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Sistemas

11/07/2011

às 12:38 \ Drogas

Covardia

O médico Gabor Maté nasceu em 1944 na Hungria ocupada pelos nazistas. Quando era bebê, ele vivia com a mãe num casebre no gueto judaico de Budapeste. O pai estava preso, condenado pelos nazistas a trabalhos forçados. Os avós, pais de sua mãe, seriam deportados para Auschwitz e assassinados. Um dia a mãe levou Gabor ao pediatra, porque o bebê chorava o tempo todo. O pediatra disse a ela que todos os pacientes judeus dele estavam chorando o dia todo.

Os sapatos do monumento de Budapeste simbolizam as pessoas que foram executadas pelos nazistas na margem do Danúbio

Obviamente, Gabor não entendia de nazismo e nem sabia o que acontecia num campo de concentração – ele era um bebê. Mas o estresse da mãe, órfã e lutando sozinha para manter uma criança viva, entrava em seu organismo. Hoje ele sabe que crescer naquele ambiente brutal e desestruturado foi determinante para a sua formação emocional. Como ele não pôde receber amor e cuidado suficientes na primeira infância, Gabor tem permanentemente uma sensação de vazio na alma – uma incompletude, uma carência constante e eterna. Por causa disso, ele tem uma tendência a comportamentos compulsivos. Gabor é viciado em compras. De tempos em tempos, quando a dor aumenta, ele entra numa loja e compra mais do que seria razoável.

Ter vivido isso ajudou Gabor a compreender os mecanismos da dependência. Ele é o autor do livro In the Realm of Hungry Ghosts (“No reino dos fantasmas famintos”) no qual ele revela que, como regra, pessoas dependentes são vítimas de infâncias desestruturadas, como a dele. Os tais “fantasmas famintos” são seres como ele próprio: eternamente carentes de algo. Gabor preenche esse vazio com compras. Outros o preenchem com comida, com sexo, com jogo, ou com drogas. Dependentes severos de crack, cocaína, heroína e maconha são pessoas assim.

“Pessoas com dependências severas foram na maior parte crianças que sofreram abuso”, disse Gabor numa entrevista recente. “Portanto, a guerra contra as drogas é uma guerra contra pessoas que foram abusadas desde que nasceram. Estamos punindo pessoas por terem sido abusadas.”

Essas pessoas têm plenas condições de se desenvolverem bem, de maneira saudável, e de se tornarem adultos bem sucedidos, como aliás aconteceu com o próprio Gabor. Mas, para que isso possa acontecer, elas precisam ser cuidadas. “Fantasmas famintos” são os indivíduos mais frágeis da humanidade, os mais vulneráveis. Eles só têm chances de se desenvolverem se receberem cuidados. E o que estamos fazendo? “Criamos um sistema que repudia, marginaliza, empobrece e adoece os dependentes.” Enfim, nossa sociedade pega os mais vulneráveis e enche-os de cacetadas. Se isso não é covardia, não sei o que é covardia.

Já ouço alguém bradar “o dinheiro dos meus impostos não é para cuidar de vagabundo viciado”. Mas caracas. O nosso sistema atual é muitíssimo mais caro. Manter alguém na cadeia custa dezenas de milhares de reais por ano, enquanto oferecer tratamento custa um preço bem razoável e dá muito mais resultado.

Portugal teve o bom senso de tirar esse assunto da mão de políticos covardes, que se aproveitam da impopularidade dos drogados para incitar o linchamento público e perpetuar a falida guerra contra as drogas. O país montou uma comissão de especialistas, tirou o sistema criminal da jogada e chamou gente com talento para cuidar dos outros para gerenciar o sistema. Surpresa: os dependentes estão conseguindo se curar e estão largando as drogas. Largam porque querem, porque têm força para isso, não porque algum troglodita com cacetete na mão mandou largar.

Aqui no Brasil, nosso sistema se baseia em colocar pequenos traficantes na cadeia. Muitos desses pequenos traficantes na verdade são mães, irmãs e namoradas de dependentes e traficantes, que levam droga para a cadeia ou fazem trabalho de mula para ajudar no orçamento doméstico. Elas são presas e deixam legiões de crianças crescerem sem mãe. Será que essas crianças vão crescer bem?

