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29/05/2009

às 17:59 \ Arquivo

Correções necessárias

Sou professora de curso pré-vestibular no Rio Grande do Sul. Escrevo para tirar uma dúvida em relação a uma entrevista que a senhora concedeu ao médico Dráuzio Varella. Trechos desta entrevista foram utilizados no simulado do novo Enem – Guia do Estudante em Porto Alegre e São Paulo.

O trecho da questão 35:

Dráuzio – No momento da fecundação, quando o espermatozoide fecunda o óvulo, começam as primeiras divisões celulares e surgem as células totipotentes que vão obrigatoriamente dar origem a todos os tecidos do corpo. Essas células permanecem no indivíduo pelo resto da vida?

Mayana Zatz – As totipotentes não. Elas existem até quando o embrião atinge 32 a 64 células. A partir daí, forma-se o blastocisto cuja capa externa vai formar as membranas embrionárias, a placenta. Já as células internas do blastocisto, que são chamadas de totipotentes, vão diferenciar-se em todos os tecidos humanos.

1- A informação grifada não está errada?

Outra coisa:

Ao final da entrevista, disponível na internet, está o trecho (este já não consta da questão do simulado, mas me desperta dúvidas):

Mayana Zatz – Recentemente, um grupo coreano conseguiu fazer uma pesquisa com 16 mulheres que doaram óvulos para os quais foram transplantados núcleos de células dessas mesmas mulheres. O resultado foi que 25% deles conseguiram crescer, chegar ao estágio de blastocisto e deram origem a células-tronco pluripotentes capazes de transformar-se em qualquer tecido daquelas mulheres.

2- Isso foi confirmado cientificamente?

E finalmente:

Outra parte da entrevista que me deixou intrigada foi esta (esse também não consta do simulado):

Mayana Zatz – Esse é um ponto crucial, especialmente se considerarmos que o cordão umbilical, fonte de células-tronco melhor do que a MEDULA ESPINHAL, vai para o lixo quando o bebê nasce. Por isso, estamos brigando para que se façam bancos públicos de cordões umbilicais, apesar de não sabermos se as células-tronco neles existentes têm mesmo a capacidade de diferenciar-se em outros tecidos e, caso tenham, em que tecidos poderão diferenciar-se.

3- E isso está correto?

(Tatiana Goelzer Fetzer)

————-

Prezada Tatiana, você tem razão. As informações assinaladas por você estão incorretas. Vamos a elas:

1) As células-tronco do interior do blastocisto são PLURIPOTENTES (não totipotentes).

2) A entrevista no site do doutor Dráuzio Varella aconteceu há mais de três anos, quando a comunidade científica internacional ainda não sabia que o experimento publicado pelo grupo coreano era uma fraude. Tudo o que esse grupo publicou perdeu credibilidade após descobrir-se a farsa. A informação da entrevista, portanto, está errada por ser datada.

3) Aqui existem dois pontos a considerar:

O primeiro: não é medula espinhal, mas medula óssea (a parte interna do osso). Na medula óssea estão as células-tronco que se diferenciam em células produtoras de sangue. O que eu quis dizer é que o cordão umbilical, que é mais rico em células-tronco que a medula óssea, é geralmente descartado.

O segundo ponto a considerar refere-se à comparação entre o sangue do cordão umbilical e o próprio cordão. O sangue do cordão umbilical é rico em células-tronco hematopoéticas, com potencial para tratar leucemias, algumas formas de anemias ou outras doenças hematológicas. Por isso, estabelecer bancos públicos de sangue de cordão umbilical (e não guardá-lo em bancos privados) poderá ser de grande utilidade para salvar vidas.

Por outro lado, sabemos que o próprio cordão é muito mais rico em células-tronco mesenquimais (com potencial de formar vários tecidos como osso, gordura, músculo e cartilagem) do que o sangue do cordão. E o que acontece de rotina nos bancos de sangue de cordão umbilical é que o sangue é armazenado e o cordão é sempre descartado.

Por Mayana Zatz

21/05/2009

às 19:26 \ Arquivo

Hemofilia

É inspirador ver o seu trabalho com a recuperação das pessoas e a luta pelas pesquisas com células-tronco no país. Estou pesquisando sobre hemofilia para um trabalho da faculdade e tenho uma dúvida. As pesquisas genéticas podem trazer a cura para a hemofilia? É possível detectar no pré-natal essa deficiência e "corrigir" o gene para que ele possa produzir o fator de coagulação e essa pessoa possa coagular o sangue normalmente?
(Bárbara)

O que é a hemofilia?

A hemofilia é um defeito hereditário na coagulação do sangue que se não for tratado pode causar hemorragias graves e até levar à morte. Ela afeta 1 em cada 5.000 homens. Existem duas formas de hemofilia – a hemofilia A , causada pela deficiência do fator VIII e a hemofilia B, causada pela  deficiência do fator IX.  Há uma correlação entre a quantidade desses fatores e a gravidade do quadro clínico. Quanto menor a quantidade de fator VIII ou IX,  mais grave é a hemorragia.

A herança é recessiva ligada ao cromossomo X

Os genes que quando defeituosos causam a hemofilia estão no cromossomo X. Por isso com raras exceções, só homens têm um quadro mais grave. As mulheres, quando portadoras podem ter uma tendência a sangramento, mas geralmente o quadro é muito mais leve. Isso ocorre porque elas têm dois cromossomos X. Mesmo que um deles carregue um gene defeituoso, o outro normal dá conta do recado. Mas se ela transmitir esse cromossomo defeituoso para um filho, ele terá a doença porque só tem um cromossomo X. Veja ilustra abaixo.

É possível detectar essa deficiência no diagnóstico pré-natal?

É possível sim. Quando o feto tem cerca de 8-10 semanas é possível fazer uma coleta de vilosidades coriônicas (anexos embrionários que têm a mesma constituição do feto) extrair o DNA desse material e analisar o gene da hemofilia.  Essa análise permite saber se um feto em risco (filho de mãe portadora) herdou ou não a mutação que causa a hemofilia.

As pesquisas genéticas poderão trazer a cura para a doença?

Hoje a hemofilia é tratada através da administração do fator VIII ou IX, com resultados muito positivos para a maioria dos pacientes. As desvantagens é que são necessárias terapias constantes. Além disso, alguns pacientes desenvolvem anticorpos contra esses fatores e são obrigados a se submeter a protocolos de imunosupressão. Por isso, a cura pelas pesquisas genéticas seria muito importante.

As hemofilias A e B são realmente excelentes candidatas para terapia gênica – que é a correção ou substituição do gene defeituoso – porque um pequeno aumento do fator de coagulação traz um grande benefício clínico. Pesquisas em modelos animais têm mostrado resultados promissores, mas ainda existem dificuldades a serem contornadas para um tratamento efetivo em seres humanos. Agora, se será melhor tratar durante a gravidez ou após o nascimento ainda é uma incógnita.

Por Mayana Zatz

14/05/2009

às 18:38 \ Arquivo

Estudo sobre distrofia de Duchenne


Recentemente li sobre laminina, gostaria de saber se há casos de tratamento com a proteína, e quais os resultados?
(Daniela)

A laminina está na moda. Artigos recentes publicaram que a laminina-511 (uma outra forma de laminina) pode representar um novo remédio contra calvície. Como não é da minha área, e já foram anunciados muitos outros tratamentos capazes de regenerar cabelos, confesso que não dei muita bola. Mas agora um grupo de pesquisadores da Universidade de Nevada, nos Estados Unidos, liderados pelo doutor Dean Burkin, acaba de publicar um trabalho na revista PNAS sobre o uso de uma forma alternativa da laminina, a laminina-111 para tratamento de distrofias musculares. São resultados preliminares de pesquisas realizadas em um grupo especial de camundongos (os mdx), mas que, de acordo com os autores, poderiam levar a futuros tratamentos para a distrofia de Duchenne (DMD) e outras formas de distrofias semelhantes.

O que é a distrofia de Duchenne (DMD)?

A DMD é uma doença genética que afeta 1 em cada 3.000 nascimentos masculinos. Esses meninos nascem com um defeito em um gene que causa a deficiência de uma proteína, a distrofina – essencial para o músculo. Sem essa proteína o músculo degenera. Os afetados vão perdendo progressivamente a capacidade para andar ao redor dos 10-12 anos de idade e aos poucos tornam-se totalmente dependentes para todas as atividades. Procurar uma cura para essas distrofias tem sido o objeto de pesquisas de vários cientistas ao redor do mundo – entre os quais me incluo.

Os camundongos mdx são o modelo murino para a DMD

Os camundongos mdx, como os meninos com DMD, têm deficiência da proteína distrofina no músculo. Portanto são um excelente modelo para se estudar o efeito de drogas ou estratégias com o objetivo de corrigir esse defeito genético. Surpreendentemente esses camundongos, ao contrário dos humanos, não apresentam uma fraqueza muscular visível. Eles só se diferenciam dos animais com distrofina normal quando submetidos a exercícios de stress. Portanto, qualquer avaliação de melhora clínica nesse modelo animal deve ser interpretada com muito cuidado.

