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Ficção tenta dar conta da realidade louca de ‘Feito na América’

Filme com Tom Cruise conta a história de piloto que trabalhou para a CIA, o Cartel de Medellín e o departamento de combate de drogas

A história de Barry Seal, interpretado por Tom Cruise no filme Feito na América, de Doug Liman, é tão absurda que parece ficção. Mas não é. Seal era um piloto comercial que foi contratado pela CIA para fotografar pistas de pouso na América Central. Depois, para aproveitar as viagens, ele trabalhou para o Cartel de Medellín levando cocaína para os Estados Unidos. Fez milhões de dólares, que nem tinha onde guardar – lotou de dinheiro as agências bancárias da pequena cidade de onde operava. Mais tarde, foi recrutado pela Casa Branca para continuar fotografando campos de treinamento de esquerdistas e pistas de pouso na América Central, fazendo parte do escândalo Irã-Contras, em que o governo americano facilitou a venda de armas para o Irã, que estava embargada, e usou o dinheiro para financiar o treinamento de combatentes ao governo sandinista na Nicarágua.

“O que mais tivemos de mudar foi a relação de Barry com a CIA, porque a agência jamais comentaria sobre operações secretas”, disse a VEJA o roteirista Gary Spinelli. “Mas não há dúvidas de que eles estavam trabalhando em Mena, no Arkansas, e trazendo os Contras para treinar ali, na mesma época em que Barry transportava cocaína por Mena. Não me parece um grande salto de imaginação pensar que ele trabalhava para a CIA”, disse Spinelli, que comentou o que é realidade e o que é ficção na história que está nas telas.

Piloto brincalhão

Feito na América Tom Cruise

(//Divulgação)

Numa das primeiras cenas, Barry é piloto da companhia aérea TWA e finge uma turbulência só para acordar seu copiloto. “Entrevistamos muitos pilotos que trabalharam com ele, e esse era o tipo de coisa que faria. Ele realmente gostava de ousar e de brincar, fazia voos de gravidade zero, as pessoas desmaiavam. Ele achava engraçado”, disse Spinelli. No filme, Barry Seal costuma contrabandear charutos quando viaja para a América Central. “Na verdade, ele transportava explosivos para revolucionários”, disse Spinelli. “Mas ele foi pego pela TWA, que lhe deu rotas bem ruins. Ficou irritado e acabou pedindo demissão.” Foi assim que virou piloto comercial particular e teria terminado sendo contatado pela CIA. Nos seus voos de reconhecimento, Barry Seal pilota um avião leve, que passa despercebido pelos radares. “Nós usamos exatamente o mesmo avião, ele podia voar baixo e não ser pego pelos radares. Todo o mundo achava incrível como ele parecia saber onde estavam os postos do DEA (Drug Enforcement Agency, agência que combate o tráfico de drogas nos EUA). Claro que só podia ser porque ele estava trabalhando com a CIA. Eles não queriam que ele fosse pego.”

 

Mulher participa

Feito na América Tom Cruise

(//Divulgação)

Lucy (Sarah Wright), mulher de Barry Seal, não sabe o que ele está fazendo no começo, pois o marido mente que ainda está trabalhando para a TWA. Mas a mulher, que na vida real se chama Debbie, embarcou logo na nova atividade do marido. “Ela amava aquele estilo de vida. Temos fotos incríveis deles com Pablo Escobar e Jorge Ochoa, em que ela está cortando um bolo de aniversário com um machete. Vimos aquela foto e só pensávamos para que tinham usado aquele machete antes de dar a ela. Ela contou que chegava em casa e tinha diamantes e dinheiro. Eles tiveram uma vida muito glamorosa por aqueles sete anos.” A cena do aniversário com o Cartel de Medellín aparece no filme, que também mostra essa abundância de dinheiro na forma de mudanças de casa, decorações mais luxuosas e pacotes de dinheiro enterrados no quintal.

 

Barry por Barry

Feito na América Tom Cruise

(//Divulgação)

No filme, Barry narra suas próprias aventuras em fitas de vídeo VHS, que somem quando ele é morto. O recurso é uma ferramenta narrativa usada pelo roteirista – numa versão inicial, ele contava sua história para o xerife da pequena cidade. “Mas Debbie nos mandou umas fitas de vídeo caseiras. Ele adorava filmar sua mulher, seus aviões e até suas missões de contrabando”, disse Spinelli. “E tem gente que garante que havia fitas no seu Cadillac quando ele morreu. Se eram fitas de vídeo ou apenas fitas-cassete, não sabemos, mas resolvemos incorporar as fitas de vídeo em nossa história.”

 

Missões para a CIA

Feito na América Tom Cruise

(//Divulgação)

Barry Seal, na ficção, é contatado pela CIA quando a agência percebe que ele traz algo mais do que passageiros nos seus voos pela TWA. Não existem provas, exceto a confissão do piloto para a esposa. Mas o roteirista achou que era lógico que sim, a parceria aconteceu.

“Nos anos 1970, a CIA estava contratando pilotos para fazer reconhecimento de território na América Central porque o Congresso não autorizava os militares a fazerem isso”, explica Spinelli. Na época, não havia tantos pilotos que não eram militares. “Eles tinham de trabalhar com o que tinham e recrutavam profissionais como Barry Seal”, completa. “A CIA tinha esse campo de treinamento no meio do Arkansas, onde treinava Contras e levava armas, e Barry estava operando na mesma pista de pouso.”

 

Contato com Pablo Escobar

Feito na América Tom Cruise

(//Divulgação)

Em uma das cenas, o protagonista é pego pelo Cartel de Medellín quando reabastece seu avião numa pequena pista de pouso. “Temos vasta documentação de que Barry era traficante, mas não de como foi abordado”, diz Spinelli. “Sabemos que ele costumava reabastecer na Colômbia, nos arredores de Medellín, então fazia sentido que ali devia ser onde eles se encontram. E é verdade o que o tornou especial é que ele inventou essa pequena porta no avião, de onde podia despejar o produto. Ninguém fazia isso. E ele era um piloto excelente, que podia decolar e pousar naquelas pequenas pistas colombianas como ninguém.”

 

As dores de ser traficante

Feito na América Tom Cruise

(//Divulgação)

Em um dos momentos intensos do longa, Seal está no complexo de Pablo Escobar (Mauricio Mejía) quando os militares colombianos chegam e prendem todo o mundo. Ele perde um dente na cadeia, mas acaba sendo libertado. “Barry foi preso meia dúzia de vezes. Mas ele sempre conseguia ser libertado sob fiança, ninguém conseguia entender como. Todo o mundo comentava. Então nós juntamos várias daquelas histórias em uma única.” Ele não chegou a ser preso com Escobar, mas perdeu um dente numa das prisões e ficou 3 meses numa cadeia na Guatemala certa vez.

 

Mudança na calada da noite

Feito na América Tom Cruise

(//Divulgação)

Barry e sua família moram em Baton Rouge, Estado de Louisiana, onde ele joga os pacotes de cocaína pela pequena porta criada por ele em seu avião. Mas a polícia descobre, e, depois de receber um aviso, ele foge no meio da noite para Mena, no Arkansas. Tudo isso aconteceu, mas a mudança não foi para Mena, mas para outra cidade pequena em Louisiana. De lá, ele dirigia até Mena, onde ficava a pista de pouso. “Queríamos que ficasse concentrado num lugar, então fizemos com que mudassem para Mena no filme”, explica Spinelli. Barry Seal começou a movimentar tanto dinheiro nas agências bancarias da pequena Mena, cidade com tem menos de 6.000 habitantes, que chamou a atenção do FBI. “É verdade. Só usamos cinco ou seis bancos em Mena, mas, na verdade, havia umas 50 agências em cidades em volta.” Fora isso, Mena tinha uma quantidade desproporcional de telefones públicos, todos instalados a pedido de Barry Seal, para poder falar com seus vários contatos. “Isso tudo é verdade.” Numa das cenas, Barry fica esperando ligações ao lado de uma série de telefones públicos – na época, não havia celulares.

 

Pouso forçado

Feito na América Tom Cruise

(//Divulgação)

No filme, perseguido no ar, Barry Seal faz um pouso forçado numa rua num subúrbio, saindo coberto de cocaína. “Não sei se ele chegou a pousar numa rua num subúrbio, mas falamos com três ou quatro pilotos que trabalharam com Barry, e todos contaram que às vezes tinham de fazer pousos forçados. Quando isso acontecia, ficavam cobertos de cocaína.”

 

Todo o mundo atrás de Barry

Feito na América Tom Cruise

(//Divulgação)

A polícia local, o FBI e o DEA encurralam Barry Seal em determinado momento da produção. Na realidade, não foi bem assim. “Ele foi disputado por várias agências, mas no tribunal, quando foi a julgamento”, diz Spinelli. “O mais incrível é que nenhuma dessas agências tinha a menor noção de que as outras o estavam investigando. É uma das razões pelas quais ele foi tão bem-sucedido.” Enquanto espera julgamento, Seal tenta subornar os agentes, prometendo-lhes Cadillacs. “Ele não chegou a fazer isso, mas costumava oferecer dinheiro para quem o prendia, para compensar ‘pelo trabalho’.”

 

Barry vai à Casa Branca

Feito na América Tom Cruise

(//Divulgação)

Parece invenção, mas não é. Seal é levado para Washington e depois à Casa Branca, onde se encontra com Oliver North – o general responsável pelo esquema Irã-Contras, que quase derrubou o presidente Ronald Reagan. O caso foi investigado por Arthur L. Liman, pai de Doug Liman, diretor do filme, e tudo isso está documentado. “Nós mostramos uma cena de arquivo em que aparece o vice-presidente George Bush (que mais tarde se tornaria presidente dos Estados Unidos)”, conta o roteirista. “Não sabemos direito, então não quisemos entrar nisso, mas, quando Barry foi morto, ele tinha o número de George Bush no bolso.”

 

Prisão e morte

Feito na América Tom Cruise

(//Divulgação)

Quando a polícia chega à sua casa mais uma vez, Barry pede à mulher que vista os casacos de pele e use todas as joias possíveis – o que estiver no corpo não pode ser apreendido. “Isso tudo foi a Debbie, sua mulher, que nos contou”, diz Spinelli. Seal foi condenado a prestar serviços comunitários no Exército da Salvação. Um dia, quando estava saindo, foi morto a tiros, dentro de seu carro, por homens a mando de Pablo Escobar, que foram presos tentando embarcar para a Colômbia. “Foi tudo assim mesmo.”

 

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