Nosso atual sistema, assim como aquele sob o qual Gabor nasceu, é uma fábrica de fantasmas famintos. E depois as pessoas acham estranho que, como consequência da guerra contra as drogas, o números de dependentes de drogas no mundo esteja crescendo.

Por Denis Russo Burgierman

10/05/2011

às 1:12 \ Drogas

Indústria de margarina

Sentei num café da cidade de Oakland com a minha entrevistada, a Dale Sky Jones. Dale é uma moça doce, de olhos azuis, com jeito de princesa de desenho da Disney. O tipo de nora que qualquer sogra do mundo adoraria ter. Ela trazia no colo um menino angelical, o Jackson, de quatro meses de idade, olhos azuis e uma penugenzinha loira na cabeça. Sob a luz dourada da primavera californiana, a mãe e o filhinho na janela do café pareciam uma propaganda de margarina.

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Mas não é na indústria de margarina que aquela moça bonita trabalha. É na indústria de maconha. O café onde conversamos, o Bulldog, vende café na frente, mas nos fundos abriga fumadores de maconha. Se Dale morasse no Brasil, o trabalho que ela faz seria chamado de “tráfico de drogas” e daria cadeia.

Dale é gerente executiva da Universidade Oaksterdam, um prédio grande no centro de Oakland que se propõe a ser a primeira escola de nível superior dos Estados Unidos dedicada exclusivamente à indústria da maconha medicinal, que está bombando na Califórnia enquanto o resto da economia afunda. Ela é também, cada dia mais, uma espécie de porta-voz da indústria, participando com destaque da campanha de legalização. Com seu rosto de anjo, ela é adorada inclusive pelos conservadores. A Fox News sempre a entrevista.

Dale veio de um passado corporativo, gerenciando a comunicação de uma grande empresa alimentícia. Era uma executiva linha-dura, exigente, respeitadora das regras e durona com os indisciplinados. Mas fez uma reviravolta na carreira quando foi cuidar da comunicação de um consultório médico que receitava maconha para pacientes. A mãe dela ficou preocupadíssima, o pai nem ficou sabendo. Mas Dale sentia que precisa dar esse salto.

Dale sofre de uma síndrome que causa vômitos. Não é uma doença mortal, seríssima, mas é chata. A medicina tradicional tem tratamento para ela: uma pílula cara que muitas vezes não funciona porque é expelida do corpo. Muitas vezes Dale tinha que se internar num hospital e ficar cheia de tubos pendurados, tomando soro. Dale preferia tratar os vômitos enrolando um baseadinho e fumando um pouquinho. Funcionava que era uma beleza. Ela achava mais prazeroso, menos agressivo, mais confortável, mais barato.

Dale me contou que a indústria da maconha medicinal aqui em Oakland está indo de vento em popa. A cidade está atraindo alguns dos melhores horticultores do mundo, cansados de viver na ilegalidade em seus países. Há uma infinidade de novas empresas surgindo: produtoras, distribuidoras, centros de tratamento médico, um laboratório de análise de segurança que detecta fungos e agrotóxicos. A indústria lembra um pouco a do vinho, pela alta rentabilidade e pelo forte incentivo para buscar qualidade.

Oakland, a única cidade na baía de San Francisco que tem população majoritariamente negra, costumava ser a cidade mais complicada e violenta da região. Foi por anos a recordista nacional de homicídios. Era território de traficantes e policiais.

Melhorou. Os dispensários de maconha, num esforço de relações públicas, deram dinheiro para a polícia e ajudaram a melhorar a iluminação pública. Tem mais gente na rua. Oakland, quem diria, está atraindo até turistas: fãs de Bob Marley em busca de souvenirs de Oaksterdam (mistura de Oakland com Amsterdam). A economia local vai bem, mesmo enquanto o país mergulha nas profundezas da crise. As salas de aula da universidade de Dale estão abarrotadas de gente, apesar de os cursos, com aulas semanais ao longo de um semestre, custarem 700 dólares. Entre os comerciantes da região, os mais felizes parecem ser os donos de restaurantes.

Alguns dos pacientes têm doenças sérias, letais. Outros têm ansiedade (quem é que não tem ansiedade nos dias de hoje?). Tirar a carteirinha é fácil, acessível a qualquer um, custa 70 dólares e fica pronta na hora. O que está acontecendo aqui é um experimento importante neste momento da história da humanidade: o momento em que a classe dirigente do mundo está finalmente se dando conta de que precisamos de um novo modelo para combater o mal que as drogas fazem. O modelo atual faz mais mal do que as drogas. Dale se emociona enquanto fala disso. Aí ela olha no olho azul de Jackson, e suspira, com o coração de executiva durona amolecido pelos hormônios da maternidade:

– É por ele que eu estou fazendo isso.

O nó na garganta me deixou sem conseguir fazer outra pergunta por alguns segundos.

Por Denis Russo Burgierman

14/03/2011

às 12:13 \ Ideias

A lógica da lealdade

Aprendi cedo na carreira a lógica da lealdade. Eu era um repórter jovem numa publicação pouco rentável quando um executivo agressivo “tomou o poder” por lá. Bateu de frente com a cultura antiga e começou a demitir os chefes, um por um. As demissões foram duras, e deixaram bastante gente deprimida. À mim foi dito que eu poderia ficar, se quisesse. Por semanas, dormi mal, enfrentando o “dilema de lealdade” que me foi imposto. Ficar ou sair definiria quem eu era, no que eu acreditava, em que lado eu me posicionava diante das coisas da vida (por exemplo: era a hora de escolher se eu era de direita ou de esquerda).

Esse tipo de dilema acontece na vida de muita gente, quase todo mundo. Em algum momento da carreira, seja no mundo privado, seja no estatal, seja em instituições religiosas ou em organizações da sociedade civil, chega um dia em que ele se impõe. É uma espécie de rito de passagem da vida adulta: o fim das crenças ingênuas da juventude, o momento em que você abre mão das suas próprias ideias e se torna “leal” a alguém, a um grupo, a uma ideologia.

A lógica da lealdade é cômoda, porque nos dispensa de pensarmos por nós mesmos. No momento em que nos alistamos nas fileiras de alguém, fica fácil navegar pela vida: basta seguir o que o grande líder diz para todas as coisas e tudo ficará bem. A vida sem grande líder nos impõe questionamentos constantes sobre todas as coisas, o que às vezes cansa.

Mas essa lógica é muito ineficaz em momentos de crise sistêmica, como a que o mundo está vivendo na atualidade. Crise sistêmica é quando o sistema que regula as coisas para de funcionar. É o que está acontecendo agora (vide mudanças climáticas, crise de confiança na economia, desmoralização do sistema político, carros que andam na velocidade de galinhas, enchentes, deslizamentos, crise energética, fim das florestas, escalada das extinções etc.).

A lógica da lealdade é uma lógica conservadora, de defesa das instituições. É ela que diz “é assim que fazemos as coisas por aqui”, em vez de permitir que se pense no problema. É a lógica da máfia: aquela que diz “não importa se você está certo ou errado, importa se está conosco ou contra nós”.

Não é disso que precisamos neste momento da história. Precisamos de mais gente inquisitiva, perguntadora, inovadora, criativa, questionadora, independente.

Não estou aqui dizendo que todos devamos ser desleais. Lealdade é um valor indiscutivelmente positivo. Mas não podemos abrir mão de nossas capacidades críticas  e dos nossos valores em nome de lealdades corporativas ou pessoais. Não devemos lealdade a ninguém. Nenhum partido político, ou empresa, ou emprego, ou associação, ou sindicato, ou síndico, ou diretoria, ou governo, ou time de futebol tem direitos sobre nossas opiniões. E eles só podem cobrar obediência de nós se entregarem alguma coisa boa em troca. Se queremos consertar os sistemas, o primeiro passo é abri-los. Sua vida é sua, cuide dela. Menos patrulhamento, mais ideias. E não vem querendo mandar em mim.

Por Denis Russo Burgierman

04/10/2010

às 18:04 \ Política

Como consertar a política

Ontem, passeando pelas calçadas da cidade durante as eleições, notei que, em frente de cada posto de votação, a calçada estava coberta de pequenos quadradinhos de papel, cada um deles trazendo fotos, nomes e números de candidatos. Eram papéis pequenininhos, de menos de 10 centímetros cada um.

