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Arquivo de março de 2010

25/03/2010

às 22:55 \ Sem categoria

Oswaldo frota-pessoa

frota

Professor Frota, sentado ao centro da foto.

Morreu essa semana Oswaldo Frota-Pessoa, o Frota, como todos o chamavam carinhosamente. Ele completaria 93 anos no próximo dia 31 de março. Frota que era formado em Medicina e Biologia, mas exercia muito mais a função de pesquisador do que a de médico. Ele foi o pai da genética humana e médica no Brasil. Na década de 60, Frota foi convidado pelo professor Crodowaldo Pavan – falecido o ano passado -  a  iniciar um serviço de genética humana e médica no Departamento de Biologia do Instituto de Biociências da USP. Esse serviço  acabou se transformando em 2000 no Centro de Estudos do Genoma Humano, o maior da América Latina.

Frota formou toda uma geração de geneticistas que hoje estão espalhados pelo Brasil. Felizes aqueles que, como eu, tiveram a sorte de conviver com ele. Era uma pessoa extraordinária. Uma inteligência brilhante. Além de um grande cientista e educador, ele era extremamente carinhoso e humano com todos. Tratava todos da mesma maneira: do aluno de iniciação científica às pessoas que ocupavam altos cargos.

Foi um de seus livros, Biologia na Escola Secundária, que mais me motivou, quando ainda adolescente,  a seguir a carreira de geneticista. Entrei na Faculdade de Biologia com a certeza de que era isso que eu queria e fui procurá-lo logo no primeiro ano. Eu só tinha 17 anos, mas ele me recebeu – como fazia com todos -  com deferência. Fazia questão de que participássemos de todas as atividades: desde lavar vidros de cultura até atender famílias de pacientes com doenças genéticas. E ele tinha toda razão.  Hoje sei que só conseguimos compreender algo de fato quando nos envolvemos.

Na pesquisa ele nos provocava constantemente. Quando achávamos que havíamos descoberto algo, ele vinha com uma pergunta que abalava todas as nossas certezas. E são justamente essas questões que nos movem e que tornam a nossa vida de cientistas tão fascinante.

Como educador estava sempre inovando, preocupado em motivar os alunos. Dizia que na aula tradicional o ensinamento saltava da boca do professor para o caderno do aluno sem passar pela cabeça de nenhum dos dois. Nunca esquecerei o dia em que ele apareceu na faculdade com uma galinha que começou a por ovos logo no começo da aula . “Garanto que muitos de vocês que nasceram na cidade nunca viram isso” e foi assim que iniciou a sua aula de reprodução.

Dizem os hindus que quando morre uma pessoa com mais de 90 anos ou que chegou a ter bisnetos não devemos chorar a sua morte, mas festejar tudo o que ela viveu.  Dizem também que uma pessoa é eterna se a sua obra permanece. E você Frota, deixou uma obra gigantesca. Embora com os olhos marejados, não quero chorar, mas agradecer por tudo o que você fez por nós. Você nunca será esquecido.

Por Mayana Zatz

18/03/2010

às 23:45 \ Arquivo

Novo banco público de sangue de cordão umbilical

Getty
O Hospital Sírio-Libanês inaugurou no início de março mais um banco público de sangue de cordão umbilical e placentário. O projeto é filantrópico e foi desenvolvido em parceria com o Ministério da Saúde e o Amparo Maternal. Terá capacidade para armazenar aproximadamente 3.700 unidades de sangue de cordão e fará parte da Brasilcord, juntamente com outras cinco unidades semelhantes no país. A vantagem é que irá coletar uma população com grande diversidade genética, pois o Amparo Maternal atende mulheres de diferentes etnias de vários estados. Já escrevi mais de uma vez  sobre  bancos de sangue  de cordão mas como continuo recebendo muitas mensagens vou retomar o assunto.

Já é um consenso que as células-tronco de sangue de cordão são uma esperança de cura para várias doenças hematológicas, como leucemia, linfomas, talassemia e anemias hereditárias, além de deficiências do sistema imunológico. Aliás, é a única situação onde podemos falar em tratamento com células-tronco. Por isso a importância de ter bancos públicos de sangue de cordão umbilical, que na prática podem funcionar do mesmo modo que os bancos de sangue.  Tentativas terapêuticas para tratar outras doenças com células-tronco, como diabetes, por exemplo, ainda são consideradas experimentais.

Bancos públicos ou privados?
Já me manifestei várias vezes contra os bancos privados e a favor dos bancos públicos de sangue de cordão. Entretanto casais “grávidos” continuam me perguntando  se vale a pena coletar e armazenar o sangue do cordão umbilical do bebê prestes a nascer em bancos privados, para um eventual uso próprio, no futuro. E pagar caro por isso. A minha opinião vocês já sabem. Mas o que pensa a convidada de honra do simpósio preparado para celebrar a inauguração do banco, dra. Eliane Gluckman?

