Blogs e Colunistas

23/09/2008

às 9:34 \ Arquivo

Alergia de pele e seu tratamento


A introdução desta coluna é uma linda história de amor, que começou com uma horrível alergia de pele. E essa paixão simplesmente revolucionou a história da cirurgia.

Aconteceu há pouco mais de um século. Robert Koch, médico e cientista, acabara de descobrir a existência de bactérias, invisíveis ao olho nu, capazes de infectar seres humanos. Ele tinha encontrado os assassinos responsáveis pelas febres pós-cirúrgicas, as hoje denominadas infecções pós-operatórias. Até então, por puro desconhecimento, a maioria dos cirurgiões não tomava cuidado com limpeza e assepsia. Não era costume lavar as mãos entre as cirurgias. Os cirurgiões usavam o dia todo o mesmo avental cirúrgico, mesmo que estivesse sujo de sangue e pus. Eles reutilizavam seus instrumentos, sem limpar, em vários pacientes.

A descoberta de Koch foi bombástica. Em pouco tempo, o mundo inteiro adotou o método de esterilização por vapor d´água. Tudo o que entrasse em contato com o paciente passava por esse processo. Havia, no entanto, um problema: as mãos dos cirurgiões, assistentes e enfermeiras. Obviamente, não poderiam ser limpas dessa maneira. A rotina era lavar e escovar muito bem, friccioná-las com toalhas esterilizadas e passar uma solução corrosiva que incluía produtos agressivos como o formol.

Esse preparo das mãos acabou agredindo a pele delicada de uma jovem enfermeira da Universidade John Hopkins. A dermatite foi ficando grave, e não cedia com tratamento algum. Não havia outra opção, ela teria que se afastar. A tristeza tomou conta de seu ser, o que seria dela sem a profissão à qual ela tanto se dedicara? Quem poderia salvá-la de tão cruel destino? Foi então que apareceu seu príncipe encantado: um cirurgião apaixonado por ela e muito criativo. Ele inventou as luvas de borracha, finas o suficiente para não impedir os movimentos das mãos da sua amada, mas que protegiam e eliminavam o agressivo ritual de limpeza.

Essa invenção superou qualquer expectativa, pois as luvas podiam ser esterilizadas por vapor d´agua. O final da história? O cirurgião e a enfermeira se casaram, viveram felizes para sempre, e deixaram para a posteridade as famosas luvas de borracha, espalhadas por todas as salas cirúrgicas do mundo.

Agora vamos conhecer melhor a vilã dessa história, a alergia, e como ela age na pele.

A pele sensível

Uma das funções da pele humana é servir de barreira contra o meio ambiente. Ela protege nosso corpo contra microorganismos e substâncias que encontramos vida afora.

Algumas pessoas, no entanto, desenvolvem reações da pele depois do contato com substâncias que não incomodam a maioria. Nessa situação, a pele é chamada de alérgica. O culpado é o sistema imunológico que deflagra uma inflamação, e deixa a pele avermelhada, ressecada. Ela coça e, em casos mais graves, chega a rachar.

A lista de agentes causadores de alergia de pele é ampla. Existem produtos agressivos que irritam com facilidade, dependendo da freqüência de uso. É o caso dos produtos de assepsia usados pela enfermeira da história. E também detergentes e produtos de limpeza que agridem as mãos de donas de casa.

Existe outro tipo de sensibilidade da pele, causada por produtos que agridem especificamente algumas pessoas, sem incomodar a maioria. É o caso de alergia a tinturas de cabelos, cosméticos, maquiagem, esmalte de unhas, anéis, brincos e outras bijuterias. O incômodo pode aparecer após o contato com os objetos mais variados, incluindo até mesmo pastas de couro utilizadas no trabalho, moedas, direção do automóvel, tinta de jornal.

É importante saber que, uma vez alérgica, a pessoa vai ser sempre alérgica. A partir do momento em que a sensibilidade começa, sempre que a pessoa entrar em contato com a mesma substância, o problema volta. Pode demorar uns dois ou três dias, mas volta. Mesmo que a pele esteja bem, sem qualquer sinal de inflamação no momento do contato. Por isso, o melhor tratamento para a alergia de pele é evitar o contato com o agente causador do problema.

Muitas vezes, evitar o contato significa sacrifícios. Por exemplo, para quem não consegue usar brinco por conta da alergia. Mas, se você tem alergia a bijuteria, não insista na utilização delas, caso contrário a alergia se intensificará e você terá reações cada vez mais fortes. Quanto à alergia a esmalte, felizmente existem linhas hipoalergênicas deste produto que costumam resolver o problema.

