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Novo banco público de sangue de cordão umbilical

quinta-feira, 18 de março de 2010 | 23:45

Getty
O Hospital Sírio-Libanês inaugurou no início de março mais um banco público de sangue de cordão umbilical e placentário. O projeto é filantrópico e foi desenvolvido em parceria com o Ministério da Saúde e o Amparo Maternal. Terá capacidade para armazenar aproximadamente 3.700 unidades de sangue de cordão e fará parte da Brasilcord, juntamente com outras cinco unidades semelhantes no país. A vantagem é que irá coletar uma população com grande diversidade genética, pois o Amparo Maternal atende mulheres de diferentes etnias de vários estados. Já escrevi mais de uma vez  sobre  bancos de sangue  de cordão mas como continuo recebendo muitas mensagens vou retomar o assunto.

Já é um consenso que as células-tronco de sangue de cordão são uma esperança de cura para várias doenças hematológicas, como leucemia, linfomas, talassemia e anemias hereditárias, além de deficiências do sistema imunológico. Aliás, é a única situação onde podemos falar em tratamento com células-tronco. Por isso a importância de ter bancos públicos de sangue de cordão umbilical, que na prática podem funcionar do mesmo modo que os bancos de sangue.  Tentativas terapêuticas para tratar outras doenças com células-tronco, como diabetes, por exemplo, ainda são consideradas experimentais.

Bancos públicos ou privados?
Já me manifestei várias vezes contra os bancos privados e a favor dos bancos públicos de sangue de cordão. Entretanto casais “grávidos” continuam me perguntando  se vale a pena coletar e armazenar o sangue do cordão umbilical do bebê prestes a nascer em bancos privados, para um eventual uso próprio, no futuro. E pagar caro por isso. A minha opinião vocês já sabem. Mas o que pensa a convidada de honra do simpósio preparado para celebrar a inauguração do banco, dra. Eliane Gluckman?

Ela é uma pesquisadora francesa mundialmente conhecida e respeitada, que se notabilizou por ser a primeira pessoa a fazer transplante de células-tronco de sangue de cordão umbilical, em 1988, para tratar a anemia de Fanconi, doença hematológica hereditária. O que ela diz a respeito:

“ Não há nenhuma prova que o sangue do cordão possa ser usado para terapia celular regenerativa

- A maioria das doenças degenerativas ocorre em uma idade mais avançada: qual será a viabilidade e o potencial das células após um armazenamento de 25 a 75 anos?

- Será que daqui 50 anos a metodologia será compatível com os métodos atuais de coleta e armazenamento?

- E se novos conhecimentos surgirem em 50 anos que tornem a terapia celular obsoleta?”

E o mais importante:

“Que tipo de propriedade as células-tronco do sangue de cordão oferecem que não se encontram em células-tronco adultas de medula óssea ou outros tecidos?”

Em resumo, a não ser em familias onde existem doenças hematológicas tratáveis com CT de cordão umbilical, a descoberta e a melhoria nas técnicas de obtenção e diferenciação das CT de diferentes tecidos adultos tornarão cada vez mais desnecessário armazenar o sangue de cordão para uso próprio.

Por Mayana Zatz

Mulheres na ciência

quinta-feira, 11 de março de 2010 | 3:05

jovens-bolsistas

Acabo de voltar de Paris, onde participei da 12ª edição do premio L’Oreal/Unesco para mulheres na ciência - que, não por acaso, acontece sempre quando se festeja a semana internacional da mulher. Esse prêmio, iniciado em 1988, tem como objetivo reconhecer a excelência científica de pesquisadoras ao redor do mundo e incentivar um número cada vez maior de mulheres a abraçar essa carreira fascinante.

São 5 cientistas por ano, uma por continente. Fui a primeira brasileira premiada, em 2001, representando a América Latina, e depois tivemos mais três: Lucia Previato em 2004 e Belita Koiller em 2005, ambas da UFRJ, e Beatriz Barbuy, em 2009, da USP. Por enquanto o Brasil está na frente nessa lista. Além disso, o programa premia jovens cientistas com bolsas ou auxilios para o desenvolvimento de projetos de pós-doutoramento. Ao todo já foram quase mil mulheres contempladas ao redor do mundo, de cerca de 100 paises.

O júri é internacional e presidido por ganhadores de Nobel

O critério  de escolha é o mérito. As candidatas são indicadas por academias de ciência, universidades ou cientistas ao redor do mundo e depois é feita uma seleção rigorosa por um júri internacional, constituido por 17 cientistas e presidido por um prêmio Nobel.  O primeiro a presidir esse conselho foi o professor Christian de Duve, Nobel de Medicina em 1974. Ele se aposentou há 4 anos e deu lugar ao doutor Gunter Blobel, Nobel de Medicina em 1999 . Mas a verdade é que ambos participam ativamente da premiação.

O professor De Duve está super lúcido, apesar dos seus 92 anos, e uma opinião dele pode fazer todo o júri rever uma escolha. Desde que ganhei o prêmio, tive o privilégio de fazer parte desse júri, o que tem sido sempre uma experiência fantástica. Trocar ideias com pesquisadores que ganharam o Nobel não é pouca coisa. Participar de uma discussão científica e ouvir os argumentos desses gênios da ciência é um aprendizado que não tem preço. É  beber diretamente da fonte.

A  premiação na sede da Unesco é uma grande festa

Ouvir as narrativas dessas cientistas laureadas - suas dificuldades para chegar lá, os inúmeros fracassos e tentativas antes de se ter uma expêriencia bem sucedida, suas vidas pessoais - é uma emoção indiscritível  que se renova a cada ano. Temos todas uma característica em comum: a paixão pela ciência, a curiosidade quase patológica em querer descobrir e em querer entender o que torna a nossa vida fascinante. A palavra monotonia não existe no nosso vocabulário. Aliás o termo “fazer a fama e deitar na cama” não existe no mundo científico. Não podemos parar de estudar nunca.

Quem são essas cientistas pemiadas?

cinco-laureadas

No ano passado, duas das escolhidas em 2008  ganharam o prêmio Nobel: a americana Elizabeth Blackburn, por suas pesquisas com telômeros, e a israelense Ada Yonath, na área da imunologia. E neste ano, quais são as apostas? As premiadas foram Rashika El Ridi pela África e paises árabes, Lourdes J. Cruz pela Ásia e Paífico, Anne Dejean-Assémat pela Europa, Alejandra Bravo pela América Latina e Elaine Fuchs pelos Estados Unidos.

São todas mulheres extraordinárias

Mas, por motivos óbvios, a minha preferida é Elaine Fuchs, que trabalha com… Já adivinharam? Células-tronco, é claro. O interesse dela é a pele. A doutora Fuchs ganhou o prêmio L’Oreal/Unesco pela descoberta de proteinas (como a queratina) e de mecanismos fundamentais responsáveis pelo desenvolvimento, manutenção e reparo da pele. Ela teve um papel fundamental na identificação de genes e mecanismos que causam doenças de pele, incluindo câncer e outras muito graves como a epidermose bulhosa.

Elaine Fuchs

Hoje ela trabalha na tentativa de curar essas doenças, bem como lesões de queimaduras através da terapia celular com células-tronco. Para nós cientistas ligados à área médica, a busca da cura é sempre a motivação. Mas não podemos negar que, na área cosmética, regenerar pele e cabelo são missões que têm um apelo gigantesco. De acordo com Elaine Fuchs, o prêmio para quem curar a calvície é de 26 bilhões de euros! Nada mau, não? Tenho certeza que a maioria das pessoas que sofrem de calvície acredita que seria um prêmio bem merecido. E eu imagino poder usar uma verba dessas só em pesquisas científicas. Seria o melhor dos mundos.

Por Mayana Zatz

Como dar uma má noticia? Pessoalmente ou por internet?

sexta-feira, 5 de março de 2010 | 19:35
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Cena do filme 'Amor sem Escalas', com George Clooney

No filme Amor sem Escalas (foto) - com seis indicações ao Oscar - George Clooney representa um alto executivo que viaja por todo o território americano com a missão de demitir pessoas. Eis que surge Natalie, uma jovenzinha recém-formada com uma proposta brilhante: ao invés de um confronto pessoal, ela propõe usar a internet – o skype-MSN ou outro programa semelhante -  para demitir esses funcionários o que, segundo ela, economizaria tempo e dinheiro. O resultado dessa iniciativa no filme é desastroso – aliás, não entendi porque ele foi classificado como comédia. Mas ele me fez refletir sobre uma situação que enfrentamos diariamente. Como explicar a uma pessoa ou a um casal os resultados de  um exame genético? Dar uma boa notícia é ótimo. Mas como lidar com uma má notícia?

Exames genéticos: quem deve se submeter a eles?

Provavelmente em um  futuro próximo, a grande maioria das pessoas queira se submeter a exames genéticos. Hoje eles só são indicados a pessoas que já têm um ou mais parentes afetados na família ou pessoas com risco aumentado de vir a ter uma criança com uma doença genética. Bebês malformados, mães com idade avançada ou que tiveram abortos de repetição sem causa orgânica, são exemplos, entre outros, de indicação de exame genético. Na primeira consulta levantam-se todas as informações e, quando indicado, coleta-se material para confirmar o diagnóstico e saber se há risco de repetição da doença em futura prole. A nossa filosofia sempre tem sido de entregar os resultados dos exames genéticos aos consulentes (pais e/ou pacientes afetados) pessoalmente sem limite de tempo.