Ela é uma pesquisadora francesa mundialmente conhecida e respeitada, que se notabilizou por ser a primeira pessoa a fazer transplante de células-tronco de sangue de cordão umbilical, em 1988, para tratar a anemia de Fanconi, doença hematológica hereditária. O que ela diz a respeito:

“ Não há nenhuma prova que o sangue do cordão possa ser usado para terapia celular regenerativa

- A maioria das doenças degenerativas ocorre em uma idade mais avançada: qual será a viabilidade e o potencial das células após um armazenamento de 25 a 75 anos?

- Será que daqui 50 anos a metodologia será compatível com os métodos atuais de coleta e armazenamento?

- E se novos conhecimentos surgirem em 50 anos que tornem a terapia celular obsoleta?”

E o mais importante:

“Que tipo de propriedade as células-tronco do sangue de cordão oferecem que não se encontram em células-tronco adultas de medula óssea ou outros tecidos?”

Em resumo, a não ser em familias onde existem doenças hematológicas tratáveis com CT de cordão umbilical, a descoberta e a melhoria nas técnicas de obtenção e diferenciação das CT de diferentes tecidos adultos tornarão cada vez mais desnecessário armazenar o sangue de cordão para uso próprio.

Por Mayana Zatz

11/03/2010

às 3:05 \ Sem categoria

Mulheres na ciência

jovens-bolsistas

Acabo de voltar de Paris, onde participei da 12ª edição do premio L’Oreal/Unesco para mulheres na ciência – que, não por acaso, acontece sempre quando se festeja a semana internacional da mulher. Esse prêmio, iniciado em 1988, tem como objetivo reconhecer a excelência científica de pesquisadoras ao redor do mundo e incentivar um número cada vez maior de mulheres a abraçar essa carreira fascinante.

São 5 cientistas por ano, uma por continente. Fui a primeira brasileira premiada, em 2001, representando a América Latina, e depois tivemos mais três: Lucia Previato em 2004 e Belita Koiller em 2005, ambas da UFRJ, e Beatriz Barbuy, em 2009, da USP. Por enquanto o Brasil está na frente nessa lista. Além disso, o programa premia jovens cientistas com bolsas ou auxilios para o desenvolvimento de projetos de pós-doutoramento. Ao todo já foram quase mil mulheres contempladas ao redor do mundo, de cerca de 100 paises.

O júri é internacional e presidido por ganhadores de Nobel

O critério  de escolha é o mérito. As candidatas são indicadas por academias de ciência, universidades ou cientistas ao redor do mundo e depois é feita uma seleção rigorosa por um júri internacional, constituido por 17 cientistas e presidido por um prêmio Nobel.  O primeiro a presidir esse conselho foi o professor Christian de Duve, Nobel de Medicina em 1974. Ele se aposentou há 4 anos e deu lugar ao doutor Gunter Blobel, Nobel de Medicina em 1999 . Mas a verdade é que ambos participam ativamente da premiação.

O professor De Duve está super lúcido, apesar dos seus 92 anos, e uma opinião dele pode fazer todo o júri rever uma escolha. Desde que ganhei o prêmio, tive o privilégio de fazer parte desse júri, o que tem sido sempre uma experiência fantástica. Trocar ideias com pesquisadores que ganharam o Nobel não é pouca coisa. Participar de uma discussão científica e ouvir os argumentos desses gênios da ciência é um aprendizado que não tem preço. É  beber diretamente da fonte.

A  premiação na sede da Unesco é uma grande festa

Ouvir as narrativas dessas cientistas laureadas – suas dificuldades para chegar lá, os inúmeros fracassos e tentativas antes de se ter uma expêriencia bem sucedida, suas vidas pessoais – é uma emoção indiscritível  que se renova a cada ano. Temos todas uma característica em comum: a paixão pela ciência, a curiosidade quase patológica em querer descobrir e em querer entender o que torna a nossa vida fascinante. A palavra monotonia não existe no nosso vocabulário. Aliás o termo “fazer a fama e deitar na cama” não existe no mundo científico. Não podemos parar de estudar nunca.

Quem são essas cientistas pemiadas?

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No ano passado, duas das escolhidas em 2008  ganharam o prêmio Nobel: a americana Elizabeth Blackburn, por suas pesquisas com telômeros, e a israelense Ada Yonath, na área da imunologia. E neste ano, quais são as apostas? As premiadas foram Rashika El Ridi pela África e paises árabes, Lourdes J. Cruz pela Ásia e Paífico, Anne Dejean-Assémat pela Europa, Alejandra Bravo pela América Latina e Elaine Fuchs pelos Estados Unidos.

