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Política

18/10/2010

às 17:59 \ Cidade

Por que nossas cidades não mudam?

Enrique Peñalosa foi prefeito da cidade de Bogotá, capital colombiana. Bogotá era um inferno, uma cidade arrasada pela violência, de baixíssima auto-estima, sinônimo de lugar ruim. Peñalosa foi um dos líderes de um renascimento que levou os bogoteños de volta para a rua e transformou a cidade numa surpreendente história de sucesso de renascimento urbano. Hoje, ele mora em Nova York, onde é presidente da ITDP, o Instituto para Políticas de Transporte e Desenvolvimento, uma organização mundial dedicada a melhorar os espaços urbanos e a mobilidade das pessoas nas cidades do mundo.

O ITDP de Peñalosa contratou o Jan Gehl Architects, um escritório de arquitetura de Copenhague, na Dinamarca, para fazer um projeto para o centro de São Paulo. Já falei do Jan Gehl aqui. Ele é o arquiteto que, nos anos 60, começou a transformar Copenhague na cidade que é hoje: cheia de gente na rua, mais dependente das bicicletas do que dos carros. Seu escritório está por trás de muitas das histórias de sucesso das grandes cidades da atualidade: as ciclovias de Londres, o renascimento do centro de Melbourne, as cadeirinhas da Times Square, em Nova York.

Enfim, juntou-se um “dream team” do novo urbanismo mundial para dar ideias para São Paulo. Os arquitetos do escritório de Gehl resolveram dedicar-se a transformar a região do Anhagabaú no centro vivo da cidade, um lugar onde a cidade toda se encontraria. Eles passaram semanas observando o jeito como as pessoas se relacionam com o espaço, entendendo o papel de cada um lá: os mendigos, as prostitutas, os policiais, os meninos de rua, os trabalhadores, os executivos, os camelôs. Ao final, eles propuseram um projeto lindo. Fiquei morrendo de vontade de passear pelo novo Anhagabaú.

Mas provavelmente não vou ter a chance. São Paulo recusou o projeto do dream team dos urbanistas do mundo. As ideias deles servem para Bogotá, Londres, Nova York, Copenhague, Melbourne, mas não para nós.

Por quê? Por quê São Paulo – e muitas cidades brasileiras – são tão refratárias a ideias inovadoras? (Mês passado escrevi uma carta aberta ao prefeito Kassab sobre uma outra ideia para a cidade, de um grupo de jovens arquitetos que oferecia o projeto de graça à cidade. Não mereci nem resposta do prefeito ou de sua equipe de planejadores urbanos.)

Em parte é fácil de entender o porquê. Os setores imobiliário e de construção são os maiores financiadores de campanhas eleitorais, tanto à prefeitura quanto à Câmara dos Vereadores. A Associação Imobiliária Brasileira deu dinheiro a 29 dos 55 vereadores em exercício – o suficiente para ganhar com folga qualquer votação em plenário.

Não estou aqui insinuando que todos esses vereadores sejam corruptos e vendam seus votos. Mas claramente há em São Paulo uma tendência de defender os interesses desses setores: e esses setores adoram grandes obras, novas avenidas, túneis, pontes ou projetos de “revitalização” que envolvem demolir um bairro todo e construir outro no lugar. Eles não gostam tanto de projetos feitos para as pessoas, que envolvem pesquisa, observação, inteligência – em vez de apenas derramar concreto.

Aliás isso não é só em São Paulo, nem só nas prefeituras, nem é exclusividade do grupo político do prefeito Kassab (que é dos Democratas. O PT também tem as construtoras entre seus principais doadores e isso ajuda a entender projetos meio sem pé nem cabeça como a transposição do rio São Francisco, num país em que a maioria da população ainda não tem saneamento básico).

Quer entender por que o espaço público tende a ser tão ruim no Brasil? Talvez a resposta esteja nas regras de financiamento de campanhas e no sistema político. Talvez nosso sistema privilegie os candidatos que se preocupam em agradar empreiteiras e incorporadoras, em vez de se especializar em atender as pessoas e tornar a vida delas melhor.

Por Denis Russo Burgierman

07/09/2009

às 9:03 \ Cultura livre

A verdadeira independência

gov20

Dê uma olhadinha na história da tecnologia nas últimas décadas e você vai perceber que as invenções que mudaram a sociedade e a cultura mais profundamente não eram simples produtos: eram plataformas.

O computador pessoal é uma plataforma. Sozinho ele não faz nada. Mas seu poder de processamento pode ser usado por uma infinidade de softwares. A invenção do computador gerou um surto de inovação que mudou o mundo.

A internet é outra plataforma. Ela não passa de uma rede de conexões. Mas como é uma rede aberta, qualquer um pode utilizá-la para inovar, para criar sites, para divulgar conteúdo, para trocar ideias, para inventar ferramentas.

O google, a mais bem sucedida empresa da internet, é outra plataforma – uma plataforma de busca que fez nascer uma economia na internet. Utilizando essa plataforma aberta qualquer site pode achar um público e gerar receita divulgando anúncios.

E o iPhone é outra plataforma. Na origem, ele era só um telefone mais legal e bonitão. Mas, como é relativamente aberto, gerou outro surto de inovação. Dezenas de milhares de pessoas e empresas criaram aplicativos para o iPhone, aplicativos que a Apple sozinha jamais seria capaz de inventar.

Plataformas são democratizantes, inclusivas. Cada nova plataforma convida uma multidão cada vez maior de pessoas a participar do trabalho de criar coisas novas. E quanto mais gente criando, maior a chance de coisas transformadoras surgirem.

E se transformássemos o governo em uma plataforma aberta?

É essa a ideia de Tim O’Really. O’Reilly é um visionário profissional. Sua sacada mais famosa foi ter criado a expressão “web 2.0”, mas faz mais de 20 anos que ele se dedica a apontar a próxima grande onda – e quase sempre acerta. O’Really é o organizador do gov2.0 Summit, que começa amanhã em Washington. Escrevo do avião, a caminho de lá.

Na analogia de O’Reilly, governos hoje se parecem com uma “vending machine”, aquelas máquinas de vender refrigerantes ou salgadinhos. Você coloca o dinheiro (os impostos), a máquina solta um pacotinho de amendoim (o serviço público). Se o amendoim não vier, o máximo que você pode fazer é chacoalhar a máquina (protestar, fazer passeatas, gritar “fora Sarney”).

Na visão de O’Reilly, devíamos substituir o governo-vending-machine por um governo que funcione mais como um computador, a internet, o google, o iPhone. Uma plataforma aberta, a partir da qual todo mundo pode inovar, criar, colaborar. Se o serviço é ruim, você melhora. Um governo de código aberto.

datagov11

Funcionaria assim: o governo disponibilizaria toda informação disponível sobre a sociedade – todos os dados, todos os números, todo os fatos (o governo Obama está tentando começar a fazer isso com o site data.gov). Aí, qualquer pessoa que quiser inventar um “aplicativo” para a plataforma-governo teria direito de fazer isso. O governo deixa de ser o agente da administração – passa a ser apenas a plataforma sobre a qual qualquer cidadão pode se governar.

Aplicativo de governo? Como assim? Não sei bem ainda. Tudo isso ainda parece bem vago, embora promissor. Assim como seria impossível prever quais softwares surgiriam antes da invenção do computador, também não dá para prever como o governo mudará quando virar uma plataforma. Mas o Summit em Washington será uma primeira reunião entre gente do país inteiro envolvida em projetos de transparência, democracia, cidadania, participação, colaboração, para começar a formular essa ideia. Toda a cúpula de tecnologia de informação da Casa Branca vai estar lá, além de gente ligada aos projetos mais inovadores de estados e cidades, comandantes militares, inovadores da saúde e educação, autores como o ótimo Clay Shirky e empresas como a Google e a Microsoft.

O Brasil não poderia estar mais longe dessa realidade. Aí na terrinha o governo não apenas não é uma plataforma aberta como nem sequer a vending machine funciona direito. Colocamos um monte de dinheiro e o amendoim vem murcho. E, por mais que chacoalhemos a máquina, o Sarney não cai.

Mas às vezes tenho a esperança de que essa nossa desvantagem vire uma vantagem. Sabe a história do atraso que acaba ajudando novas tecnologias a se espalharem? (Exemplo: no Brasil faltavam linhas fixas de telefone e isso acelerou a adoção do celular.) Quem sabe nossa vending machine quebrada acabe sendo um incentivo para as pessoas adotarem de uma vez o governo-internet. Mesmo que os Sarneys e os Azeredos da vida não queiram. Isso sim seria uma “nova independência” – independência dos políticos.

Por Denis Russo Burgierman

16/08/2009

às 12:25 \ Política

Ditadura brasileira apoiou golpe no Chile

Leio aqui no jornal Los Angeles Times de hoje que ontem, sábado, foram divulgados pelo instituto de pesquisa não-governamental Arquivo de Segurança Nacional documentos que mostram que o Brasil participou com destaque das articulações para o golpe militar do Chile, em 11 de setembro de 1973. O golpe resultou na morte do presidente eleito Salvador Allende e na longa ditadura de Augusto Pinochet, a mais sangrenta da América Latina do Sul, que só terminou em 1990.

Os documentos são comunicações entre representantes dos governos brasileiro e americano. Fica claro que havia um canal direto para discutir o assunto entre o general Medici, então presidente do Brasil, e o presidente conservador americano Nixon. O trecho mais revelador mostra que a oferta americana de ajuda financeira para os golpistas chilenos veio depois de Medici dizer a Nixon que os militares brasileiros estavam trabalhando junto com os chilenos, e que ele acreditava nas chances de sucesso do golpe.

