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27/11/2008

às 20:07 \ Arquivo

O caminho para medicina personalizada


Acabo de chegar do Congresso Americano de Genética Humana, que esse ano foi na Filadélfia. Contou com quase 5.000 participantes. Um dos pontos altos foi a palestra de Craig Venter (foto), falando do seu próprio DNA – o primeiro a ser seqüenciado no mundo – e das implicações de se identificar todos os nosso genes: as negativas e as positivas. Entre as positivas, é certo que a farmacogenômica, a resposta individual a drogas, fará uma revolução na medicina e no modo que nos medicamos. Na realidade, somos cobaias humanas toda vez que estamos tomando uma droga nova. Você já pensou nisso?


Está na bula de todos os remédios
Geralmente as letras são muito pequenas – um desestímulo para quem gosta de ler bula. Mas os possíveis efeitos colaterais estão sempre lá: tontura, palpitação, enjôo, constipação, diarréia, erupção cutânea, sonolência… Algumas pessoas têm, outras não. Para algumas pessoas o remédio é ótimo, para outras não tem efeito ou pode até ser tóxico. Por que isso? Simplesmente porque respondemos diferentemente a drogas de acordo com o nosso perfil genético. Aquelas diferenças que fazem cada um de nós uma pessoa única podem ter um papel muito importante no modo que o nosso organismo responde a cada remédio.

Metabolizadores lentos ou rápidos: o exemplo da cafeína

Podemos nos diferenciar também na velocidade com que metabolizamos uma droga. Um bom exemplo é a cafeína. Todos nós já lemos artigos dizendo que tomar café pode ser benéfico. Outros, ao contrário afirmam que o café pode aumentar nosso risco de ter doenças cardíacas. Onde está a verdade? Na realidade, as duas afirmações estão corretas. Para algumas pessoas tomar 2 ou 3 cafés por dia pode aumentar o risco de um ataque cardíaco enquanto para outros, essa mesma dose de café pode ter um efeito protetor. Depende dos seus genes.

Se você estiver no grupo dos metabolizadores rápidos isso significa que elimina o remédio rapidamente do organismo, então precisa de uma dose maior para que ele seja efetivo. Mas se pertencer ao grupo dos metabolizadores lentos, significa que a dose adequada para muitas pessoas pode ser tóxica para você. Ela acumula-se no organismo e é aí que mora o perigo. Estima-se que nos Estados Unidos mais de 2 milhões de pessoas têm reações adversas a drogas e alguns milhares morrem por ano em decorrência disso. Essas estatísticas não são conhecidas no Brasil, mas não devem ser muito diferentes. Você que adora tomar um remedinho ou receitá-lo a seus amigos, cuidado.

Como será o futuro?

Ainda precisamos fazer muitas pesquisas para termos um mapa genômico de resposta a drogas. Mas o futuro é fácil de prever. Antes de tomarmos uma droga teremos que fazer um estudo genético para saber qual é o remédio ideal e a dose adequada ao nosso organismo. Será a medicina personalizada. As bulas, com letras minúsculas, não serão mais necessárias. Saberemos de antemão como evitar os efeitos colaterais. O estudo do genoma dará certamente uma contribuição muito importante para a nossa saúde. E então caro leitor. Depois de ler esse artigo, você vai continuar tomando remédios novos, sem prescrição médica, só porque ele foi bom para o seu vizinho?

Por Mayana Zatz

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8 Comentários

  1. Paulo Brito

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    02/02/2009 às 0:00

    Onde poderemos ler as respostas da Doutora? Obrigado,Paulo

  2. Paulo Brito

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    22/01/2009 às 0:00

    Doutora Mayana, já existe cura cirúrgica ou medicamentosa para o diabetes? Vale a pena um ou outro tratamento?Obrigado.Paulo Brito

  3. Paulo Brito

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    22/01/2009 às 0:00

    Doutora Mayana, é verdade que a urina é considerada a fonte de saúde da própria pessoa? Quais as suas indicações e restrições, sem se apegar ao conservadorismo de ser contra a tudo que não for preconizado pela MEDICINA TRADICIONAL?

  4. Alessandro carvalho

    -

    06/01/2009 às 0:00

    gostaria de perguntar a doutora que curso se deve fazer para se tornar geneticista, pois é a profissão que quero exercer, ouvi dizer que é biomedicina, é verdade?

  5. ernando

    -

    03/01/2009 às 0:00

    excelente trabalho,tira muitas dúvidas sobre a possível recuperação dos homens em sociedade,parabens,ernando

  6. Tiana

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    06/12/2008 às 0:00

    Metabolismo: a reação da cafeína no organismo ,da coca-cola , do guaranar e cha verde faz o maio estrago no sono. Depois do almoço se abuzar pode ter certeza que passarei a noite em claro.

  7. Anouk

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    03/12/2008 às 0:00

    Olá Dra. Mayana,A pesquisa é sensacional, mas e as questoes éticas? Quem garantiria a seguranca de meus dados genéticos? Espero nao ter amargado a boa notícia.

  8. leila tory pradal da costa

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    02/12/2008 às 0:00

    Eu sempre que preciso tomar um medicamento tenho reações colaterais terriveis. Até mesmo um complexo vitamínico faz mais mal que bem. Eu seria beneficiada com certeza com a medicina personalisada.

 

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