Boa notícia é fácil, mas e quando os resultados não são os que gostaríamos?
Dizer a um casal que seu filho tem uma doença genética ainda incurável é sempre doloroso. Assim como informar a uma gestante que o feto em seu ventre será afetado de alguma forma. Embora nada possa diminuir a dor dessas pessoas, acreditamos que o contato pessoal abre mais espaço para esclarecer dúvidas, trocar informações, orientar, contar como estão as pesquisas e dar esperanças que podem ser cruciais no momento da notícia. Mais do que tudo, a proximidade permite trocar emoções, dar um abraço, demonstrar calor humano, coisas difíceis em uma consulta “cibernética”.

E quando o casal mora em outro estado?

Entre as pessoas que atendemos no Centro do Genoma da USP isso é muito comum. Os consulentes às vezes viajam milhares de quilômetros para uma primeira consulta, mas não têm recursos ou disponibilidade de tempo para um retorno. Se a notícia é boa, qualquer meio de comunicação é útil. Mas e quando se trata de uma má notícia, como confirmar um diagnóstico de uma doença, descobrir que o feto será afetado? O que é melhor? Ou menos doloroso? Insistir para que o casal ou consulente volte para uma consulta pessoal obrigando-os com isso a retornar à sua terra natal sozinhos com a sua dor?  Ou utilizar o skype, que permite ao menos a visualização de imagens, para substituir a troca de informações pessoais pelas virtuais?  O que você acha?

Por Mayana Zatz

Cérebro feminino versus masculino

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010 | 21:28

mae-pai-bebe

Quando demitiram o reitor da Universidade de Harvard por ele ter afirmado que homens são mais inteligentes que mulheres, lembro que muita gente perguntou minha opinião a respeito. O que acho? Somos nitidamente diferentes. Quanto antes conseguirmos perceber isto, melhor será o nosso relacionamento e compreensão em relação ao sexo oposto. Uma coisa é certa: os homens têm uma capacidade muito maior de focar (concentrar-se) em um determinado assunto abstraindo-se totalmente do ambiente externo. Será que essa característica melhora a capacidade deles para ciências abstratas? Por outro lado, as mulheres  estão geralmente mais atentas ao que acontece ao seu redor, o que pode dificultar um estudo que exige muita concentração. Mas elas conseguem fazer várias coisas ao mesmo tempo. Será isso genético ou resultado de treino? Uma experiência realizada na Finlândia mostrou resultados muito interessantes e pode ajudar a responder essa pergunta.

Mulheres são capazes de exercer múltiplas funções

Uma das nossas características, mulheres,  é conseguir fazer várias coisas ao mesmo tempo. A mulher que fica em casa tem que estar atenta ao bebê que chora, à panela no fogo, ao filho de dois anos enfiando o dedo nas tomadas e assim vai. Temos que estar sempre com todos os neurônios ligados. Agora observem um homem assistindo a um jogo de futebol na TV. Ele se desliga totalmente do mundo externo. O médico e pesquisador Paulo Saldiva diz que existe um método muito simples para  uma mulher anular o cérebro de um homem: basta lhe dar o controle da TV e duas latinhas de cerveja.

Genético ou ambiental?

Essa solicitação diferente já existia nos homens das cavernas. Enquanto o homem tinha que concentrar toda a sua atenção na caça a mulher precisava exercer várias funções cuidando dos filhos e da alimentação. Na vida moderna a necessidade da mulher exercer múltiplas funções só aumentou, e muito.  Frequentemente com uma tripla jornada: trabalho, filhos e casa. Será que somos treinadas para isso ou temos uma maior plasticidade do cérebro?

O que mostrou a experiência da Finlândia?

Com a taxa de natalidade em queda, os governos de vários países da Europa, entre eles a Finlândia, têm oferecido benefícios para incentivar casais a terem filhos. Naquele país, os pais podem ficar 9 meses afastados do trabalho mantendo seu salário integral. Só que com uma diferença: seis meses o bebê fica só com a mãe e três meses só com o pai.

No início os novos pais ficaram apreensivos

Seriam capazes de cuidar sozinhos do bebê e dos afazeres domésticos? Será que três meses afastados do trabalho não iriam prejudicá-los na carreira? Mas não tinham muita escolha. Ou aceitavam ou perdiam esse direito. E resolveram arriscar.

E adivinhem o que aconteceu?

Os pais voltaram muito mais aptos a exercer múltiplas funções - o que lhes conferiu vantagens também no trabalho. A conclusão é óbvia. Mesmo que ao nascer tenhamos aptidões diferentes, o treino pode ser muito útil. Pergunto: será que vale a pena propormos ao nosso congresso que aprove a licença paternidade?

Por Mayana Zatz

Células-tronco e regeneração óssea

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010 | 21:44

Recebo sempre e-mails de pessoas querendo saber se é possível regenerar osso com células-tronco. Existem muitos bebês que nascem com alterações craniofaciais que requerem uma regeneração óssea eficiente. Mas o número de pessoas que poderão se beneficiar no futuro com essa tecnologia é gigantesco. Se há um tecido que merece ser pesquisado é o osso. De fato, existem inúmeros grupos de pesquisadores trabalhando com esse propósito. Se você procurar no pubmed, o site que lista todas as publicações internacionais sobre esse assunto, verá que há 3.430 trabalhos. Vou falar então das pesquisas que estamos realizando no Centro do Genoma Humano. Para isso, vou entrevistar a Dra. Maria Rita Passos-Bueno e a Dra. Daniela Bueno, que lideram essas pesquisas.

Dra. Rita, vocês estão comparando o potencial de diferentes CT para regenerar osso. Quais são as fontes que vocês já pesquisaram?
R: Estamos trabalhando com células-tronco humanas provenientes de vários tecidos como: polpa de dente de leite, tecido adiposo (descartado em cirurgia principalmente de lipoaspiração), tecido muscular de lábio descartado em cirurgias corretivas de lábio em pacientes fissurados (lábio leporino), entre outros.

Estas fontes celulares são comumente utilizadas?
R: As células-tronco de polpa de dente e de tecido adiposo têm sido objeto de muitas pesquisas e já foram caracterizadas por vários grupos, incluindo o nosso grupo do Centro de Estudos do Genoma Humano-IB USP. Contudo, a Dra. Daniela Bueno, em sua tese de doutorado, descreveu pela primeira vez as células-tronco provenientes de músculo de lábio (músculo orbicularis oris) de pacientes fissurados.

Como é feito o experimento?
R: Estabelecemos as culturas de células-tronco e iniciamos o estudo para confirmar se elas possuem potencial de regenerar osso. Primeiro são realizados testes no laboratório em frascos de cultura (in vitro) para ver se estas células conseguem formar tecido ósseo. Além disso, fazemos experimentos em ratos, para confirmar se estas células podem realmente formar osso “in vivo”. Nestes experimentos, além das células-tronco, utilizamos biomateriais, isto é, moldes que podem ter diversas composições químicas e que auxiliam no processo de ossificação. Eles servem como suporte para que as células-tronco se fixem antes de serem aplicadas nos modelos animais.

Quais são os próximos passos?
R: Um dos nossos próximos passos será avaliar o uso destas células para reconstrução do defeito alveolar de pacientes fissurados, que será um projeto liderado pela Dra. Daniela Bueno. A cirurgia crânio-facial também poderá se beneficiar muito desta nova tecnologia para reabilitar as deformidades crânio-faciais, incluindo a cirurgia de cabeça e pescoço. Além disso, estamos testando outras fontes de células-tronco para avaliar qual delas têm um potencial melhor para formar osso.

Vocês acreditam que os resultados obtidos na regeneração da calota craniana poderão ser extrapolados para ossos longos como o fêmur?
R: Certamente, e já estamos iniciando uma colaboração com o Instituto de Ortopedia da USP para aplicar essa metodologia na reconstrução de outros tipos de ossos.

Quais as principais áreas da saúde que poderão ser beneficiadas pelo uso desta nova tecnologia?
R: Além das já citadas, a odontologia. Esta nova tecnologia poderá beneficiar os pacientes que necessitam de osso para realização de implantes ósseo-integrados.

Por Mayana Zatz

Células-tronco e terapia gênica

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010 | 19:37

A senhora poderia escrever um pouco sobre esse novo trabalho de cientistas japoneses com o cromossomo humano artificial (HAC)? Quais os prós e os contras? Qual o tempo estimado para os testes com humanos?
(Rosana)

Li recentemente uma notícia sobre um trabalho de pesquisadores japoneses utilizando células-tronco multipotentes induzidas e os HAC para, segundo a pesquisa, alcançar a marca de 90% de expressão de distrofina em camundongos mdx. Seria possível nos falar mais sobre a experiência, e dar uma ideia das dificuldades que a técnica enfrentará?
(Marcelo D. Padilha de Oliveira)

Na semana passada contamos a história de Julio Rocha, hoje artista da TV Globo, que teve um irmão, José, com distrofia de Duchenne (DMD). Só recordando: a DMD é uma doença genética que só afeta o sexo masculino. Os meninos nascem com uma mutação em um gene que causa ausência de uma proteína muscular chamada distrofina, fundamental para o músculo. Sem a distrofina, o músculo degenera e há uma fraqueza progressiva.