O golpe já ficou no passado, claro. Pinochet já morreu, assim como Nixon e todos os ditadores militares brasileiros (dos personagens citados nos documentos, um continua vivo: o então secretário de Estado americano Henry Kissinger, tido como o maestro da Guerra Fria americana). Mas, ainda que a divulgação venha tarde demais para ter consequências, acho notável que documentos desse tipo continuem aparecendo, jogando luz sobre a história. Um mérito há que se reconhecer na democracia americana: há uma clareza de que o país é maior do que o presidente. Tanto é assim que documentos são preservados e tornados públicos ao longo das décadas, por mais incômodos que eles sejam (uma das tantas atrocidades de W. Bush como presidente foi tentar emperrar esse processo, num de seus esforços para reduzir a transparência do governo).

Não se vê documentos desse tipo aparecendo aqui no Brasil. Talvez seja pela nossa tendência à informalidade, a não registrar as coisas. Talvez seja pelo nosso espírito menos metódico, menos organizado. Talvez seja pelos poderes meio imperiais do nosso presidente, que provavelmente tem muito mais margem de manobra para mandar destruir papéis importantes do que os americanos.

Por Denis Russo Burgierman

05/07/2009

às 12:22 \ Ideias

Domingo é dia de futebol

Dizem para mim que tenho que escolher um time entre os dois que estão em campo. Num deles joga o Fidel de centroavante, a zaga russa é Stálin e Lênin, o Ahmadinejad, goleirão, não deixa passar uma e lá no banco Chávez fica aos berros, sempre em pé, enchendo o saco do juiz, nunca se limitando à linha pontilhada. No outro time o craque é o camisa 10 Hitler, a linha de zaga é formada por generais sul-americanos liderados pelo clássico volante Pinochet, o lateral Bush deixa a defesa na mão com suas  subidas inconsequentes à linha de fundo.

Pois eu não escolho nenhum dos dois. Estou num outro time, contra todos eles.

Por Denis Russo Burgierman

19/06/2009

às 21:34 \ MUNDO

Não é todo dia que a História acontece

Tem uma história linda acontecendo neste exato momento no outro lado do mundo, no Irã. Uma história de um povo criando coragem para enfrentar um regime opressor. De gente jovem, esperançosa, num dos países mais fascinantes do globo, conectada pelas novas tecnologias, enfrentando um gigante. Estamos num momento chave. Pode ser que o regime caia. Pode ser que ocorra um massacre.

Estou acompanhando todo dia pelo blog do Pedro Dória, o Weblog, que está atento a cada desenrolar e tem ótimas análises abastecidas por fontes no Irã e fora de lá. Acompanhe também. Não é todo dia que a História acontece.

A foto abaixo é parte da incrível reportagem fotográfica do brasileiro Carlos Cazalis, publicada no site de fotografia PicturaPixel (uma das boas dicas do Pedro).

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Foto © Carlos Cazalis

Por Denis Russo Burgierman

25/04/2009

às 20:36 \ MUNDO

Tortura funciona?

Li uma história incrível no Weblog, o blog do jornalista Pedro Doria. Doria transcreve uma entrevista com o tenente-coronel americano Steven Kleinman.

O que ele conta é o seguinte:

Pouco depois da Segunda Guerra Mundial, quando o mundo começava a se dividir em duas caixinhas – o período conhecido como Guerra Fria, de dualismo ideológico EUA X URSS –, oficiais de inteligência americanos começaram a perceber um fenômeno estranho. Vários cidadãos americanos presos em países comunistas estavam confessando que pertenciam à CIA. Só que eles não pertenciam. Por que eles estavam dando depoimentos falsos?

Tortura.

Mas não qualquer tortura: era um tipo menos baseado em violência extrema e mais em causar insegurança, debilidade, depressão, terror, confusão mental. Não eram técnicas pensadas para forçar a verdade: era quase o contrário. Eram pensadas para obrigar qualquer confissão, verdadeira ou não. O objetivo dos torturadores comunistas, afinal, não era descobrir os fatos, era fazer propaganda ideológica. E, para fazer propaganda, como os publicitários sabem bem, a verdade nem sempre é o que mais interessa.

O que os EUA fizeram? Criaram um programa, chamado SERE (Survival, Evasion, Resistance and Escape), para treinar agentes americanos a resistir a essas técnicas. Adivinha o que o SERE acabou virando? Ironia: deu origem aos métodos de “interrogatório” usados por agentes americanos na guerra contra o terror. Enfim, os métodos da patota de Bush são baseados num instrumento comunista de manipulação ideológica. Ê mundão véio sem porteira.

bush

Imagem: Flickr/fPat

Por Denis Russo Burgierman

 

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