normal.
Qual foi o resultado observado?
Os cientistas viram que a restrição alimentar ocasionou a preservação e a auto-renovação das CTI. Observou-se também um aumento no número tanto das CTI como das CP. Além disso, a restrição alimentar melhorou a regeneração do epitélio intestinal. Os cientistas também mostraram, em exprimentos subsequentes que quando as CTI eram cultivadas junto com CP retiradas de animais que haviam sido submetidos a restrição alimentar , também ocorria ativação das células-tronco. Isto é, como verdadeiras parceiras, as células de Paneth estavam enviando uma sinalização positiva para as CTI. Algo assim: “Mexam-se, estamos com pouco alimento”.
Em resumo
Os autores demonstraram aqui , em uma nova pesquisa, que dieta hipocalórica preserva e aumenta o “pool “de células-tronco intestinais em camundongos. Essa é mais uma demonstração dos efeitos benéficos de “fechar a boca” mantendo-se é claro uma nutrição balanceada. Depois de ler mais esse trabalho decidi que ao invés de jantar, só vou comer uma frutinha. Pelo menos hoje.



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8 Comentários
Marisabel Mello Flores
-03/07/2012 às 16:31
Oi! Sou uma professora aposentada há dois anos. Fiz curso superior, pós graduação e especialização dentro da área de educação. No entanto, não tenho muito conhecimento sobre célula-tronco. Mas tenho acompanhado um pouco a evolução dessses estudos, principalmente nos 2 últimos anos. Parabenizo a Drª Mayana p/suas conquistas que considero importantíssimas p/o avanço da medicina no Brasil. Sobre o assunto do:”fechar a boca” eu concordo em todos os sentidos. Fazem dois anos que faço um jejum de alimentos, 1 vez p/semana. Só ingiro líquidos(café com leite, suco de laranja e vitamina de frutas c/leite de soja) e realmente notei que perdi peso, melhorou o funcionamento dos meus intestinos e a sensação de inchaço que eu tinha comumente. Além disso, diminui a ingestão de carnes e me alimento com muita verdura, legumes e frutas. Doce, nem pensar e sal só marinho e pouco. Agradeço a oportunidade, mas essa resportagem tem tudo a ver!
Tiago Lopes, PhD
-03/07/2012 às 0:21
@Raquel: Por favor, leia novamente o artigo da Dr. Zatz. Ela esta descrevendo de forma resumida os resultados de um estudo desenvolvido e publicado por outro grupo, mencionando que estes utilizaram camundongos. Ela conclui de forma bem humorada escrevendo sobre seu jantar, e não fazendo recomendações a outras pessoas. Além disso, antes de utilizar “Você”, e “Entende?”, por favor lembre-se que está falando com uma das autoridades científicas do pais, entende ?
Luiz Alberto
-28/06/2012 às 20:26
Aproveito para sugerir que observem nossos Irmãos Nordestinos, aquelesdo interior, que não tem agua, tampouco alimentos. Geralmente comem farofa e feijão. São magrinhos e muitos vivem até l00anos.
Loraine
-28/06/2012 às 19:19
Eu li esse artigo do Sabatini, muito bom! Restrição calórica tem mostrado ser uma grande arma contra vários males!
edvaldo cavalcante
-28/06/2012 às 12:11
Modéstia a parte, eu sempre achei que era assim mesmo. Vivi durante anos apenas jantando, sem café da manha e sem almoço. Sempre tive exelente saúde. Esta conversa de nutricionistas de comer de 3 em 3 horas sempre me pareçeu um absurdo.
alaor
-28/06/2012 às 10:21
Há muitos anos já sabemos que isto é verdade. Na década de 1950 imaginavam quem era gordo é que era saudável, e morriam todos com idade média menos de 50 anos..
Raquel
-28/06/2012 às 9:54
Legal… mas você não é nutricionista então acho que quando for falar em dietas, alimentaçãoo, restrição alimentar, primeiramente optar pela opinião de um profissional da área. É a mesma coisa de ver uma nutricionista escrevendo algo sobre genética.Entende?
Andrea
-28/06/2012 às 9:46
É a melhor receita pra manter a saúde e uma vida longa. Não tem erro: Café da manhã de um rei, almoço de um príncipe e jantar de plebeu (da idade média é claro, rsrsrsr).