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23/07/2010

às 18:05 \ dna

Progeria


Gostaria de saber como ocorre a alteração no dna genético de pessoas portadoras de Progeria.

(Monaline Oliveira)

Há três semanas, o grande assunto na mídia era a suposta descoberta dos genes da longevidade, publicado em um artigo na prestigiosa revista científica Science, a partir do estudo de centenários. Segundo os autores seria possível, com base na análise de 150 variantes genéticas, prever com 77% de certeza se uma pessoa iria viver mais de 95 anos. Logo em seguida, especialistas no assunto mostraram que o trabalho tinha graves erros metodológicos. Prever se vamos ou não ser longevos parece ser bem mais complexo. Por outro lado, o gene que determina um envelhecimento extremamente acelerado, responsável por uma doença chamada progeria, é já bastante conhecido.

O que é a progeria?

A forma infantil de progeria (do grego geras, “velhice”) é uma doença letal, caracterizada por um dramático envelhecimento prematuro. A forma mais severa desta doença (chamada síndrome de Hutchinson-Gilford, em homenagem aos cientistas que a descreveram) tem início nos dois primeiros anos de vida com diminuição do crescimento, perda de cabelo e da gordura subcutânea, enrijecimento das articulações e aterosclerose. A inteligência é normal. Aos 10 anos essas crianças têm o aspecto de centenários. Acabam falecendo, em geral, antes dos 14 anos, de causas comuns de morte em idosos como ataques cardíacos e derrame. Felizmente, a doença é muito rara. Estima-se que ela afete um de cada 4 a 8 milhões de recém nascidos.

A progeria é causada por mutações no gene da Lamina-A/C.

Em 2003 descobriu-se que a forma infantil de progeria era causada por mutações em um gene que codifica uma proteina nuclear denominada lamina A. O mecanismo molecular ainda não é bem conhecido, mas sabe-se que a mutação causa um defeito no reparo do DNA. Embora seja uma doença genética, não é herdada porque os afetados não chegam a idade de reprodução. Por outro lado, para os pais o único consolo é que o risco de repetição é extremamente baixo porque todos os casos são resultantes de mutações novas.

Longevidade e progeria.

É interessante notar que, enquanto inúmeros genes interagindo com o ambiente são necessários para permitir que vivamos mais, um só gene , quando defeituoso, é capaz de produzir um envelhecimento acelerado e interromper uma vida prematuramente. É quase como reduzir 100 anos para 10. Embora seja uma condição tão rara, a progeria tem sido objeto de muitas pesquisas. Entender o defeito genético responsável por um ciclo de vida tão encurtado certamente nos ajudará a elucidar os mecanismos do envelhecimento e atuar de modo a estender a nossa expectativa de vida com qualidade.

Por Mayana Zatz

14/07/2010

às 16:18 \ dna

DNA pode ser usado sem o consentimento do doador?

Já falei disso antes, no caso de testes genéticos que estimam  riscos a doenças,  mas o caso do goleiro Bruno reacende a questão. Tanto ele como os outros acusados de terem cometido um crime hediondo  se recusam a fornecer material para exame de DNA, o que tem amparo legal. Foram orientados, por seus advogados, a não ceder material genético para as investigações. Entretanto, talvez não saibam que não é preciso nenhuma coleta formal para obtenção de DNA. Nós o deixamos por toda parte: no prato onde comemos, no copo onde bebemos, no lenço onde espirramos, na nossa roupa. A questão é: o DNA obtido sem consentimento do doador pode ou não ser usado como prova jurídica?

O CASO PEDRINHO E ROBERTA

Vocês devem se lembrar do caso de Pedrinho e de sua irmã  mais velha , Roberta, que foram raptados ainda na maternidade e criados por sua seqüestradora, Vilma, como filhos legítimos. O caso teve muita repercussão em 2002, quando Pedrinho, na época com 16 anos, foi localizado. O garoto optou por voltar a viver com seus pais biológicos, mas Roberta  não queria saber se havia ou não sido raptada. Entretanto, quando foi à policia para prestar depoimento, rls fumou uns cigarros e descartou lá as bitucas. Foi o suficiente. A partir daí foi possível analisar o seu DNA e descobrir que ela não era filha biológica de Vilma. Havia realmente sido raptada.  A questão levantou muitas polêmicas: a quem pertence o DNA descartado? É lícito usá-lo sem o consentimento do seu doador?

No caso de Roberta, por um lado foi violado o seu direito de “não querer saber”. Aos 23 anos e ao ser informada que ela poderia ter sido seqüestrada  e não ser filha legítima da mulher que a havia criado, ela preferia não ter essa certeza. Por outro lado, e a mãe biológica? Essa não tinha o direito de saber? Afinal, ela era a grande vítima do crime.

E NO CASO DO GOLEIRO BRUNO E COMPARSAS?

A acusação contra eles é gravíssima. O fato deles se recusarem a fornecer espontaneamente material para exame de DNA impede que esse, uma vez obtido, seja usado como prova jurídica? Por outro lado, no caso de comprovação de paternidade, o pai  que está sendo acusado é obrigado a fornecer material genético. Aparentemente a lei entende que é para proteger a criança. Mas para proteger a sociedade de um criminoso em potencial não existe a obrigatoriedade? São  boas questões para os criminalistas.

E você caro leitor, o que acha?

Por Mayana Zatz

08/07/2010

às 21:35 \ Sem categoria

Genes para traços comuns ou genes da futilidade?

