Post derradeiro
Escrevo esta última nota do aeroporto de Maiquetía, esperando o voo da Varig que me levará ao Brasil com o fotógrafo Manoel Marques. Nossa sensação é a mesma: alívio. Essa foi uma semana repleta de percalços. O pior deles foi o assalto em Cotiza em que perdemos todo o equipamento fotográfico, documentos, etc. Entre os outros momentos difíceis, estão o furto do passaporte do Manoel, as blitzes militares, as discussões para trocar dinheiro, as longas esperas nas delegacias e os congestionamentos. Também fiquei angustiado em ver um fotógrafo profissional como o Manoel tendo de fazer fotos com uma câmera amadora (apesar de ter sido a melhor que encontramos, estava muito aquém das que o Manoel costuma trabalhar). Esta é a minha terceira visita à Venezuela. A cada nova vez, noto que a situação piora mais um pouquinho. Não estamos ainda livres de dificuldades. Pelos meus cálculos, ainda teremos de enfrentar três revistas de militares. Uma para chegar à área de check-in, outra para entrar na sala de embarque e uma última para chegar até o avião. Considerando que o Manoel está sem o passaporte e sem o papel da imigração, não será um caminho fácil. De qualquer maneira, estar no aeroporto já é um alívio. Saber que estaremos amanhã nas nossas casas nos deixa mais felizes. Para assinar o blog, aqui vai uma foto minha do quarto do hotel, feita pelo Manoel. 

Por Duda Teixeira - 20:03
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Oposição fortalecida
Apesar da derrota no referendo, a oposição venezuelana nunca teve tantos votos: 5 milhões. Caso Chávez tivesse tido a mesma votação que recebeu no referendo constitucional em dezembro de 2007 (4,3 milhões), o presidente teria perdido o pleito.
Os votos da oposição, contudo, nao seriam suficientes para derrotar Chávez na eleição presidencial de 2006, quando o presidente conseguiu sua melhor aprovação popular: 7,3 milhões. Abaixo, a evolução dos votos da oposição em dez anos:
1998 – eleições presidenciais - 2,8 milhões
1999 – referendo consultivo assembléia constituinte - 300 000
1999 – referendo da constituição - 1.2 milhões
2000 – eleições presidenciais - 2,5 milhões
2004 – referendo revocatório - 3,9 milhões
2004 – eleições regionais - 2,2 milhões
2006 – eleições presidenciais - 4,2 milhões
2007 – referendo reforma constitucional - 4,5 milhões
2008 – eleições regionais - 4,1 milhões
2009 – referendo reeleição indefinida - 5 milhões
A oposição está lamentando o resultado hoje, um dia anormalmente calmo em Caracas, sem congestionamentos.
Mas, de alguna forma, saiu fortalecida.
A questão é saber se partidos, estudantes e a sociedade civil estarão fortes o suficiente em 2012, quando haverá novas eleições presidenciais. Chávez, ontem, já se declarou pré-candidato.

Por Duda Teixeira - 12:28
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Prédios invadidos
Com o resultado do referendo na cabeça, saí hoje de manhã do hotel para comprar o jornal e me deparei com um prédio tomado por chavistas. Explico. Nos dez anos do governo de Hugo Chávez, 153 edifícios de Caracas foram invadidos por grupos leais ao presidente. Até agora, apenas 13 foram retomados por seus verdadeiros donos. 
As invasões começaram em 1999, estimuladas por Lina Ron, uma ardorosa e tresloucada chavista. Até então, esse tipo de ação se limitava apenas a terrenos. Nunca prédios tinham sido ocupados dessa maneira. Em geral, os prédios atingidos estavam abandonados, em reforma, em construção ou em meio a disputas judiciais. Nas últimas semanas, todos ostentavam cartazes a favor da emenda constitucional. Alguns se tornaram até comitês de campanha. 
Eis mais um exemplo de como os criminosos atuam com aval de cima na Venezuela. 

