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Arquivo de novembro de 2009

26/11/2009

às 21:34 \ Sem categoria

Células-tronco embrionárias reconstituem pele

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Um dos grandes desafios da medicina tem sido a reconstituição de pele em pessoas que sofrem queimaduras extensas. Apesar de já se ter conseguido produzir pele a partir de enxertos obtidos da própria pessoa, uma das grandes limitações é o tempo que essas células levam para crescer e recobrir toda a área afetada, o que causa infecções e desidratação. Essa semana, um grupo de pesquisadores franceses, liderados pelos cientistas Christine Baldeschi e Marc Peschanski conseguiram uma nova revolução: produzir epiderme a partir de células-tronco embrionárias humanas (CTEH).

O primeiro passo

O  primeiro objetivo desses pesquisadores era verificar se seria possível produzir “in vitro”, isto é, no laboratório, células-tronco de pele – chamadas queranócitos -  semelhantes às presentes na epiderme humana. Os queranócitos são responsáveis pela renovação constante da pele. É importante lembrar que a pele é formada de várias camadas e reconstituir todas elas não é tão fácil.

Esse foi o primeiro sucesso. Os cientistas franceses conseguiram transformar CTEH em células de pele combinando técnicas de biologia celular e meios de cultura com substâncias específicas capazes de induzir a diferenciação dessas células em queranócitos.

O experimento foi mantido por 40 dias que é o tempo que o embrião normalmente leva para formar a epiderme. Aparentemente foi esse o segredo. Imitar o que ocorre naturalmente no desenvolvimento embrionário. Os pesquisadores isolaram então uma população de queranócitos que tinham todas as propriedades necessárias: capacidade de se renovar, de se diferenciar e formar as várias camadas da pele.

O passo seguinte

Era verificar se era possível formar pele “in vivo”, isto é, em modelos animais. Para isso os pesquisadores franceses, em colaboração com um grupo espanhol, transplantaram essas células em camundongos imunodeficientes, isto é, camundongos que não rejeitam células humanas. Doze semanas após o transplante os camundongos tinham desenvolvido uma pele com as mesmas características da pele adulta humana. Um novo sucesso. Eles conseguiram provar que era possível transformar CTEH em epiderme in vitro e in vivo. Para aqueles que lutaram para a aprovação das pesquisas com células embrionárias humanas isso representa uma grande conquista.

Quais serão as aplicações futuras?

Temos muitos motivos para festejar. Além das queimaduras graves que podem causar a morte ou lesões deformantes, existem inúmeras pessoas com doenças de pele que poderão se beneficiar. Por exemplo, ulcerações de pele são comuns em diabéticos. Além disso, existem também doenças genéticas que podem ser muito graves como a neurofibromatose ou a epidermosis bullosa que aguardam ansiosamente tratamentos efetivos. Ainda serão necessários novos experimentos antes da aplicação em humanos devido ao risco de formação de tumores. Mas, de acordo com a pesquisadora Christine Baldeschi, a vantagem da pele é que o experimento poderia ser monitorado de perto e se houvesse o aparecimento de um tumor ele poderia rapidamente ser retirado.

E as células reprogramadas IPS?

Vocês devem se lembrar que em 2007 dois pesquisadores mostraram que células adultas – da pele por exemplo – poderiam ser reprogramadas e comportar-se como as embrionárias. Se um dia for possível transformar essas células em pele teremos o melhor dos mundos. Não haverá mais o problema da rejeição e nem a polêmica de utilizar células embrionárias. Mas foi necessário observar o comportamento das células-tronco embrionárias humanas para o sucesso desse experimento. São elas que dão as diretrizes.
Muitos de vocês já devem estar se perguntando: e nas cirurgias plásticas? Ao invés de ter uma pele esticada, quem não gostaria de ter uma pele nova? Tomara que as pesquisas com células IPS tenham sucesso. Senão logo teremos um novo debate. Será ético usar células-tronco embrionárias humanas para fins estéticos?

Por Mayana Zatz

26/11/2009

às 21:29 \ Sem categoria

A competição entre as células-tronco

No dia 24 de novembro a nossa equipe foi uma das vencedoras do prêmio SAÚDE da Editora Abril, na categoria saúde da mulher. O trabalho premiado refere-se à descoberta de uma nova fonte de células-tronco nas trompas de falópio, desenvolvido pela Dra. Tatiana Jazedje, no Centro de Estudos do Genoma Humano.

Transcrevo aqui meu discurso de agradecimento.

Estamos assistindo a uma grande competição entre as diferentes células-tronco (CT): CT embrionárias, de cordão umbilical, tecido adiposo, polpa dentária….. Qual é a melhor para formar células musculares e neurônios visando o tratamento futuro de doenças neuromusculares, que é o nosso objetivo maior?

E aí a Tatiana resolveu usar o tecido da trompa para servir de tapete e cultivar as diferentes CTs. Tapete eu?? Disse a trompa…. Não sirvo só para ser pisada. Eu também sei produzir células-tronco. Me testem….
E foi isso o que a Tatiana fez. E viu que a trompa era realmente capaz de produzir CTs com potencial para se diferenciar em células musculares, adiposas, ósseas e cartilagem.

E é por isso que estamos aqui hoje. Em nome das trompas agradecemos essa premiação. Ela é o reconhecimento que esperávamos. Podemos fazer mais do que servir só de passagem para os óvulos.

E a vocês ginecologistas e obstetras o nosso recado: não nos descartem nas cirurgias! Podemos ser muito úteis.
Muito obrigada.

Por Mayana Zatz

19/11/2009

às 6:22 \ Sem categoria

Xampus, DNA, células-tronco

Muitos produtos falam que contêm DNA, ou que agem no DNA. O que realmente fazem? O que o DNA vegetal faz para deixar os cabelos mais bonitos? O que o creme antirrugas faz no DNA do rosto? Soube de um shampoo de células-tronco, ele funciona?
(Natalia)

Produtos de beleza com DNA

Outro dia, um colega me contava de uma senhora no supermercado encantada ao encontrar shampoo com DNA. Segundo ela, o DNA – aquela dupla hélice colorida e brilhante que ela havia visto na televisão – iria se enrolar em volta dos fios de cabelo e assim ficaria mais bonito e saudável. Certamente ela não sabia que aquela dupla hélice colorida esquematizada na TV é muito diferente do DNA presente nas células do corpo.

Colocar DNA em um xampu ou outro produto de beleza não é difícil

O DNA está em toda parte. Quando você toma um café, deixa seu DNA na borda da xícara. Se colar um envelope com saliva, lá vai um pouco do seu DNA. Se você deixar cair lágrimas, saliva ou espirrar no seu xampu, estará adicionando seu próprio DNA. Você poderá até dizer que é um produto com DNA personalizado. Agora que você já sabe a receita para enriquecer seu xampu com DNA (seu ou de outra pessoa) experimente. Veja se seu cabelo fica realmente mais bonito.

E as células-tronco?

Depois do DNA, a última moda são as células-tronco. Muito mais convincentes. Se a expectativa é de que elas sirvam no futuro para regenerar tecidos, porque não colocá-las nos cremes de beleza? Afinal os mais caros prometem tirar as rugas e regenerar a pele. Será que esse efeito será redobrado se forem adicionadas células-tronco aos cosméticos? Seria uma maravilha. E o risco de formar tumores?