Na semana passada falei de uma pesquisa envolvendo mais de 1.000 centenários que resultou na identificação de genes ou variantes associadas a longevidade. O estudo publicado na revista Science foi muito comentado na imprensa. Pois bem, outra pesquisa, realizada pela empresa americana 23andMe, sobre genes ou variações genéticas responsáveis por traços físicos comuns ou características totalmente sem importância (como o ato de espirrar ao ver a luz do sol), que acabo de denominar genes da futilidade, foi publicada em junho na revista PloS Genetics.

A empresa 23andMe oferece testes genéticos em amostras de DNA extraídas de saliva

Os pesquisadores analisaram amostras de quase 10.000 pessoas na tentativa de identificar as variantes genéticas responsáveis por 22 características comuns. Entre elas: cor de olho (azul ou castanho), presença de sardas, cabelo castanho ou loiro, cabelo ruivo, cor de olho verde/azulado, cabelo ondulado ou liso, falta de sensibilidade ao odor do aspargo, reflexo de espirrar com luz solar, uso do pé direito ou esquerdo, ter lóbulo da orelha preso ou solto, ser mais ativo de manhã, uso de aparelhos dentários (imagino que seja uma medida para saber se os dentes são desalinhados ou não), otimismo, astigmatismo, preferência por doces, presença de dentes de siso, cáries, uso de óculos, dominância visual, tipo de aperto de mão, enjôo com movimento e lateralidade (ser dextro ou canhoto).

Que variantes foram identificadas?

Dentre elas, só conseguiram encontrar associações significativas, ou seja, identificar as variantes genéticas que modulam sete dentre elas: a cor dos olhos, cabelo liso ou crespo, cor de cabelo (castanho, loiro ou ruivo), presença de sardas, reação de espirro ao olhar para o sol e a tal do odor do aspargo, que vale a pena comentar. Você consegue ou não sentir o cheiro de uma substância- methanetiol- excretada na urina de quem come aspargos? Essa é mais uma das variantes genéticas que eles estudaram. Por mais que eu me esforce não consigo vislumbrar a mínima importância nessa informação.

Está na mesma categoria de saber se você tem cera seca ou úmida no ouvido, outro teste “extremamente relevante” oferecido por essas companhias. Você concorda comigo que podemos batizá-los como os genes da futilidade ? Ou da inutilidade?

E agora, o que fazer com essas informações?

Quem já nasceu, não precisa fazer um teste de DNA para saber a cor dos seus olhos, dos seus cabelos ou se tem sardas ou não. Qualquer criança a partir dos três anos que possui um espelho pode responder a essas perguntas. Mas não duvido nada que logo comecem a oferecer esses testes a mulheres grávidas. Não há muito tempo, não sabíamos o sexo do bebê durante a gravidez. Era uma caixinha de surpresas que só se abria ao nascimento.

Hoje com ultrasom 3D e 4D , você já pode não só saber se será menino ou menina, mas visualizar o bebê com muitos detalhes. Já imagino os novos testes comerciais. Você não quer saber a cor dos olhos e do cabelo de seu bebê? Não é importante você já se preparar e comprar o shampoo adequado para cabelos lisos ou crespos? Ou um protetor solar poderoso se ela tiver sardas? É a genômica cosmética da futilidade….

E eu me pergunto. Será que vale a pena gastar esforços e dinheiro para pesquisas como essas?

Por Mayana Zatz

01/07/2010

às 19:12 \ Sem categoria

Pesquisadores identificam genes da longevidade


Sabemos que fatores genéticos e ambientais contribuem para um envelhecimento saudável. Nos países desenvolvidos a expectativa de vida hoje está entre 80 e 85 anos. Fatores ambientais (dieta, exercício regular, fumo etc..) têm um papel importante. Mas o que dizer de famílias onde passar dos 90 ou até dos 100 anos é quase uma regra? Uma pesquisa liderada pelos cientistas Paola Sebastiani e  Thomas Perls da Universidade de Boston, com famílias de centenários, acaba de ser publicada na revista Sciences. De acordo com os pesquisadores, os resultados desse estudo permitirão estimar com 77% de certeza se uma pessoa terá expectativa de vida longa. Se for verdade, ler a palma da mão vai sair de moda.  Temo que muitas ciganas vão perder o ganha-pão……

O estudo foi feito com 1.055 centenários e 1.267 controles

Os pesquisadores partiram da hipótese que pessoas que conseguem viver até idades muito avançadas possuem variantes genéticas que têm um papel importante nessa sobrevida excepcional. Os cientistas identificaram 150 variantes ou SNIPS (single nucleotide polymorphisms) em centenários saudáveis, que poderiam ser usadas para prever se uma pessoa irá viver mais de 90 anos. Além disso, foram identificados 19 marcadores ou “assinaturas genéticas” em pessoas com longevidade excepcional (que vivem mais de 100 anos) que estavam presentes em 90% dos centenários.

Assinaturas genéticas

De acordo com os pesquisadores, essas chamadas “assinaturas genéticas” constituem um novo avanço em relação a genômica personalizada e medicina preditiva. Segundo a Dra. Paola, essa mesma metodologia poderá ser utilizada para prever, de modo mais preciso, o risco de que uma pessoa venha a desenvolver outras doenças complexas como Alzheimer, diabetes, Parkinson ou doença cardiovascular.

Variantes de longevidade são mais importantes que variantes de risco

Outro resultado muito interessante foi a observação que nas pessoas com os genes da longevidade, a presença de variantes que aumentam o risco para doenças cardiovasculares, Alzheimer ou Parkinson por exemplo não tiveram grande influência. Isto é, se você possuir os “genes” que aumentam a chance de você viver muito, os genes de “risco” não vão fazer diferença. Se isso for verdade, deveríamos começar analisando as variantes de longevidade. Se elas estiverem presentes, não precisamos nos preocupar muito com os outros.