Por Duda Teixeira - 10:34
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Chávez ficará ainda mais autoritário
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O Conselho Nacional Eleitoral da Venezuela acaba de divulgar o resultado do referendo. Com 54% dos votos válidos, o presidente Hugo Chávez ganhou o direito de se candidatar a todas as próximas eleições, indefinidamente, assim como Fidel Castro. Em minhas entrevistas na Venezuela, perguntei a diversas pessoas como atuaria o presidente Hugo Chávez caso ganhasse o referendo. Todos foram unânimes: Chávez ficará mais autoritário. Segundo o cientista social José Vicente Carrasquero, Chávez avançará agora sem receio em todas as frentes, incluindo as que tiveram forte resistência da população. A principal delas, segundo Carrasquero, é a educação. Chávez já tentou controlar o que é ensinado nas escolas, obrigando os estudantes a ler a cartilha cubana. Também já falou em estatizar todas as escolas e universidades do país. A resistência de diretores de escolas e professores foi tão intensa que o presidente foi forçado a regredir. Agora, ele voltará ao tema, e com muito mais força. A Venezuela tem, pelo menos, mais quatro anos de Chávez. E agora poderá ter muito mais. "Foi uma clara vitória da revolução", disse o presidente pela televisão. "Agora é que vem o que é bom."

Por Duda Teixeira - 00:12
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A luta pelo voto
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Na Venezuela, o voto não é obrigatório.
Por isso, chavistas e membros da oposição sabem que conseguir uma elevada presença nos bairros em que possuem mais aliados é um item de extrema importância para a vitória. Em Parque del Este, um bairro de classe média e alta onde a oposição é majoritária, moradores se organizaram para levar os eleitores até o Instituto Escuela, um colégio particular que fica em uma área elevada e foi transformado em centro de votação.  Os vizinhos se organizaram e, com 40 carros e dois ônibus, levavam eles mesmos os eleitores para o colégio desde 6h da manhã. Os carros tinham a palavra "mobiliz", de "mobilização", nos vidros. 
Eu e o fotógrafo Manoel Marques subimos de ônibus até a escola e voltamos de carro, com ar-condicionado, sem que nos fosse feita qualquer pergunta sobre nossa preferência eleitoral. Sendo esta uma área historicamente de oposição, é claro que o "não" saiu fortalecido. Uma pesquisadora que entrevistava as pessoas em frente da escola nos mostrou o placar: 97% se declaravam contra a reeleição indefinida. 
Por toda a cidade, em cima de caminhões com caixas de som, estudantes pediam para que as pessoas fossem votar e falavam da importância de exercer a democracia. Em suas camisetas, lia-se "vote em quem quiser". Era um recado implícito para os que sofrem pressão para votar. Em um bairro mais afastado, Caracuo, avistamos à tarde uma operação do governo conhecida aqui como acarreo. Membros do governo percorrem com ônibus os bairros procurando empregados públicos e pessoas beneficiadas pelas missões que não votaram, convocando-os para ir às urnas. Nos dois casos, o eleitor pode escolher entre o "sim" e o "não", já que o voto é secreto. Mas os dois lados sabem muito bem onde está a maior parte dos seus eleitores. E estão correndo atrás deles. 
O resultado é esperado para hoje à noite.

Por Duda Teixeira - 19:15
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O voto é secreto. Mesmo?
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Um dos temas mais recorrentes da campanha feita pela oposição venezuelana é sustentar que o voto é secreto.
Por quê?
Porque os venezuelanos têm medo de votar. Não acreditam no sigilo eleitoral.
Há inúmeros casos aqui de pessoas que foram prejudicadas por causa de sua posição política. Estudantes e cientistas que discordam do presidente não conseguem bolsas de estudo. Candidatos a vagas não arrumam emprego. Companhias não fecham contratos com o governo porque têm funcionários que não gostam de Chávez.
Muitos suspeitam que o governo tem acesso aos resultados das eleições e, com isso, pune os inimigos.
A oposição sustenta hoje que o voto tem sido secreto nos últimos pleitos. É essa a opinião também de Mercedes de Freitas, do escritório da Transparência Internacional aqui na Venezuela.
O episódio histórico que justifica o receio dos venezuelanos com relação ao sigilo eleitoral ficou conhecido como Lista Tascón. Em 2004, o deputado Luis Tascón divulgou a lista de 4 milhões de pessoas que assinaram uma petição para a realização de um referendo para decidir se Chávez podia ou não continuar no poder.
Quem estava na lista, dançou.
Por isso, segundo o instituto de pesquisas Hinterlaces, 55% dos eleitores não confiam no processo eleitoral.
Neste domingo, há o risco ainda de que algumas pessoas votem sob pressão, mas é pequeno.
Dias atrás, diretores de empresas estatais enviaram memorandos pedindo que seus funcionários fizessem uma foto do próprio voto com o celular. Quando o fato se tornou público, houve escândalo e decidiu-se que será proibido levar o telefone para o local de votação.
Nas últimas eleições, também era comum que alguns dirigentes chavistas acompanhassem alguns eleitores para ver em quem votavam. Para evitar isso, a oposição organizou-se para estar presente com testemunhas em todas as mesas de votação.
Se os chavistas não inventarem uma forma nova de pressão ou controle de última hora, é razoável supor que a eleição deste domingo será limpa.

