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Desculpe, sr. réu

O ex-presidente Lula acha que as leis brasileiras atrapalham muito a sua vida, e por isso acredita que tem direito a receber desculpas

O ex-presidente Lula, falando há pouco para o seu próprio público, manifestou o que parece ser o seu desejo mais recente: quer que o juiz Sérgio Moro, que o condenou a nove anos e meio de prisão num dos variados processos por corrupção a que responde no momento, peça desculpas para ele. Lula explicou que não pretende ser absolvido – o que, aliás, não é mais possível no mundo das coisas reais, levando-se em conta que ele já foi condenado. A essa altura não há nada que se possa fazer: o juiz, mesmo que esteja morto de arrependimento, não pode mais voltar atrás e trocar a sentença que deu por uma outra. Quem pode mudar as coisas, pelo que está escrito na lei, é o tribunal que examina no momento a decisão de Moro – e, acima daí, outros tribunais ainda mais elevados. Mas Lula, pelo jeito, não parece muito confiante nas suas próprias razões. Disse que já está “lascado”, e diante desta constatação pessoal o que lhe restaria agora seria o consolo de um pedido de perdão. É uma novidade, pelo menos. Normalmente, segundo os hábitos em vigor no resto do mundo, quem pede perdão é o sujeito que foi condenado. No Brasil de hoje, segundo Lula, é o contrário.

Tudo isso, naturalmente, é gritaria de arquibancada, que xinga o juiz mas não muda o resultado. Mas também é uma comprovação a mais de que Lula continua convencido da existência de dois Brasis separados – um para todos os cidadãos brasileiros e um outro, diferente, só para ele. Quanto mais a sua situação penal se complica, mais o ex-presidente tem certeza de que a lei não pode ser aplicada a ele. Se for, como está sendo agora, trata-se de um crime de lesa-pátria: segundo a sua visão das coisas, só há justiça quando as decisões são a seu favor, e só existe na sociedade brasileira um cargo à altura de suas virtudes – o de presidente da República. Quem não concorda é inimigo do povo, do Brasil e da humanidade. Você sabe quem é essa gente – são “eles”. Se o incomodam, pelo motivo que for, só podem lhe pedir desculpas.

 

 

 

 

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  1. Expressão criada, acredito eu, por Arnaldo Jabor: “esquerdofrenia”. Pela semelhança com a esquizofrenia. Parece mais definidora do que a consagrada “esquerdopatia”.

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