29/05/2009
às 17:59 \ ArquivoCorreções necessárias
Sou professora de curso pré-vestibular no Rio Grande do Sul. Escrevo para tirar uma dúvida em relação a uma entrevista que a senhora concedeu ao médico Dráuzio Varella. Trechos desta entrevista foram utilizados no simulado do novo Enem – Guia do Estudante em Porto Alegre e São Paulo.
O trecho da questão 35:
Dráuzio – No momento da fecundação, quando o espermatozoide fecunda o óvulo, começam as primeiras divisões celulares e surgem as células totipotentes que vão obrigatoriamente dar origem a todos os tecidos do corpo. Essas células permanecem no indivíduo pelo resto da vida?
Mayana Zatz – As totipotentes não. Elas existem até quando o embrião atinge 32 a 64 células. A partir daí, forma-se o blastocisto cuja capa externa vai formar as membranas embrionárias, a placenta. Já as células internas do blastocisto, que são chamadas de totipotentes, vão diferenciar-se em todos os tecidos humanos.
1- A informação grifada não está errada?
Outra coisa:
Ao final da entrevista, disponível na internet, está o trecho (este já não consta da questão do simulado, mas me desperta dúvidas):
Mayana Zatz – Recentemente, um grupo coreano conseguiu fazer uma pesquisa com 16 mulheres que doaram óvulos para os quais foram transplantados núcleos de células dessas mesmas mulheres. O resultado foi que 25% deles conseguiram crescer, chegar ao estágio de blastocisto e deram origem a células-tronco pluripotentes capazes de transformar-se em qualquer tecido daquelas mulheres.
2- Isso foi confirmado cientificamente?
E finalmente:
Outra parte da entrevista que me deixou intrigada foi esta (esse também não consta do simulado):
Mayana Zatz – Esse é um ponto crucial, especialmente se considerarmos que o cordão umbilical, fonte de células-tronco melhor do que a MEDULA ESPINHAL, vai para o lixo quando o bebê nasce. Por isso, estamos brigando para que se façam bancos públicos de cordões umbilicais, apesar de não sabermos se as células-tronco neles existentes têm mesmo a capacidade de diferenciar-se em outros tecidos e, caso tenham, em que tecidos poderão diferenciar-se.
3- E isso está correto?
(Tatiana Goelzer Fetzer)
————-
Prezada Tatiana, você tem razão. As informações assinaladas por você estão incorretas. Vamos a elas:
1) As células-tronco do interior do blastocisto são PLURIPOTENTES (não totipotentes).
2) A entrevista no site do doutor Dráuzio Varella aconteceu há mais de três anos, quando a comunidade científica internacional ainda não sabia que o experimento publicado pelo grupo coreano era uma fraude. Tudo o que esse grupo publicou perdeu credibilidade após descobrir-se a farsa. A informação da entrevista, portanto, está errada por ser datada.
3) Aqui existem dois pontos a considerar:
O primeiro: não é medula espinhal, mas medula óssea (a parte interna do osso). Na medula óssea estão as células-tronco que se diferenciam em células produtoras de sangue. O que eu quis dizer é que o cordão umbilical, que é mais rico em células-tronco que a medula óssea, é geralmente descartado.
O segundo ponto a considerar refere-se à comparação entre o sangue do cordão umbilical e o próprio cordão. O sangue do cordão umbilical é rico em células-tronco hematopoéticas, com potencial para tratar leucemias, algumas formas de anemias ou outras doenças hematológicas. Por isso, estabelecer bancos públicos de sangue de cordão umbilical (e não guardá-lo em bancos privados) poderá ser de grande utilidade para salvar vidas.
Por outro lado, sabemos que o próprio cordão é muito mais rico em células-tronco mesenquimais (com potencial de formar vários tecidos como osso, gordura, músculo e cartilagem) do que o sangue do cordão. E o que acontece de rotina nos bancos de sangue de cordão umbilical é que o sangue é armazenado e o cordão é sempre descartado.





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