Existem milhares de cientistas ao redor do mundo trabalhando em pesquisas com o objetivo de achar uma cura para a DMD. Sabe-se que, quanto maior a quantidade de distrofina no músculo, mais leve é o quadro clínico. Portanto o objetivo é aumentar a quantidade dessa proteína no músculo dos pacientes afetados.

Pesquisadores japoneses acabam de publicar um trabalho inovador mostrando que é possível corrigir o defeito genético associando células-tronco e terapia gênica. A pesquisa foi feita com a distrofia de Duchenne, mas a boa notícia é que essa tecnologia poderia ser aplicada a muitas doenças genéticas.

Como usar células-tronco de pessoas com doenças genéticas?

Um dos objetivos das células-tronco é a regeneração ou substituição de tecidos, o futuro da medicina regenerativa. Do mesmo modo que se “troca” um coração que não está funcionando bem por um saudável, estamos trabalhando para substituir células defeituosas por outras normais. O problema é que, no caso de doenças genéticas, não é possível usar as células da própria pessoa, porque todas possuem o gene com a mutação (ou erro genético) que causou aquela doença. Como contornar isso?

Células-tronco de pacientes podem ser usadas associadas à terapia gênica

As células-tronco de pessoas afetadas por doenças genéticas são um verdadeiro laboratório de pesquisas, abrindo novos caminhos para futuros tratamentos. E o que é melhor: elas permitem testar inúmeras estratégias para tentar corrigir o defeito genético e acompanhar o efeito diretamente na célula . Foi o que fizeram os pesquisadores japoneses com a distrofia muscular de Duchenne (DMD). A pesquisa foi feita primeiro com camundongos que têm uma distrofia semelhante à humana (mdx) e com um paciente afetado. Para não complicar, vou falar só do que foi feito com o paciente.

O primeiro passo foi obter linhagens com mutações que causam distrofia tipo Duchenne (DMD)

O paciente, um menino com DMD, tinha uma deleção (perda de um pedaço) grande no gene da distrofina. Foram retiradas células da sua pele (fibroblastos) que foram reprogramadas para se diferenciarem em diversas linhagens celulares, inclusive células musculares - as chamadas células IPS, do inglês induced pluripotent stem-cells. O próximo passo foi introduzir um gene normal da distrofina nessas células, contido em um chamado cromossomo artificial humano (HAC- human artificial chromosome).

As células reprogramadas formaram vários tecidos

O passo seguinte foi verificar se as células conseguiam formar diferentes tecidos e se estes expressavam a proteína de tamanho normal. O experimento mostrou-se um sucesso: células musculares derivadas tinham a distrofina saudável. Embora todo o experimento tenha sido feito no laboratório, e precise ser comprovado em vivo, trata-se de mais uma estratégia visando o tratamento das distrofias e de outras doenças genéticas.

O centro de estudos do genoma humano está obtendo linhagens de pacientes com doenças genéticas

Um dos nossos objetivos no centro de estudos do Genoma Humano é o de derivar linhagens celulares de pacientes com doenças genéticas e testar diferentes terapias nessas células. Acompanhar o sucesso de experimentos como esse é animador. Ainda não podemos saber quanto tempo teremos de esperar para poder usar essa estratégia na clínica. Mas é mais um tijolinho que se acrescenta na direção da cura.

Por Mayana Zatz

Distrofias musculares e meu reencontro com Julio

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010 | 20:57

Quem é Julio?

Na semana passado contei a história de Julio, um menino fantástico de 9 anos, que tinha um irmão mais velho, José, com distrofia muscular de Duchenne. Algumas pessoas adivinharam de quem eu estava falando. É o Julio Rocha, hoje é ator de novelas. Na sua última novela, Caras e Bocas fez o papel de vilão, imaginem. Não acreditei quando soube que aquele personagem mau caráter era menino Julio. O menino que me marcou para sempre pela sua coragem. E na vida real, como é o verdadeiro Julio? Por que esse nosso reencontro?

Já há algum tempo soube que um jovem rapaz estava querendo ajudar a nossa ABDIM - Associação Brasileira de Distrofia Muscular -, mas não tinha a menor ideia de quem se tratava (confesso que vejo TV muito raramente). Ele não se apresentou como profissional de televisão. Muito pelo contrário fez questão de se identificar como o irmão do José.
No ano passado, Julio apareceu na festa de Natal que o Grupo Harmonia Solidária promove há mais de 7 anos para a ABDIM. Aliás, quero aproveitar para agradecer a esse grupo que incansavelmente tem proporcionado momentos de muita emoção a todos os nossos pacientes e colaboradores. Eu estava no exterior e não pude comparecer.Mas seus pais, Eduardo e Ana, estavam presentes e me mandaram um cartãozinho. Foi só então que eu soube quem eles eram. Quis revê-los a qualquer custo.Como estaria Julio agora?

O nosso reencontro foi emocionante. Julio que veio com seu pai, ainda tem o mesmo olhar da criança gravado na minha memória. O ator que interpreta personagens maldosos com tanto realismo continua tão generoso quanto o menino que conheci. Por que veio nos procurar? Ele quer ajudar tantos outros meninos com distrofia muscular que nasceram depois que José, seu irmão, que partiu prematuramente aos 16 anos.

Julio

Relembramos o passado. Falamos do José, dos seus ensinamentos, de quão importante ele havia sido e das lembranças boas que ele havia deixado. Lembramos também do Willian, o amiguinho que também participou da coleta noturna de sangue e a quem também sou muito grata. Recordamos como nascera a ABDIM na década de 80 e da sua primeira sede, a minha sala no prédio da Biologia da USP. Contamos que com os tratamentos de hoje, a ABDIM consegue hoje estender a expectativa de vida por mais de 10 anos . Da nossa luta por recursos para construir uma sede nova que atenda mais pacientes. Falamos das pesquisas atuais, da nossa esperança de tratamento com células-tronco e também das dificuldades em conseguir importar reagentes ou camundongos afetados para testes pré-clínicos.Julio nos interrompia a cada momento: “Como posso ajudar? Como posso ajudar?”

E mais uma vez eu revia o menino de 20 anos atrás que nos convenceu que queria ajudar o irmão doando o que ele tinha de mais precioso: o seu próprio sangue. Mesmo depois de ter se consagrado como ator, dos holofotes, do glamour, do assédio da imprensa e dos fãs, Julio continua com a mesma garra. Preocupando-se com tantos outros Josés que ainda lutam, que têm esperanças….

Você certamente conseguirá nos ajudar Julio. Saber que você estará do nosso lado, batalhando por essa causa já é uma ajuda gigantesca. E você vai redescobrir algo que já sentiu quando criança. O retorno enorme que recebemos quando lutamos para ajudar os outros. Esse calor humano não tem preço. Todos aqueles que já trilharam esse caminho e se envolveram pessoalmente sabem do que estou falando.

Por Mayana Zatz

Hormônio de crescimento: os ensinamentos de um menino muito especial

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010 | 21:53
Julio, aos 9 anos: mais coragem que muitos adultos

Julio, aos 9 anos: mais coragem que muitos adultos

Tudo começou há cerca de 20 anos. Naquela época descobrimos que pacientes raros com distrofia de Duchenne - doença genética causadora de uma degeneração progressiva dos músculos - com deficiência de hormônio de crescimento (GH) tinham um quadro muito mais leve da doença. Desconfiamos então que esse mesmo hormônio, tão importante na fase de crescimento, poderia estar prejudicando meninos com distrofia. Se isso fosse verdade, inibir o hormônio de crescimento em pacientes com distrofia poderia, talvez, ser benéfico. Precisávamos pesquisar mais sobre o GH. E foi então que surgiu Julio, esse menino tão especial. Graças a ele conseguimos realizar essa pesquisa que hoje poderá ser muito importante, quando estamos estudando o efeito do GH em células-tronco.

O primeiro passo era entender como era liberado o GH

Para poder inibir o GH precisávamos entender como e quando ele era liberado em meninos normais. Já sabíamos que existe uma maior liberação à noite, durante o sono. Aliás, é o que todos os pais dizem para convencer seus filhos que relutam em ir para cama à noite… “Se você não dormir não vai crescer.”

A dificuldade era: como estudar crianças normais?

Descobrimos naquela época que havia muito poucos estudos em crianças com crescimento normal. É fácil de entender. Só vai procurar ajuda médica quem está com problema de crescimento. Seria verdade que o GH é liberado à noite, durante o sono?

Para pesquisar isso, o ideal seria fazer esse estudo quando a criança estivesse dormindo normalmente, sem stress, na sua própria cama, diziam os especialistas. É só colocar um cateter e coletar umas gotinhas de sangue de 20 em 20 minutos, a noite toda. Fácil de falar… Mas e na prática, como poderíamos fazer isto?

Será que as famílias que tinham meninos com distrofia poderiam colaborar?

Julio queria a qualquer custo ajudar o irmão, José

Julio queria a qualquer custo ajudar o irmão, José

Expus o problema a famílias que tinham filhos com distrofia. Os pais estão sempre prontos. Mas nesse caso, precisávamos de crianças e não de adultos. E foi então que conheci Julio, um menino lindo de 9 anos, cheio de energia, sapeca como é esperado na sua idade. Sua única tristeza era que José, seu irmão mais velho, tinha distrofia de Duchenne. Estava em uma cadeira de rodas e não podia brincar como ele. Ao ouvir falar dessa pesquisa, ofereceu-se imediatamente. Queria a qualquer custo ajudar seu irmão. Aos nove anos, Julio tinha mais coragem que muitos adultos.

A pesquisa foi realizada

Julio conseguiu convencer um amigo a participar

Julio conseguiu convencer um amigo a participar

Além de se oferecer para a pesquisa, Julio conseguiu convencer um amiguinho a participar junto e a se manter firme quando este estava prestes a desistir, no meio da noite. Graças a eles e aos meus próprios filhos (que também eram crianças naquela época) aprendemos muito sobre a liberação de GH em crianças normais. Os resultados foram publicados em 1989 na revista americana American Journal of Medical Genetics. O tempo foi passando, novas pesquisas e novas ideias foram surgindo. Só agora, estamos retomando as pesquisas com GH. Queremos saber como atua o hormônio de crescimento nas células-tronco e tentar entender o seu papel na formação de músculos e nas distrofias musculares . Os dados que obtivemos naquela ocasião vão ser muito importantes para avaliar os resultados das pesquisas atuais.
E o Julio? O que aconteceu com ele?

Perdi o contato com sua família, mas nunca esqueci o gesto desse menino. A sua generosidade e o imenso amor que ele demonstrou por seu irmão me marcaram para sempre. Depois de muitos anos, acabo de reencontrá-lo, já adulto. Descobri que é uma pessoa conhecida. E continua muito especial. Na semana que vem , vou contar o porque do nosso reencontro. Será que alguém descobre quem é Julio?

Por Mayana Zatz

Laser, células-tronco, odontologia e câncer

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010 | 0:21

laser

VEJA publicou na primeira semana de janeiro uma longa reportagem sobre os benefícios dos lasers em várias áreas da medicina. Além dessas aplicações, essa nova tecnologia tem importante uso na odontologia e também na prevenção e tratamento das mucosites orais de pacientes submetidos a altas doses de quimio e radioterapia, com significante melhora da sua qualidade de vida. Recentemente, fizemos uma pesquisa sobre o tema em colaboração com o professor Carlos de Paula Eduardo, titular da Faculdade de Odontologia da USP. Analisamos os efeitos do laser de baixa potência na proliferação de células-tronco. Os resultados, que foram publicados na revista Lasers in Surgery and Medicine, foram muito interessantes - e explicam porque os raios laser atuam na regeneração celular.

Os lasers ajudam na recuperação de mucosas

A equipe de cirurgiões dentistas da Faculdade de Odontologia da USP, sob a coordenação do professor Carlos, é apaixonada pelos lasers há muito tempo. Perceberam há alguns anos que, quando utilizavam os lasers de baixa potência nos tecidos moles bucais, em lesões benignas onde as mucosas estavam comprometidas, elas se recuperavam mais rapidamente. Se você já teve herpes com manifestações bucais ou aftas alguma vez na vida deve saber o quanto isso incomoda. Imagine então lesões maiores na boca.

Como agem os lasers?

Como pesquisadores que somos, possuídos pela curiosidade, não nos contentamos em apenas observar esse efeito. Isso era pouco. Queríamos saber mais… Qual era o mecanismo pelo qual os lasers interagiam com as mucosas? Será que eles atuariam também sobre as células-tronco? E para responder essa questão fizemos um experimento muito simples.

O efeito dos lasers nas células-tronco

Estabelecemos uma cultura de células-tronco a partir da polpa dentária que foi separada em dois grupos e que foram cultivados segundo os protocolos habituais. A diferença é que no primeiro grupo aplicamos também o laser - e no segundo, não. É importante ressaltar que trata-se de um laser de baixa potência.  Após um período de 24 horas, as células foram analisadas em teste cego, ou seja, quem observava os resultados não sabia se as células tinham sido irradiadas ou não. E adivinhem o que aconteceu? As células, em déficit nutricional, submetidas à irradiação com laser de baixa potência, haviam proliferado mais. Acabávamos de comprovar que eles atuavam na divisão celular das células-tronco da polpa dentária. Tínhamos a explicação para a melhor recuperação das mucosas alteradas.

