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TED

29/11/2010

às 11:51 \ Amazônia

Um plano

Já que o Brasil está tentando dar uma utilidade para a Amazônia – torná-la produtiva –, tenho um plano. Naquela área gigantesca, de 5,5 milhões de quilômetros quadrados, duas vezes maior que a Índia, poderia funcionar uma gigantesca usina.

Precisaríamos usar tecnologia sofisticadíssima para a coisa dar certo. Seria assim: haveria uma infinidade de máquinas complexas injetando água no ar. Esse movimento carregaria o ar para cima, de maneira constante. O movimento vertical puxaria o ar da região vizinha – o Oceano Atlântico. O ar oceânico viria carregado da umidade do mar. Dessa maneira, ele produziria uma violenta corrente constante de ar úmido, que entraria rasgando pelo norte do Brasil, se chocaria com os Andes, desviaria para o sul e levaria água para a América do Sul inteira.

Não é legal?

Pois então. Essa usina já está em funcionamento. É a chamada bomba biótica da floresta. “Bomba” porque bombeia água. “Biótica” porque é a vida que a produz: em especial as árvores da floresta. Quem contou essa história foi o pesquisador Antonio Donato Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, em sua palestra do TEDxAmazônia, no dia 6 de novembro.

As máquinas sofisticadas que movem a usina são os bilhões de células que compõem cada uma das bilhões de árvores da floresta. Sem que nos déssemos conta, elas já estão há milênios injetando água no ar e garantindo que a América do Sul não se transforme num deserto igual a todas as outras regiões continentais do mundo que ficam em sua latitude. É a Floresta Amazônica que garante que haja água para beber em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Buenos Aires, é ela que faz a soja e a cana crescerem em Goiás, no Mato Grosso, é ela que enche os reservatórios que faz as turbinas hidrelétricas de Itaipu e Furnas gerarem energia.

Essa dinâmica é tão complexa que só hoje nossa ciência começa a engatinhar para compreendê-la. Ainda assim, estamos seriamente empenhados em derrubar a floresta. Primeiro foi a indústria madeireira, depois os fazendeiros de soja, depois a turma do gado e os mineradores. Agora quem avança sobre a floresta são as grandes usinas hidrelétricas. Belo Monte é só a mais famosa: há mais de 50 projetos de hidrelétricas, destinadas a cada um dos grandes rios amazônicos, dentro das fronteiras brasileiras e fora delas, nas nascentes bolivianas e peruanas. Uma imensidão de floresta será alagada.

Para mim, desmantelar nossa usina de bombeamento de água para construir usinas hidrelétricas é mais ou menos como se, em algum momento das primeiras décadas do século 20, abríssemos um supercomputador, arrancássemos lá de dentro os microchips e colocássemos pistões e engrenagens no lugar. A tecnologia celular da bomba biótica é milhões de vezes mais sofisticada do que qualquer coisa que a tecnologia humana é capaz de produzir. Se tivéssemos que construir uma bomba igual à que a floresta nos dá de graça, gastaríamos muito mais energia que todas as hidrelétricas do mundo somadas. E não ficaria tão bom.

Claro que o Brasil precisa de energia elétrica para se desenvolver. Mas, antes de alagar um pedaço tão gigantesco da Floresta Amazônica, eu adoraria ter certeza de que estamos nos esforçando ao máximo para aproveitar inteiramente nosso gigantesco potencial de produzir energia do vento e do sol. Que estamos zelando para que não haja energia desperdiçada nas nossas linhas de transmissão, que contamos com uma rede inteligente e descentralizada. E, obviamente, não é esse o caso. Estamos abrindo mão de um tecão da floresta para fazer hidrelétricas sem antes fazermos todos os esforços para reduzir o desperdício, sem antes espalhar painéis solares e turbinas eólicas pelo nosso vasto território cheio de vento e sol.

A questão não é ser a favor ou contra Belo Monte. É reconhecer a importância crucial de cada centímetro quadrado da floresta e se esforçar ao máximo para que a destruição de uma única árvore seja apenas um último recurso para quando não houver mais alternativas. Não é isso que está acontecendo.

