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05/03/2012

às 15:45 \ Sem categoria

Jogo online pode melhorar a cognição de idosos

Título original: Individual differences in response to cognitive training: Using a multi-modal, attentionally demanding game-based intervention for older adults

Quem fez:
Laura A. Whitlock, Anne Collins McLaughlin e Jason C. Allaire

Instituição:
Universidade Estadual da Carolina do Norte, nos Estados Unidos

Dados de amostragem:
39 idosos de 60 a 77 anos de idade

Resultado:
Jogar World of Warcraft com frequência pode melhorar o funcionamento cognitivo de idosos, como a capacidade de concentração e a noção de espaço.

O jogo online World of Warcraft (WoW) permite que você se torne um herói mítico e explore um mundo virtual fantástico e misterioso. Trata-se de um MMORPG (Massively Multiplayer Online Role Playing Game), um jogo no qual milhares de usuários, conectados ao servidor do game, escolhem entre vários personagens, de guerreiros a mágicos, e jogam ao mesmo tempo.

Mas o game parece ir além do puro entretenimento. Segundo uma pesquisa da Universidade Estadual da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, idosos que jogam WoW aperfeiçoam seu funcionamento cognitivo. Cognição é o conjunto de processos mentais usados no pensamento, na percepção, na classificação, no reconhecimento, na memória, no juízo, na imaginação e na linguagem.

Os cientistas testaram a cognição de quase quarenta pessoas entre 60 e 77 anos, analisando habilidades como memória, capacidade de concentração e noção de espaço. Um segundo teste só foi realizado duas semanas depois, após parte dos voluntários ter jogado World of Warcraft por aproximadamente 14 horas diárias totais no período de duas semanas, e a outra parte ter mantido sua rotina normal.

Comparando os resultados dos testes, os pesquisadores encontraram um aumento muito maior na capacidade cognitiva dos idosos que passaram duas semanas jogando do que os que não experimentaram o game. A melhora foi ainda mais notável entre os participantes que não haviam apresentado bons resultados nos primeiros testes.

“Entre os participantes que pontuaram bem nos testes de funcionamento cognitivo iniciais, não houve melhora significativa depois de jogar WoW”, diz a Dra. Anne McLaughlin, coautora do estudo. “Mas nós vimos uma melhora interessante, tanto na habilidade de concentração como na de noção de espaço, entre os idosos que haviam apresentado baixa pontuação nos primeiros testes.”

- O QUE SE SABIA SOBRE O ASSUNTO


Segundo a psicóloga Claudimara Chisté, estar constantemente em atividade, tanto física quanto mental, é fundamental para a manutenção do funcionamento cognitivo. “O jogo, dependendo de como for utilizado, pode ter uma vantagem: ele é lúdico. A pessoa se diverte, interage com seus pares, trabalhando tanto aspectos cognitivos quanto sociais”, diz.

Ela explica, no entanto, que pesquisas para investigar os efeitos da prática constante de um jogo específico na cognição de idosos são recentes, por isso os dados ainda são incipientes. Assim, ela considera o estudo americano relevante por abrir novas possibilidades de investigação. “Mais uma vez fica demonstrado que os estudos envolvendo o processo de envelhecimento e a cognição precisam ser sistematizados, para que possamos contribuir para a promoção de bem estar das pessoas”, diz Claudimara.

A pesquisa foi realizada com 39 participantes, por isso não pode ser generalizada, adianta a psicóloga. “Não podemos dizer que seus resultados valem para qualquer população, com quaisquer jogos. Novos estudos, porém, replicando os procedimentos, podem indicar resultados com mais precisão”, afirma.

Fazer com que o ser humano mantenha sua autonomia à medida que vai envelhecendo é um dos objetivos dos profissionais de saúde, segundo Claudimara. “Por isso é tão importante incluir no nosso cotidiano práticas que cuidem também dos aspectos cognitivos”, afirma.

Especialista: Claudimara Chisté Santos, doutora em Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo e docente da Faculdade Católica Salesiana do Espírito Santo e da Faculdade Brasileira.

Envolvimento com o assunto: Pesquisadora na área do envelhecimento, seu doutorado relacionou aspectos cognitivos e afetivos em idosos. Membro do Grupo de Trabalho “Os jogos e sua importância em psicologia e educação”, na Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia (ANPEPP).

- CONCLUSÃO

O estudo realizado por Laura Whitlock, Anne Collins McLaughlin e Jason Allaire, nos Estados Unidos, é importante pois aponta novos caminhos a serem pesquisados a respeito da influência de jogos eletrônicos na cognição de idosos. Porém, como se trata de uma pesquisa conduzida com poucos participantes, não pode ser generalizada.

(Por Érika Kokay)

27/02/2012

às 14:21 \ Sem categoria

Discriminação racial pode provocar problemas de saúde a longo prazo

Título Original: Is Discrimination an Equal Opportunity Risk? Racial Experiences, Socioeconomic Status, and Health Status among Black and White Adults

Onde foi divulgada: Journal of Health and Social Behavior

Quem fez:
Jenifer L. Bratter e Bridget K. Gorman

Dados de amostragem:
5.902 adultos negros e 28.451 adultos brancos

Resultado:
Tanto negros quanto brancos afirmaram terem recebido tratamento de discriminação racial e sofrerem problemas de saúde mental e física devido a isso. 18% dos negros e 4% dos brancos afirmaram considerar que seus altos níveis de problemas de saúde se devem ao tratamento discriminatório por raça.