O cultivo de células-tronco depende de condições muito especiais

Se você comprou um creme de beleza “supostamente” com células-tronco saiba primeiro que, como qualquer célula, para se multiplicar e proliferar as células-tronco precisam estar vivas. Para mantê-las vivas elas precisam ser armazenadas a temperaturas muito baixas (170 graus negativos), em tanques de nitrogênio líquido. Uma vez descongeladas, requerem condições muito especiais para crescer: nutrientes específicos, temperatura controlada,etc…

Alguns cosméticos afirmam que contêm produtos para estimular nossas células-tronco

O que seriam esses produtos, ninguém sabe. É um segredo guardado a sete chaves, mas de qualquer modo isso é muito diferente de conter células-tronco vivas. Portanto, a menos que você tenha recebido injeções de células-tronco vivas, ou seu produto de beleza é mantido em tanque de nitrogênio, não se preocupe com o risco de tumores. Mas também não espere formação de novos tecidos. Quanto ao efeito cosmético, faça a seguinte experiência: coloque por alguns dias o produto na metade do seu rosto e um bom creme hidratante na outra metade. E tire suas próprias conclusões.

Por Mayana Zatz

12/11/2009

às 21:54 \ Sem categoria

Tratamento na China: depoimento de um paciente

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Já escrevi mais de uma vez contra o suposto tratamento com células-tronco oferecido na China a um alto custo – de 20.000 a 50.000 dólares. Não sabemos o que é injetado nos pacientes, não há seguimento a longo prazo e nem relato de melhoras após o tratamento. Mas nada mais convincente do que o depoimento de um paciente que viveu a experiência.

Meu nome é Laerte Colling e sou portador de esclerose lateral amiotrófica ou ELA (diagnosticada em outubro de 2007). Não sei se a senhora está lembrada, mas já conversamos algumas vezes sobre pesquisas e tratamentos para ELA. Agora, envio este e-mail porque faz um ano que me submeti ao tratamento com células-tronco na China. E, apesar de saber que a senhora – assim como a maioria dos profissionais da área, inclusive meu  neurologista – é contra, eu gostaria de relatar minha experiência.

Eu entendo perfeitamente a sua posição em relação ao tratamento, porém, considerando a situação em que me encontro, qualquer possibilidade, por mais remota que seja, é sempre uma esperança de cura ou uma oportunidade para retardar a evolução da doença, enquanto aguardamos os avanços das pesquisas.

Após vários contatos com o hospital chinês e, depois de uma extenuante viagem, me submeti ao tratamento disponível no Xishan Hospital em Pequim, coordenado pelo Dr. Huang. O tratamento consiste na aplicação de células-tronco da mucosa olfatória aplicadas diretamente na região frontal do cérebro. Fiquei na China durante um mês, tempo necessário para as atividades de preparação, realização da cirurgia e recuperação.
Lá no hospital, conheci vários outros pacientes (esperançosos como eu) que estavam se submetendo ao tratamento. Nenhum portador de ELA. O hospital e as acomodações são simples mas, o atendimento e dedicação dos profissionais é muito bom.

Senti uma pequena melhora na força muscular, porém, somente por um pequeno período após o tratamento. Acredito que esta “melhora” ocorreu em função das várias atividades desenvolvidas (fisioterapia diária, acupuntura, exercícios, etc…), que continuo fazendo até hoje.

A evolução da doença não estagnou. No meu caso, a evolução sempre foi lenta e não senti melhora significativa com o tratamento até o momento. Nenhum movimento perdido foi recuperado. Porém, não sei como estaria hoje se não tivesse feito… é tudo muito relativo. Portanto, até o momento, o que a senhora e vários outros profissionais da área aqui no Brasil comentam está correto: a princípio, o tratamento não  funciona.

De qualquer forma, gostaria de aproveitar a oportunidade para solicitar informações sobre as pesquisas em relação a ELA. Há alguma perspectiva a curto prazo? Como andam as pesquisas? Há algum grupo de voluntários sendo formado para testes?
Quero reforçar meu interesse em participar, se possível.
(Laerte Colling)

Prezado Laerte

Existem inúmeras pesquisas sendo realizadas ao redor do mundo com células-tronco e com novas drogas na tentativa de tratar a esclerose lateral amiotrófica. Estamos em contato direto com os  grupos idôneos que realizam essas pesquisas. Chegaremos lá, tenho certeza.

Assim que soubermos de algum resultado promissor seremos os primeiros a divulgá-los.

Um grande abraço
Mayana

Por Mayana Zatz

05/11/2009

às 20:30 \ Sem categoria

Células-tronco em doenças neuromusculares

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Dra. Mayana, sou presidente da Associação de Doenças Neuromusculares de MS e os pacientes vêm a mim com muita frequência em busca de informações. Duas são recorrentes:

1- quais patologias neuromusculares poderão vir a ser beneficiadas por terapias com células-tronco;

2- como anda o progresso das pesquisas nas diversas fontes de células-tronco que já foram descobertas (tecido adiposo, polpa dentária, sangue menstrual, embriões descartados, etc.). Poderia nos falar um pouco sobre essas questões?

O que são patologias neuromusculares?

Existem centenas de patologias neuromusculares, causadas por mutações em diferentes genes e que causam uma fraqueza progressiva devido a degeneração da musculatura. Algumas são causadas por um defeito primário do músculo, como por exemplo as distrofias musculares progressivas (DMPs). O gene defeituoso deixa de produzir alguma proteína que é essencial para o músculo . Em outras o defeito primário é nos neurônios (células nervosas) que mandam ordens aos músculos. Os neurônios morrem e por causa disso os músculos  acabam se atrofiando  indiretamente. É o caso, por exemplo, das atrofias espinhais progressivas. No primeiro grupo, a preocupação é substituir as células musculares enquanto no segundo são os neurônios que devem ser substituídos.

Que patologias poderão vir a ser beneficiadas?

Eu acredito que todas as patologias neuromusculares poderão vir a ser beneficiadas mas  as abordagens terapêuticas serão diferentes. Nossa equipe está trabalhando mais com modelos animais de distrofias musculares, onde o efeito primário é no músculo. Estamos injetando CT de diferentes fontes e analisando qual é o seu efeito clínico.

Quais são as questões que  estamos querendo responder?

Como as células devem ser injetadas? Injeções locais, diretamente na musculatura, ou sistêmicas, na veia? Que quantidade deve ser injetada? Com que frequência?  Como garantir que elas cheguem no local certo? Como controlar a sua diferenciação, isto é, ter certeza que uma vez injetadas elas vão se diferenciar só em músculo e não em outro tecido? Como controlar a rejeição? Quais são as melhores células para formar tecido muscular?

Uma linhagem não é igual a outra

Tivemos bons resultados com CT de tecido adiposo humano. Quando injetadas em camundongos com distrofia, elas se direcionaram para os músculos, não foram rejeitadas (sem uso de imunosupressores) e os animais melhoraram clinicamente. Esses resultados nos deixaram muito animados. Mas sabemos que uma linhagem de CT pode não ser igual a outra e por isso esses experimentos precisam ser confirmados.

Qual é o próximo passo?

Vamos iniciar em breve um grande estudo comparativo envolvendo muitos animais e vários pesquisadores. A ideia é comparar o potencial de diferentes CT- no caso, tecido adiposo, cordão umbilical e polpa dentária- em camundongos com distrofia. Os animais serão injetados ao mesmo tempo e acompanhados pela mesma equipe. A avaliação será feita em teste cego, isto é, quem for analisar os resultados não saberá o que cada animal recebeu.

Os animais serão acompanhados por pelo menos um ano

Para termos respostas conclusivas, precisamos acompanhar os animais por pelo menos um ano. Na realidade eles deveriam ser acompanhados por 2 ou 3 anos. Só assim poderemos avaliar os resultados a  longo prazo. Portanto, podemos antecipar que vai ser um experimento demorado. Só assim poderemos ter resultados fidedignos. A partir deles poderemos direcionar os futuros tratamentos com muito mais segurança.

Por Mayana Zatz


 

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