O rio-mar

Digo isso à beira do rio-mar, onde a imensidão de água doce amazônica dilui o salgado da água do mar. Estou na Ilha do Marajó, no alto de um morro junto à praia, sob o vento oceânico constante. É por aqui que as correntes úmidas que evitam que a América do Sul vire um deserto adentram o continente.

Por quanto tempo mais?

***

Termina aqui minha jornada amazônica. Volto esta semana a São Paulo. Peço desculpas por não interagir com os comentários ao longo das últimas semanas. As coisas se normalizam na semana que vem.

Por Denis Russo Burgierman

15/11/2010

às 21:42 \ Amazônia

Diários amazônicos – parte 2

Balanço agora numa rede. À minha esquerda e à minha direita, dezenas de outras redes balançam, uma tão colada na outra que, a cada movimento, esbarro em alguém. Estou em um barco de passageiros, deslizando sobre o Rio Amazonas, cercado da floresta sem fim nas duas margens, escoltado por botos, pacientemente esperando as 36 horas que separam Manaus de Santarém passarem.

Embarquei ontem depois do almoço. Agora, 30 horas depois, o sol se põe pela segunda vez na viagem. Mas não dá para ouvir os pássaros do entardecer cantarem. Em vez deles, só o que se escuta, pelo sistema de som do barco, ligado no talo, é uma sucessão ininterrupta dos grandes sucessos do brega, do tecnobrega, do funk, do axé e do forró. Muito country music, que chegou à Amazônia junto com os bois. Alguns dos meus companheiros de viagem olham desanimados para o rio lá fora, como se contemplassem a possibilidade de se atirar na água, para escapar da tortura musical.

Fico refletindo sobre o quanto os bens mais preciosos da floresta acabam sendo desvalorizados por aqui. A quietude, por exemplo. Se estivéssemos em silêncio aqui no barco, estaríamos escutando a mais poderosa sinfonia de pássaros, sapos e cigarras do mundo, como aprendemos numa palestra memorável do TEDxAmazônia, do especialista em sons da natureza americano Gordon Hempton. Mas os amazonenses urbanos que me acompanham na viagem parecem preferir o rebolation aos sons da floresta. Não acho difícil entender isso. Por aqui vigora uma cultura de enxergar a natureza como um obstáculo, um inimigo, algo a ser superado. Encher o ar de sons eletrônicos é um jeito de afirmar a supremacia humana sobre a floresta.

Nosso barco vai singrando o maior rio do mundo e deixando atrás de si um rastro de latinhas de cerveja, garrafas pet, bitucas de cigarro, embalagens de comida que vão sendo atirados do convés sem qualquer cerimônia. A floresta lá fora é tão monumentalmente grande e infindável que muita gente parece acreditar que essas minúsculas agressões não farão nem cócegas. O resultado se vê nas cidades pelo caminho. Manaus, por exemplo, em alguns lugares lembra um depósito de lixo.

Na semana passada, em outra viagem de barco, fomos conhecer uma reserva natural, o Arquipélago das Anavilhanas, protegido por lei federal. Mal entramos nos limites do parque e ouvimos o zumbido áspero das motosserras vindo de dentro de uma das ilhas. Na água, grandes redes para pegar peixes, o que também é proibido por lá. Passamos algumas horas tentando achar um sinal de celular, para denunciar a infração. Ligamos para uns cinco números diferentes, e em cada um deles nos informaram que “não é aqui não”. Acabamos conseguindo registrar a denúncia, mas algo na voz entediada da moça que nos atendeu nos deu a sensação de que não haveria consequência alguma.

A floresta é gigante, tanto que viajar de uma cidade a outra leva 36 horas de barco ao longo dela. Ela é tão grande que parece infinita. Mas não é. Ela acaba. O silêncio acaba, a madeira acaba, a limpeza acaba.

Minha esposa passeia pelo barco e um sujeito de correntes de ouro no pescoço puxa conversa com ela. Quer saber por onde passeamos nos últimos dias. Ela diz. Ele comenta:

“Ah, vocês são daqueles ecológicos, né? Daqueles que gostam de índio?”

Ele não. Ele gosta de progresso. Índio, com essa história de conhecer e valorizar cada uma das espécies da floresta, atrapalha muito o progresso.