Por Duda Teixeira - 09:55
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Você trabalha onde?
Até que o assalto acabasse com o nosso bom-humor (leia post Isto é um assalto), a diversão aqui era ir até os que faziam propaganda em prol de Chávez e perguntar:
"Você trabalha onde?"
Conheci pessoas que trabalham no Ministério da Justiça, no Ministério do Poder Popular e outros órgãos estatais. Todos com quem conversei, sem exceção, eram funcionários públicos.
Minha segunda pergunta:
"E não ficou ninguém lá, na repartição?"
Quase ninguém. A grande maioria teve que fazer propaganda pró-Chávez. No final de novembro, os funcionários receberam um comunicado da presidência ordenando que deixassem sua função de lado e priorizassem a aprovação da emenda.
Última pergunta: "Como irão votar no referendo?"
Alguns pelo sim, outros pelo não. Todos, porém, vestindo camisetas vermelhas e com cartazes pelo "sim".

Por Duda Teixeira - 17:51
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52% contra Chávez
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O instituto Hinterlaces acaba de publicar uma pesquisa de opinião feita em todo o país.
Entre os que afirmaram que votarão amanhã e declararam o voto, o resultado ficou assim:
52%: contra a emenda ("não") 48%: a favor da emenda ("sim")
Enfim, Chávez perde.
Um dos fatores que tem ajudado o "não", segundo a Hinterlaces, é o surgimento de uma ala dissidente dentro dos simpatizantes de Chávez. São pessoas que acreditam que a democracia está em perigo e estão cansadas das promessas não cumpridas do presidente e da violência urbana.
Em vez de ajudar o presidente, a ostensiva campanha pelo "sim", com uso abusivo do dinheiro público, e a pressão constante sobre funcionários públicos e beneficiários das missões sociais criaram um estado de irritação e indignação. Isso contribuiu para que os chavistas tenham se cansado de Chávez.
Outros dados interessantes do estudo: - 55% dos entrevistados acreditam que Chávez está mais preocupado com ele mesmo do que com os problemas do país. - 83% são contra a instalação do modelo econômico e social cubano na Venezuela. - 54% acreditam que essa emenda proposta por Chávez não era necessária ao país.

Por Duda Teixeira - 15:54
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Causas da violência
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Prometi explicar as causas da criminalidade na Venezuela, que triplicou em dez anos. Aqui vai uma pequena lista com quatro itens: 1. Jovens sem perspectiva
A maior parte dos crimes é praticada por adolescentes, que também são as principais vítimas. Para acomodá-los, seria necessário criar todo ano 500 000 novas vagas, o que não acontece. O governo alega que, em dez anos, reduziu o desemprego em 6%. A queda, contudo, ocorreu primeiro porque uma parte da população, que recebe subsídios do governo, parou de procurar emprego. Deixaram, assim, de ser considerados desempregados. Depois, a diminuição se deu porque houve um brutal aumento do funcionalismo público. Hoje a Venezuela tem o dobro de empregados públicos que o Brasil. O emprego, contudo, só é dado para os que estão inscritos no PSUV, o partido do presidente. Quem não é "rojo-rojito", como se diz aqui, precisa procurar outros meios para sobreviver. 2. Fracassos das missões educativas O governo criou missões para alfabetizar adultos e fundou universidades bolivarianas, que não ensinam nada e concedem títulos sem valor. Os alfabetizados não sabem ler e os médicos não fazem cirurgias. "Depois que esses jovens conseguem esses diplomas, voltam para a mesma vida de antes, pois o mercado de trabalho não pode e não quer absorvê-los", diz a cientista social venezuelana Neelie Perez, especialista em crimes. 3. Retórica belicosa O discurso do presidente é agressivo, e frequentemente incita a violência contra inimigos. É o "Socialismo ou morte". Essas palavras penetram na cabeça dos seus seguidores, os quais passam a ignorar qualquer autoridade pública ou lei. 4. Impunidade A polícia tem ação reduzida ou nula contra os criminosos. Muitos deles, aliás, são chavistas e contam com o beneplácito do presidente. A prefeitura de Caracas (na foto abaixo) está até hoje tomada por milícias pró-Chávez. Foi pichada com palavras de ordem que pediam a saída do prefeito Antonio Ledezma, de oposição.