A deficiência de distrofina no músculo causa aumento de a7-integrina

Algumas proteínas estão aumentadas no músculo distrófico. É como se o músculo quisesse compensar a falta de distrofina com um aumento de outras proteínas, que não dão conta do recado. O músculo continua a degenerar. O que o grupo do doutor Burkin observou é que um aumento da a7-integrina parece compensar a ausência da distrofina e aparentemente evitar a degeneração muscular no camundongo mdx. De acordo com estudos anteriores, a laminina regula a expressão da a7-integrina. A ideia então era verificar se a administração de laminina-111 poderia aumentar ainda mais a expressão da a7-integrina.

Testaram primeiro em vitro

Os pesquisadores mostraram primeiro que a administração de laminina-111 aumentava a a7-integrina em células musculares humanas e de camundongos em cultura. O próximo passo era verificar o efeito de injeções de laminina-111 em camundongos mdx, o modelo murino da distrofia muscular de Duchenne.

Qual foi o efeito de injeções nos animais?

Após injetarem essa proteína no músculo de camundongos mdx, os cientistas verificaram que houve realmente aumento da a7-integrina, e aparentemente o músculo ficou protegido quando os animais foram submetidos a exercícios de stress.

De acordo com os autores esses resultados são muito animadores e podem ser efetivos no tratamento de várias formas de distrofias. Importante lembrar que o modelo de camundongo mdx é muito diferente do modelo humano. Os camundongos foram injetados antes do aparecimento dos sintomas e não sabemos quais seriam os resultados em fases mais adiantadas. Novas pesquisas serão fundamentais para tirarmos isso a limpo.

Por Mayana Zatz

07/05/2009

às 18:39 \ Arquivo

Um imã de células-tronco


A senhora ouviu falar sobre um artigo científico que se refere a uma substância P. Essa substância seria uma espécie de "imã" para células-tronco? Poderia me explica melhor como isso funciona?
(Natalia)

Esse artigo científico foi publicado em abril por um grupo de cientistas coreanos, na revista Nature Medicine. Parece bem interessante. Vou comentá-lo abaixo.

SP: um importante fator de atração

Se você pensa que estou falando de São Paulo, errou…. SP é a sigla para substancia P (substance P) uma proteína (um neuropeptídeo) que está presente em camundongos, coelhos e seres humanos. O que a torna tão interessante? Um trabalho recente de cientistas coreanos mostrou que a SP tem um papel muito importante na atração de células-tronco para o sítio de injúria, ou seja, o tecido que precisa ser reparado. Aparentemente ela funcionaria como um imã – como você escreve, Natália.

A sinalização para as CT

Quando temos um machucado, células-tronco adultas que existem na medula óssea ou em outros órgãos, são mobilizadas para caírem na circulação e em seguida recrutadas para o tecido injuriado. Qual é a sinalização que as nossas CT recebem para saber que elas estão sendo requisitadas? Foi justamente o estudo dos pesquisadores coreanos. Eles descobriram que a SP, uma proteína existente no nosso corpo, tem esse papel. Ela atua como fator de indução para mobilizar as CT. Para descobrir fizeram pesquisas no laboratório (in vitro) e também com coelhos e camundongos (in vivo) que tinham lesões oculares.

A SP funciona como um mensageiro

Os cientistas coreanos descobriram que essa substância P funcionaria como um mensageiro da lesão. O tecido quando lesionado libera SP e essa por sua vez mobilizaria as CT. É como se dissesse "saiam do seu nicho, estou machucado, preciso que venham me consertar". Os pesquisadores viram também que essa liberação depende do tamanho da lesão. Isto é, quanto maior o machucado mais CT são liberadas para a circulação. Mas  existe um limite. Senão, todas as nossas feridas, independentemente do seu tamanho, seriam cicatrizadas por nossas próprias células. E isso infelizmente não ocorre, já sabemos disso.

SP também atrai as CT? Como se fosse um imã?

Essa era outra questão a ser respondida. Será que ela só seria responsável pela liberação das CT na circulação ou também funcionaria como uma espécie de imã? Os autores mostraram nesse trabalho que elas exercem os dois papeis: mobilização para a circulação e atração. Essa observação, se confirmada poderá ser extremamente importante para futuras terapias com CT de diferentes origens.

Precisamos direcionar as CT para o órgão alvo

Essa é uma questão fundamental se queremos tratar lesões específicas com células-tronco de diferentes origens. Uma vez injetadas no organismo, precisamos ter certeza que elas se dirigem ao órgão alvo. Imagine se eu injetasse CTs para reparar tecido hepático, por exemplo, e elas fossem se alojar no coração? Como controlar esse processo?

Otimismo cauteloso

A descoberta de um fator específico como a SP que pode nos ajudar a atrair as células de maneira controlada é muito promissor. Mas como toda nova descoberta, todo cuidado é pouco porque a SP está presente em grande quantidade em vários tipos de câncer metastático. Além disso ela também pode causar neuroinflamação. Portanto serão necessárias muitas pesquisas antes de podermos pensar em utilizar SP em ensaios terapêuticos sem correr esses riscos. Mas é mais um tijolinho colocado na corrida para viabilizar novos tratamentos com células-tronco.

