Blogs e Colunistas

Jornalismo

19/07/2009

às 13:56 \ Ideias

Reflexões sobre uma moqueca

Como todo mundo, eu sei racionalmente do impacto da globalização no mundo e na economia. Mesmo sabendo disso, às vezes eu me surpreendo quando a sinto encostar na minha vida e percebo na prática o impacto da facilidade de se conectar com pessoas do outro lado do mundo.

Por exemplo, esta semana nós comemos uma moqueca preparada pela Violet Gonda, jornalista do Zimbábue.

muqueca_violet

Violet apresenta um programa de rádio chamado Hot Seat, na SW Radio Africa, rádio do Zimbábue transmitida do exílio em Londres. O formato do programa é bem simples: Violet telefona de Londres para algum bambambam do alto escalão da ditadura do Zimbábue e começa a fazer perguntas que ninguém no Zimbábue teria coragem de fazer. Os políticos estão tão acostumados a não ser desafiados que não têm o jogo de cintura de driblar as perguntas. Acabam denunciando sua visão tosca de mundo e aparecendo nus diante da audiência. Em vez de ditadores temíveis, eles acabam soando como bobocas sociopatas. O Hot Seat, transmitido ao Zimbábue pela internet (antes era também por ondas curtas, mas a ditadura de Mugabe andou comprando equipamentos chineses para embaralhar o sinal), é um sucesso.

Bom, claro que os cupinchas de Mugabe não curtem muito o trabalho da Violet. Ela teve seu passaporte confiscado e está banida de seu país natal há quase uma década. Nos últimos anos, ela ficou com medo de que sua família corresse risco e levou todo mundo para Londres: pai, mãe e 3 irmãos. Conheci Violet ano passado, quando ela foi minha colega num programa para jornalistas do mundo todo aqui na Califórnia. Nosso terceiromundismo nos aproximou e ficamos amigos. Agora, que estamos de férias, viemos nos encontrar aqui na Califórnia.

Ensinamos a Violet a fazer moqueca. O pimentão poderia ter ficado um pouquinho mais cozido e os camarões deveriam ter sido descascados, mas, no geral, a muqueca africana ficou uma delícia. Vestida de branco numa esquina de Salvador, Violet passaria fácil por local.

Num mundo sem globalização, seria impossível conhecer Violet. Seria impossível ela experimentar uma moqueca. Seria impossível um jornalista brasileiro trocar ideias com uma jornalista do Zimbábue sobre as diferenças no autoritarismo de seus dois países. Seria impossível criar alianças internacionais de gente comum com ideias alinhadas. Agora tudo isso é possível.

Por Denis Russo Burgierman

06/07/2009

às 22:34 \ Jornalismo

Festas, casamentos, funerais

picture-1

Hoje fui ver o grande jornalista Gay Talese falar lá no prédio da Editora Abril.

“Um repórter tem que se vestir bem para ir a uma entrevista. Uma reportagem é uma ocasião importante, é como um festa, um casamento, um funeral.”

Sou espada, mas impressionante a elegância dele. Mais uma coisa em que ele ganhou de mim. Por enquanto está 11 X 1 para ele (fiz um ponto em pebolim).

Por Denis Russo Burgierman

25/06/2009

às 18:55 \ Política

Nossos políticos não gostam de democracia

O jornalista Fernando Rodrigues resumiu bem no blog dele o espírito da lei que a Câmara quer aprovar para regulamentar o uso da internet nas campanhas eleitorais: “a proposta acorrenta o Brasil ao século 20″.

A internet tem um potencial tremendo de democratizar a política. Qualquer um pode criar um site, qualquer candidato, rico ou pobre, pode divulgar suas ideias, qualquer eleitor pode ajudar seu candidato, qualquer pessoa pode doar dinheiro. É a nossa chance de dispor de mais informação, vinda de mais fontes, em vez de ter que decidir com base apenas em debates ensaiados, propagandas publicitárias e publicações parciais. Esse potencial democratizador ficou óbvio na campanha presidencial americana, quando um candidato pouco conhecido, sem o apoio dos manda-chuvas de seu próprio partido, soube mobilizar o país e ganhar a eleição, em grande parte financiado pelos próprios eleitores.

Mas os nossos políticos não querem saber de novidades desse tipo. Para quê? Eles estão satisfeitos em manter o clube fechado – já que eles já estão lá dentro.

Alguns dos absurdos que a proposta de lei contém:

  • sátira e humor sobre os candidatos estarão sumariamente proibidos.
  • um blog só poderá publicar uma entrevista com um candidato a cargo majoritário se der espaço equivalente a dois terços deles (o que praticamente inviabiliza a cobertura independente das eleições).
  • a propaganda só poderá começar no dia 5 de julho. Antes disso, temos que fingir que os candidatos não estão em campanha.
  • será proibido fazer qualquer alusão ou crítica a candidatos, exceto conteúdo jornalístico ou debates.