Será que as pessoas vão querer se testar? Quais são os prós e os contras?
Todo mundo gostaria de saber que vai viver muito e principalmente de modo saudável. E se não possuirmos os tais “genes” da longevidade? Vamos viver intensamente e gastar tudo o que temos já que não vamos durar muito? Lembro-me do meu pai que brincava que muitos dos seus amigos, já na casa dos 70 anos, diziam-lhe que haviam feito uma economia prevendo que iriam viver no máximo dez anos. E ele perguntava ironicamente: e se você errou a conta e viver mais?

Quais são as outras implicações de saber que você viverá muito?

Além de poder estimar com mais precisão qual deve ser o tamanho do seu pé de meia, posso imaginar várias outras implicações. Por um lado, o seguro de vida deveria dar desconto se você tiver os genes da longevidade. Por outro, para os planos de previdência, os longevos representam um pesadelo. Imagine as pessoas vivendo 30, 40 anos após a aposentadoria. E se amanhã os planos de previdência resolverem exigir testes genéticos para saber se você corre o risco de viver muito? Se você tiver os 77% de chance pagará 700% a mais. Quem mandou herdar esse DNA? Agora, pague por isso. Outra coisa: se você for rico, não conte aos seus herdeiros. A probabilidade de você ter uma morte “acidental” pode aumentar…..

Mas e se o teste revelar que você não possui os genes da longevidade? Será que queremos saber? E você, caro leitor gostaria de ser testado?

Por Mayana Zatz

25/06/2010

às 16:01 \ Sem categoria

Células-tronco em São Francisco

Acabo de voltar de São Francisco, onde participei do 8o Congresso da Sociedade Internacional de Pesquisas em Células-tronco (ISSCR- International Society for Stem-cells Research ) – um assunto que está  atraindo cada vez mais o interesse dos cientistas.

Havia mais de 3.000 participantes. Nossa equipe, do Centro do Genoma, levou cinco trabalhos. Tivemos a oportunidade de discuti-los, de ouvir as novidades, de pensar e de direcionar a continuação das pesquisas. Os avanços são constantes e os primeiros ensaios clínicos estão começando. Temos muita esperança de transformar as pesquisas em tratamentos para muitas condições. Enquanto isso, porém, temos uma preocupação muito grande com a segurança e a eficácia de supostos “tratamentos” que estão sendo oferecidos por clínicas não-credenciadas e que, infelizmente, visam o lucro acima de qualquer coisa.

Na abertura do congresso, o cientista Irving L. Weissman chamou a atenção para o site da sociedade com o seguinte título: “Top Ten Things to Know About Stem Cell Treatments”, ou, traduzindo, “As dez coisas mais importantes sobre tratamentos com células-tronco” (o artigo completo em inglês pode ser acessado no link: http://migre.me/O81Q).

São 10 pontos importantes que, de acordo com a ISSCR,  as pessoas devem saber antes de se submeter a um tratamento com células-tronco sem respaldo científico. Seguem aqui, de forma resumida, esses pontos:

1.      Existem diferentes tipos de células-tronco (CT)- cada um com sua própria finalidade.

Há vários tipos de CT presentes em diferentes partes do nosso corpo. Isso inclui CT embrionárias, que só existem no início do desenvolvimento, e vários tipos de CT adultas -ou tecido-específicas- que se originam durante o desenvolvimento fetal e que permanecem no nosso corpo durante toda a vida. As células chamadas tecido-específicas têm um potencial para formar tecidos iguais àqueles de onde foram extraídas mas possuem um potencial limitado para formar outros tipos celulares. Por exemplo, CT hematopoéticas retiradas da medula óssea regeneram sangue enquanto CT neurais têm o potencial de regenerar células nervosas.

Portanto é improvável que um único tipo de CT possa ser usado para tratar inúmeras doenças diferentes. Desconfie de clínicas que oferecem tais tratamentos.

2. Um único tratamento com CT não pode funcionar para inúmeras doenças ou condições diferentes.

É impossível que um único tipo de CT trate doenças totalmente diferentes como Parkinson e diabetes, por exemplo. Os mecanismos que causam essas doenças são totalmente distintos e, portanto, diferentes tipos celulares teriam que ser utilizados para tratar cada uma dessas condições. As CT embrionárias talvez possam ser usadas para tratar muitas doenças. Entretanto, elas não podem ser usadas diretamente para fins terapêuticos por que podem formar tumores ou formar um tecido diferente daquele que queremos.

3. Ainda existem poucas doenças nas quais pode se falar em tratamento com células-tronco.

As doenças nas quais o uso de CT já pode ser considerado como tratamento (e não experiência terapêutica) são aquelas da medula óssea, isto é, doenças hematológicas (leucemias, anemias e talassemias, por exemplo) ou algumas doenças imunológicas. Algumas doenças ósseas, de pele ou da córnea começam a ser tratadas com o transplante de CT originadas desses mesmos órgãos. Algumas dessas terapias já são aceitas como seguras e eficientes pela comunidade médica.

4. O fato de algumas pessoas afirmarem que foram beneficiadas por tratamento com células-tronco não significa que isso realmente ocorreu.

Existem várias razões para explicar porque uma pessoa pode se sentir aparentemente melhor após um tratamento com CT. Por exemplo, outros tratamentos convencionais que são realizados com mais rigor juntamente com a aplicação das CT- como fisioterapia, hidroterapia, estimulação. Há também a flutuação natural da doença – existem dias onde nos sentimos melhor e outros pior. Talvez o mais importante seja o desejo intenso ou a crença de que um tratamento vai ajudar. É o que chamamos de efeito placebo, que pode ter resultados positivos, independentemente do tratamento. Por isso, uma terapia só pode ser considerada benéfica em experiências com controles não tratados. Isto é, um grupo recebe injeções com CT, o outro somente injeções sem CT e nem o paciente e nem quem avalia os resultados  sabe quem recebeu as CT e quem não. Esses ensaios são chamados de duplo-cegos.

Desconfie de clínicas que fazem propaganda dos seus resultados utilizando depoimentos de pacientes.

5. A pesquisa científica é um processo longo e difícil e por isso leva tempo para se transformar em tratamento.

Em geral, a pesquisa científica é um processo longo e complexo. Entender a causa de uma doença e como curá-la leva tempo. Novas idéias precisam ser testadas primeiro no laboratório, em culturas de células, e depois em modelo animal. Às vezes, o que parece promissor no laboratório não funciona em modelo animal. E às vezes, o que funciona em modelo animal não funciona em humanos. Se um novo tratamento não for planejado com cuidado é provável que não surta o efeito desejado. E o mais preocupante: ele pode até piorar a doença ou causar efeitos colaterais perigosos.

6. Para serem usadas em tratamentos, as células-tronco precisam se comportar de maneira específica.

O transplante de CT retiradas da medula óssea é um exemplo de um tratamento bem sucedido porque o objetivo é que as células implantadas façam o que elas estão acostumadas a fazer: mais sangue. Entretanto, para outras condições nós queremos que elas se comportem de modo diferente daquele a que estão habituadas. Além disso, uma vez injetadas no corpo, elas precisam se integrar ao órgão ou tecido que necessita ser “consertado” e funcionar harmonicamente com outras células do corpo. Por exemplo, no caso de doenças neurológicas, as células implantadas precisam formar tipos específicos de neurônios e conectar-se a outros neurônios. Ainda estamos aprendendo como controlar as células para que sejam aquelas que queremos, para que elas cresçam somente o necessário, além de descobrir o melhor método para transplantá-las. Descobrir isto tudo leva tempo.

Desconfie de pessoas que afirmam que as células-tronco, uma vez injetadas, sabem para onde se dirigir e o que fazer para tratar uma condição específica.

7. O fato de utilizar células retiradas do seu próprio corpo não significa que são seguras.

Todo procedimento médico envolve riscos. Se, por um lado, usar e reinjetar suas próprias células evita a rejeição, os procedimentos para cultivá-las e injetá-las envolvem riscos. Quando elas são manipuladas fora do seu corpo, podem sofrer mudanças nas características, podem perder a capacidade de se especializar em um determinado tipo de célula, há risco de contaminação em cultura por bactérias ou vírus patogênicos, entre outros exemplos. O próprio processo de retirada e injeção de células-tronco também envolve riscos.

8. Você pode ser prejudicado ao se submeter a um tratamento não comprovado, mesmo que tenha uma condição incurável.

Algumas das condições ainda incuráveis são consideradas “tratáveis” por clínicas não credenciadas . Por isso, é fácil de entender porque algumas pessoas decidem se submeter a esses tratamentos. Elas acreditam que não têm nada a perder. Na realidade, a probabilidade de haver algum beneficio é muito baixa, e existem riscos de complicações imdediatas ou a longo prazo. Por exemplo, um menino desenvolveu tumores cerebrais após injeções de células-tronco. Além disso, se uma pessoa já tiver se submetido a um tratamento experimental, poderá não ser aceito para participar de novas tentativas terapêuticas. Pesquisadores americanos são muito rígidos nesse aspecto. Sem falar no custo financeiro, que pode ser alto para os pacientes, seus familiares e a comunidade. Além disso, algumas clínicas localizadas em lugares distantes exigem viagens muito longas.

9. Um tratamento experimental pago não é o mesmo que uma pesquisa terapêutica.

Se um tratamento pago for chamado de experimental, isso não significa necessariamente que ele seja parte de uma pesquisa. Em pesquisas clínicas realizadas com responsabilidade, é necessário primeiro que se tenha dados pré-clínicos confirmando que o tratamento é seguro e potencialmente eficiente. O estudo precisa ser desenhado de modo a responder a questóes específicas e frequentemente tem que ser comparado com um grupo controle não submetido ao tratamento. O financiamento é feito por companhias que estão desenvolvendo o tratamento (por exemplo, novos medicamentos) ou agências de pesquisas. Antes de ser iniciado, o protocolo precisa ser revisto por um comitê independente que protege os direitos dos pacientes. Em muitos países existe uma agência regulatória nacional como a EMA, na Europa (European Medicines Agency), ou a FDA, nos Estados Unidos (Food and Drug Administration). No Brasil, além dos comitês locais que precisam aprovar a pesquisa, a agência regulatória federal é o CONEP (Conselho Nacional de Ética em pesquisas).

Desconfie de tratamentos caros que não foram cientificamente testados antes.

Tratamentos experimentais conduzidos de modo responsável são fundamentais para o desenvolvimento de novas terapias . A sociedade ISSCR defende que a participação nesses tratamentos deve ser feita após um estudo cuidadoso e discussão com um médico de confiança.