Por Denis Russo Burgierman

06/10/2010

às 20:28 \ Ideias

Qualidade de vida é o que mesmo?

Qualidade de vida, alguém aí é contra?

Claro que não.

A própria palavra “qualidade” denota algo que é melhor quanto mais houver. Ouve-se de tudo nesses dias de hoje: defender redução do crescimento, do estado, do consumo, da automatização, da alimentação, dos gastos, do trabalho, do ritmo. Mas ninguém defende redução na qualidade de vida.

Por outro lado, está para existir expressão mais escorregadia que essa. “Qualidade de vida” é um conceito mais gasto do que sola de Conga. Papo de publicitário querendo vender para você uma área verde cercada de muros eletrificados, com meninos de rua, fumaça e trânsito te esperando do lado de fora.

Por causa disso, a expressão parece não significar mais nada. “Qualidade de vida” é um conceito tão vago e subjetivo que tornou-se inútil. É uma frase vazia e brega, como “coração partido” ou “flechado pelo cupido”. Esqueça a qualidade de vida.

Mas isso é uma loucura, se você for pensar bem. Afinal, por mais que o conceito seja subjetivo, você sabe muito bem o que ele quer dizer. Pense na sua própria vida. Muito provavelmente você vai conseguir lembrar de épocas em que ela estava boa e outras épocas em que estava piorzinha.

Se você estava envolvido em algum grande projeto, foi bom. Se morreu alguém querido, foi ruim. Se você estava muito próximo de bons amigos, foi bom. Se você perdeu o emprego ou a namorada, foi ruim. Se as pessoas estavam respeitando você e querendo saber o que você pensava, foi bom. Se seu emprego era repetitivo e entediante, foi ruim. Se era criativo e recompensador, foi bom. Você sabe do que estou falando.

Não dá para por um número na qualidade de vida, como dá para por no PIB. Mas, ainda que não tenha número, é sim uma coisa real, concreta.

Há muita pesquisa científica sobre qualidade de vida. Sabe-se com um grau de segurança bastante razoável que tipo de coisa melhora a vida das pessoas e que tipo de coisa piora (os exemplos logo acima são reais). Sabe-se, por exemplo, que consumir não melhora muito a qualidade de vida. “Buscar felicidade no consumo é como urinar nas calças para se aquecer num dia frio de inverno: provê apenas uma breve sensação de calor ”, diz o Manifesto pela Política da Felicidade, da organização de pesquisa independente Demos, da Finlândia.

Hoje, a imensa maioria das pessoas que administram o mundo ignoram flagrantemente essas pesquisas. Nunca leram nada disso. São absolutamente ignorantes no assunto. Mas sabem medir o PIB que é uma beleza.

Isso precisa mudar.

Qualidade de vida para todos os seres é o tema que foi proposto para a conferência TEDxAmazonia, que vai acontecer no mês que vem num auditório flutuante no Rio Negro, perto de Manaus. Estou trabalhando na equipe colaborativa de curadoria que montou a programação da conferência. Está ficando muito legal. Se você quiser participar, pode se inscrever até domingo no site www.tedxamazonia.com.br. A entrada no evento é grátis e a hospedagem também: só tem que pagar a passagem para Manaus. Mas a seleção é rigorosa, porque as vagas são poucas. Boa sorte.

Por Denis Russo Burgierman

19/04/2010

às 20:05 \ Ideias

Use seu cérebro inteiro

Jill Bolte Taylor era uma cientista – uma neurocientista respeitada, chefe de laboratório. Uma mulher racional, responsável, ocupada, cheia de responsabilidades, autora de artigos com nomes indecifráveis, tipo “Colocalização de decarboxilase de glutamato, hidroxilase de tirasina e imunorreatividade de serotonina no córtex pré-frontal médio de ratos”.

Aí, numa certa manhã de 1996, quando ela tinha 37 anos, ela teve um derrame cerebral que paralisou o lado esquerdo do seu cérebro e mudou sua vida para sempre. Hoje ela é uma celebridade. Tem milhões de fãs – os adolescentes a adoram. Toca violão, faz vitrais coloridos, prega a paz e leva uma vida de artista. Não pesquisa mais com ratos (porque acha que é crueldade), conversa sobre viver um harmonia com o Universo e está seriamente empenhada em “mudar o mundo”.