São todas mulheres extraordinárias

Mas, por motivos óbvios, a minha preferida é Elaine Fuchs, que trabalha com… Já adivinharam? Células-tronco, é claro. O interesse dela é a pele. A doutora Fuchs ganhou o prêmio L’Oreal/Unesco pela descoberta de proteinas (como a queratina) e de mecanismos fundamentais responsáveis pelo desenvolvimento, manutenção e reparo da pele. Ela teve um papel fundamental na identificação de genes e mecanismos que causam doenças de pele, incluindo câncer e outras muito graves como a epidermose bulhosa.

Elaine Fuchs

Hoje ela trabalha na tentativa de curar essas doenças, bem como lesões de queimaduras através da terapia celular com células-tronco. Para nós cientistas ligados à área médica, a busca da cura é sempre a motivação. Mas não podemos negar que, na área cosmética, regenerar pele e cabelo são missões que têm um apelo gigantesco. De acordo com Elaine Fuchs, o prêmio para quem curar a calvície é de 26 bilhões de euros! Nada mau, não? Tenho certeza que a maioria das pessoas que sofrem de calvície acredita que seria um prêmio bem merecido. E eu imagino poder usar uma verba dessas só em pesquisas científicas. Seria o melhor dos mundos.

Por Mayana Zatz

05/03/2010

às 19:35 \ Sem categoria

Como dar uma má noticia? Pessoalmente ou por internet?

amor-sem-escalas

Cena do filme 'Amor sem Escalas', com George Clooney

No filme Amor sem Escalas (foto) – com seis indicações ao Oscar – George Clooney representa um alto executivo que viaja por todo o território americano com a missão de demitir pessoas. Eis que surge Natalie, uma jovenzinha recém-formada com uma proposta brilhante: ao invés de um confronto pessoal, ela propõe usar a internet – o skype-MSN ou outro programa semelhante -  para demitir esses funcionários o que, segundo ela, economizaria tempo e dinheiro. O resultado dessa iniciativa no filme é desastroso – aliás, não entendi porque ele foi classificado como comédia. Mas ele me fez refletir sobre uma situação que enfrentamos diariamente. Como explicar a uma pessoa ou a um casal os resultados de  um exame genético? Dar uma boa notícia é ótimo. Mas como lidar com uma má notícia?

Exames genéticos: quem deve se submeter a eles?

Provavelmente em um  futuro próximo, a grande maioria das pessoas queira se submeter a exames genéticos. Hoje eles só são indicados a pessoas que já têm um ou mais parentes afetados na família ou pessoas com risco aumentado de vir a ter uma criança com uma doença genética. Bebês malformados, mães com idade avançada ou que tiveram abortos de repetição sem causa orgânica, são exemplos, entre outros, de indicação de exame genético. Na primeira consulta levantam-se todas as informações e, quando indicado, coleta-se material para confirmar o diagnóstico e saber se há risco de repetição da doença em futura prole. A nossa filosofia sempre tem sido de entregar os resultados dos exames genéticos aos consulentes (pais e/ou pacientes afetados) pessoalmente sem limite de tempo.

Boa notícia é fácil, mas e quando os resultados não são os que gostaríamos?
Dizer a um casal que seu filho tem uma doença genética ainda incurável é sempre doloroso. Assim como informar a uma gestante que o feto em seu ventre será afetado de alguma forma. Embora nada possa diminuir a dor dessas pessoas, acreditamos que o contato pessoal abre mais espaço para esclarecer dúvidas, trocar informações, orientar, contar como estão as pesquisas e dar esperanças que podem ser cruciais no momento da notícia. Mais do que tudo, a proximidade permite trocar emoções, dar um abraço, demonstrar calor humano, coisas difíceis em uma consulta “cibernética”.

E quando o casal mora em outro estado?

Entre as pessoas que atendemos no Centro do Genoma da USP isso é muito comum. Os consulentes às vezes viajam milhares de quilômetros para uma primeira consulta, mas não têm recursos ou disponibilidade de tempo para um retorno. Se a notícia é boa, qualquer meio de comunicação é útil. Mas e quando se trata de uma má notícia, como confirmar um diagnóstico de uma doença, descobrir que o feto será afetado? O que é melhor? Ou menos doloroso? Insistir para que o casal ou consulente volte para uma consulta pessoal obrigando-os com isso a retornar à sua terra natal sozinhos com a sua dor?  Ou utilizar o skype, que permite ao menos a visualização de imagens, para substituir a troca de informações pessoais pelas virtuais?  O que você acha?

Por Mayana Zatz


 

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