10. A ciência das células-tronco está avançando.

A ciência das células-tronco é extraordinariamente promissora. Houve grandes avanços no tratamento de doenças sanguíneas, o que confirma como a terapia das CT pode ser poderosa. Todos os dias anunciam-se novas descobertas em como modelar e controlar as CT para tratar diferentes condições, o que nos aproxima cada vez mais da aplicação clínica. Várias tentativas terapêuticas estão sendo testadas em modelos animais e algumas já vão ser iniciadas em humanos. Em fevereiro de 2010, a empresa britânica Neuron anunciou a aprovação de um teste clínico ( fase 1, isto é, para avaliar segurança ) para tratamento de derrame. O início de um primeiro teste clínico com células-tronco derivadas das embrionárias para lesões agudas da medula está sendo avaliado pela FDA e espera-se que seja aprovado logo. Apesar da aparente demora, a ciência das células-tronco está avançando. Os cientistas que, como eu, pesquisam essas células mágicas, estão extremamente otimistas de que terapias com células-tronco vão permitir, algum dia, o tratamento de um número grande de doenças e condições humanas. Vale a pena esperar.

Por Mayana Zatz

17/06/2010

às 22:23 \ Sem categoria

Califórnia inicia projeto gigantesco de análise genômica

O objetivo é analisar 160.000 amostras de DNA de voluntários cujas idades variam entre 18 e 107 anos. O custo estimado do projeto é de 25 milhões de dólares e estima-se que ele será terminado em 18 meses. A senhora Young (que em inglês significa jovem), uma enfermeira aposentada de 87 anos, apressou-se a dizer em uma entrevista publicada no jornal The New York Times do dia 28 de maio, que não perderia a chance de “cuspir” para auxiliar essa causa.

O DNA será analisado por sequenciadores automáticos de última geração

Dez anos atrás seria impossível pensar em um projeto como esse. O custo seria astronômico. Hoje com o avanço dos sequenciadores automáticos o custo para decodificar o genoma de uma pessoa está caindo vertiginosamente. O DNA será extraído da saliva e analisado juntamente com a história médica da pessoa. Essas pesquisas que são denominadas estudos de associação demandam amostras muito grandes para serem validadas e a análise deve ser feita por uma equipe multidisciplinar onde a bioinformática tem um papel muito importante. Isto é, a partir dos resultados de DNA e a presença – ou não – de determinada doença, será possível estimar,com certa margem de erro, qual é o risco de uma pessoa desenvolver uma determinada patologia.

Como separar o joio do trigo?

Essa é a grande dificuldade em estudos como esses. Qual é a variante do gene ou a característica que realmente importa? Por exemplo, poderíamos dizer que pessoas de olhos azuis têm mais chance de ter câncer de pele quando expostas ao sol. Seria a variante que determina a cor dos olhos o fator de risco? Não, a cor dos olhos é simplesmente um marcador ou uma característica fácil de ser identificada. Na realidade existe uma associação entre a cor dos olhos e a cor da pele – pessoas de olhos azuis têm maior chance (não certeza) de ter pele clara – e é a falta de pigmentação da pele que aumenta o risco de câncer de pele para pessoas que se expõem  ao sol sem proteção. Pessoas morenas de olhos azuis não têm risco aumentado. 

Qual é o papel da bioinformática?

O bioinformata – aliás uma especialidade muito requisitada – integra os dados biológicos (por exemplo presença ou não de doenças) com os resultados do genoma. Ele estima, levando em conta a análise de DNA e os dados médicos, se existe uma associação ou risco aumentado entre os achados genéticos e uma determinada patologia. Um dos exemplos mais conhecidos é de um gene chamado APOE e a doença de Alzheimer. Pessoas que possuem a variante APOE4 têm um risco maior de desenvolver essa patologia do que quem tem a variante APOE3 ou APOE2. Entretanto é importante repetir que trata-se de uma estimativa de risco, nunca de uma certeza. Inúmeras pessoas que possuem a variante APOE4 nunca chegam a ter a doença de Alzheimer.  

E a pergunta que não cala: como será usada essa informação?

Chama a atenção que o estudo será feito em associação com uma entidade privada ligada a seguro saúde. Hoje já existem planos de saúde diferenciados de acordo com a faixa etária, hábitos de vida (por exemplo, fumantes e sedentários pagam mais) ou doenças pré-existentes, como diabetes por exemplo. De acordo com esse centro, os consumidores poderão ter uma grande variedade de planos baseados nessas novas informações. Será que as pessoas terão que se submeter a um exame de DNA antes de serem aceitas nos planos de saúde? E se a moda pega? Além das doenças pré-existentes será criada a categoria dos “riscos para as doenças pós-existentes”?

Entre a cruz e a espada

O que seria melhor: fazer o teste de DNA e poder se prevenir em casos de condições tratáveis – como risco aumentado para diabetes ou hipertensão, por exemplo – e pagar mais pelo seguro saúde? Ou, deixar de fazer o teste  para não correr o risco de ser classificado no plano mais caro do seguro-saúde? Ou descobrir uma predisposição aumentada para doenças não tratáveis?

Por Mayana Zatz

10/06/2010

às 22:15 \ Sem categoria

Aprovado o primeiro teste clínico para tratar tumores cerebrais com células-tronco

O ensaio terapêutico, que acaba de ser aprovado pelo FDA (Agência americana Food and Drug Administration), será conduzido por pesquisadores americanos liderados pelas Dras. Karen S. Aboody e  Jana Portnow, do City of Hope, na Califórnia. Trata-se de um centro especializado em tratamento de câncer, diabetes e outras doenças graves. O interessante é que o objetivo não é usar as células-tronco  para substituir as células doentes. Elas  serão usadas como veículo para transportar uma potente droga anticancerígena com o objetivo de tentar destruir um tipo de tumor cerebral muito agressivo, o glioblastoma. Se a experiência for bem-sucedida, será mais uma vitória obtida a partir das pesquisas com células-tronco embrionárias.

