01/03/2010
às 13:10 \ IdeiasA doença do capitalismo
Tem algo profundamente errado no nosso modelo econômico. O problema não é o “capitalismo”, é uma doença do capitalismo: um pensamento financeiro criminosamente insustentável que se espalhou por toda a economia (inclusive em países comunistas). Precisamos erradicar essa doença se queremos ver a luz no fim do túnel.

Numa cena do filme "Gomorra", imigrantes ilegais fazem sua parte para alimentar o PIB e a máfia.
Neste post eu quero tentar explicar que doença é essa. Vou partir de um exemplo concreto para deixar essa discussão mais clara.
O exemplo é do livro Gomorra, do jornalista italiano Roberto Saviano, transformado num filme com o mesmo nome. Saviano revela que as grandes grifes de moda italianas, para diminuir seus custos, tercerizaram os seus serviços de tecelagem. Para reduzir mais ainda os custos, eles criaram um sistema de concorrência. É assim: as grifes fazem o desenho das roupas e entregam para várias pequenas empresas de costura. Quem conseguir produzir mais em menos tempo ganha a concorrência e é pago. Quem perde a concorrência não ganha nada – trabalhou de graça e pode ficar com as roupas produzidas.
Do ponto de vista estritamente financeiro, esse sistema é um grande sucesso. O incentivo da concorrência garante preços baixíssimos e uma produção muito veloz. Desde que o sistema foi implantado, os custos de produção baixaram e as margens de lucro cresceram. Ou seja, o sistema funciona. Mas ele tem um monte de consequências, das quais Saviano (que está jurado de morte pela Camorra, a máfia napolitana) fala em seu livro.
Algumas dessas consequências afetam as próprias grifes. Exemplo: a pirataria cresce, gerando competição desleal para os produtos originais. É que as empresas que perdem a concorrência sobram com um monte de roupas. Óbvio que eles vão tentar reduzir o prejuízo vendendo o encalhe aos “comerciantes informais”. O resultado é que o mercado é inundado por roupas e acessórios piratas que custam várias vezes menos que as originais, mas têm um padrão de qualidade parecidíssimo, às vezes até superior (porque a concorrência seleciona apenas rapidez, fazendo com que produtores mais caprichosos saiam em desvantagem).
Outras consequências afetam a sociedade inteira. As regras da concorrência são um incentivo para contratar imigrantes ilegais (que topam trabalhar dia e noite, inclusive no fim-de-semana, num regime que só pode ser descrito como de escravidão). Diante desses escravos ilegais, profissionais italianos que prezam a qualidade (uma tradição do país) perdem seus empregos, o que desestrutura famílias. Todo esse ambiente ilegal atrai gangsters armados que se dedicam a extorquir as empresas. O dinheiro dos produtos de grifes acaba então sendo usado para comprar armas para o crime organizado
Essas consequências sinistras do modelo de produção – a pirataria, a escravidão, o desemprego, o crime organizado – são as chamadas “externalidades”. Externalidades são custos não computados. Quando os acionistas das grifes de moda olham os resultados da empresa, ficam felizões com os números. Eles acham essas concorrências fantásticas. Mas isso acontece só porque eles não estão computando custos reais à sociedade e à própria empresa. Por causa desse sistema, os governos perdem uma grana em polícia, hospitais, cadeias. Sem falar nas mortes – o mais definitivo dos prejuízos.

O corajoso jornalista Roberto Saviano, que está ameaçado de morte, vive sob escolta policiale entrou em depressão. Quem mandou desafiar o modelo econômico?
Claro que eu escolhi um exemplo extremo. Nem todas as empresas causam tantos danos. Mas essa mesma lógica está em toda parte, no mundo inteiro, causando problemas maiores e menores. A imensa maioria das empresas hoje toma decisões baseadas apenas no quanto se economiza em custos e no quanto se aumenta as receitas, ignorando-se todos os outros fatores.
Algumas décadas atrás, as empresas eram no geral grupos de pessoas que sabiam fazer bem um trabalho. As grifes de moda italianas, por exemplo, contavam com os costureiros mais talentosos, tinham o melhor design, usavam o material de maior qualidade. Produziam, portanto, produtos melhores do que os outros e, por isso, vendiam mais caro.
Mas, a partir dos anos 80, uma onda financista se espalhou pelo mundo. Empresas de todo tipo começaram a perceber que podiam reduzir os custos (e a qualidade) e ganhar mais com isso. As grifes italianas, por exemplo, passaram a fazer um produto ordinário, mas ainda assim caríssimo (porque as pessoas já tinham se acostumado a pagar mais pelas grifes). Lentamente, o pessoal do financeiro passou a controlar todas as empresas. Hoje em dia, no geral, um CEO é um sujeito bom de cortar custos e aumentar preços, não um cara que entende do negócio da empresa dele.
Esse pensamento dentro das empresas na verdade é consequência de uma tendência da macroeconomia. Investidores querem ganhar cada vez mais com ações, por isso pressionam as empresas a lucrar mais, e assim as empresas espremem os funcionários, os fornecedores e os consumidores. Com isso, as bolsas sobem, os PIBs crescem, os bancos comemoram. Mas as externalidades se multiplicam, sem que o pessoal do financeiro se dê conta. Espalhamos poluição, crime, injustiça, exploração e morte pelo mundo, em troca de décimos de pontos percentuais no PIB.
Está na hora de as empresas tirarem a galera do financeiro da presidência e colocarem-na no seu lugar: o departamento de contabilidade. Esse pessoal é fundamental para que a economia funcione. Mas eles não podem mandar no mundo.
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