Hoje de manhã, entrevistei Jill por skype para uma reportagem que estou escrevendo e ela me contou um pouco sobre os últimos 15 anos da vida dela, que foram bem movimentados.

Se você não conhece essa história, recomendo muitíssimo que você assista à palestra de 19 minutos que ela deu em 2008 no TED. Sério, veja. É uma das coisas mais incríveis que já assisti. (Para ver com legendas em português, clique em “view subtitles” e escolha “Portuguese (Brazil)”).

No dia seguinte a esta palestra ir ao ar no site do TED, 250.000 pessoas já haviam assistido. Seis semanas depois, a revista Time escolheu Jill como uma das 100 pessoas mais influentes da Terra. Em seguida, a apresentadora de TV Oprah Winfrey, talvez a maior celebridade televisiva americana, convidou Jill para uma longa entrevista no seu programa. Seu livro virou um mega best seller, traduzido em dezenas de línguas (no Brasil ele se chama “A cientista que curou seu próprio cérebro”). Hoje ela vive dando palestras, pedindo doações para pesquisas neurológicas, inspirando pacientes de derrames e viajando o mundo.

Perguntei para ela se o derrame a transformou numa hippie.

Ela negou enfaticamente. “Hippies tomavam drogas. Eu não defendo drogas. O que eu defendo é que encontremos um equilíbrio entre o lado direito e o esquerdo dos nossos cérebros.”

O lado direito do cérebro é o lado criativo – o lado do aqui e agora, da experiência, o que nos faz sentirmos parte do Universo, o que cria a sensação de que há um fluxo de energia no mundo e que fazemos parte dele. O lado esquerdo é o racional, o analítico – aquele que passa o tempo todo focado no passado e no futuro e que nos dá um senso de individualidade, de que somos seres separados do resto do Universo. O derrame paralisou o lado esquerdo do cérebro de Jill – justo o seu lado dominante, já que ela era uma pessoa imensamente racional. Sua recuperação foi longa e trabalhosa – ela teve até que reaprender a ler. Mas, ao longo do processo, ela teve várias revelações sobre como o cérebro funciona de verdade.

Por exemplo, ela percebeu que a civilização ocidental, supostamente em nome da “racionalidade”, está subjugando o lado direito do cérebro. Achamos “ingênua” qualquer ideia vinda dele. E não tem nada de racional nisso. É na verdade uma burrice: jogamos fora 50% da nossa capacidade cerebral.

Ela me disse: “há muitas divisões no mundo: homens e mulheres, esquerda e direita, brancos e negros. E, enquanto isso, estamos matando o planeta. Precisamos ir além dessas divisões e trabalhar juntos para fazer com que a vida seja melhor.” Parece papo de hippie. Mas é uma neurocientista falando.

Por Denis Russo Burgierman

08/02/2010

às 16:21 \ Ideias

Ataque dos apaches

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Um guerreiro apache, em foto de 1903 (CC)

Quando os espanhóis chegaram às Américas, nos últimos anos do século 15, encontraram um monte de povos, vivendo os mais variados estilos de vida.

No México, deram de cara com os aztecas, e ficaram maravilhados. Sua capital, Tenochtitlan, depois rebatizada de Cidade do México, era uma cidade de 200.000 habitantes, provavelmente maior e mais imponente que qualquer metrópole europeia da época. Havia palácios, muito ouro, roupas luxuosas, uma cultura sofisticada e um líder tão poderoso quanto os reis europeus. Sua tecnologia de guerra era sofisticada (apenas um pouco menos que a dos espanhóis, que já conheciam a pólvora). Os aztecas sabiam trabalhar o metal e tinham armas capazes de perfurar armaduras espanholas.

Mais ao norte, onde hoje é o sudoeste americano, os espanhóis encontraram os apaches, e não ficaram nem um pouco impressionados. Esse povo nômade, disperso, descentralizado, era um amontoado de bandos aparentados sem hierarquia entre si, que viviam dos búfalos que conseguissem matar. Suas ferramentas eram poucas e rústicas, suas armas não iam além de flechas, lanças e machadinhas, feitas de pau e pedra. Não ergueram grandes edifícios. Quase não deixaram ruínas arqueológicas.