Os tumores cerebrais malignos atingem mais de 20.000 americanos anualmente

Há vários tipos de tumores cerebrais malignos. O mais comum em adultos é um tipo de tumor denominado glioblastoma, que é extremamente agressivo. São tumores muito invasivos, resistentes aos métodos convencionais de tratamento, como cirurgia, radiação ou quimioterapia. Um dos grandes obstáculos é a chamada barreira hematoencefálica, que não permite que drogas anticancerígenas potentes cheguem até a região encefálica onde está localizado o tumor, sem fazer um grande “estrago” em volta.  E é aí que entram as células-tronco neurais. Elas vão ser usadas para levar drogas diretamente na região do tumor.  Se bem-sucedida, essa estratégia poderá ser usada para tratar vários tipos de tumores sólidos.

Células-tronco neurais dirigem-se naturalmente para os tumores

A Dra. Karen e colegas foram os primeiros  a demonstrar no ano 2000 que essas células-tronco neurais têm uma tendência de dirigir-se a células tumorais atravessando a barreira hematoencefálica. Resolveram então usar essa característica, também chamada de tropismo, para transportar agentes terapêuticos. Introduziram, em uma linhagem de células-tronco neurais, uma enzima (citosina deaminase) que tem a propriedade de converter uma droga  relativamente não tóxica em um poderoso agente quimioterápico contra células cancerosas.

Essa estratégia permitirá minimizar os efeitos colaterais e permitir um tiro certeiro

A grande vantagem é que a droga não tóxica pode ser administrada pela circulação e só será transformada no composto tóxico na região do tumor onde estarão as células-tronco neurais , afetando o mínimo possível as células saudáveis vizinhas.  Se bem-sucedida, essa estratégia poderá minimizar os terríveis efeitos colaterais dos tratamentos quimioterápicos atuais, que atingem o trato gastrointestinal, a pele e provoca, entre outros, a queda dos cabelos. Em vez de tiro de canhão, será possível atirar e atingir somente o alvo, no caso, o tumor.

A esperança  será  grande

A pesquisa, que será iniciada em breve, incluirá de 12 a 20 pacientes nessa primeira fase. City of Hope significa Cidade da Esperança, em português, um nome  emblemático.  A torcida  será enorme.  Se  a experiência for bem-sucedida, será mais uma demonstração da importância  de se ter aprovado as pesquisas com células-tronco embrionárias.

Por Mayana Zatz

04/06/2010

às 15:11 \ Sem categoria

Testes Genéticos: a minha experiência pessoal

No mês passado comentei o que eu achava de testes genéticos feitos em farmácia. No kit Discover your DN” , (Descubra seu DNA) desenvolvido pela empresa Pathway genomics – que ainda aguarda aprovação do FDA para ser comercializado – um dos exames oferecidos é o da fibrose cística (FC). Trata-se de uma doença grave cujo principal sintoma é a ocorrência de pneumonias de repetição. A FC é a doença genética mais comum na população caucasóide da Europa e dos Estados Unidos. No Brasil muitos casos permanecem sem diagnóstico principalmente nas famílias mais pobres onde pneumonias de repetição são frequentemente atribuídas a condições sócio econômicas desfavoráveis e não a fatores genéticos. A questão é: como irão reagir as pessoas quando souberem que são portadoras de uma mutação associada a essa ou outra  doença genética? Lembrei-me de minha experiência pessoal que vou relatar aqui, relacionada com a fibrose cística.

O que é a fibrose cística (FC)  ou mucoviscidose?

Trata-se de uma doença genética grave caracterizada por infecções pulmonares recorrentes e com múltiplos sintomas, incluindo diminuição do crescimento, esterilidade e disfunção pancreática, entre outros. É causada por mutações ou erros genéticos (já foram descritos mais de 1.500) em um gene chamado CFTR que regula o transporte de sódio, secreções pancreáticas e a formação de muco. A herança é autossômica recessiva, isto é, a doença só se manifesta se a criança herdar duas mutações para FC, uma de sua mãe e outra de seu pai. Se uma pessoa tiver uma só mutação, ela será heterozigota ou portadora assintomática. Uma mutação só não causa nada. Se os dois pais forem portadores a probabilidade de virem a ter um descendente afetado é de 1 em 4.

Quão comum é a FC  no Brasil?

Alguns anos atrás, resolvemos investigar a incidência de FC na população brasileira. Sabíamos que uma em cada 25 pessoas de origem européia é portadora de uma mutação nesse gene, mas não sabíamos qual era a frequência entre nós. Coletamos sangue de colegas, professores, funcionários e alunos. Todo mundo entrou na dança. Até eu. Um belo dia, Adriana, a estudante de doutorado que era responsável por esse projeto entrou na minha sala e disse: “Identificamos duas portadoras novas”. Depois continuou: “Uma delas é Sandra, uma estudante de doutorado que trabalha no andar de cima”. E a outra perguntei?  “A outra é você, disse Adriana”  olhando-me atentamente a espera de minha reação. Eu? Repeti a pergunta? “Sim, você”.