Por Duda Teixeira - 02:18
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Prateleiras vazias
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A foto acima é de um PDValito, supermercado criado por Chávez. Em tese, deveria ser abastecido pela estatal petroleira PDVSA com alimentos a preços subsidiados. Foi uma maneira encontrada pelo presidente de concorrer com os empresários donos de supermercados e vendas, constantemente atacados por Chávez e acusados de estocar produtos. No Brasil, é como se a Petrobras, em vez de investir na produção de petróleo, escolhesse financiar mercados de comida barata para a população. Como se vê na imagem, o PDValito estava completamente vazio. Uma reforma teve início em novembro do ano passado. A obra foi entregue incompleta, sem lâmpadas, sem piso e com os refrigeradores de carne sem funcionar. Há meses, a PDVSA parou de abastecer o mercado com bens, que geralmente eram importados do Brasil e da Colômbia (a produção nacional foi destruída por Chávez). Depois de ouvir uma senhora que alugava uma tenda no interior do supermercado reclamar da falta de clientes, saímos pela rua e encontramos um "operativo" do governo. Em uma barraca vermelha, funcionários do governo vendiam arroz e farinha a preços ínfimos, animados por um DJ com duas potentes caixas de som que colocava músicas em louvor a Chávez. A venda de alimentos nas ruas nesses operativos nas ruas é o improviso do improviso, como muita coisa por aqui.

Por Duda Teixeira - 11:48
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Agora foi furto
O fotógrafo Manoel Marques estava na Avenida Bolívar ontem à tarde, durante a manifestação pró-Chávez. Voltou sem passaporte. No empurra empurra, foi furtado. E disse que outras pessoas estavam se queixando da mesma coisa.
Hoje Manoel terá que ir à embaixada do Brasil. Ele já conhece o caminho. Nós dois estávamos lá ontem de manhã para documentar o assalto que sofremos na quarta-feira (leia o post "Isto é um assalto").

Por Duda Teixeira - 08:35
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Placar das urnas
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Quem ganha o referendo? A julgar pelas manifestações de rua que aconteceram em Caracas na última semana, Chávez sofrerá uma derrota avassaladora nas urnas no domingo, dia 15. No sábado, a oposição reuniu 1 milhão de pessoas. Logrou isso com pouquíssima propaganda nas ruas e na televisão (88% das horas dedicadas à política na TV são pró-Chávez). Hoje à noite, Chávez discursava para cerca de 40.000 na Avenida Bolívar. A rua estava cheia até apenas 100 metros do palanque onde o presidente discursava. Depois disso eram vazios enormes, flagrados pelo canal Globovisión, o único de oposição. E isso porque os funcionários públicos são obrigados a participar das passeatas, assinando listas de presença duas vezes, sob pena de represálias depois. A maior parte das pessoas que apareceu no evento de Chávez durante à tarde o deixou logo em seguida, deixando o presidente falando sozinho. Mesmo que sejam chavistas, é pouco provável que no domingo comparecem às urnas, onde o voto é facultativo. O placar das ruas acabou em 1 milhão contra 40.000. Havia uma passeata da oposição planejada pelos estudantes para acontecer amanhã. Mas as autoridades chavistas negaram autorização.

Por Duda Teixeira - 23:13
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Isto é um assalto
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"Estou muito nervoso. Tirem tudo dos bolsos e coloquem no chão. Estou muito nervoso". Fomos pegos totalmente de surpresa. Eu e o fotógrafo Manoel Marques estávamos entrevistando venezuelanos em uma rua após uma visita a um PDValito, os supermercados que deveriam ser abastecidos com alimentos com dinheiro da estatal petroleira PDVSA.
Era apenas um jovem, com arma na mão. Foi-se quase tudo: câmera fotográfica, lentes, bloquinho de anotações, cartões de memória, mochila, carteira, documentos. Só ficamos eu, Manoel e os dois passaportes.
Cinco minutos de caminhada dali, chegamos a uma delegacia. Duas horas depois, tudo o que conseguimos foi que um dos guardas metropolitanos rabiscasse nossos dados em uma folha de papel sulfite. Depois, perdemos um dia contornando a situação: cancelando cartões de crédito, conseguindo documentos na embaixada e fazendo um boletim de ocorrência em outra delegacia.
Fatos como o que passamos não são exclusividade da Venezuela, é certo. O que chama a atenção aqui é o crescimento exponencial da violência nos dez anos de Chávez. Em 1998, havia 18 homicídios para cada 100 mil habitantes. Hoje são 48.
Não há um lugar seguro em Caracas. Mais adiante, explicarei um pouco as razões do aumento da criminalidade no país.