Pois bem. Os espanhóis derrotaram os aztecas em 10 anos. E levaram mais de 200 para imporem-se aos apaches, que mesmo depois disso continuaram incomodando os americanos que anexaram aquele pedaço do México aos Estados Unidos.

Por quê? Porque os aztecas, centralizados e hierarquizados, eram também muito menos flexíveis. Bastou aos espanhóis matar seu líder e os comandados passaram a obedecer ao rei da Espanha. Já os apaches, guerreiros, indóceis e sem líder, simplesmente não aceitaram o novo comando. Inspirados pelo exemplo dos guerreiros do passado, eles negaram-se a adotar novos valores. Não importava quantos espanhóis houvesse – enquanto um apache estivesse vivo, Madrid tinha um inimigo.

Quem me contou essa história foi o Helder Araújo, um jovem designer e empreendedor, amigo meu, citando um livro que ele leu (“The Starfish and the Spider”, de Ori Brafman e Rod Beckstrom). Helder, que é o sujeito que trouxe o TED ao Brasil (TED é o evento californiano que reúne palestras com “ideias que merecem ser espalhadas”), me contou isso enquanto discutíamos projetos que pretendemos fazer juntos. Ele acha que temos que trabalhar como apaches.

Afinal, vivemos uma época de transição (como os apaches e aztecas do século 16). Nascemos num Brasil hierárquico e desigual, insustentável e saudoso do escravismo – um país de estruturas rígidas e imutáveis. Bem azteca, portanto. O Brasil mudou muito: mais gente está conseguindo jogar o jogo. A desigualdade diminuiu, a economia estável significa que é possível empreender e a mobilidade de classes aumentou. Para complicar mais, o mundo inteiro está mudando: a grande crise do nosso modelo de sociedade significa que os gigantes que monopolizavam o mundo já não necessariamente mandam em nós. De repente, a colossal GM vê-se ameaçada por empresinhas de fundo de quintal.

No modelo antigo, o azteca, grandes empresas competem umas com as outras. Quando uma ganha, a outra perde. Aos consumidores resta escolher uma gigante e obedecer a ela.

Já no modelo apache, nem sempre é preciso competir. Trabalha-se muito mais com alianças. Uma empresinha que sabe fazer sites junta-se com uma empresinha que desenha produtos e com uma empresinha que faz filmes e de repente eles são capazes de fazer juntos coisas grandiosas. O público, em vez de mero espectador, é cada vez mais parte da aliança.

Tudo muito lindo, mas é bom não se esquecer de uma coisa: os apaches deram trabalho, mas, no final, perderam. Depois de apanhar por anos, eles finalmente sucumbiram – o golpe de misericórdia foi uma campanha deliberada para extinguir o búfalo, que liquidou o prato preferido dos apaches e, de quebra, sua identidade guerreira.

Acontece que os apaches, ao contrário de nós, não tinham internet. As novas tecnologias de comunicação significam que ficou infinitamente mais fácil se articular sem hierarquia e construir coisas grandes (apaches, ao contrário dos aztecas, não deixaram obras impressionantes).

Eu digo sempre aqui no blog que o nosso modelo de civilização está em transição – que o modelo insustentável em vigor vai dar lugar a uma outra coisa. Quando eu digo isso, às vezes me acusam de ser um stalinista saudoso, que acha que uma revolução vai colocar uma burocracia comunista no poder. Não é nada disso. Nosso modelo está é sob ataque de apaches. No lugar dele, não vai haver um outro modelo – o que vai aparecer é um monte de alternativas diferentes, descentralizadas, desierarquizadas, apenas articuladas umas com as outras por alianças baseadas em valores em comum.

Por Denis Russo Burgierman

16/11/2009

às 18:52 \ MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Contextualizando Copenhague

Você deve saber que, daqui a três semanas, vai começar em Copenhague, capital da Dinamarca, uma convenção internacional sobre mudanças climáticas. Você provavelmente sabe também que o Brasil decidiu se comprometer a reduzir suas emissões de gases de efeito estufa em quase 40% até 2020 (comparando com a tendência atual). E, se você leu as notícias hoje, é provável que saiba também que Obama e seus colegas chefes de estado avisaram que a convenção de Copenhague não produzirá atitudes concretas, apenas cartas de compromisso.

