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Por que comer com o garfo?

A saga de um talher utilíssimo, que antes de ser aceito na Europa teve seu uso criticado até pela Igreja Católica

O culto da informalidade, difundido agora no Ocidente, tem feito com que às vezes as pessoas dispensem o garfo e comam com as mãos. A tendência é observada em eventos, festas e refeições orientadas pela praticidade. No final do século passado, difundiu-se o buffet de finger food, com os alimentos sendo levados à boca sem nenhum dos talheres e constituído de canapés, espetinhos frios ou quentes, mini quiches ou sanduíches idem, salgadinhos em geral e por aí adiante.

Antigamente, na Europa e países do mundo sob sua influência cultural, era deselegante comer com as mãos, salvo exceções como no caso das tapas espanholas. No Oriente Médio e na Ásia, porém, ocorria o contrário. Os árabes sempre pegaram com os dedos os mézès – seleção de antepastos que valem por uma refeição, quibe, esfirra, frutos secos e queijos, pão para acompanhar tabule, homus, babaganuche e fazer sanduíche de falafel. Criaram inclusive um ritual para saboreá-los. Há tempos os japoneses fazem o mesmo com o sushi.

O garfo é uma evolução do espeto. Não por acaso, sua primeira versão tinha apenas dois dentes. Mais tarde, recebeu o terceiro. Na virada do século XVII para o XVIII, foi acoplado o quarto. Ignora-se o verdadeiro autor desse último aperfeiçoamento. Até o início do século XIX, o garfo teve na Itália predominantemente três dentes. Era assim em Nápoles, terra do spaghetti. Afinal, o quarto dente não fazia falta.

Os napolitanos continuavam a comer spaghetti com as mãos. Fernando II, que ocupou o trono dos reinos de Nápoles e da Sicília, entre os anos de 1830 e 1859, adorava essa massa de fios longos, porém a comia escondido. Achava difícil enrolar o spaghetti no garfo de três dentes e se envergonhava ao deixá-lo cair de volta no prato. Saborear spaghetti com os dedos, nem pensar. Então, Fernando II mandou acrescentar o quarto dente – embora muitos napolitanos afirmem que foi ideia do seu despenseiro. Daí ter sido considerado por alguns o pioneiro da inovação.

O garfo, porém, foi difundido na Europa através da Sereníssima República de Veneza, que existiu do século IX ao XVIII, no nordeste da Península Itálica. Rica e luxuosa, sua corte ditava moda na de Florença e de outros centros da Europa. No século XI, a princesa Teodora Anna, filha do imperador bizantino Constantino XI, chegou a Veneza procedente de Constantinopla, para casar com Domenico Selvo. O noivo era doge, ou seja, magistrado supremo da Sereníssima, como se dizia. A noiva encantou a população pela beleza e o garfo de ouro com dois dentes, trazido no enxoval, com o qual comia inclusive frutas cristalizadas.

Entretanto, teólogos, filósofos e dignitários da Igreja Católica reagiram negativamente. Julgaram que o par de dentes do garfo lembrava o forcado – instrumento agrícola dotado de uma haste terminada em duas pontas de ferro, com o qual a iconografia religiosa representava o demônio. Além disso, sustentaram que o alimento, dádiva de Deus, precisava ser levado à boca pelas mãos do homem, sem a intermediação de instrumentos.

Em 1083, quando a princesa Teodora morreu de uma doença degenerativa, porém diagnosticada como peste, os inimigos da inovação à mesa se sentiram gratificados. “Foi castigo de Deus pelo seu estilo de vida imoderado”, disseram. Muitos anos depois, São Boaventura, famoso teólogo e filósofo do século XIII, declarado após morrer um dos Doutores da Igreja Católica, chamou o garfo de “castigo de Deus”.