Por Mayana Zatz

29/04/2009

às 18:39 \ Arquivo

Gene do otimismo

Somos otimistas por causa dos nossos genes ou por que vivemos no país do sol, praia e samba?

Recentemente a revista VEJA fez uma longa reportagem dizendo que genética não é destino. Por outro lado, uma nova pesquisa que acaba de ser publicada na Inglaterra, pela equipe da doutora Elaine Fox, na revista Proceedings of the Royal Society, me chamou a atenção. O estudo conduzido por esses pesquisadores, no Reino Unido, sugere  que uma variante no gene transportador de serotonina estaria relacionada com a tendência individual de processar de modo diferencial informações positivas e negativas. Isto é, segundo eles, de ser mais otimista ou mais pessimista.

O gene transportador da serotonina

Se analisarmos esse gene na população normal, veremos que existe uma variante – ou alelo – um longo (L) e um alelo curto (C). Isto é, dependendo do alelo que herdaram de pai e mãe,  as pessoas podem ser: LL (longo-longo), LC (longo-curto) e CC (curto-curto).  Estudos anteriores já haviam  sugerido que as pessoas CC tinham maior risco de depressão e tentativas de suicídio quando expostas a eventos traumáticos. Isso foi observado também em macacos CC, que reagiam mais negativamente quando expostos a ambientes de stress. Mas o que a pesquisa da doutora Cox mostrou pela primeira vez foi o comportamento do grupo LL. Quando expostas a figuras positivas (por exemplo, um chocolate) ou negativas (por exemplo, um animal ameaçador) as pessoas do grupo LL diferiam dos outros dois grupos evitando as figuras negativas e fixando-se preferencialmente nas positivas. Isto é, seriam geneticamente mais propensas a evitar situações negativas e valorizar as positivas.

Pessoas com o gene LL teriam maior tendência para serem otimistas?

Sabemos que o comportamento humano depende de uma interação entre os genes e o ambiente, mas de acordo com essa pesquisa, além do aspecto sociocultural poderia haver uma explicação biológica para uma atitude otimista ou pessimista. Isto é, quando expostas a situações adversas os otimistas tentariam enxergar uma saída, enquanto para os pessimistas o horizonte se apresentaria sempre negro. É a famosa situação do copo de água pela metade, visto como quase cheio, pelo otimista, e como quase vazio, pelo pessimista.

De acordo com os dados do estudo britânico recém publicado, entre 97 pessoas testadas só 16 eram LL, ou seja, seriam "geneticamente" propensas a ver o mundo mais cor de rosa, enquanto 36 eram CC, ou seja, geneticamente inclinadas a antever um futuro negro. Isto é, a porcentagem de pessoas geneticamente "positivas" nessa amostra de britânicos seria pequena, apenas 16%.

Como seriam os brasileiros? Somos bem humorados graças aos nossos genes? Ou ao ambiente?

Como a nossa população é considerada otimista, fiquei curiosa em saber como seria esse gene aqui no Brasil. Somos mais alegres por causa do sol, da música e do calor humano ou existiria uma razão biológica para esse comportamento? Não foi necessário fazer um novo estudo. Já havíamos pesquisado o gene transportador de serotonina, na nossa população, há alguns anos. Os resultados, levantando agora uma nova questão a partir do estudo britânico, vão ser publicados na prestigiosa revista Molecular Psychiatry.

Testamos 197 brasileiros sem doenças psiquiátricas. E vejam que interessante. Dentre essas 197 pessoas,  78 (quase 40%) são LL enquanto só 32 ( 16%) são CC. Isto é, temos 2,5 vezes mais pessoas com os genes "otimistas" do que a população britânica. O Darwin já dizia que os brasileiros são bem-humorados. Devemos isso, pelo menos em parte,  a nossos genes? Ou nada a ver……..

Será que isso vai nos tornar mais tolerantes?

Esses estudos precisam ser confirmados em diferentes populações mas me deixaram cismada. Todos nós entendemos que pessoas com diabetes precisam tomar insulina, mas não temos nenhuma compreensão ou simpatia para aquelas que vivem de mau humor, chutando o balde, reclamando do mundo. Será que elas têm a variante "pessimista" no gene transportador da serotonina? Fiquei com vontade de testar todo mundo. E se realmente houver uma associação entre o pessimismo e mau humor com o gene transportador da serotonina? Vamos ser mais tolerantes com os geneticamente "infelizes"?

