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Namorada, crises e ditadura: série sobre papa é fiel à história

‘Pode Me Chamar de Francisco’ se atém aos acontecimentos narrados pelo próprio pontífice, sem deixar de lado as polêmicas

Jorge Mario Bergoglio faz jus à frase: “O papa é pop”. O pontífice argentino calcou sua popularidade até entre os não-católicos e se tornou tema de filmes e produções televisivas. Para março, está prevista a estreia no Brasil do longa Papa Francisco: Conquistando Corações. Enquanto isso, a Netflix disponibilizou em seu catálogo a interessante minissérie italiana Pode me Chamar de Francisco. O programa escrito e dirigido por Daniele Luchetti acompanha, em quatro episódios, os primeiros passos do ministério sacerdotal de Bergoglio, na Buenos Aires das décadas de 1960 e 70.

O período escolhido como recorte é sensível por tocar na grande e talvez única controvérsia que envolve a carreira de Bergoglio: a ditadura militar na Argentina. O regime que manchou a história do país aconteceu sob a vista grossa de diversos membros do clero. Acusado de ter sido complacente com as ações dos militares, o eclesiástico falou sobre o assunto no livro O Papa Francisco: Conversas com Jorge Bergoglio (Verus), no qual negou ter sido cúmplice e revelou ter ajudado alguns fugitivos — casos exibidos pela série. Confira abaixo a relação entre realidade e ficção do roteiro:

Namoradas

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Pouco se sabe da vida pessoal de Bergoglio antes da batina. Um dos casos mais famosos, que chegou a ser contestado pela irmã do papa, é o de Amalia Damonte, que teria roubado o coração do rapaz quando ele tinha 12 anos. Na época, ela recebeu uma carta de Bergoglio, que dizia: “Se não nos casarmos, viro padre”. Os pais da menina viram a declaração e não gostaram nada. O romance empacou. Na minissérie, nem foi citado. O diretor preferiu apresentar logo no início a jovem Gabriela, que trabalha com Bergoglio em um laboratório de controle de alimentos, primeiro emprego do rapaz. Eles saem junto com amigos e dançam abraçadinhos em um baile, onde o rapaz lhe avisa que realmente se tornará padre. A história é mais próxima de uma rápida revelação do sacerdote ao livro Conversas com Jorge Bergoglio. Ao ser questionado se já tinha namorado alguma vez na vida, o papa disse que sim, mas não citou o nome da personagem da série, que não se sabe se existiu. “Era de uma turma de amigos com quem íamos dançar”, conta, antes de completar que o relacionamento acabou quando ele descobriu a vocação religiosa.

 

Esther Ballestrino

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(Reprodução/Reprodução)

Assim na série como na vida real, a bioquímica Esther Ballestrino foi uma antiga chefe e grande amiga de Jorge Bergoglio. Apesar de ser ateia e comunista, ela foi quem incentivou o rapaz a seguir sua vocação na Igreja. Durante a ditadura, sua filha grávida foi sequestrada pelos militares e torturada. O ocorrido levou Esther a se tornar uma das pioneiras no movimento Mães da Praça de Maio. Depois, em 1977, Esther foi levada pelos militares juntamente com um grupo de freiras francesas e assassinada. Seus restos mortais foram encontrados em uma vala comum, em 2003. Toda a história é retratada com fidelidade pela minissérie. Segundo o livro O Jesuíta, de Francesca Ambrogetti e Sergio Rubin, Bergoglio declarou sua simpatia pela amiga: “Devo muito a essa mulher”. O único mistério que permanece foi o destino dado aos livros comunistas de Esther, guardados por Bergoglio. A série mostra o padre queimando as obras, porém, o jornalista Nello Scavo, de Os Inimigos de Francisco (sem edição no Brasil), conta que o papa recentemente devolveu os livros às filhas de Esther, durante uma visita ao Paraguai.