O valor do laser para pacientes com câncer

A quimioterapia e a radioterapia de cabeça e pescoço podem causar lesões importantes nas mucosas bucais. Cirurgiões dentistas que estão trabalhando em hospitais e universidades têm dado atenção especial aos pacientes que são submetidos a altas doses de quimioterapia e radioterapia nessas partes do corpo. Eles podem apresentar manifestações severas nos tecidos moles da boca, uma inflamação da mucosa chamada mucosite oral, que provoca muita dor e extrema dificuldade na hora de comer. Além disso, essas feridas tornam-se porta de entrada para microorganismos, aumentando significativamente o risco de infecções.

Todos os centros de quimio e radio deveriam ter lasers

É  fundamental  que os protocolos utilizados nas quimioterapias sejam discutidos, entendidos e aplicados por equipes multiprofissionais (médicos, dentistas, enfermeiras, etc), pois é necessário um profundo conhecimento científico da tecnologia laser para alcançar os benefícios desejados . Mas vale a pena. As mucosas se recuperam rapidamente sem efeito colateral e o paciente ganha muito em qualidade de vida!

O doutor Carlos conta a história de uma garotinha de 3 anos que havia sido internada para transplante de medula óssea e tinha muitas lesões bucais. Amedrontada, chorou quando o protocolo de laserterapia foi iniciado. Mas à medida que foram aparecendo os efeitos do tratamento e o alivio da dor, ela mesmo pedia o laser antes de tomar o café da manhã. Era preciso que a equipe de odontologia fosse cedinho ao hospital, mas o seu sorrisinho de satisfação compensava qualquer esforço.  É por isso que defendemos que todos os centros de quimioterapia e radioterapia tenham a tecnologia laser integrada ao serviço prestado. O custo do equipamento laser de baixa potência, de origem nacional, é baixo - e o retorno para a saúde do paciente é gigantesco.

Por Mayana Zatz

O que protege algumas pessoas de doenças respiratórias?

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010 | 2:28

Professora Mayana,

Embora sabemos dos malefícios do cigarro, algumas pessoas que vivem muito fumam até morrer e não desenvolvem câncer ou doenças respiratórias. Será que isto depende de fatores genéticos?

Obrigada,

Natalia

De fato, Natalia, existe um consenso acerca dos malefícios causados pelo fumo. Porém, todos nós conhecemos pessoas que fumam desbragadamente a vida toda e morrem idosos sem apresentar nenhum problema respiratório como asma, enfisema pulmonar ou doença crônica obstrutiva do pulmão (DCOP). O que as protege? Um trabalho internacional publicado recentemente na prestigiosa revista New England Journal of Medicine sugere que pessoas portadoras de uma variante do gene responsável por uma proteína chamada MMP-12 teriam menos risco de desenvolver doenças pulmonares mesmo quando são fumantes ou expostos a condições ambientais negativas (como poluição ou exposição a agentes tóxicos).

Qual é a função do gene MMP-12?

O gene MMP-12 (matrix metallopeptidase 12) é responsável pela produção de uma proteína que já se mostrou implicada na ocorrência de enfisema pulmonar. A  explicação mais provável é que essa proteína degradaria tecidos conjuntivos como a elastina, que dão elasticidade ao pulmão. O cigarro provoca uma produção maior de MMP-12 - portanto, maior degradação da elastina. Com isso, a flexibilidade do pulmão diminuiria. Quanto maior a quantidade da proteína, maior a rigidez do pulmão - e maior o prejuízo.

Foram estudadas mais de 8.300 pessoas

A pesquisa envolveu um número grande de pessoas, incluindo crianças e adultas. Foram comparadas crianças com e sem asma e adultos fumantes com DCOP ou sem DCOP. Os resultados mostraram que pessoas que tinham uma variante do gene MMP-12 responsável por uma produção menor de proteína tinham um risco diminuído de apresentar doenças pulmonares. Os resultados confirmaram uma hipótese anterior de pesquisadores holandeses segundo a qual a asma, bronquite e enfisema são manifestações diferentes de uma mesma doença influenciada por fatores genéticos e ambientais (por exemplo, o fumo).

Produzir menos é melhor

Ao contrário da maioria das situações, nesse caso produzir menos é melhor. Portanto, se você tem a variante do gene que produz menos proteína, sorte sua: você tem menos chance de ter uma doença pulmonar, mesmo que fume ou esteja exposto a fatores ambientais desfavoráveis. A má noticia é que somente cerca de 10% das pessoas são portadoras desse gene. Para a grande maioria, fumar continua sendo altamente prejudicial.

Por Mayana Zatz