Por Duda Teixeira - 14:36
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Emprego-basura
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Trata-se de uma invenção de Chávez. A palavra "basura", aqui, significa lixo. O emprego-basura é aquele oferecido a boa parte dos contratados pelo governo chavista. Eles recebem salários, mas não possuem uma função específica. Comparecem à repartição alguns dias do mês, às vezes, nas duas primeiras semanas. No resto dos dias, se dedicam a organizar eventos e a fazer passeatas e pequenas manifestações, como as da foto. Isabel Pereira Pizani, venezuelana que pesquisa o desemprego na ONG venezuelana Cedice, calcula que os empregos-basura sejam 80% das quase 1 milhão de vagas criadas nos dez anos de governo bolivariano.
Uma comprovação da existência dos empregos-basura se deu quando o atual prefeito de Caracas, Antonio Ledezma, assumiu a prefeitura e encontrou na folha de pagamento do ex- prefeito, chavista, 9000 cargos assim. A criação dessas vagas é que explica, em grande parte, a redução do desemprego no país. No Brasil, o empregado-basura seria quase um funcionário fantasma. A diferença é que no Brasil o fantasma não é obrigado a ir às passeatas.

Por Duda Teixeira - 17:37
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Cadê o "não"?
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Temendo a derrota sinalizada pelas primeiras pesquisas de opinião, Chávez colocou toda a máquina estatal em prol da campanha pelo "sim" para, dessa maneira, conquistar o direito de permanecer indefinidamente no poder. Caracas está inundada com outdoors, cartazes e pinturas nos muros pedindo o "sim". Funcionários públicos deixam o expediente durante o almoço para, à tarde, empunhar cartazes nos semáforos e nas ruas. No conjunto de prédios do bairro 23 de janeiro, agora se lê um enorme outdoor com os dizeres: "Que se sigan las misiones". Até então, estava a mensagem "por enquanto", colocada depois que Chávez perdeu o referendo para modificar a constituição, no final de 2007. O interessante da campanha atual é que quase não se explica o objeto do referendo, quer seja, a possibilidade do presidente se reeleger indefinidamente. Em um dos comerciais da televisão, afirma-se que a vitória do "não" acabaria com a educação pública e o atendimento gratuito à saúde. A campanha do "não" se limita a adesivos nos carros, inserções de pouco segundos na televisão e chamadas de telefone previamente gravadas.

Por Duda Teixeira - 07:19
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Simón Bolívar em campanha
Um dos principais cabos eleitorais da oposição a Chávez é Simón Bolívar, o herói libertador das América Latina tão cultuado pelo próprio presidente. Em ligações gravadas de telefone e comerciais de televisão, escuta-se parte do Discurso de Angostura, em que Simón escreve o que pensa sobre a reeleição. Aqui vai o trecho: "La continuación de la autoridad en un mismo individuo frecuentemente ha sido el término de los gobiernos democráticos. Las repetidas elecciones son esenciales en los sistemas populares, porque nada es tan peligroso como dejar permanecer largo tiempo en un mismo ciudadano el poder. El pueblo se acostumbra a obedecerle y él se acostumbra a mandarlo; de donde se origina la usurpación y la tiranía."

Por Duda Teixeira - 07:14
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Pergunta com 65 palavras
No referendo do próximo dia 15, os venezuelanos dirão se aceitam ou não a reeleição indefinida para Hugo Chávez. Simples assim. Na cédula de votação, contudo, os venezuelanos terão uma questão muito mais complicada para resolver. A frase prolífica elaborada pelos parlamentares chavistas tem nada menos que 65 palavras.
"Você aprova a emenda aos artigos 160, 162, 174, 192 e 230 da Constituição da República, tramitada na Assembléia Nacional, que amplia os direitos políticos do povo, com o fim de permitir que qualquer cidadão ou cidadã no exercício de um cargo de eleição popular possa estar sujeito à postulação como candidato ou candidato para o mesmo cargo pelo tempo estabelecido constitucionalmente, dependendo sua possível eleição exclusivamente do voto popular?"
Chávez sabe que, quanto mais complicado para o eleitor, mais simples para ele.

Por Duda Teixeira - 09:55
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Notícias do país de Hugo Chávez
A partir de segunda-feira 9, o jornalista Duda Teixeira enviará notícias diárias sobre a eleição que decidirá o futuro de Hugo Chávez na Venezuela. O blog De Caracas informará, com textos e fotos, como a população encara a possibilidade de Chávez candidatar-se mais uma vez à presidência.

Por Duda Teixeira - 17:54
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