 

Jorge Luis Borges na escola

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(Reprodução)

Bergoglio decide ser padre e tem o sonho de trabalhar como missionário no Japão. Porém, ele acaba designado para dar aula de literatura no colégio Imaculada Conceição, em Santa Fé, da Companhia de Jesus. Com dificuldades de prender a atenção dos adolescentes, o padre instiga a turma a escrever seus próprios contos e os deixa eleger alguns dos autores que serão estudados em aula. O argentino Jorge Luis Borges se torna tema da clase. Bergoglio, então, decide levar o próprio ao colégio para que ele fale aos alunos. Outros autores visitaram a sala do futuro papa.

 

Fuga pelo Brasil

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(Reprodução/Reprodução)

Durante a ditadura, Bergoglio ajudou alguns foragidos a saírem da Argentina. Um dos casos mais marcantes é mostrado na minissérie. O padre abriga no colégio em que trabalha um jovem comunista ateu. Como eles são parecidos, Bergoglio dá um banho de loja cristã no rapaz: faz-lhe a barba e empresta uma batina preta com peitoral e gola de padre. Depois, entrega ao moço sua própria identidade. Se passando pelo sacerdote, o jovem foge para o Brasil por Foz do Iguaçu.

 

A prisão de Jalics

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(Reprodução)

A grande controvérsia deixada pela ditadura na história de Francisco foi a relação do padre com alguns jesuítas que atuavam em favelas argentinas, especialmente Francisco Jalics. Na época, qualquer pessoa que realizava trabalhos sociais com comunidades carentes era alvo dos militares. Jalics e Orlando Yorio foram presos, torturados e, mais tarde, liberados. A detenção de Jalics foi vista por muitos, inclusive pelo próprio durante anos, como culpa de Bergoglio. O rumor é de que o futuro papa teria avisado aos colegas que eles corriam perigo. Quando ambos rejeitaram o aviso de Bergoglio, ele teria então avisado aos militares que os colegas não contavam mais com a proteção da Igreja. Tal versão é refutada pelo pontífice no livro Conversas com Jorge Bergoglio. A minissérie segue a versão do papa. O jesuíta alerta os colegas. Porém, eles preferem permanecer com o trabalho na favela. Ambos acabam se desassociando da Companhia de Jesus, mas não por um pedido de Bergoglio. Ao saber das prisões, ele age em busca da liberação de ambos. A amizade entre eles, contudo, só é refeita décadas depois.

Ficou de fora – A série, contudo, não se aprofunda na personalidade de Jalics. Os jesuítas argentinos sofreram diversas quebras internas ao longo da ditadura. O grupo de Jalics, por exemplo, pedia que a Igreja afrontasse o regime. Mesmo que isso levasse ao martírio. Bergoglio, contudo, preferiu ficar em cima do muro e esperar uma vitória a longo prazo.

 

Missa para Videla

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Em uma cena da minissérie, Bergoglio celebra uma missa particular para o ditador Jorge Videla e seus convidados. A visita realmente aconteceu. E mais de uma vez. Logo após celebrar a reunião, o padre intercede por Jalics diretamente com o general. “Quando disse que estive duas vezes com Videla e duas com o almirante (Emilio) Massera, foi pelo sequestro deles”, conta o papa sobre a prisão de Jalics e Yorio. A série, contudo, não mostra como ele conseguiu ministrar a missa. Ele convenceu o capelão militar a dizer que estava doente e que o recomendasse em seu lugar.

 

 Crise de fé na Alemanha

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Com o fim da ditadura, os ânimos entre o clero da Igreja Católica não eram dos melhores. Apesar de ter um cargo de liderança entre os jesuítas, Bergoglio é convidado a estudar teologia na Alemanha, na cidade de Augsburg. Uma mudança nada comum, já que a Igreja só manda estudantes para fora do país se são jovens com muito potencial. O período é visto por historiadores como um “exílio” do padre, que estava com a popularidade em baixa entre os jesuítas e entre os próprios argentinos, que culparam a condescendência da Igreja no período. “Passei de superior provincial a simples estudante”, conta o papa. Todo esse drama interno é pincelado sem profundidade pela série, que prefere focar na crise de fé vivida pelo padre enquanto refletia sobre seus erros na Europa. É lá, em uma igreja pequena e como ouvinte, que ele descobre Nossa Senhora Desatadora dos Nós, que se torna alvo de devoção. Depois, ele retorna à Argentina, onde continua seu ministério até ser eleito o novo papa.

 

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