E você, caro leitor, acredita que os nossos genes influenciam no nosso otimismo, pessimismo ou tolerancia? Ou o nosso "deixa para lá" e  a nossa maneira de antever o futuro só dependem de fatores socioculturais ? 

Por Mayana Zatz

24/04/2009

às 14:52 \ Arquivo

Cordão umbilical – utilização

Procurei uma clínica especializada e lá me disseram que as doenças abaixo são passíveis de tratamento com células-tronco do cordão umbilical:

- Doença de Hodgki
- Linfomas não-Hodgkin
- Mieloma múltiplo
- Tumores sólidos (Neuroblastomas, Meduloblastoma, Tumor de Wilms)
- Leucoses agudas
- Regeneração do músculo cardíaco
- Doença de Parkinson
- Doença de Alzheimer
- Tratamento de Acidente Vascular Cerebral
- Outros Processos Degenerativos Neurológicos
- Diabetes – Terapia Gênica
- Terapia do Câncer
- Engenharia Vascular e Neovascularização
- Regeneração de fígado e pâncreas

Ainda disseram que pais, irmãos e até avós do doador podem ser beneficiados se necessário. Tudo isso é verdade?
(Andréa)

Estima-se que são realizados cerca de 50.000 transplantes de células-tronco hematopoéticas (de medula óssea ou sangue de cordão) anualmente, ao redor do mundo, para tratar diferentes doenças. Alguns já estão consagrados como tratamentos, enquanto para algumas doenças  essa opção terapêutica ainda está em estudo.

As doenças tratáveis são:

Leucemias e linfomas incluindo linfoma de Hodgkins e outras formas de linfomas
Mieloma múltiplo
Anemias aplásticas
Anemia falciforme
Doenças severas congênitas do sistema imune (SCID – severe congenital imune disorders)
Beta talassemia

Doenças em estudo onde o uso e o efeito de células-tronco de sangue de cordão estão sendo pesquisados.

Algumas doenças metabólicas como:
Síndrome de Hurler
Adrenoleucodistrofia
Leucodistrofia metacromática
Mielodisplasias
Diabetes tipo I (nas fases iniciais)

Doenças não tratáveis

Algumas doenças como doença de Parkinson ou Doença de Alzheimer ou condições que dependem da regeneração de neurônios (células-nervosas) não são tratáveis com células-tronco de cordão umbilical.

Quanto à segunda questão: para que um parente próximo possa ser beneficiado, por exemplo, em um caso de leucemia precisa haver compatibilidade entre o doador e a pessoa que vai ser transplantada. O fato de ser parente aumenta a chance, mas não garante que vai haver essa compatibilidade. Além disso, o sangue de um cordão umbilical é suficiente para o transplante de uma pessoa que pese até 50kg. Se ela tiver mais do que isso um cordão não será suficiente.

A criação de bancos públicos de sangue de cordão umbilical é a solução. Já falei disso inúmeras vezes mas não custa insistir. Só depende de vontade política. Vale a pena brigar por isso.

Por Mayana Zatz

16/04/2009

às 22:37 \ Arquivo

Sangue do cordão umbilical: quando guardar?

Eu gostaria de saber se meu filho, que tem paralisia cerebral devido a anóxia de parto, seria beneficiado com um transplante de células-tronco se eu engravidasse e usasse o cordão umbilical desse meu novo bebê. Como deveria proceder, que centro especializado poderia procurar? Vi essa reportagem de um hospital na Espanha. A senhora já ouviu falar? Sou médica, resido em São Vicente, São Paulo.
(Denise)

Sangue de cordão umbilical e células-tronco

Já escrevi várias vezes a respeito, mas como continuo recebendo emails me questionando, acho que vale a pena retomar o tema. As únicas doenças que podem ser tratadas com células-tronco do sangue de cordão umbilical são as doenças hematológicas (da medula óssea), como leucemia, algumas formas de anemias ou talassemias. Foi esse o caso do bebê da Espanha que recebeu um transplante do irmão recém-nascido. Insisto. Só valeria a pena tentar ter uma outra criança ou guardar o sangue do cordão em um banco privado se houvesse um caso na família com uma doença hematológica que pudesse ser tratada com células-tronco de cordão umbilical.  Assim mesmo, precisaria haver compatibilidade entre os dois. 

Qual é o custo de guardar o cordão em um banco privado?

Você pode fazer uma conta muito simples. A coleta de cordão por bancos particulares custa em torno de 5.000 reais e a manutenção anual, cerca de 500 a 700 reais. Se em vez de gastar esse dinheiro para guardar o sangue do cordão, uma pessoa colocasse esse montante em uma aplicação financeira que lhe rendesse 10% ao ano teria ao fim de 20 anos dinheiro suficiente para comprar até dois cordões umbilicais, em qualquer lugar do mundo, se for necessário. Insisto: as pesquisas científicas confirmam que as células-tronco de sangue de cordão só são úteis para doenças hematológicas.