Uma pessoa que sofre discriminação racial, além de todos os problemas sociais que se vê obrigada a enfrentar, pode ter sua saúde prejudicada. Essa é a conclusão de um estudo feito na Universidade de Rice, no Texas, Estados Unidos, que avaliou tanto os problemas de saúde relatados por negros quanto por brancos. A pesquisa foi divulgada no periódico Journal of Health and Social Behavior.

A maioria dos estudos sobre esse tema havia analisado os problemas de saúde em decorrência da discriminação racial apenas com negros. Essa nova pesquisa, porém, considera o problema também em relação aos brancos, e compara as consequências para as pessoas das duas raças.
Para chegar aos resultados, os pesquisadores levantaram dados de 5.902 adultos negros e 28.451 adultos brancos, registrados em 2004 pelo Sistema de Vigilância de Fatores de Risco Comportamentais dos EUA. Com base nessas informações, estabeleceram a relação existente entre raça, classe social, percepção de comportamento discriminatório e problemas de saúde — que foram mensurados com base na avaliação do próprio participante, e não apoiados em diagnósticos médicos.

Um número maior de negros relatou ter saúde deficiente: 22.7%, em oposição aos 14% dos brancos, e cerca de 18% dos negros e de 4% dos brancos disseram já ter recebido um tratamento de saúde pior devido a sua raça. Essa mesma porcentagem de negros e brancos afirmou também que considerava ter altos níveis tanto de distúrbios emocionais quanto de sintomas físicos e que esses problemas se deviam a um tratamento discriminatório relacionado à raça.

Para os autores do estudo, a classe socioeconômica exerce um papel fundamental sobre a relação entre discriminação racial e problemas de saúde. “Na verdade, a influência da raça na saúde é mais ajustada conforme o nível socioeconômico”, afirma o estudo. Para os pesquisadores, o fator socioeconômico é mais determinante do que o fator racial nos prejuízos à saúde dos brancos, enquanto que, em relação aos negros, a piora na saúde se deve a ambos os fatores.

“O comportamento discriminatório pode muito bem ser um ‘elo perdido’ na análise das desigualdades racial e étnica na saúde. É importante reconhecer e estudar seu impacto na saúde a longo prazo”, diz a socióloga Jenifer Bratter, uma das autoras do estudo. “Em última análise, esperamos que os profissionais e pesquisadores no campo da medicina reconheçam a contribuição tanto da classe social quanto do tratamento interpessoal para a saúde de todas as populações raciais”, afirma.

O que já se sabia sobre o estudo


Para Debora Glina, psicóloga da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e especialista em psicologia social, embora as conclusões do estudo não representem uma novidade, a pesquisa em si traz algumas inovações. Uma delas é focar na discriminação racial como fator para prejuízo à saúde, em oposição a outros levantamentos que somente haviam considerado a classe socioeconômica dos participantes.

Especialista: Debora Miriam Raab Glina, psicóloga e professora colaboradora do Departamento de Medicinal Legal, Ética Médica e Medicinal Social da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo
Envolvimento com o assunto: Fez mestrado e doutorado em psicologia social e atualmente está desenvolvendo pós-doutorado sobre assédio e discriminação no ambiente de trabalho

Conclusão

Pessoas expostas a situações de discriminação racial podem sofrer diversas consequências com o acúmulo de stress que esse problema gera. São danos à saúde como depressão, gastrite, úlcera e hipertensão, que tendem a piorar, já que a discriminação pode acontecer em diversas ocasiões. A conscientização tanto dos pesquisadores quanto da população sobre os perigosos riscos do preconceito racial é importante não só para o contexto social, mas também para o quadro de saúde daqueles que sofrem discriminação.

(Por Vivian Carrer Elias)

02/02/2012

às 13:01 \ PESQUISA

Sonhos são interpretados pelo cérebro como atividades reais

(Foto: Thinkstock)

Título original: Dreamed Movement Elicits Activation in the Sensorimotor Cortex

Quem fez: Martin Dresler e Michael Czisch

Instituição: Instituto Max Planck, na Alemanha

Dados de amostragem: Seis pessoas treinadas para terem sonhos lúcidos

Resultado: Ações realizadas durante um sonho são interpretadas pelo cérebro como uma atividade executada enquanto se está acordado

Quando alguém sonha que está caindo, voando, dançando ou mergulhando a sensação é sempre real. O que os cientistas descobriram agora é que o cérebro responde a esses estímulos como se eles estivessem sendo executados enquanto uma pessoa está acordada. Segundo um estudo conduzido por Martin Dresler e Michael Czisch, neurocientistas do Instituto Max Planck, na Alemanha, áreas do cérebro que representam movimentos específicos são ativadas durante os sonhos.

Os pesquisadores utilizaram técnicas de imagens, como ressonância magnética, para “assistir” ao que os voluntários faziam durante o sono. Para conseguir avaliar esses estímulos ao longo da experiência, eles escolheram seis sonhadores lúcidos treinados, ou seja, pessoas que conseguem controlar suas ações nesse estado.

Dresler e Czisch escanearam os cérebros dos voluntários enquanto eles movimentavam as mãos esquerda e direita durante o sonho lúcido. Eles observaram, então, que o registro de atividade neural no córtex sensório-motor do cérebro estava diretamente interligado aos movimentos das mãos realizados no sonho. Em tese, o órgão reagiu ao estímulo como se a pessoa estivesse mexendo os membros enquanto acordada.