Há outras situações que podem complicar bastante o dia-a-dia: como lavar a louça se você é sensível a detergentes? Como pintar os cabelos, se a tinta for prejudicial? Imagine então se a armação dos óculos der alergia, ou o desodorante, o que fazer?

Como não há meio de continuar a ter contato com o que causa alergia, o jeito é sair em busca de alternativas. Por isso, procure tinturas de cabelos de outras marcas, com outra composição. Mude o material da armação de seus óculos. Troque de desodorante: também nesse caso existem linhas hipoalergênicas ou fórmulas que podem ser prescritas para pessoas sensíveis. Se não funcionar, a toxina botulínica ajuda a diminuir o suor e resolve a questão. Use luvas se você tiver que continuar a lavar louça. Em resumo: o médico, junto com o paciente, devem encontrar um caminho para evitar o contato com aquilo que causa sensibilidade na pele.

Existe tratamento?

Há cremes que melhoram os sintomas. Eles eliminam a vermelhidão, a coceira e todos os sinais associados à alergia. Os cremes mais usados são aqueles à base de cortisona ou os imunomoduladores (pimecrolimus ou tacrolimus.) Uma boa hidratação também aumenta a resistência da pele. Por esse motivo, acrescenta-se um hidratante hipoalergênico na prescrição. Em casos mais sérios, associa-se medicamentos por via oral.

O que infelizmente não existe ainda é algo que reverta a tendência da pessoa a desenvolver o problema. Mas quem sabe isso será descoberto logo mais por alguém que esteja perdidamente apaixonado por uma garota perdidamente alérgica?

Nota: a história do surgimento das luvas cirúrgicas e muitas outras curiosidades sobre medicina moderna estão no livro O século dos cirurgiões, de Jurgen Thorwald.

Por Lucia Mandel

Deixe o seu comentário

Aprovamos comentários em que o leitor expressa suas opiniões. Comentários que contenham termos vulgares e palavrões, ofensas, dados pessoais (e-mail, telefone, RG etc.) e links externos, ou que sejam ininteligíveis, serão excluídos. Erros de português não impedirão a publicação de um comentário.

» Conheça as regras para a aprovação de comentários no site de VEJA

Powered by WP Hashcash

4 Comentários

  1. ANDREA

    -

    16/12/2011 às 18:58

    Por gentileza gostaria de uma sugestão.
    Fiz um teste de contato e tenho alergia de sulfato de níquel.
    Gostaria de saber se existe uma tinta para cabelo que não contenha esse componente
    Agraçeco antecipadamente
    Andréa

  2. Juliano Camargo B.

    -

    31/08/2011 às 14:32

    Adorei a matéria sobre alergias, me ajudou bastante a saber mais sobre a minha pele, identificar os causadores da alergia e como fazer os tratamentos corretos.
    É importante os leitores saberem também que reações alérgicas podem estar associadas ao sangue sujo, nesse caso uma boa limpeza no sangue pode ajudar até acabar com essas alergias, uma boa opção que eu descobri recentemente é tomar suco de clorofila, além de ser desintoxicante e desoxidante, traz ótimos resultados para a saúde do corpo em geral.

  3. Luiza santana

    -

    06/05/2011 às 2:08

    Ah!!! tomara que apareçe logo um apaixonado por uma super alérgica para nos ajudar. estou refén de uma alergia. Estou sendo mapeada para descobrir a que.
    me sinto mal, a estima esta baixa. meu corpo esta tomado por uma dermatite, que pode ser liquen, pode ser hepatite, pode ser tanta coisa. e eu fico aqui. Gostei da materia. parabens.
    um beijo Luiza

  4. Anonimo

    -

    05/01/2011 às 8:26

    Eu sou homem e tenho uma duvida e espero que vocês possam me ajudar!

    Minha esposa apareceu com uma macha de cada lado no pescoço que pareciam chupadas, eu fiquei louco com ela. Bom ai ela me disse: “É alergia, cocei muito, acho que e do esmalte, sei la” .
    Bom, ai fiquei muito puto com ela, mas procurei pensar no que ela havia dito.

    Então pergunto a vocês:

    E possível ser alergia do esmalte?

    Obs.: A lesão era avermelhada quando eu vi e depois foi ficando roxo

    responder a comentário


 

Serviços

 

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados