20/05/2011
às 8:10 \ Sem categoriaCélulas-tronco reprogramadas são rejeitadas
Depois da pesquisa sobre células adultas – como as da pele (fibroblastos) – que podem ser retiradas e reprogramadas para se comportarem como células-tronco embrionárias, surgem novos estudos mostrando obstáculos ao seu uso na terapia celular. Primeiro foram trabalhos mostrando que elas guardam “memória” de onde foram retiradas. Agora uma nova pesquisa realizada em camundongos, publicada na revista Nature , revela que elas também podem ser rejeitadas quando reinjetadas no mesmo animal de onde foram retiradas.
Células reprogramadas ou IPS (do inglês induced reprogrammed stem cells) são uma excelente ferramenta para entender mecanismos patológicos e pesquisar novos tratamentos
Recordando, essas células que podem ser retiradas teoricamente de vários tecidos adultos podem – através da ativação de alguns genes específicos – voltar a se comportar como embrionárias. Assim tornam-se capazes de se diferenciar em qualquer tipo celular, como o cardíaco, músculo, gordura, osso ou células nervosas.
Desde a sua descoberta imaginava-se que seriam ótimas para pesquisas. De fato são. Vários trabalhos já foram publicados mostrando que é possível reprogramar células de pacientes com diferentes doenças, gerar linhagens celulares, e testar diferentes abordagens terapêuticas para tratar aquela doença. Esse potencial das células IPS é incontestável.
Perdoam, mas não esquecem
A grande questão levantada desde a descoberta das células IPS é se elas algum dia poderiam ser usadas para terapia celular, isto é, para substituir células ou tecidos lesionados. Apesar de ser muito semelhantes às células embrionárias, capazes realmente de formar qualquer tecido (que é a vocação natural das células-tronco embrionárias) uma primeira pesquisa mostrando que elas guardam uma “memória” de onde foram retiradas e “preferem” se diferenciar naquele tecido- foi publicada em setembro de 2010 pelo grupo do George Daley. Outras pesquisas publicadas recentemente (Nature cell biology, maio de 2011) confirmaram esse achado e por isso brincam que elas “perdoam, mas não esquecem”.
A novidade é a rejeição
Uma nova pesquisa que acaba de ser publicada na revista Nature, liderada pelo Dr. Xu, mostrou que células IPS retiradas de camundongos foram rejeitadas quando reimplantadas em animais com a mesma constituição genética. Normalmente as verdadeiras células-tronco embrionárias, quando injetadas em camundongos formam um tipo especial de tumor, chamado de teratoma.
A presença do teratoma é a prova que as células injetadas são realmente pluripotentes, isto é, capazes de formar qualquer tecido. Entretanto, essas células IPS de camundongos, quando reinjetadas, ou não formaram teratomas ou formaram alguns que foram rejeitados pelo animal receptor. Descobriu-se que os teratomas estavam expressando genes que provocavam uma resposta imune.
Um balde de água fria?
Para aqueles que achavam que era possível reinjetar células-tronco derivadas das IPS, sem preocupação com o problema da rejeição, desde que fossem retiradas da mesma pessoa, foi um balde de água fria. Mas na realidade o quadro não é tão negro assim. Talvez seja possível controlar esses genes que provocaram a resposta imune. Ou então administrar drogas imunosupressoras para evitar a rejeição. Mas o fato é que serão necessárias mais pesquisas antes de poder saber se células IPS poderão ser usadas para terapia celular. A boa notícia é que elas têm nos ajudado muito a entender os mecanismos que causam diferentes doenças genéticas abrindo novos caminhos para seu tratamento. E que outras células-tronco adultas estão sendo testadas com resultados promissores em modelos animais.
Tags: fibroblastos, memória



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8 Comentários
vanir teresinha bergamaschi
-11/07/2011 às 17:45
Na verdade, acessei esse artigo porque estou tentando descobrir que doença meu filho, Felipe de 1 ano e 8 meses tem. Já passamos por vários médicos em Bento Gonçalves e Porto Alegre – RS, porém nenhum pode dar um diagóstico, suspeitavasse de Vasculite, porém a biopsia deu descartou essa possibilidade:
O Felipe tem nódulos embaixo da pele, nos dedos das mãos, cotovelos, joelho, nariz, queixo, próximo o olho direito, na cabeça (parte de trás), nos joelhos e nas costelas, esses nódulos começaram a aparecer no inicio de maio/11.
Diagnóstico: Tecido constituido por fibroblastos jovens, por vezes em meio a colágeno, com vasos em meio, com zonas mixoides, em geral com hemorragia. Ausencia de vasculite.
Ficaria muito agradecida se você pudesse me ajudar me retornando pelo e-mail informado no site.
Deus a abençõe.
Vanir
Giovanna Ivo
-04/06/2011 às 12:24
Prezada Mayana, estou adorando o seu blog. Queria saber sua opinião sobre o trabalho da equipe de Salvador, realizado com células-tronco no local de lesões medulares. Um grande abraço
paulo roberto da costa chagas junior
-31/05/2011 às 9:50
Obrigado, Doutora. E continue firme em seu trabalho.
Mayana Zatz
-23/05/2011 às 22:21
É isso mesmo Paulo Roberto. Por isso briguei tanto pelas pesquisas com células-tronco embrionárias. Para dizer a verdade nunca acreditei que as céluls IPS fossem iguais as embrionárias.Mas elas podem ser muito importantes na procura de novas terapias.
Um grande abraço
Mayana Zatz
-23/05/2011 às 22:18
Olá Rosana
Apesar de não servirem, pelo menos hoje para terapia celular, as células IPS continuam sendo muito importantes para pesquisas.
Vi o filme ” Decisões extremas” e também gostei muito. É uma boa sugestão para coluna. Muito obrigada
Um grande beijo
Um grande beijo
Daniel M Moreira
-23/05/2011 às 20:50
Dra. Mayana: Gostaria que me desse um esclarecimento: O que é melhor: morrer por uma doença degenerativa progressiva que não perdoa nem um filho, ou aceitar que ele se submeta a transplante de células tronco (mesmo que experimental) e também morra? Afinal nos dois casos a morte é a única coisa certa, o que vocês, pesquisadores brasileiros, estão esperando, que um ratinho fale, antes de testar em humanos?
Até quando vamos ver nossas crianças morrerem, enquanto pesquisadores vaidosos e egocêntricos disputam o trófeu das células-tronco?
Rosana M
-22/05/2011 às 17:34
é uma notícia triste, mais ainda se levarmos em conta que todos os recursos gastos com as células IPS poderiam ter gerado algum avanço nas pesquisas com as embrionárias que – já se sabe – são mais eficientes para gerar qualquer tecido. A esse propósito, gostaria de sugerir um tema para sua coluna: assisti ontem, na HBO, ao ótimo filme Decisões Extremas que chama a atenção para a questão dos “interesses” diversos de investidores e laboratórios que, por vezes, dificultam e atrasam as pesquisas científicas. Poderia nos falar um pouco sobre isso?
paulo roberto da costa chagas junior
-21/05/2011 às 10:59
É por isso que é importante deixar claro a sociedade que as células troncos embrionárias não podem ser substituídas na terapia genética.E não deixar os conceitos religiosos prejudicar as pesquisa científicas.