“O que a nossa pesquisa sugere é que os sonhos não são representados como cenas visuais, a exemplo do que ocorre quando assistimos a um filme. O ato de sonhar envolve o corpo como um todo”, explica Dresler.

O estudo alemão foi publicado no periódico Current Biology e a expectativa dos neurocientistas é repetir os experimentos com outros sonhadores lúcidos. A ideia do grupo é tentar descobrir como o cérebro responde a sonhos que envolvam movimentos complexos, como andar, falar ou até mesmo voar.

- O que já se sabia sobre o assunto

Neurocientista Sidarta Ribeiro (Foto: Divulgação)

Para o neurocientista Sidarta Ribeiro, do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, o estudo alemão é de grande importância para a comunidade. De acordo com Ribeiro, esta foi a primeira vez que um grupo de pesquisa conseguiu registrar através de imagens as atividades cerebrais durante o sonho. “É difícil uma pessoa conseguir dormir dentro de um aparelho de ressonância magnética para que possamos analisar sua atividade cerebral”, afirmou o especialista. “Essa é uma das razões pela qual existem poucos estudos sobre o assunto publicados em todo o mundo.”

Segundo o acadêmico, só o fato dos especialistas terem conseguido analisar o comportamento de um sonhador lúcido já representa um avanço científico. Essa ativação equivalente nos dois estados (sonhando e acordado) já foi testemunhada no sono, mas nunca comprovada durante os sonhos.

O que é um sonhador lúdico  - O brasileiro explica ainda que o sonho lúcido é uma situação na qual as pessoas têm total controle da situação. “Quase todo mundo já experimentou, especialmente pela manhã ou no cochilo da tarde”, conta. “Poucas pessoas, contudo, conseguem intervir nas atividades realizadas durante esse estado, embora essa capacidade possa ser aprimorada a partir de treinos, como já acontece na yoga tibetana.”

No futuro, prevê o especialista, será possível treinar uma atividade – jogar uma bolinha de papel no cesto de lixo, por exemplo – durante um sonho lúcido e perceber uma melhora significativa em sua execução quando acordado.

Especialista: Sidarta Ribeiro, professor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte
Envolvimento com o assunto: Considerado um dos mais importantes neurocientistas do Brasil, Ribeiro é PhD pela Universidade de Rockefeller e pós-doutor pela Universidade de Duke. Atua nos seguintes temas: sono, sonho e memória, entre outros.

- Conclusão

O estudo conduzido por Martin Dresler e Michael Czisch, na Alemanha, é importante para os cientistas, já que os ajuda a entender melhor o significado dos sonhos. Se no futuro for possível utilizar o sono para simular atividades que serão executadas quando acordados, estaremos vivendo a realidade proposta pelos irmãos Larry e Andy Wachowski no filme de ficção-científica Matrix.

(Por Renata Honorato)

02/11/2011

às 14:43 \ PESQUISA

Mulheres estressadas tendem a gerar meninas

(Foto: ThinkStock)

Título original: Baby girls linked to stressCongresso: American Society for Reproductive Medicine

Quem fez: Cecilia Pyper

Instituição: Departamento de Saúde Pública da Universidade de Oxford.

Dados de amostragem: 338 mulheres britânicas

Resultado: Mulheres estressadas e com maiores níveis de cortisol no organismo são mais propensas a gerar meninas

Mulheres que sofrem de crises de stress são mais propensas a gerar bebês do sexo feminino, sugere uma pesquisa realizada pelo Departamento de Saúde Pública da Universidade de Oxford. No primeiro estudo do gênero, cientistas descobriram que o alto nível do hormônio cortisol no organismo, produzido pelo stress, está diretamente associado ao nascimento de mais meninas do que meninos.

Para analisar o caso, os pesquisadores acompanharam o dia a dia de 338 mulheres britânicas que se planejavam para ter um bebê. Elas participaram da pesquisa respondendo questionários que mostravam o quanto estavam estressadas no período em que desejavam engravidar. Os especialistas também avaliaram, durante seis meses, os níveis de cortisol e da enzima alfa-amilase, um indicador de adrenalina, no sangue das voluntárias. O hormônio cortisol está ligado ao stress desenvolvido a longo prazo e é uma consequência de problemas de saúde, pressão no trabalho ou preocupações com dinheiro. Já a adrenalina está diretamente relacionada ao stress imediato, resultado de uma viagem mal sucedida ou um problema pontual.

Durante o estudo, os cientistas pediram para 338 mulheres britânicas, entre 18 e 40 anos, preencherem diariamente um questionário sobre estresse no trabalho, em casa e até na hora de dormir. Os pesquisadores então mediram os níveis de cortisol, o hormônio do stress, no organismo das voluntárias. Do total de mulheres questionadas, 207 engravidaram e 130 bebês nasceram vivos. Desses 130, 72 foram meninas e 58 foram meninos. Cientistas avaliaram essa proporção como excessiva no gênero feminino. Normalmente, a média nos países ocidentais é de mais meninos do que meninas – 105 homens para cada 100 mulheres. Segundo as estatísticas divulgadas pelos especialistas, a probabilidade das mulheres com cortisol no organismo gerarem meninos caía à medida que o índice do hormônio no sangue aumentava.

O estudo foi apresentado durante uma conferência da Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva realizada em Orlando, nos Estados Unidos. Segundo Cecilia Pyper, médica envolvida na pesquisa, os resultados são significativos, mas precisam ser repetidos em experiências maiores.