Talher de bronze francês do século XVII: o garfo ainda tinha só dois dentes

Talher de bronze francês do século XVII: o garfo ainda tinha só dois dentes (Coleção J. Hollander//Por que comer com o garfo?/Divulgação)

A Bíblia faz sete menções ao instrumento. Entretanto, nenhuma se refere à função de talher. Refere-se a utensílios para manusear as carnes durante os sacrifícios. A primeira citação aparece no Êxodo, quando os israelitas deixaram para trás a escravidão no Egito por sua fé em Javé (um dos nomes de Deus). Compõe as instruções divinas transmitidas a Moisés junto ao Monte Sinai, para a construção do Tabernáculo (santuário destinado à arca da aliança e demais objetos sagrados): “Far-lhe-ás também recipientes para recolher a sua cinza, e pás, e bacias, e garfos, e braseiros; todos esses utensílios farás de bronze.” (Êxodo 27.3).

Na França, o garfo só se consolidou depois de longa turbulência. A requintada Caterina de’ Médici, da família que dominou Florença por três séculos, carregava no enxoval nupcial o talher completo quando desembarcou em Marselha para casar com o Duque de Orleães, futuro Henrique II, rei do país. O garfo era usado regularmente na corte do seu pai, o poderoso Lorenzo de’ Medici, Duque de Urbino. Na França, foi recebido com desconfiança. Afirmava-se que seu metal interferia no sabor dos alimentos. Poucos o aceitaram à mesa.

Em fins do século XVI, Henrique III, filho de Caterina de’ Médici, que na falta de outro sucessor familiar assumiu o trono da França após a morte de seu irmão Carlos IX, tornando-se o último rei da Casa de Valois-Angoulême, viajou para Veneza. Entre as homenagens recebidas por ele, houve um suntuoso banquete no qual todos comeram com o farfo. Henrique III ficou deslumbrado com o requinte. Regressando à pátria, tentou obrigar sua corte a fazer o mesmo. Os homens recusaram o garfo, julgando-o “efeminado”. Apesar de casado com Luísa de Lorena-Vaudémont, uma nobre da Lorena, Henrique III vivia cercado de rapazes, os chamados “mignons”, palavra no caso de conotação homossexual.

Henrique III: quis introduzir o garfo na França, mas como sempre andava acompanhado de rapazes, julgaram a novidade “efeminada”

Henrique III: quis introduzir o garfo na França, mas como sempre andava acompanhado de rapazes, julgaram a novidade “efeminada” (Biblioteca Digital Gallica/Divulgação)

Muitas das inovações que ele quis implantar no país deixaram de vingar pela mesma interpretação maliciosa. Para completar, por muito tempo os franceses não consideravam a ausência do garfo uma falha na etiqueta. No livro “Libellus de Moribus in Mensa Servandis”, de 1480, seu patrício Jean Suplice ensinava as pessoas a comer sem ele. Considerava deselegante deixar as mãos enfiadas por muito tempo no prato, por exemplo. Dois séculos depois, Ana da Áustria, mulher de Luís XIII, rei da França, recebia elogios pela delicadeza com a qual enfiava os dedos em pratos de ragu, para capturar e levar à boca diminutos pedaços de carne.

Em Portugal, a popularização do garfo seu deu no reinado de D. Maria II, filha de Dom Pedro I do Brasil, embora existam referências à sua presença casual em cortes anteriores. Foi a partir de 1836, por influência do segundo marido da soberana, o austríaco D. Fernando II. Em nosso país, o utensílio culinário aportou oficialmente em 1808, com a vinda da família real portuguesa liderada por D. João VI, embora o então Príncipe Regente e depois Soberano do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, preferisse ignorá-lo.

Na trilogia “Rio Antigo”, lançada em 1960, o niteroiense Charles Julius Dunlop conta que D. João VI tinha apetite avassalador. “O almoço constava de três frangos, sem molho, acompanhados de fatias de pão torrado, sem manteiga”, diz. “Completava a refeição com quatro ou cinco laranjas da Bahia”. No final da tarde, depois de um passeio de carruagem pela cidade, D. João VI repetia o cardápio. Então, devorava “três frangos e outras tantas laranjas da Bahia”. Comia sempre com as mãos, jogando os ossos no chão. Talher, nem pensar. A seguir, lavava as mãos na água derramada em uma bacia de prata e fazia o sinal da cruz. Amém!

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