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Arquivo de fevereiro de 2012

27/02/2012

às 14:21 \ Sem categoria

Discriminação racial pode provocar problemas de saúde a longo prazo

Título Original: Is Discrimination an Equal Opportunity Risk? Racial Experiences, Socioeconomic Status, and Health Status among Black and White Adults

Onde foi divulgada: Journal of Health and Social Behavior

Quem fez:
Jenifer L. Bratter e Bridget K. Gorman

Dados de amostragem:
5.902 adultos negros e 28.451 adultos brancos

Resultado:
Tanto negros quanto brancos afirmaram terem recebido tratamento de discriminação racial e sofrerem problemas de saúde mental e física devido a isso. 18% dos negros e 4% dos brancos afirmaram considerar que seus altos níveis de problemas de saúde se devem ao tratamento discriminatório por raça.

Uma pessoa que sofre discriminação racial, além de todos os problemas sociais que se vê obrigada a enfrentar, pode ter sua saúde prejudicada. Essa é a conclusão de um estudo feito na Universidade de Rice, no Texas, Estados Unidos, que avaliou tanto os problemas de saúde relatados por negros quanto por brancos. A pesquisa foi divulgada no periódico Journal of Health and Social Behavior.

A maioria dos estudos sobre esse tema havia analisado os problemas de saúde em decorrência da discriminação racial apenas com negros. Essa nova pesquisa, porém, considera o problema também em relação aos brancos, e compara as consequências para as pessoas das duas raças.
Para chegar aos resultados, os pesquisadores levantaram dados de 5.902 adultos negros e 28.451 adultos brancos, registrados em 2004 pelo Sistema de Vigilância de Fatores de Risco Comportamentais dos EUA. Com base nessas informações, estabeleceram a relação existente entre raça, classe social, percepção de comportamento discriminatório e problemas de saúde — que foram mensurados com base na avaliação do próprio participante, e não apoiados em diagnósticos médicos.

Um número maior de negros relatou ter saúde deficiente: 22.7%, em oposição aos 14% dos brancos, e cerca de 18% dos negros e de 4% dos brancos disseram já ter recebido um tratamento de saúde pior devido a sua raça. Essa mesma porcentagem de negros e brancos afirmou também que considerava ter altos níveis tanto de distúrbios emocionais quanto de sintomas físicos e que esses problemas se deviam a um tratamento discriminatório relacionado à raça.

Para os autores do estudo, a classe socioeconômica exerce um papel fundamental sobre a relação entre discriminação racial e problemas de saúde. “Na verdade, a influência da raça na saúde é mais ajustada conforme o nível socioeconômico”, afirma o estudo. Para os pesquisadores, o fator socioeconômico é mais determinante do que o fator racial nos prejuízos à saúde dos brancos, enquanto que, em relação aos negros, a piora na saúde se deve a ambos os fatores.

“O comportamento discriminatório pode muito bem ser um ‘elo perdido’ na análise das desigualdades racial e étnica na saúde. É importante reconhecer e estudar seu impacto na saúde a longo prazo”, diz a socióloga Jenifer Bratter, uma das autoras do estudo. “Em última análise, esperamos que os profissionais e pesquisadores no campo da medicina reconheçam a contribuição tanto da classe social quanto do tratamento interpessoal para a saúde de todas as populações raciais”, afirma.

O que já se sabia sobre o estudo


Para Debora Glina, psicóloga da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e especialista em psicologia social, embora as conclusões do estudo não representem uma novidade, a pesquisa em si traz algumas inovações. Uma delas é focar na discriminação racial como fator para prejuízo à saúde, em oposição a outros levantamentos que somente haviam considerado a classe socioeconômica dos participantes.

Especialista: Debora Miriam Raab Glina, psicóloga e professora colaboradora do Departamento de Medicinal Legal, Ética Médica e Medicinal Social da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo
Envolvimento com o assunto: Fez mestrado e doutorado em psicologia social e atualmente está desenvolvendo pós-doutorado sobre assédio e discriminação no ambiente de trabalho

Conclusão

Pessoas expostas a situações de discriminação racial podem sofrer diversas consequências com o acúmulo de stress que esse problema gera. São danos à saúde como depressão, gastrite, úlcera e hipertensão, que tendem a piorar, já que a discriminação pode acontecer em diversas ocasiões. A conscientização tanto dos pesquisadores quanto da população sobre os perigosos riscos do preconceito racial é importante não só para o contexto social, mas também para o quadro de saúde daqueles que sofrem discriminação.

(Por Vivian Carrer Elias)

02/02/2012

às 13:01 \ PESQUISA

Sonhos são interpretados pelo cérebro como atividades reais

(Foto: Thinkstock)

Título original: Dreamed Movement Elicits Activation in the Sensorimotor Cortex

Quem fez: Martin Dresler e Michael Czisch

Instituição: Instituto Max Planck, na Alemanha

Dados de amostragem: Seis pessoas treinadas para terem sonhos lúcidos

Resultado: Ações realizadas durante um sonho são interpretadas pelo cérebro como uma atividade executada enquanto se está acordado

Quando alguém sonha que está caindo, voando, dançando ou mergulhando a sensação é sempre real. O que os cientistas descobriram agora é que o cérebro responde a esses estímulos como se eles estivessem sendo executados enquanto uma pessoa está acordada. Segundo um estudo conduzido por Martin Dresler e Michael Czisch, neurocientistas do Instituto Max Planck, na Alemanha, áreas do cérebro que representam movimentos específicos são ativadas durante os sonhos.

Os pesquisadores utilizaram técnicas de imagens, como ressonância magnética, para “assistir” ao que os voluntários faziam durante o sono. Para conseguir avaliar esses estímulos ao longo da experiência, eles escolheram seis sonhadores lúcidos treinados, ou seja, pessoas que conseguem controlar suas ações nesse estado.

Dresler e Czisch escanearam os cérebros dos voluntários enquanto eles movimentavam as mãos esquerda e direita durante o sonho lúcido. Eles observaram, então, que o registro de atividade neural no córtex sensório-motor do cérebro estava diretamente interligado aos movimentos das mãos realizados no sonho. Em tese, o órgão reagiu ao estímulo como se a pessoa estivesse mexendo os membros enquanto acordada.

“O que a nossa pesquisa sugere é que os sonhos não são representados como cenas visuais, a exemplo do que ocorre quando assistimos a um filme. O ato de sonhar envolve o corpo como um todo”, explica Dresler.

O estudo alemão foi publicado no periódico Current Biology e a expectativa dos neurocientistas é repetir os experimentos com outros sonhadores lúcidos. A ideia do grupo é tentar descobrir como o cérebro responde a sonhos que envolvam movimentos complexos, como andar, falar ou até mesmo voar.

- O que já se sabia sobre o assunto

Neurocientista Sidarta Ribeiro (Foto: Divulgação)

Para o neurocientista Sidarta Ribeiro, do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, o estudo alemão é de grande importância para a comunidade. De acordo com Ribeiro, esta foi a primeira vez que um grupo de pesquisa conseguiu registrar através de imagens as atividades cerebrais durante o sonho. “É difícil uma pessoa conseguir dormir dentro de um aparelho de ressonância magnética para que possamos analisar sua atividade cerebral”, afirmou o especialista. “Essa é uma das razões pela qual existem poucos estudos sobre o assunto publicados em todo o mundo.”

Segundo o acadêmico, só o fato dos especialistas terem conseguido analisar o comportamento de um sonhador lúcido já representa um avanço científico. Essa ativação equivalente nos dois estados (sonhando e acordado) já foi testemunhada no sono, mas nunca comprovada durante os sonhos.

O que é um sonhador lúdico  - O brasileiro explica ainda que o sonho lúcido é uma situação na qual as pessoas têm total controle da situação. “Quase todo mundo já experimentou, especialmente pela manhã ou no cochilo da tarde”, conta. “Poucas pessoas, contudo, conseguem intervir nas atividades realizadas durante esse estado, embora essa capacidade possa ser aprimorada a partir de treinos, como já acontece na yoga tibetana.”

No futuro, prevê o especialista, será possível treinar uma atividade – jogar uma bolinha de papel no cesto de lixo, por exemplo – durante um sonho lúcido e perceber uma melhora significativa em sua execução quando acordado.

Especialista: Sidarta Ribeiro, professor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte
Envolvimento com o assunto: Considerado um dos mais importantes neurocientistas do Brasil, Ribeiro é PhD pela Universidade de Rockefeller e pós-doutor pela Universidade de Duke. Atua nos seguintes temas: sono, sonho e memória, entre outros.

- Conclusão

O estudo conduzido por Martin Dresler e Michael Czisch, na Alemanha, é importante para os cientistas, já que os ajuda a entender melhor o significado dos sonhos. Se no futuro for possível utilizar o sono para simular atividades que serão executadas quando acordados, estaremos vivendo a realidade proposta pelos irmãos Larry e Andy Wachowski no filme de ficção-científica Matrix.

(Por Renata Honorato)

 

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