Receber uma notícia como essa, quando não existe nenhum caso na família, é sempre uma surpresa

Como eu já tinha dois filhos saudáveis, não me preocupei muito.Aliás, descobri que para um geneticista que trabalha com Aconselhamento Genético, essa informação é muito útil. Toda vez que converso com um casal e sinto que eles se sentem diferentes ou diminuídos quando ficam sabendo que são portadores de uma mutação que transmitiram a um filho já aviso logo: “Eu também sou, todos nós somos, e não me sinto nada diminuída por isso”. Pelo sorriso noto que  o impacto positivo costuma ser imediato….. Fazemos parte do mesmo clube…

Mas e Sandra, a aluna de doutorado. Qual foi a sua reação?

Surpreendentemente, embora tivesse bons conhecimentos de genética, Sandra ficou muito angustiada. Sentia-se diminuída. Tivemos longas conversas. Mesmo sabendo que a mutação não iria lhe causar nada e que seu risco de vir a ter filhos afetados era pequeno, ela demorou para digerir e lidar bem com essa informação. Se mesmo trabalhando em um centro de genética, algumas  pessoas têm dificuldades de assimilar uma informação como essa, imaginem caros leitores como será  em testes de farmácia? Ou enviados pelo correio? Estou prevendo que os consultórios de psicanalíticos vão ficar cheios.

E você caro leitor já sabia que todos nós somos portadores de mutações patogênicas? Você gostaria de conhecê-las ou acha melhor não ter essa informação?

Por Mayana Zatz

24/05/2010

às 6:02 \ Sem categoria

Craig Venter e a ovelha Dolly

Conheci os dois, coincidentemente, em 2008. Craig Venter, durante uma palestra no Congresso Internacional de Genética Humana, na Filadélfia. A ovelha Dolly, no museu de Edinburgo, na Escócia, já empalhada – infelizmente. O que eles têm em comum? A revolução midiática que causaram – Ian Wilmut e a ovelha Dolly em 1996 e Craig Venter e sua bactéria na semana passada. Nos dois casos, ocuparam grande espaço na imprensa. Só se falava disso. Aliás, os feitos são até comparáveis. Wilmut transferiu o genoma (o material genético) retirado de uma célula – no caso, da glândula mamária da ovelha Dolly – para um óvulo sem núcleo. Depois de inseri-lo em útero, gerou um clone de Dolly. Venter transferiu o genoma de uma bactéria em outra que assumiu o comportamento da primeira. Esperei baixar um pouco a poeira para comentar a minha opinião a respeito.

Não foi criada vida sintética em laboratório

“Criada vida artificial” (no jornal O Globo) e “Ciência cria primeira célula sintética” (na Folha de S.Paulo) foram duas das manchetes citando o trabalho de Venter publicado na revista Science de 20 de maio. Na realidade, foi uma bela e importante obra de engenharia genética, mas não se criou vida. A equipe de cientistas utilizou vidas existentes, tanto de bactérias como de leveduras, para conseguir esse feito. É importante deixar isso muito claro. O que os pesquisadores fizeram foi transformar uma vida em outra – no caso, uma bactéria Mycoplasma capricolum em outra, a Mycoplasma mycoides.

Venter teve papel fundamental no Projeto Genoma

Não poderia haver ninguém mais capacitado do que Craig Venter para montar o quebra-cabeças do genoma de uma bactéria – com um milhão de pares de bases – e sintetizá-lo no laboratório . Afinal, foi ele que inventou um método para desmontar o quebra-cabeças do genoma humano, o que permitiu acelerar muito o seu sequenciamento. Para quem desenvolveu tecnologias capazes de sequenciar um genoma de 3 bilhões de pares de bases – o genoma humano – remontar no laboratório os pedaços de DNA de um genoma de um milhão de pares de bases, como é o caso da bactéria mycoplasma mycoides, deveria ser fácil, pois ela é 3.000 vezes menor. Mas mesmo assim foram quinze anos de trabalho envolvendo 24 cientistas, a um custo de 40 milhões de dólares. Nada trivial!

A receita estava armazenada no computador

A seqüência do genoma da Mycoplasma mycoides já estava disponível no banco de dados do computador. Mas para copiar a receita e sintetizar um cromossomo artificial no laboratório, os pesquisadores tiveram que usar leveduras – que também são organismos vivos e que têm a capacidade de unir pequenos pedaços de DNA. Uma vez sintetizado o DNA, o próximo obstáculo era inseri-lo em outra bactéria, conseguir que a célula receptora não destruísse o genoma da célula doadora e o adotasse como se fosse seu. A tarefa era duríssima.

Trata-se de uma revolução?

Midiática, sem dúvida. A repercussão na imprensa sobre a bactéria de Craig Venter me lembrou da clonagem da ovelha Dolly. Vocês devem se lembrar. “Vão clonar seres humanos! Estão brincando de Deus. Vamos criar imediatamente comitês para proibir a clonagem reprodutiva humana”. Isso era repetido constantemente pela imprensa. Na minha opinião, os dois feitos são comparáveis. E as reações que geraram também. Na época da Dolly, fui convidada a fazer parte de um desses comitês, todos preocupadíssimos em proibir a clonagem humana. Eu estava muito menos temerosa com os riscos de se fazerem clones humanos e muito mais interessada em que se aprovassem as pesquisas com células-tronco embrionárias. E foi o que acabou acontecendo.

Hoje, catorze anos depois, ninguém mais fala de clonagem reprodutiva humana. Mas estamos revendo esse filme, agora com o suposto risco de se criar “vida em laboratório”. O presidente americano Barack Obama já determinou a instituição de comitês para que sejam identificados os limites éticos e minimizados os possíveis riscos. Por outro lado, o pediatra Carlo Bellieni, no diário do Vaticano L’Osservatore Romano, diz que “a pesquisa é um trabalho de engenharia genética de alto nível, mas na realidade não se criou vida”. Concordo com ele.