- O que já se sabia sobre o assunto

José Bento de Souza, ginecologista do Hospital Albert Einstein (Foto: Divulgação)

O ginecologista do Hospital Albert Einstein, José Bento de Souza, afirma que as conclusões do estudo realizado pela Universidade de Oxford têm fundamento científico.

Segundo o médico, os altos índices de cortisol, o hormônio produzido pelo stress, podem alterar o PH da vagina e tornar o ambiente pouco favorável para os espermatozoides do gênero masculinos, geralmente mais sensíveis do que os espermatozoides do gênero feminino. O especialista explica que essa é uma hipótese, mas ressalta que o cortisol dificulta a entrada da glicose nas células e que o acúmulo de açúcar pode alterar esse PH de maneira significativa. Essa é a razão pela qual mulheres estressadas tendem a ganhar peso quando acometidas por crises crônicas de stress, lembra o especialista.

Souza reforça a ideia de que será necessário outros e mais completos estudos sobre o tema para comprovar essa teoria.

Especialista: José Bento de Souza, ginecologista do Hospital Albert Einstein
Envolvimento com o assunto: Souza é autor de dois livros sobre a saúde da mulher e participou do congresso, em Orlando, onde o estudo foi apresentado.

- Conclusão

Pode até soar curioso, mas um chazinho de camomila e um suco de maracujá podem ajudar as futuras mamães a gerar meninos. Se a ideia é essa, o ideal é deixar o stress de lado e apostar em estratégias para manter a calma às vésperas de decidir ter um bebê. Afinal, como já dizia o ditado popular, “a paciência depura o sangue e anima o espírito”.

(Por Renata Honorato)

12/10/2011

às 17:59 \ Sem categoria

Quem mora sozinho tem mais chances de morrer por doenças ligadas ao álcool

(Foto: Thinkstock)

Título original:Living Alone and Alcohol-Related Mortality: A Population-Based Cohort Study from Finland

Publicação: PLoS Medicine

Quem fez: Kimmo Herttua

Instituição: Finnish Institute of Occupational Health

Dados de amostragem: 18.200 óbitos

Resultado: Morar sozinho está associado a um risco substancialmente aumentado de mortalidade relacionada ao álcool – independentemente do sexo, nível socioeconômico ou a causa específica da morte.

Pessoas que moram sozinhas têm um maior chance de morrer por causa de doenças relacionadas ao álcool, segundo um estudo finlandês. De um total de 18.200 mortes ligadas ao consumo de bebida alcoólica, dois terços ocorreram em indivíduos que viviam sozinhos. É o que mostra uma pesquisa realizada pelo Finnish Institute of Occupational Health, em Helsinque.

Os pesquisadores analisaram informações de 80% das pessoas que morreram na Finlândia entre 2000 e 2007. Segundo os atestados de óbito, as mortes incluíam doença hepática, intoxicação por álcool, acidentes de carro, além de casos de violência relacionada ao consumo de álcool. “Este é o primeiro estudo populacional que associa o fato de morar sozinho com a mortalidade em decorrência do álcool”, disse Kimmo Herttua, autor do estudo, ao site de VEJA.

Entre 2000 e 2003, homens que viviam sozinhos tinham 3,7 vezes mais chances de morrer de doença hepática em comparação com homens casados ou que moravam com outras pessoas, segundo mostrou a pesquisa. Entre 2004 e 2007, homens que viviam sozinhos tiveram 5 vezes mais probabilidades de morrer de doença hepática em comparação com quem dividia o teto.

A pesquisa leva em conta que, em 2004, houve uma redução de impostos, fazendo com que o preço da bebida diminuísse. Além disso, as leis foram alteradas, tornando legal importar quantidades praticamente ilimitadas de álcool de outros países da União Europeia. “Por conta do desenho do estudo, é impossível dizer se morar sozinho é a causa ou a consequência do abuso de álcool. Mas nossos resultados mostram que pessoas que vivem sozinhas são mais vulneráveis aos efeitos adversos do álcool”, afirmou Herttua.

“É possível dizer que conexões sociais podem ajudar a prevenir doenças em decorrência do alcoolismo. Isso porque há uma ligação entre a falta de relações interpessoais e depressão. Então, o abuso de álcool acaba servindo como uma automedicação para indivíduos sozinhos e depressivos”, explica Herttua.

— O que já se sabia sobre o assunto

Para Ana Cecília Marques, psiquiatra da Associação Brasileira do Estudo do Álcool e Outras Drogas, o estudo traz novidades ao associar o fato de morar sozinho com a mortalidade por álcool. Há estudos, segundo ela, que relacionam a solidão de idosos e o desenvolvimento de alcoolismo, mas não é um estudo sobre mortalidade.  A especialista pondera, contudo, que mais pesquisas devem ser feitas para estabelecer a relação entre os dois fatores.

Ana Cecilia lembra que a conclusão de que quem fica sozinho tem mais chances de ter problemas relacionados ao álcool não pode ser aplicada a todas as pessoas. “No caso dos jovens, é até ao contrário. Quem mora em república, por exemplo, bebe mais por pressão do grupo. Adolescente bebe por curiosidade”, diz a psiquiatra. “Não se pode dizer que uma pessoa que mora sozinha é alcoólatra.”

