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07/11/2007

às 20:20 \ Arquivo

O que fazer com o cordão umbilical


“Estou grávida, devo congelar o sangue do cordão do meu filho quando ele nascer? Gostaria muito de guardá-lo, mas o custo é muito alto. Vale a pena? Será que não vou me arrepender mais tarde?”

No mundo de hoje, é comum uma mulher que esteja para dar à luz preocupar-se com perguntas como essas. São questões recentes, resultado de grandes avanços da ciência nos últimos anos, e nem sempre com respostas fáceis. Parte de meu objetivo com esse espaço é clarear conceitos que nascem e se criam dentro de laboratórios, mas devem e precisam chegar à vida das pessoas em geral. O destino maior da pesquisa e da conquista científica é alcançar a necessidade das pessoas, servi-las, curá-las, tornar suas vidas melhores. Mas a linguagem científica às vezes não é simples. Quero traduzi-la de modo que você entenda o que é real, o que é futuro, o que é ficção e com isso tenha subsídios para tomar as decisões que lhe dizem respeito. A questão de guardar ou não o cordão umbilical de um bebê que está para nascer é, portanto, uma excelente forma de iniciarmos esse trabalho em VEJA.com.

Antes de entrarmos na discussão, porém, é importante entendermos que existe mais de um tipo de célula-tronco no cordão umbilical, cada uma com um potencial maior ou menor de formar diferentes tecidos. Vamos recordar um pouco o que são células-tronco.

As únicas células-tronco capazes de originar todos os tecidos do corpo são as embrionárias (falaremos delas na próxima semana). Mas também existem células-tronco adultas (CTA), que podem dar origem a alguns tecidos, não a todos. As principais fontes dessas células são a medula óssea, o tecido adiposo, a polpa do dente e o cordão umbilical. Entre as CTA, as chamadas células mesenquimais conseguem formar tecidos importantes como músculo, cartilagem, osso e gordura. O sangue do cordão umbilical é rico em células-tronco hematopoéticas, aquelas que podem originar o sangue. Até aí nada de muito surpreendente: sangue de cordão dando origem a sangue adulto.

A novidade é o cordão umbilical

 

Recentemente confirmamos que o cordão umbilical, não o sangue, mas o CORDÃO mesmo, aquele tubo por onde passa o sangue é um grande repositório de células-tronco mesenquimais. Uma pesquisa realizada no laboratório do Centro de Estudos do Genoma Humano da Universidade de São Paulo (USP) mostrou que só 10% das amostras de sangue possuem essas células mesenquimais, mas TODOS OS CORDÕES estão repletos delas. E esses cordões são jogados no lixo!!!! É isso mesmo, o que se faz é guardar o sangue e descartar o cordão e a placenta. Essa descoberta muda tudo. A nova ordem agora é guardar os dois: o sangue e o cordão.

Possibilidades de uso

Se o cordão possui células-tronco com um potencial muito maior e diversificado para formar tecidos do que o sangue, guardá-lo para uso futuro pode ser muito promissor. A terapia celular com essas células-tronco ainda deve demorar para se transformar em tratamento, mas se as pesquisas derem resultados positivos é fácil imaginar inúmeros usos para as células-tronco mesenquimais derivadas do cordão umbilical. Entre eles, regeneração óssea no caso de uma fratura, regeneração de dente, de tecido muscular, cartilagem ou de outros tecidos e uso cosmético em cirurgia plástica.

Além disso, para nós, os geneticistas, a possibilidade de derivar vários tecidos a partir das células-tronco de cordão umbilical abre inúmeras perspectivas para pesquisas sobre o funcionamento dos genes em pessoas portadoras de mutações responsáveis por doenças genéticas.

E então: guardar ou não guardar?

Sempre que me perguntavam o que faria se eu tivesse tido a chance de pagar para guardar o sangue do cordão do meu filho em um banco privado, eu respondia enfaticamente que não o faria. Mas se me perguntarem agora se eu guardaria o cordão, confesso que sim. É minha aposta no futuro, mas que depende, é claro, dos resultados das pesquisas atuais.

Bancos públicos ou privados?

 

Sempre defendi ardorosamente a criação de bancos públicos de sangue de cordão umbilical, mas questiono os benefícios de se congelar o sangue do cordão do próprio filho em um banco privado ou particular. Parece contraditório, não? Vamos lá, eu explico. No caso do banco privado ou particular, os pais pagam (e não é pouco) pela coleta e pelo congelamento do sangue do cordão para um possível uso futuro.

Quais são as possibilidades de uso? Há alguns anos já se sabe que o transplante do sangue do cordão umbilical pode representar a cura para leucemia e outras doenças hematológicas com maior eficiência até do que o transplante de medula óssea. O sangue do cordão é rico em células-tronco hematopoéticas, que têm o potencial de regenerar o sangue.

Mas a probabilidade de uma pessoa ter leucemia ou outra doença hematológica é tão pequena que não justifica pagar tão caro para guardar o sangue do cordão por tantos anos. Além disso, no caso de uma leucemia recomenda-se não usar o sangue do próprio cordão – um procedimento denominado autotransplante – porque aquela pessoa poderia ter uma predisposição maior para desenvolver um câncer de sangue. O ideal é utilizar células-tronco de um doador compatível (obtidas da medula óssea ou sangue do cordão umbilical) que pode ou não ser parente.

E mais ainda, no caso de uma leucemia, o sangue de um cordão só é suficiente para uma pessoa de até 50 quilos. Se o paciente pesar mais do que isso necessitará de mais do que um cordão. Em resumo, a não ser que já exista algum caso na família, a probabilidade de uma pessoa usar o sangue congelado do próprio cordão é muito pequena e quem se propõe a pagar por isso deve ser muito bem informado.

A importância de centros nacionais públicos

 

Nos bancos públicos, os pais doam o cordão de seu bebê. Esse cordão será processado e analisado para várias características como tipo sangüíneo, marcadores de histocompatibilidade (que determinam quem é compatível com quem no caso de um transplante), ou agentes infecciosos. As amostras selecionadas são congeladas (em tanques de nitrogênio a -180º C) e catalogadas em um banco de dados com todas as características relevantes. Esses bancos públicos de cordão funcionam como os bancos de sangue atuais: quando você precisa de uma transfusão, procura-se no estoque aquele que é compatível com você: tipo A, B, AB ou O.

No caso do sangue do cordão umbilical a combinação doador-receptor é mais complexa. Mas estima-se que se tivermos cerca de 12.000 amostras em um banco público, a chance de se encontrar uma compatível com cada um de nós é praticamente de 100%. Nessa situação, se alguém tivesse uma leucemia ou doença passível de tratamento com células-tronco do sangue do cordão, não teria de procurar desesperadamente um doador de medula óssea. Bastaria achar no banco público a amostra compatível com ela.

Como chegar à melhor decisão

A discussão é grande e merece atenção de toda a sociedade. Há ainda uma sugestão que pode agradar a gregos e troianos. Como o cordão – que tem em média 40 centímetros – é muito rico em células-tronco mesenquimais, pode-se dividi-lo em dois: congelar uma parte para um futuro uso próprio e doar a outra para um banco público. Dizem que o homem sábio não é nem o primeiro nem o último a mudar de idéia. Esse é o fascínio de ser cientista. Não existe uma única resposta, não existe uma única verdade.

Por Mayana Zatz

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2 Comentários

  1. Mariela Ribeiro

    -

    18/06/2012 às 18:54

    onde vejo a resposta do meu comentério ?

 

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