Quais são as implicações futuras?

É difícil prever. A grande revolução gerada pela ovelha Dolly foi abrir caminho para as pesquisas com células-tronco. Até agora não causou nenhum dano. No caso do genoma de bactéria Mycoplasma mycoides sintetizado em laboratório, poderemos dar um salto qualitativo nas técnicas de engenharia genética.Isso inclui, por exemplo, produzir novas vacinas e microorganismos úteis ao homem (como bactérias mais eficientes em degradar a celulose ou o plástico, criando novas fontes de combustível biodegradável). Ou bactérias intestinais que nos permitissem digerir a celulose tão bem como os ruminantes. Além disso, ela poderia aprimorar as técnicas de terapia gênica corrigindo genes defeituosos em casos de doenças genéticas. A tecnologia usada por Venter e sua equipe para impedir que o genoma exógeno não fosse destruído pela bactéria recipiente poderia abrir novos caminhos para impedir a rejeição no caso de transplantes. O futuro dirá. A ciência agradece.

Por Mayana Zatz

20/05/2010

às 23:11 \ Sem categoria

Testes genéticos em farmácias

No inicio do mês, a prestigiosa revista The Lancet publicou um artigo relatando o mapeamento do genoma de Stephen Quake, um americano de 40 anos. Entretanto, antes de assinar o consentimento para a realização desse estudo, Stephen se submeteu a uma longa sessão de  Aconselhamento Genético onde lhe foi explicado, entre outras coisas,  que essa análise poderia revelar que ele tinha risco aumentado para desenvolver doenças sérias ainda sem tratamento.

Além disso, que a descoberta de algumas mutações poderia ter implicações reprodutivas, isto é, um risco aumentado de transmitir certas doenças para a sua descendência. Os resultados revelaram que ele tinha  um risco aumentado para algumas doenças, entre elas, doenças cardíacas, algumas formas de câncer e doença de Alzheimer. Os autores que assinam o artigo na revista Lancet, concluem que essa nova era de informações genômicas, associada à medicina, vai requerer uma equipe multidisciplinar de profissionais de saúde, incluindo médicos, geneticistas e bioeticistas. Concordo plenamente e digo mais, psicanalistas também.

No mesmo mês  farmácias americanas anunciam testes genéticos personalizados

Qual foi o meu espanto quando leio que  a empresa americana de biotecnologia “Pathway Genomics” está pronta para comercializar testes genéticos em farmácias. Está na edição de VEJA de 19 de maio (http://migre.me/FfI4) Que loucura, pensei!!! Mas logo em seguida o FDA (Food and Drug Administration) , a agência que regula a liberação de novos testes sugeriu que os testes ainda precisam ser aprovados por autoridades e a rede de farmácias americana Walgreens adiou seu plano de vender kits para testes genéticos personalizados. Ufa. Mas até quando?

Se aprovado o DNA será coletado de saliva

De acordo com a notícia, se liberados, as farmácias venderão kits onde os interessados poderão coletar sua saliva e o material será enviado a um dos laboratórios da empresa para análise. Os exames  oferecidos incluem testes de reações a algumas substancias e medicamentos e a predisposição para desenvolver alguns tipos de câncer, obesidade, esclerose múltipla, diabetes e doença de Alzheimer entre outros. Além disso, os casais poderão saber se são portadores de mutações que aumentam o risco de que seus descendentes sejam  afetados por algumas doenças genéticas.

Como é hoje o Aconselhamento Genético (AG)?

Os centros de genética atendem pacientes ou famílias que tem uma ou mais pessoas afetadas por  uma doença genética. A consulta genética ou Aconselhamento Genético(AG) é um procedimento extremamente complexo que requer especialistas altamente treinados e dispostos a  passar as vezes horas com os consulentes. O processo de AG inclui exames genéticos para confirmar o diagnóstico do paciente, testes para saber se há risco de repetição para futuros filhos ou parentes próximos, orientação em relação a doença e ao risco genético. Uma vez completados os exames vem a parte mais difícil, explicar aos consulentes: O que é a doença? Qual é o prognóstico? O que pode ser feito? Como evitar ter descendentes afetados? Como viver com o problema? Lidar e entender todas as informações não é fácil. Requer muita paciência e habilidade por parte de uma equipe multidisciplinar bem treinada e atualizada. Como fazer isto a partir de um teste de farmácia?

Todos nós somos portadores de mutações patogênicas

Como as pessoas irão reagir quando o teste de farmácia revelar alterações no seu DNA? Será que sabem que  todos nós temos mutações responsáveis por doenças genéticas? Aquelas chamadas recessivas precisam estar em dose dupla para causar uma patologia, isto é, a criança precisa receber uma mutação do pai e outra da mãe para manifestar a doença. Outras podem atuar em dose simples e manifestar-se em qualquer idade. Ou não se manifestar nunca. Pessoas portadoras da mesma mutação, às vezes até irmãos, podem ter quadros totalmente diferentes variando desde uma condição grave até ausência total de sintomas. Não existe determinismo genético. Enquanto não sabemos vivemos muito bem com as nossas mutações. Será que descobri-las vai nos tornar mais felizes?

E você caro leitor, estaria disposto a enviar sua saliva para esse laboratório para obter as informações sobre alterações no seu DNA?

Por Mayana Zatz

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