Mas acho bem possível que você não saiba muito bem o que tudo isso significa.

Isso não é surpreendente. O assunto é realmente complexo. Envolve a compreensão do clima, que é um sistema caótico. Envolve a diplomacia mundial, que é o reino das intenções inconfessáveis escondidas atrás de palavras bonitas. Envolve uma compreensível revolta do status quo, tentando preservar seus privilégios em meio à turbulência de um mundo que obviamente precisa mudar de modelo. Envolve desafios a todas as áreas do conhecimento humano – das ciências naturais às econômicas, do desenho das estruturas de poder globais à atividade econômica em cada pequena comunidade humana do mundo.

Mas, no meio dessa imensa confusão, há algumas coisas que são simples de entender. E, se entendermos essas coisas, fica bem mais fácil acompanhar o resto do debate. É o seguinte:

1. Esta primeira eu nem deveria ter que dizer, mas não custa nada repetir: está mais do que claro para qualquer pessoa cujas capacidades cognitivas permitam a leitura de um gráfixo simples de dois eixos que as mudanças climáticas causadas por atividades humanas são um fato além de qualquer dúvida. Também não há dúvidas de que isso é má notícia: coisas terríveis irão acontecer no mundo inteiro, incluindo um monte de mortes, talvez em lugares muito próximos de você, a não ser que consigamos evitar que a temperatura suba mais do que 2 graus Celsius.

2. Aí você pergunta: e como é que eles sabem disso com tanta precisão? Se o assunto é tão complexo, como é que eles sabem que o número mágico é 2oC, e não 2,1 ou 1, 9? E como eles sabem quanto carbono teríamos que emitir para um aumento de 2oC? No que você tem razão: eles não sabem disso com precisão. Nosso nível de certeza é baixo – algo entre 40% e 60%. Mas, como disse Tasso Azevedo, do Ministério do Meio Ambiente, “não sei você, mas, se me dizem que meu avião tem entre 40% e 60% de chances de cair, eu não fico muito aliviado”. O número é uma combinação de milhões e milhões de números, no geral cada um deles não muito confiável. Ele é resultado de cálculos científicos realizados por seres humanos falíveis, e é enormemente influenciado por interesses políticos e financeiros (geralmente interesses ligados ao status quo). Enfim, ele não é preciso. Pode ser que o monte comece a feder quando a temperatura subir 1 grau, ou quando subir 3. Pode ser que os urubus se interessem mais pela gente no ano que vem, ou daqui a 10 anos, ou daqui a 40. Pode ser que já seja tarde demais hoje. Mas, com ou sem precisão nos números, quem diz “não há certeza sobre a temperatura exata na qual as mudanças climáticas se tornarão desastrosas, então não deveríamos fazer nada para combatê-las” é como se dissesse “não sabemos ainda a quantos metros está o muro, nem sua espessura exata, por isso devemos continuar acelerando na direção dele”.

3. Em 2005, o mundo emitia algo como 45 gigatoneladas de carbono. Se queremos garantir que a temperatura global não suba mais do que 2oC, não podemos emitir mais do que 450 1800 gigatoneladas nos próximos 100 anos. Ou seja, se mantivermos o ritmo de hoje, a vaca vai pro brejo em só 10 20 anos (porque, pelas projeções atuais, estaremos emitindo 70 gigatoneladas por ano em 2030). Quanto antes começarmos a mudar, melhor. Se não mudarmos, lidar com os tufões, furacões, secas e epidemias vai sair bem mais caro. Por isso o anúncio de ontem de que Copenhague não produziria atitudes concretas é má notícia. Mas isso não apaga um fato: a mudança terá que ser feita. Se não for hoje, será amanhã – e quanto mais demorar maior será o monte de esterco para a gente cavar.