Fala-se muito na tal reforma política, que pretende modificar a forma pela qual os candidatos são eleitos. Isso é importante, claro. Mas por que ninguém fala sobre o mais importante? Sobre o fato de que há ainda no Brasil restrições ao direito à informação e à liberdade de expressão dignas de uma ditadura. De que os brasileiros não têm acesso a informação de qualidade para fazer escolhas bem informadas. De que nossos partidos políticos, todos eles, são autoritários, obscuros, cheios de segredos e tentam decidir a portas fechadas aquilo que deveria ser escolhido pelo povo. De que ninguém nunca quer saber nossa opinião e no único momento em que temos a chance de participar – a eleição – instaura-se um regime de exceção que controla a informação como e o AI-5 estivesse de volta.

Não bastasse a lei ser ruim prá dedéu, nossos excelentíssimos ainda correm o risco de não aprová-la a tempo (até setembro), o que nos deixaria com regras para internet ainda mais retrógradas. Eu, da minha parte, torço para que haja tempo de melhorar essas regras. Mas, se não houver, apóio uma campanha de desobediência civil. Que o Brasil ignore essa tentativa de censurar a internet. Não estou aqui propondo que se desrespeite a lei. Pelo contrário: precisamos é respeitar a lei maior, a Constituição Federal, que não deixa margem a dúvidas em seu Artigo 5:

É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de
comunicação, independentemente de censura ou licença.

Caso alguém ainda não tenha entendido, a Constituição deixa mais claro:

A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer
forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto
nesta Contituição.

Parágrafo 1: Nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço para a
plena liberdade de informação jornalistica em qualquer veículo de comunicação
social.

O resto é abobrinha.

Deixo vocês com um vídeo americano divertidíssimo que pega pesado com todos os candidatos a presidente na eleição do ano passado. Só como exemplo do que liberdade de expressão significa. As legendas estão em inglês.

Por Denis Russo Burgierman

18/06/2009

às 10:53 \ Cultura livre

Qualquer um pode ser jornalista

O Brasil é um país onde o corporativismo chega às fronteiras do absurdo. Aqui advogados fazem questão de falar uma língua que ninguém mais entende, de forma a tirar do povão a possibilidade de se defender sozinho. Acadêmicos só discutem com seus pares, e ignoram a massa ignara lá fora. Policiais não multam juízes, generais e otoridades em geral. Médicos escondem informações sobre doenças. Políticos se acham um tipo especial de ser humano, imune à lei (segundo o presidente, por exemplo, Sarney não é “pessoa comum”).

E jornalistas têm o monopólio da produção de notícias. Pessoas sem diploma de jornalismo são proibidas de divulgar informações ao público.

Quer dizer, eram.

O Supremo Tribunal Federal derrubou ontem à noite essa exigência absurda, que por anos empobreceu nosso país. Forçar todo mundo que faz jornalismo a ter a mesma formação universitária é homogeneizador, acaba com a diversidade da informação, torna impossível que a imprensa reflita  a sociedade. Nos EUA, advogados, engenheiros, filósofos, cientistas trabalham na mídia. E a imprensa é 3 trilhões de vezes mais interessante que aqui. Lá tem até jornalista que sabe fazer conta!

Não que eu não tenha aprendido nada na faculdade de jornalismo. Aprofundei lá meus conhecimentos sobre substâncias inebriantes e me tornei um dos grandes jogadores de pebolim da minha geração, entre outras coisas. Mas nada que se ensine na faculdade de jornalismo justifica o privilégio do monopólio da produção e divulgação de informação para a sociedade.

Comemoremos. O Brasil ficou um pouquinho menos corporativo.

Ah, se bem que para cada avanço há um retrocesso… Não querem agora que os DJs sejam obrigados a tirar diploma para poder colocar som?

175245818_a63b22e281

Foto: Felipe Skroski / Twitter

Por Denis Russo Burgierman

08/05/2009

às 19:09 \ Política

Justa causa

Vocês me perdoem a insistência, mas eu gostaria de continuar com o assunto de ontem. É que não consegui tirar da cabeça o tal deputado gaúcho Sérgio Moraes, aquele que está se lixando para a opinião pública.

É que fiquei pensando no significado do que ele disse. Opinião pública = opinião do povo. Estou me lixando para o que o povo pensa. Deputado – substantivo masculino, do latim deputatu, indicado, escolhido para representar. Enfim, o representante do povo está se lixando para a opinião do povo.

O deputado fez, nas entrevistas que deu, críticas pesadas à imprensa. Eu sou da imprensa. Não sou corporativista, como o deputado é. Concordo com ele em alguns pontos: alguns dos meus colegas de profissão são picaretas. Alguns são irresponsáveis. Alguns são incompetentes.

Mas jornalistas (a não ser os muitos que trabalham para o governo) são funcionários de empresa privada. Se eles dão mancada, vão para a rua. Eu, por exemplo, tenho um crachá verde e branco da Editora Abril S.A.. O que vocês acham que aconteceria se eu escrevesse que estou me lixando para a opinião do dono da minha empresa? Imagino que eu seria sumariamente demitido, por justa causa.

Pois então: por que é que um representante do povo que afirma na imprensa que está se lixando para a opinião do povo não perde o emprego?

Por Denis Russo Burgierman


 

Serviços

 

Assinaturas

Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados