11/03/2010
às 3:05 \ Sem categoriaMulheres na ciência
Acabo de voltar de Paris, onde participei da 12ª edição do premio L’Oreal/Unesco para mulheres na ciência – que, não por acaso, acontece sempre quando se festeja a semana internacional da mulher. Esse prêmio, iniciado em 1988, tem como objetivo reconhecer a excelência científica de pesquisadoras ao redor do mundo e incentivar um número cada vez maior de mulheres a abraçar essa carreira fascinante.
São 5 cientistas por ano, uma por continente. Fui a primeira brasileira premiada, em 2001, representando a América Latina, e depois tivemos mais três: Lucia Previato em 2004 e Belita Koiller em 2005, ambas da UFRJ, e Beatriz Barbuy, em 2009, da USP. Por enquanto o Brasil está na frente nessa lista. Além disso, o programa premia jovens cientistas com bolsas ou auxilios para o desenvolvimento de projetos de pós-doutoramento. Ao todo já foram quase mil mulheres contempladas ao redor do mundo, de cerca de 100 paises.
O júri é internacional e presidido por ganhadores de Nobel
O critério de escolha é o mérito. As candidatas são indicadas por academias de ciência, universidades ou cientistas ao redor do mundo e depois é feita uma seleção rigorosa por um júri internacional, constituido por 17 cientistas e presidido por um prêmio Nobel. O primeiro a presidir esse conselho foi o professor Christian de Duve, Nobel de Medicina em 1974. Ele se aposentou há 4 anos e deu lugar ao doutor Gunter Blobel, Nobel de Medicina em 1999 . Mas a verdade é que ambos participam ativamente da premiação.
O professor De Duve está super lúcido, apesar dos seus 92 anos, e uma opinião dele pode fazer todo o júri rever uma escolha. Desde que ganhei o prêmio, tive o privilégio de fazer parte desse júri, o que tem sido sempre uma experiência fantástica. Trocar ideias com pesquisadores que ganharam o Nobel não é pouca coisa. Participar de uma discussão científica e ouvir os argumentos desses gênios da ciência é um aprendizado que não tem preço. É beber diretamente da fonte.
A premiação na sede da Unesco é uma grande festa
Ouvir as narrativas dessas cientistas laureadas – suas dificuldades para chegar lá, os inúmeros fracassos e tentativas antes de se ter uma expêriencia bem sucedida, suas vidas pessoais – é uma emoção indiscritível que se renova a cada ano. Temos todas uma característica em comum: a paixão pela ciência, a curiosidade quase patológica em querer descobrir e em querer entender o que torna a nossa vida fascinante. A palavra monotonia não existe no nosso vocabulário. Aliás o termo “fazer a fama e deitar na cama” não existe no mundo científico. Não podemos parar de estudar nunca.
Quem são essas cientistas pemiadas?
No ano passado, duas das escolhidas em 2008 ganharam o prêmio Nobel: a americana Elizabeth Blackburn, por suas pesquisas com telômeros, e a israelense Ada Yonath, na área da imunologia. E neste ano, quais são as apostas? As premiadas foram Rashika El Ridi pela África e paises árabes, Lourdes J. Cruz pela Ásia e Paífico, Anne Dejean-Assémat pela Europa, Alejandra Bravo pela América Latina e Elaine Fuchs pelos Estados Unidos.
São todas mulheres extraordinárias
Mas, por motivos óbvios, a minha preferida é Elaine Fuchs, que trabalha com… Já adivinharam? Células-tronco, é claro. O interesse dela é a pele. A doutora Fuchs ganhou o prêmio L’Oreal/Unesco pela descoberta de proteinas (como a queratina) e de mecanismos fundamentais responsáveis pelo desenvolvimento, manutenção e reparo da pele. Ela teve um papel fundamental na identificação de genes e mecanismos que causam doenças de pele, incluindo câncer e outras muito graves como a epidermose bulhosa.
Hoje ela trabalha na tentativa de curar essas doenças, bem como lesões de queimaduras através da terapia celular com células-tronco. Para nós cientistas ligados à área médica, a busca da cura é sempre a motivação. Mas não podemos negar que, na área cosmética, regenerar pele e cabelo são missões que têm um apelo gigantesco. De acordo com Elaine Fuchs, o prêmio para quem curar a calvície é de 26 bilhões de euros! Nada mau, não? Tenho certeza que a maioria das pessoas que sofrem de calvície acredita que seria um prêmio bem merecido. E eu imagino poder usar uma verba dessas só em pesquisas científicas. Seria o melhor dos mundos.