4. O Brasil é talvez o país do mundo que tem mais a ganhar com essa mudança. Somos grandes emissores de carbono, graças aos desmatamentos e queimadas. Temos a sorte imensa de contar com uma matriz energética bem limpa, baseada em álcool e hidrelétricas. Ou seja, para nós é fácil e barato cortar emissões, basta manter as florestas de pé – enquanto os países ricos e os outros emergentes terão que gastar uma baba mudando suas matrizes energéticas. Some a isso o fato de que o Brasil não precisa mesmo desmatar: o que já foi desmatado é mais que suficiente para termos um setor agropecuário dinâmico e líder do mercado mundial. O Brasil já está entre os maiores produtores de muitas commodities. Se as negociações que começam em Copenhague derem certo, uma nova commodity valiosa será inventada: o crédito de carbono. E nós vamos faturar uma nota nesse novo mercado.

5. Só que, se o Brasil quer mesmo se dar bem no mercado de créditos de carbono, vai ser necessário que os países cheguem a um acordo preciso, com números e metas claras. Se não há metas, ninguém vai tirar dinheiro do bolso, e nós perdemos. Por isso, interessa muito ao Brasil comprometer-se com números, como uma forma de pressionar o resto do mundo a fazer o mesmo. Nem todos os países do mundo vão conseguir cumprir suas metas de redução. Para o Brasil, provavelmente será mais fácil do que para os países desenvolvidos. Isso significa que os países desenvolvidos provavelmente terão que dar muita grana para que países como o Brasil reduzam as emissões de carbono por eles. Nesse cenário, quanto mais o Brasil reduzir suas próprias emissões por conta própria, mais dinheiro poderá ganhar reduzindo pelos outros. Esse foi o argumento que convenceu Dilma e Lula a prometerem uma redução de 36,1% a 38,9% até 2020: eles perceberam que o país tem muito a ganhar (Dilma e Lula não são exatamente ambientalistas).

Sacaram?

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PS: o TEDx São Paulo, que aconteceu no sábado no Teatro da Moóca, foi de arrepiar. Muita coisa legal, apesar de ter começado com os maus auspícios deste que vos fala recitando bobagens. Com o tempo, as palestras vão sendo colocadas no ar, e eu dou os links.

Por Denis Russo Burgierman

29/10/2009

às 10:34 \ Ideias

Vale a pena

Já mencionei aqui o TED, a organização que promove palestras com “ideias que valem a pena ser espalhadas”. O TED é famoso pela conferência anual que ele promove na Califórnia para um público apenas de convidados, de líderes de vários setores do mundo. As palestras, feitas por gente de todo tipo falando dos temas mais diversos, de heroísmo a internet, de fotografia a felicidade, de design a extraterrestres, têm em comum um olhar único sobre as coisas, um desejo de difundir conhecimento e, quem sabe, mudar o mundo com ele. Mais que um evento, o TED é um movimento. As palestras são disponibilizadas de graça na internet, para que as ideias se espalhem, e há um esforço global para legendá-las em várias línguas, inclusive português. Sou fã.

Por isso para mim é um prazer dar uma mãozinha para os voluntários que estão organizando o TEDx São Paulo, que vai acontecer no dia 14 de novembro, na Mooca, em São Paulo. O TEDx é uma das sacadas do pessoal do TED: dentro do espírito de espalhar ideias, de multiplicar ações, eles tornaram possível que qualquer pessoa que conheça o TED organize um evento similar de maneira independente em qualquer lugar do mundo. O TEDx São Paulo, que não tem fins lucrativos, será o primeiro no Brasil. A entrada é grátis e qualquer pessoa pode se inscrever online, preenchendo um (longo) formulário. A organização vai analisar as inscrições e escolher quem vai poder assistir, dando preferência para pessoas criativas, realizadoras, com vontade de mudar o mundo e que tenham um bom papo.

Se interessa para você ir ao TEDx São Paulo, você precisa se inscrever já – as inscrições fecham no domingo.

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Por Denis Russo Burgierman

04/06/2009

às 17:51 \ MUNDO

O discurso de Obama

Hoje, Obama fez história. Discursando no Egito não para meia dúzia de diplomatas com ternos bacanas, mas para “as ruas árabes”, ele se dirigiu a todos os muçulmanos do mundo.

Foi respeitoso, mostrando conhecimento sobre a cultura islâmica e seu papel fundamental na história do conhecimento humano e citando várias vezes o Corão (“quem mata um inocente mata toda a humanidade”). Foi franco quanto às imperfeições americanas, garantiu que seu país já mudou de curso e até reconheceu o papel americano no golpe de Estado de 1953, no Irã. E foi duro também, criticando o terrorismo, deixando absolutamente claro que o laço dos EUA com Israel é inquebrável e exigindo direitos iguais para mulheres (“acredito que nossas filhas podem contribuir para a sociedade tanto quanto nossos filhos”). Foi generoso, indicando que seu governo vai criar parcerias, projetos conjuntos e programas de intercâmbio (“como o que levou meu pai aos EUA”). Foi inspirador, buscando na luta pelos direitos civis dos negros americanos exemplo para os palestinos (“não foi violência que deu direitos iguais aos negros americanos”).

Mais do que pelo que foi dito, o discurso foi histórico pelo modo como foi dito. Claro, franco, transparente, simples, para ser entendido por cada homem sobre a Terra. Obama disse o que seu país quer e se propôs a ajudar os muçulmanos no que eles querem. Foi um convite para trabalhar juntos.

Numa época de políticos definidos mais pelo que fazem em salas fechadas do que pelo dizem em público, foi refrescante.

Obama terminou citando um dos poucos ensinamentos que está presente em todas as religiões do mundo: não faça para os outros o que não gostaria que fizessem a você. Posso estar errado, mas meu palpite é que ele assistiu à palestra de Karen Armstrong, no TED (disponível com legendas em inglês e espanhol). Karen escreveu livros de imenso sucesso sobre cada uma das grandes religiões, e também sobre Jerusalém e os livros sagrados. Na palestra, ela sugere que o “não faça para os outros o que não gostaria que fizessem a você” seja adotado como lema por uma campanha interreligiosa com o objetivo de tirar a religião das pessoas que cultivam ódios e ressentimentos. Essas pessoas atualmente estão no poder não apenas no Islã, mas também nas religiões ocidentais. A religião não é de quem cultiva o ódio – nenhuma religião. Eles não são donos de nada.

Se você tiver 55 minutos sobrando, este discurso (sem legendas) vale cada um deles:

Por Denis Russo Burgierman

21/05/2009

às 15:31 \ Ideias

Como melhorar o mundo

Há dois jeitos de melhorar o mundo.

Um é criar regras melhores. Regulamente os mercados, bradam os especialistas! Leis mais duras! Há que se proibir que deputados roubem dinheiro!

Outro é criar incentivos melhores. Molde o mercado para ele te ajudar! Repense as políticas de bônus! Remunere quem economiza energia! Torne a política mais atraente para gente bem intencionada!

Ontem vi este vídeo espetacular do psicólogo americano Barry Schwartz (com legendas em português). É uma palestra de 20 minutos, mas cada segundo deles vale a pena, garanto. A tese básica de Barry é a seguinte: regras e incentivos são importantes, claro, mas estamos exagerando a importância deles. E é justamente por isso que o mundo está tão ruim.

Regras demais impedem que a gente pense – que a gente converse com outras pessoas e decida por nós mesmos o que é certo e o que é errado. Incentivos demais têm mais ou menos o mesmo efeito – em vez de nos preocuparmos em fazer o que é certo, nos sentimos trouxas se não fazemos o que nos traz mais vantagem.

O que precisamos não é de mais regras ou de mais incentivos. Precisamos de mais sabedoria prática. Um bom começo é procurarmos exemplos de gente sábia, gente que teve que enfrentar um problema sem saber como resolvê-lo e que conseguiu agir certo nessa hora. Precisamos divulgarmos esses exemplos, para que eles inspirem os outros. Precisamos reaprender a ter heróis.

PS: Obrigado ao Vitor Leal, do blog Quintal (ideias para um mundo melhor), por sugerir este vídeo, num post sobre meu post de ontem.

PS2: Este vídeo é uma das palestras do TED (ideias que merecem ser espalhadas), que estão todas online, às vezes com legendas em português. O TED é hoje meu lugar preferido na internet. Vale muito a pena passar tempo navegando lá em busca de inspiração. Acho sinceramente que pode mudar sua vida.

PS3: Uma fofoca: o TED, que além de ser um site é um evento (onde as palestras acontecem), está chegando ao Brasil. Aguarde notícias.

Por Denis Russo Burgierman


 

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