Precisamos de mais bancos públicos

O sangue de cordão deveria ser armazenado em bancos públicos como por exemplo o Eurocord, o banco europeu que armazena 300.000 amostras e já registrou cerca de 6.000 transplantes, a maioria em crianças. O Brasil precisa criar mais bancos públicos, em vários estados, de modo a cobrir a variabilidade étnica de nossa população. Eles funcionariam como os bancos de sangue e poderiam contribuir para salvar inúmeras vidas. Só depende de vontade política.

Existem outras fontes de células-tronco

Finalmente, é importante lembrar que existem outras fontes de células-tronco como o tecido adiposo, a polpa dentária ou o próprio cordão umbilical que podem ser mais ricos em células-tronco que o sangue. Novas pesquisas caracterizando o potencial dessas células, obtidas de outras fontes, poderão trazer resultados surpreendentes. Portanto, se você não guardou o sangue do cordão do seu filho, não se preocupe.

Por Mayana Zatz

08/04/2009

às 21:26 \ Arquivo

Exames genéticos

Eu gostaria de fazer uma avaliação genética para doença de Alzheimer (DA), e, para outras ‘enfermidades’. É possível?
(Rô Augusto)

Exame genético. Quando fazer?

Recebo frequentemente emails de pessoas que desejam se testar para doenças genéticas.  E eu pergunto: O que você quer saber?  Por quê? O que vai fazer com essa informação? Como isso pode ajudar você? É fundamental discutir essas questões antes de se submeter ou indicar um exame genético a alguém. Diferentemente de exames clínicos ou exames que medem taxa de colesterol ou glicose no sangue, se for encontrada uma alteração em um teste de DNA , esse achado não muda durante a vida. Vai nos acompanhar para sempre. Dependendo do resultado, ele pode ter um impacto muito importante na nossa vida, nas nossas decisões reprodutivas ou mesmo em parentes próximos. Por isso é tão importante discutir as implicações de um teste genético.

Quais são as indicações para se fazer um exame genético?

Os testes genéticos são indicados em duas situações:

a) crianças ou adultos afetados por uma doença genética cujo diagnóstico precisa ser esclarecido;

b) pessoas clinicamente normais, que têm risco aumentado de vir a ter uma criança com uma doença genética.

No primeiro caso, a confirmação do diagnóstico pode ser muito importante para o tratamento precoce e para evitar que o paciente se submeta a inúmeros outros exames, muitas vezes invasivos, e de pouco valor diagnóstico. Além disso, o estabelecimento do diagnóstico molecular, através do exame do DNA, permite que se avalie o risco de repetição dessa condição na família. É o caso, por exemplo, da fibrose cística ou mucovisidose, caracterizada por pneumonias de repetição. O tratamento precoce com antibióticos e enzimas pancreáticas, tem um impacto muito positivo na expectativa e qualidade de vida. Além disso, pais de crianças com fibrose cística  devem ser informados que têm um risco de 25% de ter outra criança afetada pela mesma doença.

Testes em pessoas clinicamente normais

Aqui também existem duas situações:

a) pessoas que têm risco aumentado de vir a ter uma criança com uma doença genética, mas que não serão  afetadas por ela;

b) pessoas jovens, clinicamente normais que têm, além de um  risco aumentado  de ter filhos afetados,  o de desenvolver elas mesmas doenças  de início tardio, como a Coreia de Huntington,  doença de Alzheimer(DA) ou  ataxias espino-cerebelares, entre outras.  São os testes preditivos, cujos pró-s e contras  são muito discutidos.

Quem deveria ser testado?

Em primeiro lugar, é fundamental deixar claro que ninguém DEVE ser testado. Submeter-se a um teste genético é uma decisão única e exclusiva da pessoa ou dos pais, no caso de terem uma criança afetada por uma doença genética a ser diagnosticada. Só recomendamos testes genéticos a pessoas que têm ou tiveram uma criança afetada ou parentes próximos com doenças genéticas na família, casais que tiveram uma criança malformada, abortos de repetição (dois ou mais) ou em alguns casos de casamentos consanguíneos.  Existem mais de 7.000  patologias conhecidas mas não existem testes para detectar todas elas. No centro de estudos do genoma humano (http:genoma.ib.usp.br) testamos as mais frequentes e orientamos os casais sobre dúvidas em relação a doenças genéticas.

