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02/10/2008

às 21:43 \ Arquivo

Ir ou não ir à China???

Eu sou pai de um menino de 6 anos. Desde os três meses, os médicos diagnosticaram paralisia cerebral; foi quando iniciamos uma jornada de tratamentos com fisioterapia, terapia ocupacional, hidroterapia e fonoaudiologia. No dia 20 de setembro deste ano, no Diário de Pernambuco, saiu uma reportagem falando de um casal, em Recife, com uma filha de um ano com paralisia cerebral. Eles estariam fazendo uma campanha na internet para arrecadar fundos com o objetivo de proporcionar à menina um tratamento com célula-tronco, em Pequim.

Fiquei muito animado e esperançoso. Visitei o site a que a reportagem se referia: a página mostra vários casos de crianças do mundo inteiro que fizeram o tratamento e obtiveram grandes resultados. Alguns pais contam que conseguiram a cura para seus filhos. Eu pude ver o lado positivo desse tratamento, mas não foi mostrado nada a respeito de casos que não deram certo.

Eu gostaria de saber quais são os riscos desse tratamento. Gostaria que você me respondesse, pois estou muito interessado em levar meu filho para a China e respeito muito a sua opinião.

(Dalton Macedo)

Em um artigo recente, eu critiquei o suposto tratamento com células-tronco que o médico chinês Huang oferece para pessoas que tiveram lesão na medula e se tornaram paraplégicas ou tetraplégicas. Apesar da propaganda feita pela equipe chinesa, ou o relato de alguns pacientes, não foi observada melhora funcional em nenhum paciente examinado por outros médicos. Além disso, não me canso de repetir: tratamentos experimentais não podem ser cobrados. Isso contraria a ética médica.

Caiu na rede é peixe

Após ler seu e-mail fui consultar o site do doutor Huang. Fiquei impressionada não só com o número de casos, mas também com a variedade de doenças que ele diz tratar: paralisias, ataxias, epilepsia, síndrome de Rett, atrofias espinhais progressivas, paralisia cerebral, derrame e até autismo, entre outros.

Detive-me nos casos de paralisia cerebral. O tratamento descrito no site seria "transplante de células-tronco de cordão umbilical, soro do cordão e fator de crescimento de nervos, combinado com acupuntura e fisioterapia de reabilitação". Isso me chamou a atenção. A nossa equipe vem trabalhando com células-tronco de cordão umbilical há alguns anos. Até hoje não conseguimos diferenciar essas células em neurônios (células nervosas) funcionais e não temos conhecimento de outros cientistas que tenham conseguido. Portanto, fica a questão: o que a equipe do doutor Huang espera recuperar com transplantes de células de cordão umbilical?

Quais são os riscos?

Além dos casos de meningite e febre alta observada em pacientes paraplégicos submetidos ao tratamento do doutor Huang, há riscos de tumores ou de descontrole da diferenciação das células injetadas. Explico. Uma vez injetadas, perdemos o controle e elas podem se diferenciar em células diferentes do que o corpo precisa. Imagine se ao invés de se transformarem em células nervosas elas formassem tecido ósseo, por exemplo? Seria um desastre. Apesar de dominarmos toda a tecnologia, as pesquisas com modelos animais são fundamentais para controlarmos esse processo e evitar que isso ocorra. É por isso que até hoje não ousamos iniciar tentativas terapêuticas em pessoas.

Qual é a minha opinião?

Não recomendo você ir à China. Essa não é uma opinião isolada. É um consenso entre inúmeros pesquisadores, como eu, que trabalham com células-tronco e têm o objetivo de tratar – no futuro – inúmeras doenças, não de enriquecer. O lado positivo do tratamento chinês é que ele inclui várias sessões de fisioterapia que por si só pode ser responsável pela melhora de muitos pacientes. É isso que recomendo, sem necessidade de ir à China. O meu conselho? Enquanto vocês aguardam que os cientistas alcancem uma maneira segura de tratamento com células-tronco, invistam na fisioterapia, hidroterapia, nos exercícios de reabilitação motora. É o melhor que podem fazer por seus filhos.

Por Mayana Zatz

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