Uma história de vida dura, inspiradora – e bem real

Filme e livro 'O Castelo de Vidro' contam a infância da jornalista Jeannette Walls, com com pais sem muito talento para as coisas práticas da vida

Enquanto frequentava as altas rodas de Manhattan como colunista social da revista semanal New York, Jeannette Walls escondia um segredo: sua infância difícil, de mudanças repentinas, falta de casa e de comida, com pais sem muito talento para as coisas práticas da vida. Ela contou sua história no livro O Castelo de Vidro, lançado no Brasil pela Globo, que deu origem ao longa-metragem de mesmo nome dirigido por Destin Daniel Cretton, já em cartaz no país. “O filme é muito fiel ao livro”, diz ela em entrevista a VEJA. “O diretor, que também é um dos roteiristas, expandiu alguns personagens e eventos, mas sempre me consultou antes.”

Brie Larson interpreta Jeannette na fase adolescente e adulta, quando ela é jornalista em Nova York – as meninas Chandler Head e Ella Anderson fazem a personagem na infância. Rex, o pai sonhador e alcoólatra, é vivido por Woody Harrelson, enquanto Naomi Watts faz a mãe, Rose Mary, para quem nada é mais importante do que a arte. No começo do filme, Jeannette tem dois irmãos, Lori (Olivia Kate Rice, Sadie Sink e Sarah Snook) e Brian (Iain Armitage, Charlie Shotwell e Josh Caras) – só mais tarde nasce Maureen (Eden Grace Redfield, Shree Crooks e Brigette Lundy-Paine). Apesar de ter tido uma infância sofrida, a escritora não tem amargura. “Fiz a escolha de aceitar a vida que meus pais me deram, o que não significa que vou idealizá-los”, disse Jeannette, que, hoje, tem sua mãe morando numa casa, em sua fazenda.

 

Pais sem-teto

A caminho de uma festa chique, Jeannette Walls (Brie Larson) está no banco de trás de um táxi, que quase atropela seu pai Rex (Woody Harrelson) enquanto ele revira lixo com sua mulher, Rose Mary (Naomi Watts). Jeannette se esconde dos dois. A cena aconteceu de verdade, com a ressalva de que, nesta ocasião específica, Rex não estava presente – mas Jeannette encontrou os dois muitas vezes procurando o que comer no lixo. “Uma das razões pela qual escrevi o livro foi que vi minha mãe revirando o lixo quando eu estava indo para uma festa chique”, conta a escritora. “Depois fui conversar com ela num almoço e perguntei o que deveria dizer às pessoas. E ela me respondeu: ‘Você deveria dizer a verdade’.” Foi o que fez.

 

 

Horror e aventura

O filme então faz flashbacks para mostrar o passado de Jeannette. Pequenininha, ela pede comida para a mãe, que está pintando e assim permanece. A menina sobe num banquinho para cozinhar a única comida disponível, salsichas. E vira a panela de água fervendo sobre a barriga. Os Walls são obrigados a levá-la ao hospital, onde Jeannette fica fascinada pela quantidade de comida. Mas, quando a filha está melhor, Rex, por não ter dinheiro e temendo ser acusado de negligência, rapta Jeannette do quarto. “Tudo aquilo foi verdade”, diz a escritora. “Quando eu era criança, achava tudo muito empolgante, uma aventura. Para uma criança pequena, a realidade é o que você conhece. Eu achava que era uma infância meio normal. Ir ao hospital era estranho porque os outros eram estranhos.”

 

Aprendendo na marra

Menina, Jeannette tem medo de entrar na piscina. Rex não tem dúvida: joga a menina na água, e ela quase se afoga. “A verdade é que muita gente aprendia a nadar assim”, conta Jeannette.

 

Ideias avançadas

“De vez em quando, leio uma notícia sobre um avanço científico no jornal e penso: ‘Nossa, meu pai me falou disso 40 anos atrás!’”, diz Jeannette. Rex nunca conseguiu dar rumo à sua vida, em termos práticos, mas era um homem brilhante. A tal casa de vidro tinha projeto de abastecimento por energia solar, algo de que não se falava nos anos 1970. No final do filme, morando num prédio invadido em Nova York, o Rex verdadeiro aparece falando mal da especulação imobiliária, especificamente de um certo presidente dos Estados Unidos. “Ele era obcecado por Donald Trump!”, conta Jeannette. “Ele falava que ele era um filho da p… interessado em dinheiro, que ia se tornar um ditador e era uma ameaça aos Estados Unidos.”

 

Mudanças constantes

Sem renda fixa, a família vive de mudança – o filme teve de condensar um pouco o número de transferências por causa da duração. Dorme onde dá: uma noite, no deserto. “Faz bem para a coluna deitar no chão”, diz Rex. Numa das mudanças, as crianças vão fechadas no baú de um caminhão. Num momento de extrema dificuldade financeira, Rose Mary insiste para que morem com a mãe de Rex, que reluta. Erma (Robin Bartlett) é raivosa e amarga e desconta tudo nos outros. Um dia, as meninas pegam Erma abusando de Brian. Os três se juntam para se defender. “Erma é a personificação dos demônios do meu pai, que sofreu muito na infância. Ele era incapaz de se defender dela. Mas deu a nós as ferramentas para nos protegermos”, diz Jeannette. “Acho um momento triunfante do filme.” Mas Erma também era brilhante, fazendo problemas matemáticos complexos de cabeça, apesar de ser uma mulher simples, sem muito estudo. Finalmente, eles acham uma casa caindo aos pedaços no meio do mato, e lá Rex promete que, um dia, vai construir o castelo de vidro do título.

 

 

Alcoolismo

Rex tinha um problema: a bebida. “Acredito que ele era bipolar, e o álcool era uma forma de automedicação”, conta Jeannette. Ela ainda é criança quando as coisas ficam tão ruins que ele gasta o pouco dinheiro da comida em bebida. Então a menina resolve pedir a seu pai para parar. “Foi um dos momentos mais difíceis de minha vida”, diz. “Ele tentou, se amarrou na cama. Tudo o que acontece no filme é real. Tão real que me traz de volta aquele momento.”

 

 

Ambiente artístico

Cena do filme ‘Castelo de Vidro’ – 7 (Reprodução/Divulgação)

Se Rex é um gênio da ciência, para Rose Mary, nada é mais importante do que pintar todos os dias. O filme usa telas reais da mãe de Jeannette. A mãe dá a Jeannette seu primeiro caderno. “Ela sempre nos encorajava a escrever, pintar, fazer poesia”, diz a autora. “As pessoas são duras com minha mãe. Ela seria perdoada por colocar sua arte em primeiro lugar se fosse homem. As pessoas perdoam Picasso, perdoam Leonardo Da Vinci. Para as mulheres, não é assim. Você tem de colocar a família primeiro.”

 

Estrela de presente

Cena do filme ‘Castelo de Vidro’ – 8 (Reprodução/Divulgação)

Num Natal, Rex dá a cada um dos filhos uma estrela de presente. Jeannette escolhe o planeta Vênus. “Esta é a melhor lembrança da minha infância, ter ganhado uma estrela”, diz a escritora. “Amo tanto essa história que contei no funeral do meu pai. Minha cunhada cruzou os braços e falou, brava, como não fazia sentido o meu pai ter dado algo que não lhe pertencia. E ela estava certa. Ele nos dar estrelas de Natal era uma maneira malandra de fugir de suas obrigações. Mas eu também estou certa, porque era um tesouro para mim.”

 

A menina e o pai 

Cena do filme ‘Castelo de Vidro’ – 9 (Reprodução/Divulgação)

Jeannette tinha uma relação especial com o pai. “Eu acreditava nele mais do que os outros”, diz. “Eu era sua melhor plateia. Eu precisava acreditar em alguém, e ele precisava de alguém que acreditasse nele. Então tínhamos uma dependência mútua. Sou otimista! Procuro esperança onde puder encontrar.” Mas houve um momento em que tudo ficou pesado demais. “Aí vi que precisava me afastar.” Ela e os irmãos juntaram moeda a moeda para poder sair dali – e os três mais velhos conseguiram.

 

 

Nova York 

A vida de Jeannette dá uma guinada de 180º, e ela se torna jornalista e colunista de celebridades e alta sociedade. Frequenta festas chiques e está sempre vestida com camisas de seda e salto alto, impecavelmente maquiada e penteada. Numa das cenas, num jantar, pede uma quentinha com a comida que sobrou. “Sempre vou ter problemas de comida. Até hoje, quando fico hospedada num hotel chique com tudo pago, se vejo uma bandeja com restos de comida no corredor eu tenho um impulso de pegar o que sobrou. Fico maluca quando desperdiçam comida. Os americanos desperdiçam tanta comida! Se você passou fome, nunca vai superar. Mas não necessariamente é ruim. Acho importante ter apreciação pela comida. Deveríamos ser gratos pela nossa comida.”

 

O noivo e a família 

Em Nova York, Jeannette fica noiva de David (Max Greenfield), que trabalha no mercado financeiro. Muitas vezes, ele se mostra envergonhado do passado dela e pede que o esconda. Numa das cenas, vai até o prédio ocupado para onde Rex e Rose Mary se mudam e aguenta as brincadeiras agressivas e até uma queda de braço com o futuro sogro. “Meu pai tentava conversar com ele, dava socos, tentava fazer queda de braço”, diz Jeannette. “Extrapolamos alguns detalhes, mas em geral é verdadeiro. Mas prefiro não entrar em cada detalhe. Meu ex-marido era uma boa pessoa, só não tínhamos nada a ver.” Como o personagem não é 100% real, ficou decidido que seu nome seria alterado. “Por ter sido jornalista fico um pouco incomodada de atribuir algo a alguém se não foi exatamente daquela maneira.” Hoje ela é casada com o jornalista John J. Taylor.

 

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