Estamos todos em risco

É fundamental deixar claro que o teste genético pode excluir uma determinada doença genética. Por outro lado, ninguém pode garantir a um casal que vai ter uma criança normal. Ou que não vai desenvolver uma doença de início tardio, como Alzheimer ou doença de Parkinson. As doenças genéticas atingem 3% da população, ou seja, estamos todos em risco. Por isso, com raras exceções, a nossa filosofia é a de não testar pessoas saudáveis para doenças de início tardio enquanto não houver tratamento para elas.

Você concorda que saber do risco aumentado (não uma certeza) de ter uma doença no futuro para a qual não existe tratamento preventivo não trará nenhum benefício? Ou você acha que é importante saber, independentemente de existir ou não tratamento?

Por Mayana Zatz

02/04/2009

às 21:54 \ Arquivo

Proibido de trabalhar

Recebo diariamente inúmeros emails. Pessoas querendo saber como estão as pesquisas com células-tronco, oferecendo-se como cobaias, perguntando sobre doenças hereditárias, testes genéticos ou sobre aspectos éticos. Infelizmente é impossível atender a todos ou transcrever seus relatos. Mas acabo de receber um email surpreendente de um jovem chamado Sisenando.

Seu relato me indignou.Vou transcrevê-lo abaixo. Sisenando é portador de uma neuropatia  classificada como Charcot-Marie- Tooth (CMT). Trata-se de uma doença que atinge os nervos periféricos e que dentre as doenças neuromusculares está entre as mais benignas. Nas formas mais graves pode levar à incapacidade para andar, mas os portadores têm uma expectativa de vida normal.

Sinesando tem uma reivindicação que não é comum hoje em dia. Enquanto recebemos inúmeras solicitações de atestados médicos de pessoas que querem aposentadoria, ele me pede o oposto. Solicita meu apoio porque ele quer trabalhar, uma possibilidade que acaba de lhe ser negada. Além do desconhecimento a falta de sensibilidade dos profissionais que indeferiram sua admissão a um novo cargo, conquistado por seu mérito e esforço pessoal, me deixaram indignada. Eis o seu relato:

"Doutora Mayana Zatz,
 
Meu nome é Sisenando. Tenho 25 anos e sou portador de Charcot-Marie-Tooth. Estou com um problema burocrático por causa de desinformação médica que pode comprometer toda minha vida profissional, e, por isso, que escrevo pedindo sua ajuda.
 
Sou formado em Direito e pretendo seguir carreira jurídica através de concurso público. Passei em dois recentemente (Escrevente e Oficial de Defensoria); fui convocado a tomar posse, mas a perícia médica considerou-me inapto ao trabalho.
 
Embora eu tenha limitação dos movimentos das mãos e pernas, já estou adaptado ao meu paradigma. Uso cadeira-de-rodas, tenho mobilidade em ambiente térreo, domino informática, escrevo, digito em velocidade útil (uma das provas era de digitação, e passei). O quadro evolutivo de minha doença estagnou-se aos 16 anos.
 
Além disso, fiz estágio durante quatro anos, exercendo funções equiparáveis às dos cargos para os quais passei em concurso (de natureza administrativa).
 
As perícias médicas não me consideraram inapto por eu não conseguir trabalhar, mas, sim, por julgarem que minha doença é evolutiva a ponto de eu piorar até a morte em pouco tempo. Sei disso porque, no momento em que o médico do departamento de perícias me disse que eu estava apto ao trabalho, um segundo médico retrucou "mas essa é uma doença evolutiva". Depois disso, quando fui buscar o laudo, estava escrito: "não apto – portador de doença evolutiva".
 
Este resultado também me impede de prestar novos concursos (porque futuras perícias ficarão vinculadas às perícias aqui citadas), e, se eu não combatê-lo, ficarei relegado ao desemprego, já que o mercado de trabalho não se importa muito com capacidades se a pessoa não se sustentar sobre as duas pernas.
 
Estou providenciando um Mandado de Segurança para conseguir efetivar minha convocação nestes concursos públicos. Para bem instruí-lo, necessito de pareceres de especialistas.
 
Infelizmente, meus recursos não me permitem pagar muitas consultas e viagens para a capital em busca desses pareceres (ainda estou desempregado por conta disso tudo); além disso, os médicos da rede pública são muito receosos e dificilmente consigo um laudo útil, só se limitam a atestar que tenho neuropatia e nada mais; e tenho certeza que o seu parecer dispensaria uma coleção de laudos médicos.
 
O que eu sei sobre minha doença (por médicos, literatura médica, e por experiência, já que possuo quatro tios com o mesmo problema – o mais velho com 50 anos), é que não haverá evolução/piora de meu estado físico em razão do Charcot-Marie-Tooth. Também faço fisioterapia e me exercito regularmente. Não notei piora desde os 18 anos, pelo contrário, estou mais ágil por força dos exercícios.
 
