29/11/2010
às 11:51 \ AmazôniaUm plano
Já que o Brasil está tentando dar uma utilidade para a Amazônia – torná-la produtiva –, tenho um plano. Naquela área gigantesca, de 5,5 milhões de quilômetros quadrados, duas vezes maior que a Índia, poderia funcionar uma gigantesca usina.
Precisaríamos usar tecnologia sofisticadíssima para a coisa dar certo. Seria assim: haveria uma infinidade de máquinas complexas injetando água no ar. Esse movimento carregaria o ar para cima, de maneira constante. O movimento vertical puxaria o ar da região vizinha – o Oceano Atlântico. O ar oceânico viria carregado da umidade do mar. Dessa maneira, ele produziria uma violenta corrente constante de ar úmido, que entraria rasgando pelo norte do Brasil, se chocaria com os Andes, desviaria para o sul e levaria água para a América do Sul inteira.
Não é legal?
Pois então. Essa usina já está em funcionamento. É a chamada bomba biótica da floresta. “Bomba” porque bombeia água. “Biótica” porque é a vida que a produz: em especial as árvores da floresta. Quem contou essa história foi o pesquisador Antonio Donato Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, em sua palestra do TEDxAmazônia, no dia 6 de novembro.
As máquinas sofisticadas que movem a usina são os bilhões de células que compõem cada uma das bilhões de árvores da floresta. Sem que nos déssemos conta, elas já estão há milênios injetando água no ar e garantindo que a América do Sul não se transforme num deserto igual a todas as outras regiões continentais do mundo que ficam em sua latitude. É a Floresta Amazônica que garante que haja água para beber em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Buenos Aires, é ela que faz a soja e a cana crescerem em Goiás, no Mato Grosso, é ela que enche os reservatórios que faz as turbinas hidrelétricas de Itaipu e Furnas gerarem energia.
Essa dinâmica é tão complexa que só hoje nossa ciência começa a engatinhar para compreendê-la. Ainda assim, estamos seriamente empenhados em derrubar a floresta. Primeiro foi a indústria madeireira, depois os fazendeiros de soja, depois a turma do gado e os mineradores. Agora quem avança sobre a floresta são as grandes usinas hidrelétricas. Belo Monte é só a mais famosa: há mais de 50 projetos de hidrelétricas, destinadas a cada um dos grandes rios amazônicos, dentro das fronteiras brasileiras e fora delas, nas nascentes bolivianas e peruanas. Uma imensidão de floresta será alagada.
Para mim, desmantelar nossa usina de bombeamento de água para construir usinas hidrelétricas é mais ou menos como se, em algum momento das primeiras décadas do século 20, abríssemos um supercomputador, arrancássemos lá de dentro os microchips e colocássemos pistões e engrenagens no lugar. A tecnologia celular da bomba biótica é milhões de vezes mais sofisticada do que qualquer coisa que a tecnologia humana é capaz de produzir. Se tivéssemos que construir uma bomba igual à que a floresta nos dá de graça, gastaríamos muito mais energia que todas as hidrelétricas do mundo somadas. E não ficaria tão bom.
Claro que o Brasil precisa de energia elétrica para se desenvolver. Mas, antes de alagar um pedaço tão gigantesco da Floresta Amazônica, eu adoraria ter certeza de que estamos nos esforçando ao máximo para aproveitar inteiramente nosso gigantesco potencial de produzir energia do vento e do sol. Que estamos zelando para que não haja energia desperdiçada nas nossas linhas de transmissão, que contamos com uma rede inteligente e descentralizada. E, obviamente, não é esse o caso. Estamos abrindo mão de um tecão da floresta para fazer hidrelétricas sem antes fazermos todos os esforços para reduzir o desperdício, sem antes espalhar painéis solares e turbinas eólicas pelo nosso vasto território cheio de vento e sol.
A questão não é ser a favor ou contra Belo Monte. É reconhecer a importância crucial de cada centímetro quadrado da floresta e se esforçar ao máximo para que a destruição de uma única árvore seja apenas um último recurso para quando não houver mais alternativas. Não é isso que está acontecendo.
Digo isso à beira do rio-mar, onde a imensidão de água doce amazônica dilui o salgado da água do mar. Estou na Ilha do Marajó, no alto de um morro junto à praia, sob o vento oceânico constante. É por aqui que as correntes úmidas que evitam que a América do Sul vire um deserto adentram o continente.
Por quanto tempo mais?
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Termina aqui minha jornada amazônica. Volto esta semana a São Paulo. Peço desculpas por não interagir com os comentários ao longo das últimas semanas. As coisas se normalizam na semana que vem.
Tags: Energia, TED, TEDxAmazônia








