Je suis Geddel

Temer, Lula, Dilma, Geddel e mais nove em dez políticos do Brasil – tudo a ver. Os R$ 51 milhões são obra coletiva da nossa admirável vida pública

De quem será a paternidade do ex-ministro, ex-deputado e ex-político “influente” Geddel Vieira Lima, que saiu da Bahia para a história do Brasil como o artista que conseguiu amontoar 51 milhões de reais em dinheiro vivo, e sem o menor vestígio de origem, num apartamento de Salvador? Naturalmente, com o ritmo alucinante que a corrupção alcançou atualmente neste país, Geddel pode ser superado a qualquer momento por algum concorrente e cair várias posições na tabela nacional da ladroagem; deixará então de aparecer como estrela do noticiário, ao lado de potências como Joesley Batista ou Rodrigo Janot, e corre o risco de acabar um dia como um tremendo gente fina. Mas enquanto isso não acontece, ele é hoje a própria fotografia de como se faz política no Brasil – roubando e escondendo malas e caixas com notas de 100 e 50 reais. A imagem do seu tesouro secreto, que correu o Brasil e o mundo, vale mais do que uma tonelada de editoriais da imprensa, discursos e manifestos de analistas políticos: corrupção é isso, como se vê na foto, e não é preciso explicar mais nada. Explicar o que? Político brasileiro vive assim. Está na fotografia.

É muito curioso, nessas condições de temperatura e pressão, que não tenha ficado claro até agora quem são os pais políticos de Geddel. Um colosso como ele, ameaçado de entrar no Livro de Recordes da roubalheira mundial, parece, aos 58 anos de idade, não ter tido uma biografia até um ano atrás – é como se tivesse caído do céu direto no Palácio do presidente Michel Temer, como ministro de Governo. Tudo o que se sabe dele pela mídia, salvo uma ou outra exceção, é que Geddel é um “ex-ministro de Temer”, ou que é “envolvido com Temer”. É claro que sim. Foi nomeado ministro há cerca de um ano, quando Temer assumiu a presidência, e ali não durou mais do que seis meses – teve de ser demitido, depois de uma história confusa com apartamentos de luxo em Salvador. Também é envolvido com Temer – e como. Quem não é envolvido com Temer, aliás? O homem está na política há quarenta anos, falando com todo o mundo, todos os dias, em todos os governos.

Mas é rigorosamente claro, também, que o dono os 51 milhões não começou a vida em 2016. Não é preciso fazer nenhum teste de DNA para constatar que, na política brasileira atual, Geddel tem pai, sim, e até mãe. Raramente se fala, mas isso não muda o fato de que Geddel foi não só ministro do ex-presidente Lula, como vice-presidente da Caixa Econômica no governo Dilma – um dos mais notórios antros de ladroagem na história da República. Na ponta do lápis, por sinal, foi muito mais de Lula e de Dilma do que de Temer: contra os seis meses que passou no governo atual, ficou três anos inteirinhos como ministro da Integração Nacional de Lula e dois anos e nove meses como mandarim na Caixa de Dilma. Obviamente não nomeou a si próprio, sem que Lula e Dilma soubessem de nada – se bem que o ex-presidente, caso perguntado, não iria surpreender ninguém se dissesse que não, nunca conheceu esse Geddel. É tudo uma trama para impedir que ele ganhe as eleições de 2018. Tripla paternidade, então? Outro problemão é saber quanto do dinheiro foi roubado em qual época. Será que os 51 milhões vieram só no governo Temer – ou é resultado de toda uma obra?

De tudo isso sobra o seguinte: você pode achar que Temer é ladrão porque Geddel foi ministro dele, mas aí também precisaria achar que Lula é tão ladrão – e Dilma é tão ladra – quanto o mesmo Temer que tanto acusam. Que raio de presidente é esse Lula – capaz de deixar um criminoso agir livremente como ministro durante três anos seguidos e não perceber nada de errado com ele? Ou é cúmplice, ativo ou passivo, ou é um idiota – a menos, é claro, que Geddel tenha agido corretamente esse tempo todo, e os três – Lula, Dilma ou Temer – sejam perfeitamente inocentes. Enquanto essas dúvidas não se esclarecem, a conclusão mais coerente é que todos eles, e 90% dos políticos brasileiros, são extraordinariamente parecidos. O que mais gostariam de dizer hoje, no fundo, é a mesma frase – Je Suis Charlie – que os franceses utilizaram anos atrás para afirmar sua solidariedade com os jornalistas da revista Charlie Hebdo assassinados pelo terrorismo islâmico. Só teriam de traduzir: ”Je Suis Geddel”.

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