Dito isto, para não tomar mais seu precioso tempo, gostaria de saber se você poderia, como especialista, me dar uma parecer por escrito sobre minha doença, e sobre o que conhece a respeito da evolução dela — inclusive sobre expectativa de vida. Seu parecer pode salvar minha vida e meu futuro profissional.
 
Sisenando."

Por Mayana Zatz

26/03/2009

às 20:23 \ Arquivo

As surpresas depois do projeto genoma humano

O projeto genoma humano, vocês devem lembrar, tinha como objetivo identificar os genes que determinam nossas características hereditárias. Foi um esforço gigantesco, iniciado em 1990, que envolveu inúmeros pesquisadores ao redor do mundo, a um custo de 3 bilhões de dólares. Em 2003, Francis Collins e Craig Venter, os líderes desse projeto, anunciaram que ele havia sido concluído. Na realidade serão necessárias décadas de pesquisas para entender tudo o que nossos genes fazem. O que sabemos é que temos cerca de 25.000 genes, mas o seu modo de funcionar e os mecanismos que os regulam são muito mais complexos do que imaginávamos.

A busca de genes que causam doenças genéticas

Muito antes do projeto genoma humano, estávamos à procura de genes que causam doenças genéticas. Ao descobrir por que um gene quando defeituoso causa uma doença, entendemos como ele deve funcionar quando normal, qual é o seu real papel no organismo. No início, acreditávamos que existia um efeito direto, isto é, toda vez que o gene tinha uma mutação surgia a doença. Chamamos esses estudos de correlação genótipo/fenótipo. Mas aí começaram as surpresas. Descobrimos que, em algumas famílias, pessoas portadoras da mesma mutação podiam ter quadros clínicos totalmente discordantes. Alguns tinham uma doença grave, enquanto outros permaneciam saudáveis apesar da mutação. O que os protegia? Isso passou a ser o foco das nossas pesquisas no Centro de Estudos do Genoma Humano da USP .

Descobrir o que protege algumas pessoas pode abrir caminhos para novos tratamentos

Como descobrir quais são esses genes ou fatores protetores? Na coluna da semana passada (CT e aids), publicamos uma matéria mostrando que  pessoas com uma mutação em um gene, o CCR5, tornam-se altamente resistentes à infecção pelo vírus HIV. E em relação a doenças genéticas, como descobrir o que torna algumas pessoas aparentemente resistentes? Essa questão tem sido um dos pilares das nossas pesquisas, além das células-tronco, é claro. Não é uma tarefa fácil, lembrando que temos mais de 20.000 genes. Se compararmos duas pessoas, elas vão diferir na grande maioria dos genes.

Aliás, é essa variabilidade que faz com que, à exceção dos gêmeos idênticos, duas pessoas nunca sejam iguais. Como apontar quais são, entre esses milhares de genes, aqueles que realmente podem ter um efeito protetor? Como separar o joio do trigo? Para abordar essa questão, usamos uma estratégia nova, focando em uma das muitas formas de doenças estudadas no Centro do Genoma: a distrofia muscular fácio-escápulo-humeral (FSH). Os primeiros resultados acabam de ser publicados na prestigiosa revista americana PNAS.

A distrofia FSH geralmente afeta a face e os membros superiores

Essa distrofia sempre nos chamou a atenção. Alguns portadores do defeito genético podem ter um comprometimento muito importante, enquanto outros permanecem a vida inteira sem sintomas. E o mais intrigante é que frequentemente essas pessoas pertencem à mesma família. Para tentar descobrir o porquê dessa diferença, comparamos a expressão dos genes a partir de amostras de músculos de pessoas aparentadas, portadoras da mesma mutação nos dois extremos da curva: uma era muito afetada e a outra, assintomática. A pesquisa foi a tese de doutorado de Patricia Arashiro.

Alguns genes parecem se expressar de modo diferente nas pessoas sem sintomas

Conseguimos identificar alguns genes que parecem ser mais ativos nas pessoas assintomáticas. A FSH é uma doença muito complexa e existem várias hipóteses para tentar explicar essas diferenças. É o início de um novo projeto, que nos deixa muito animados. A boa notícia é que a Patricia, que defendeu seu doutorado na semana passada, quer continuar nessa linha de pesquisas. Como eu, a agora doutora Patricia foi contaminada pelo vírus da curiosidade científica.

Quando se fala em tratamento, a palavra da moda são as células-tronco (CT). Se, por um lado, acreditamos que as pesquisas com CT podem representar o futuro da medicina regenerativa, nem tudo poderá ou deverá ser tratado com CT. Dependendo do problema, outras estratégias poderão abrir caminhos para tratamentos tão promissores quanto os com células-tronco. É mais um tijolinho que colocamos na busca da cura. 

Por Mayana Zatz
 

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