Especialista: Ana Cecília Marques, psiquiatra da Associação Brasileira do Estudo do Álcool e Outras Drogas
Envolvimento com o assunto: Autora de pesquisas sobre o consumo de álcool e outras drogas entre jovens brasileiros, psiquiatra da Associação Brasileira do Estudo do Álcool e Outras Drogas e coordenadora do Departamento de Dependências da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP)

— Conclusão

Ter relações sociais fora de casa é importante para o bem-estar de qualquer pessoa. Morar com a família ou ser casado pode ajudar a controlar um possível abuso do álcool e faz com que mais pessoas estejam atentas a um comportamento depressivo. Outros fatores de risco, porém, devem ser considerados antes de determinar se uma pessoa tem ou não risco de morrer em decorrência do abuso de álcool.

Por Natalia Cuminale

14/09/2011

às 13:27 \ PESQUISA

Desejo de ter filhos não é exclusividade das mulheres

(Foto: Thinkstock)

Título original: Emotional regulation of fertility decision making: What is the nature and structure of “baby fever”?

Publicação: Emotion

Quem fez: Gary Brase e Sandra Brase

Instituição: Universidade Estadual do Kansas

Dados de amostragem: 1.190 pessoas

Resultado: Assim como as mulheres, os homens sofrem da chamada “febre do bebê”. Isso significa que em determinado momento da vida eles realmente sentem necessidade de procriar.

Os homens também podem chegar naquela idade em que sentem uma vontade irresistível de terem filhos, a exemplo do que ocorre com a maioria das mulheres. E a explicação para isso é psicológica e não biológica. Segundo um estudo realizado pela Universidade Estadual do Kansas, Estados Unidos, o desejo da procriação é o mesmo entre homens e mulheres, ainda que a maternidade seja mais comentada e analisada.

A urgência em procriar é similar em ambos os gêneros e aparece ocupando o primeiro e o segundo lugar entre as prioridades humanas. Em termos de importância, contudo, a necessidade está à frente do sexo para as mulheres e, obviamente, atrás para os homens. A hipótese é resultado de uma investigação conduzida ao longo dos últimos dez anos por Gary Brase, psicólogo e professor da universidade, e Sandra Brase, sua mulher e co-autora do estudo.

A pesquisa analisou aspectos psicológicos (pressão dos amigos, influência da imprensa e contato com crianças) responsáveis pelo desejo da paternidade e não somente perspectivas sociológicas e demográficas. Para o estudo, conduzido ao longo dos últimos dez anos pelo psicólogo e professor Gary Brase, 1.190 pessoas foram entrevistas. A experiência foi baseada na aplicação de um questionário com a seguinte pergunta: “Qual o seu maior desejo: ter dinheiro, ser famoso ou ter um filho?”. Para a surpresa dos pesquisadores, tanto homens quanto mulheres optaram por ter filhos.

O estudo, publicado no periódico Emotion, da Associação Americana de Psicologia, prevê uma segunda etapa de pesquisa, dessa vez sobre o papel dos hormônios no desejo de procriar.

- O que já se sabia sobre o assunto

Prof. Dr. Rubens de Aguiar Maciel (Foto: Arquivo pessoal)

Para o psicólogo Rubens de Aguiar Maciel, PhD pela Universidade de São Paulo, colaborador do Hospital das Clínicas e um dos únicos especialistas em paternidade do país, a conclusão é relevante, porém não traz nada de novo para a comunidade acadêmica. “Esse desejo é uma reação à sociedade moderna, cujas características estão baseadas no extremo individualismo e competitividade”. Maciel explica que os valores voltados ao dinheiro, ao culto do corpo e a sexualidade, aliados ao processo intenso de urbanização nas grandes cidades, têm transformado as pessoas em indivíduos muito solitários e o desejo de ter um filho é uma tentativa de resgatar os laços familiares.

O especialista não acha necessário conduzir um estudo focado em aspectos psicológicos e não sociológicos, como sugerido pelos cientistas americanos. Para o brasileiro, pesquisas que abordem a paternidade têm de ser contextualizadas de acordo com o momento em que vivemos. “O papel do homem como provedor está dilacerado e hoje ele tem mais facilidade para assumir o desejo da paternidade.”

Sobre a pesquisa, Maciel afirmou não se tratar de nenhum levantamento revolucionário, tão pouco imprescindível. “Criou-se o hábito de realizar estudos fragmentados, separados por determinadas áreas do conhecimento. Essas análises não enxergam o homem como resultado de um momento histórico e acho importante não se perder de vista a dimensão de um indivíduo como um todo”, explica.

“Procriar é um desejo humano”, concorda o especialista brasileiro, “mas não podemos associá-lo somente ao anseio do subconsciente”. No caso da paternidade, em especial, o ambiente é um grande agente transformador.

Especialista: Prof. Dr. Rubens de Aguiar Maciel

Envolvimento com o estudo: Sua tese de doutorado foi sobre paternidade, o que lhe rendeu o posto de um dos únicos especialistas no assunto no Brasil.

- Conclusão

A conclusão da pesquisa americana é um retrato da sociedade. À medida que a mulher se torna mais independente, o homem se sente mais à vontade para assumir o desejo da paternidade e até assumir o controle doméstico da casa, por opção ou necessidade.

(Por Renata Honorato)

26/08/2011

às 16:31 \ PESQUISA

Pessoas bonitas são egoístas por natureza

Angelina Jolie (Foto: Jason Merritt/Getty Images)

Título originalTestosterone, facial symmetry and cooperation in the prisoners’ dilemma

Publicação: Physiology & Behavior

Quem fez: Santiago Sanchez-Pages e Enrique Turiegano

Instituição: Universidade de Edimburgo e Universidade autônoma de Madri

Dados de amostragem: 292 pessoas

Resultado: Pessoas com rosto simétrico, consideradas bonitas, são mais saudáveis e atraentes. Por essa razão, se sentem autossuficientes a ponto de não ajudarem o próximo e não pedirem ajuda a outros

Os galãs e estrelas de cinema podem até habitar o imaginário humano como pares perfeitos, mas segundo um estudo britânico certamente estariam bem distante do que alguém imagina ser uma parceria ideal. A pesquisa, desenvolvida por cientistas da Universidade de Edimburgo e da Universidade Autônoma de Madri, publicada no periódico Physiology & Behavior, sugere que pessoas de traços faciais simétricos, consideradas mais atraentes, tendem a ser egoístas por acreditarem em sua autossuficiência.

O levantamento, apresentado em uma reunião de vencedores do Nobel, em Lindau, na Alemanha, foi baseado no Dilema do Prisioneiro, um conhecido jogo da psicologia onde duas pessoas precisam decidir, isoladamente, se irão cooperar em uma determinada situação ou se irão trair o outro jogador em troca de alguma recompensa. Após analisar os traços faciais de cada um dos 292 voluntários, e cruzar os resultados da experiência, cientistas chegaram à conclusão de que pessoas com rostos simétricos são menos propensas a ajudar ou a esperar o auxílio.

A explicação está na evolução. Em um nível subconsciente, afirmam os acadêmicos, o homem enxerga atributos físicos simétricos como sinal de saúde, o que faz com que indivíduos dotados dessas características sejam considerados mais atraentes pela sociedade. Estudos anteriores sugerem que pessoas com rostos simétricos sofrem menos de doenças congênitas e encontram melhores parceiros para a reprodução. A consequência, garantem os cientistas, está no comportamento dos indivíduos, que se sentem mais autossuficientes e menos dependentes da ajuda alheia.

Os envolvidos na pesquisa, contudo, pedem cautela e afirmam que a conclusão do estudo não pode ser encarada de forma superficial. O que eles querem dizer com o alerta é que não se deve generalizar os resultados e associar o egoísmo a todas as pessoas consideradas atraentes.

- O que já se sabia sobre o assunto

Sérgio Fukusima, professor da USP (Foto: Arquivo pessoal)

A relação da simetria com a atratividade pessoal é um assunto estudado à exaustão pela comunidade científica, especialmente entre os acadêmicos que seguem uma linha de pesquisa psicobiológica ou evolucionista. Segundo Sérgio Fukusima, PhD da Universidade de São Paulo (USP), é plausível que os traços da face se correlacionem com consequências decorrentes dessa atratividade, como status social e características comportamentais que evidenciem o egoísmo.

Outros fatores, no entanto, devem ser levados em consideração, uma vez que a atração vai além da simetria facial. Outros elementos, como cor e qualidade da pele, fertilidade e harmonia do rosto também indicam o quanto saudável é um indivíduo e influenciam diretamente nos aspectos biológicos associados à atração.

“Há ainda os agentes culturais, como moda, que ditam padrões de beleza de tempos em tempos”, completa Fukusima. “Essas alterações podem ser notadas principalmente na TV, no cinema e nas revistas”, afirma o cientista, destacando que nem sempre uma pessoa considerada bonita é egoísta – afinal, o próprio conceito de belo é variável.

Segundo o professor universitário, Estados Unidos, Grã-Bretanha e Austrália são países onde mais estudos nessa área estão sendo desenvolvidos. Além da psicologia, a computação (reconhecimento facial) e a robótica (robôs) também têm pesquisado temas relacionados à simetria.

Especialista: Sérgio Fukusima, professor do Departamento de Psicologia e da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (USP-Ribeirão Preto)

Envolvimento com o estudo: Possui uma vasta produção científica relacionada à investigação da percepção e reconhecimento de faces.

- Conclusão

Existem fatores comportamentais que comprovam a relação da simetria facial com o egoísmo, mas é preciso ter cautela nas conclusões, bem como ressalta o especialista brasileiro. Se beleza não fosse sinônimo de altruísmo, o que estaria fazendo Angelina Jolie nas ações humanitárias da ONU?

(Por Renata Honorato)

11/08/2011

às 10:43 \ PESQUISA

Aliada a redes sociais, técnica de reconhecimento facial pode revelar dados pessoais

(Foto: Thinkstock)

Título original: Faces of Facebook: Privacy in the Age of Augmented Reality

Onde foi divulgada: Black Hat ® Technical Security Conference: USA 2011

Quem fez: Alessandro Acquisti, Ralph Gross e Fred Stutzman

Instituição: Universidade de Carnegie Mellon, na Pensilvânia, Estados Unidos

Dados de amostragem: dois grupos de 25.000 e 277.978 fotos do Facebook, 9.000 perfis de um site de relacionamento popular nos EUA e fotos de 93 alunos

Resultado: Os pesquisadores descobriram que um software de reconhecimento facial, associado ao imenso banco de imagens do Facebook, pode identificar pessoas e até revelar dados privados como endereço, telefone e profissão

Uma foto publicada no Facebook pode revelar muito sobre uma pessoa. É o que mostra o estudo Faces of Facebook: Privacy in the Age of Augmented Reality, apresentado no início de agosto em uma convenção sobre segurança na internet, em Las Vegas. A pesquisa, liderada pelo americano Alessandro Acquisti, professor da Universidade Carnegie Mellon, afirma que softwares de reconhecimento facial, aliados aos imensos bancos de imagens das redes sociais, podem não só revelar o nome de um usuário, mas informar ainda seu endereço, telefone e profissão.

Para testar a teoria, Acquisti realizou experiências cruzando dados do Facebook, de um site de relacionamento amoroso e de um software de reconhecimento facial chamado PittPatt – adquirido recentemente pelo Google. Os acadêmicos fotografaram o rosto de 93 alunos do campus e carregaram essas imagens no programa. O sistema, então, comparou as fotos com o banco de imagens do Facebook e, dez segundos depois, apontou dez possíveis perfis para cada estudante. Em um terço dos casos, o perfil correto aparecia entre as duas primeiras opções apontadas pelo programa.

Em outra experiência, 227.000 fotos de perfis do Facebook foram comparadas a 6.000 imagens de contas do site de relacionamento amoroso. Ao final do teste, o sistema de reconhecimento facial havia identificado 10% dos usuários.

Para Acquisti, cerca de um terço das identidades de alunos de Carnegie Mellon poderia ser revelada por meio da combinação de dados disponíveis em redes sociais, computação em nuvem (programa de reconhecimento facial) e webcam. Diante dos resultados, ele chama atenção para a possibilidade de a tecnologia, neste caso, comprometer a privacidade de cidadãos. Em mãos erradas, diz Acquisti, o Facebook pode se tornar uma máquina de espionagem.

- O que já se sabia sobre o assunto

Marcelo Zuffo, professor da USP (foto: Divulgação)

Experiências como a desenvolvida na Universidade de Carnegie Mellon já são conhecidas por cientistas que acompanham a evolução da tecnologia de reconhecimento facial desde a década de 1970, quando esse conhecimento começou a ser difundido. Para Marcelo Zuffo, professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) e especialista em meios eletrônicos interativos, a novidade do estudo está no uso de grandes bases de dados na internet, algo possível graças à popularização das redes sociais. Segundo o pesquisador, a chamada mineração de dados, associada às técnicas já conhecidas pelos acadêmicos, traz novidades para a comunidade científica.

O brasileiro explica que a análise americana é baseada na medida de similaridade, que compara pontos comuns entre duas ou mais imagens. E, a despeito do possível mau uso da tecnologia, ela também pode ser útil, ajudando, por exemplo, autoridades a encontrar pessoas desaparecidas e criminosos.

Israel e Estados Unidos estão entre os países que dominam a técnica. Lá, empresas já oferecerem esse tipo de serviço. O Brasil também está empenhado em adotar sistemas de segurança baseados em reconhecimento facial. “Para a Copa de 2014, essa será uma tecnologia emergente. Ela estará presente nos estádios, espaços públicos e no nosso dia a dia”, adianta Zuffo.

Especialista: Marcelo Zuffo, professor da escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), e especialista em meios eletrônicos interativos.

Envolvimento com o estudo: É um dos membros do Laboratório de Tecnologias Interativas da Escola Politécnica da USP e estuda reconhecimento facial desde 1996.

- Conclusão

O estudo americano, realizado na Universidade Carnegie Mellon, pode indicar formas de uso das informações disponíveis em redes sociais como Facebook. A pesquisa chama atenção para a questão da privacidade, um assunto amplamente discutido por estudiosos da internet.

(Por Renata Honorato)

29/07/2011

às 13:14 \ PESQUISA

Emoção estimula compartilhamento de conteúdos na web

(Foto: Thinkstock)

Título original: Arousal Increases Social Transmission of Information

Publicação: Psychological Science

Quem fez: Jonah Berger

Instituição: Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos

Dados de amostragem: dois grupos de estudantes, um com 93 pessoas e o outro com 40

Resultado: Conteúdos que provocam emoções como medo, raiva e excitação tendem a ser mais compartilhados na internet

O homem sempre compartilhou informações, notícias e histórias. Aparentemente, a internet potencializou nossa capacidade de espalhar conteúdos em rede. Para entender esse fenômeno, Jonah Berger, professor da Universidade da Pensilvânia, desenvolveu um estudo baseado em notícias compartilhadas a partir do jornal The New York Times. De acordo com suas hipóteses, conteúdos de apelo emotivo têm mais chances de ser compartilhados do que outros mais factuais ou “neutros”.

Para o cientista, cuja pesquisa foi publicada no periódico Psychological Science, quando excitados fisicamente, os usuários de internet tendem a ser mais sociais. Algumas emoções, garante Berger, também aumentam as chances de um link, imagem ou vídeo ser reverberado na internet. Durante estudos preliminares, usando como referência a lista de notícias mais enviadas por e-mail no jornal, o acadêmico percebeu que não só textos com mensagens positivas eram compartilhados, mas também conteúdos que evocavam sentimentos de raiva e ansiedade.

Para provar a teoria de que a excitação promove o compartilhamento de informações, Berger conduziu dois experimentos. No primeiro, 93 estudantes assistiram a vídeos que os deixaram ansiosos ou compenetrados (alta estimulação); tristes ou contentes (baixa estimulação). Em seguida, os voluntários foram expostos a reportagens consideradas emocionalmente neutras. Quando o acadêmico perguntou o que os voluntários gostariam de mostrar a amigos e familiares, os conteúdos de alta excitação apareceram em primeiro lugar.

O segundo experimento contou com 40 voluntários. Berger propôs que metade permanecesse sentada e que a outra metade corresse por um minuto, atividade que aumenta a excitação. Em seguida, pediu para que todos os voluntários lessem artigos emocionalmente neutros e os enviassem a amigos e familiares. Outra vez, o cientista percebeu que os estudantes agitados – o exercício físico provoca a mesma sensação de uma forte emoção – eram mais propensos a compartilhar o conteúdo do que os participantes sedentários.