Aqui em São Paulo, estamos nos aproximando da época das grandes tempestades do final do ano. As próximas chuvas, que talvez caiam hoje mesmo, a julgar pelo cinza do céu que estou vendo agora, provavelmente vão empurrar os papeizinhos para os bueiros. O tamanho dos santinhos é ideal para que eles sejam facilmente arrastados pela água e para que se acumulem nas bocas de lobo, formando uma massa de papel machê. Nos próximos meses, quando as enchentes cíclicas da cidade chegarem, nossos bueiros estarão devidamente entupidos por santinhos de políticos.

Essa historinha é boba, quase óbvia, um detalhe desimportante que passa despercebido no meio das emoções eleitorais. Mas, quando pensamos nela com atenção, é difícil não ficar chocado. Nossos políticos – supostamente as pessoas que zelam pelo patrimônio público – estão sistematicamente colaborando para as enchentes das grandes cidades, que trazem prejuízos bilionários para o mesmo estado que eles querem administrar. Não é uma loucura?

É. E aí vem a questão: de quem é a culpa? Dos políticos? Sem dúvida: tudo culpa daqueles picaretas hipócritas corruptos bandidos usurpadores do patrimônio público. Eles são más pessoas, e por isso o sistema eleitoral é tão ruim. Apontar o dedo para os culpados dá uma sensação boa, um alívio. Mas é imensamente simplista.

Pergunto a você: o seu candidato espalhou papeizinhos com o nome dele pelo chão? Meu palpite é que provavelmente sim. Temos um sistema eleitoral que recompensa visibilidade. Nesse sistema, espalhar uma montanha de papeizinhos pelas ruas é incentivado: quanto mais papeizinhos você jogar no chão, mais gente vai ter a chance de ver o seu número e mais gente vai votar em você. Políticos que não imprimem papeizinhos tendem a não ser notados e não se elegem. Temos portanto um sistema que premia quem colabora com as enchentes e pune quem pensa na cidade. O nosso problema, portanto, não é das pessoas, é do sistema. Não é culpa dos políticos, eles estão apenas respondendo a incentivos para que se comportem mal.

Os papeizinhos na rua são apenas um entre tantos problemas sistêmicos da nossa política. Há outros muito mais sérios. Por exemplo: as eleições são decididas pelo tempo na TV e os critérios para distribuir esse tempo incentivam coligações esdrúxulas. Por isso, quase todo mundo faz coligações até com o diabo. Outro exemplo: candidatos “de protesto” tendem a ser bem votados e podem ajudar a eleger outros da mesma coligação. Isso faz com que quase toda coligação tenha algum personagem bizarro, como o Tiririca aqui em São Paulo, que parecia uma piada, mas na verdade era parte de uma estratégia bem séria.

Resolver problemas sistêmicos é difícil pacas – muito mais difícil do que achar culpados. Ainda mais na política. Como são os próprios políticos que fazem as leis, eles estão envolvidos no sistema: não têm interesse em mudá-lo. Por causa disso, estamos há décadas esperando a tal “reforma política” e ela nunca vem. Por que viria? Os grandes partidos estão confortáveis com o atual sistema e não têm interesse em mudá-lo.

Caberia à sociedade então encontrar soluções. Talvez o que o Brasil precise seja de um grupo multidisciplinar de representantes da sociedade independentes, vindos de vários setores diferentes, talvez até com a participação de um ou outro não-brasileiro que consiga olhar para o problema de um jeito fresco, novo. Esse grupo de pessoas entrevistaria políticos e eleitores, imaginaria modelos melhores, faria brainstormings e testes e, ao final, proporia um novo sistema – completo, buscando atacar cada probleminha e problemão, dos santinhos ao Tiririca, dos debates xoxos ao financiamento de campanha, buscando criar um sistema que torne a experiência de votar muito mais satisfatória. Aí, com o projeto pronto, o trabalho seria pressionar o Congresso a aprová-lo.

É assim que se conserta sistemas. Não é fácil. Mas temos quatro anos antes da próxima grande eleição. Que tal começarmos hoje (antes da chuva)?

Por Denis Russo Burgierman

 

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