- O que já se sabia sobre o assunto

Alex Primo (Foto: Mauricio D'elia)

Para Alex Primo, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a pesquisa americana não traz grandes novidades. “Isso é o que vemos todos os dias, principalmente na publicidade”, explica o especialista. “As propagandas criam diferentes sensações no intuito de que passemos o conceito da marca adiante”, completa.

O acadêmico acrescenta, contudo, que não basta produzir um texto e supostamente recheá-lo com emoção para que ele se transforme em um viral. Mesmo no marketing de guerrilha, onde o objetivo é criar memes, a fórmula nem sempre funciona. Muito pelo contrário. Do total de trabalhos executados, uma pequena parcela ganha dimensão estratosférica na web.

Especialista: Alex Primo é professor da UFRGS, mestre em Jornalismo pela Ball State University e doutor em Informática na Educação

Envolvimento com o estudo: É autor do livro Interação Mediada por Computador: Comunicação, Cibercultura, Cognição

- Conclusão

A conclusão do estudo pode ser óbvia, mas chama a atenção para uma particularidade que costuma passar despercebida por nossos olhos. Para usuários de internet, é interessante saber o que motiva o tal clique no botão “Compartilhar”, “Enviar” ou “Retweet”.

(Por Renata Honorato)

18/07/2011

às 12:48 \ PESQUISA

Banho quente, alívio para corações solitários

(Foto: Thinkstock)

Título original: The Substitutability of Physical and Social Warmth in Daily Life

Publicação: Emotion

Quem fez: John A. Bargh e Idit Shalev

Instituição: Universidade de Yale, nos Estados Unidos

Dados de amostragem: 400 pessoas, entre 18 e 65 anos, que se queixavam de solidão

Resultado: Pessoas solitárias demoram mais no banho e preferem água a altas temperaturas

O banho quente pode não curar as feridas de um coração solitário, mas alivia as dores. Ao menos é o que garante um estudo da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, que associou tempo gasto no banho, água a altas temperaturas e sentimento de exclusão social.

A pesquisa analisou o comportamento de 400 voluntários, com idades entre 18 e 65 anos. Aqueles que se sentiam solitários demoravam, em média, 25% a mais no banho e preferiam água quente. Para John A. Bargh, coautor da pesquisa e especialista em ciência cognitiva, o banho quente e demorado pode provocar a mesma sensação de satisfação que a motivada pelo calor físico proveniente de outra pessoa.

Segundo o psicólogo, o sentimento de solidão, quando muito intenso, pode provocar pequenas reduções na temperatura corpórea. Daí, a predisposição do ser humano a buscar contato com a água quente. “É o que chamamos de autorregulação”, diz Bargh.

Idit Shalev, outra coautora do estudo, acrescenta que esse comportamento é inconsciente. Os pesquisadores o associam ao sentimento de segurança que os bebês experimentam ao serem colocados em contato com o corpo da mãe. A criança para de chorar, sem dar-se conta, é claro, que a temperatura é a principal razão para a sensação de conforto.

- O que já se sabia sobre o assunto

Karina Haddad Mussa, psicóloga e psicoterapeuta (Foto: Reprodução/Rede Globo)

A correlação entre solidão e sensação de frio não é novidade para pesquisadores. De acordo com a psicoterapeuta Karina Haddad Mussa, especialista em psicologia cognitiva comportamental pelo Albert Ellis Institute, de Nova York, a conclusão da pesquisa americana ajuda a entender por que nosso organismo necessita de calor em casos de solidão patológica, em que há desequilíbrios no organismo, com sintomas físicos. É uma situação diferente das pessoas que, embora sós, sentem-se bem.

A exclusão social, de acordo com a psicóloga, causa distress (stress prejudicial à saúde), quadro que leva à hipotermia. Nesse estágio, as pessoas apresentam queda de temperatura corpórea, especialmente nas extremidades do organismo. O banho quente, nesse caso, tem a função de equilibrar o organismo por meio do controle de temperatura.

“Todos os nossos sentidos são importantes, mas a pele é abrangente e contorna todo o corpo. Isso transforma o tato em um dos sentidos mais relevantes”, diz a especialista. “É por essa razão que o banho quente acalenta as pessoas. O contato com a água transmite a sensação de proteção e equilibra, biologicamente, o organismo”, completa.

A psicoterapeuta acrescenta que o banho de banheira ativa a memoria corporal, recuperando a sensação que experimentamos no útero materno. Isso faz com que as pessoas se sintam ainda mais confortáveis e em segurança quando imersas na água quente.

Especialista: Karina Haddad Mussa, psicóloga e psicoterapeuta da Clínica do Sono

Envolvimento com o estudo: Mussa se especializou em psicologia cognitiva comportamental pelo Albert Ellis Institute, em Nova York, e desenvolvou um trabalho de pesquisa na área de virtude, ética e felicidade na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)

- Conclusão

O banho quente é realmente reconfortante. Vale ressaltar, no entanto, que a pesquisa americana vai ao encontro de outras teorias já defendidas por especialistas em psicologia cognitiva, que associam o desequilíbrio corporal a sintomas da solidão. Talvez o que falte para Thom Yorke, vocalista do Radiohead, conhecido por suas composições tristes, é uma boa ducha quente. Só isso!

(Por Renata Honorato)

 

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