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ECONOMIA

13/06/2011

às 5:01 \ Drogas

A porta da frente e a de trás

No final dos anos 1960, a maconha chegou à Holanda, junto com os cabelos compridos, o discurso pacifista e o movimento flower power. O governo encomendou a especialistas um relatório, avaliando os riscos da nova droga e sugerindo uma forma de lidar com ela. Na mesma época, vários países fizeram a mesma coisa. O Reino Unido encomendou o Relatório Wootton em 1968, no Canadá produziu-se o Relatório LeDain em 1970, nos Estados Unidos, Nixon mandou preparar o relatório Shafer, em 1972. Todos eles chegaram a uma conclusão semelhante: a maconha é uma droga relativamente segura e a melhor forma de lidar com ela é com regulação.

“A diferença é que, aqui, os políticos ouviram os cientistas”, diz Mario Lap, especialista em política pública holandês, que entrevistei no parque da cidade, em Amsterdam, enquanto ele levava sua cachorrinha para passear. Nos outros países, os políticos entraram em pânico com medo da reação interna e ignoraram as recomendações.

A Holanda então resolveu regular a venda de maconha, de maneira a poder fiscalizar o comércio e vigiar de perto os vendedores. Só que tinha um problema. Em 1961, o país tinha assinado uma convenção da ONU na qual se comprometia a reprimir o comércio de drogas. Ou seja, pela lei internacional, o país não podia permitir a legalização da maconha.

Só que esse país pragmático, de comerciantes bons de contas, tem uma palavra que nem existe no dicionário da maior parte das línguas: “gedogen”. Gedogen é uma coisa que é ilegal, mas tolerada em nome de um bem maior. Os holandeses resolveram então que, em nome da saúde e da segurança públicas, a maconha seria gedogen. Ilegal, mas tolerada dentro de certos ambientes, desde que uma série de regras rígidas fossem seguidas (publicidade proibida, ordem pública mantida, proibição absoluta a menores de idade). Só que o sistema tinha uma incoerência fundamental: era permitido vender maconha nos “coffeeshops”. Mas quem venderia para os coffeeshops? Os pragmáticos holandeses resolveram seguir em frente. Melhor resolver meio problema do que nenhum, pensaram.

A política foi bem sucedida. O maior impacto positivo foi o que os holandeses chamam de “separação dos mercados entre as drogas leves e pesadas”. Ao tirar a maconha dos traficantes ilegais, reduziu-se bruscamente os índices de usuários de outras drogas – no Brasil, não é incomum que traficantes empurrem crack para quem só quer comprar maconha. Mesmo o número de usuários de maconha, no país, está bem abaixo da média europeia.

Mas sobrou “meio problema”. Os holandeses tiveram pleno sucesso em regular a demanda, mas a oferta continuou nas sombras da ilegalidade. A porta da frente dos coffeeshops é absolutamente legal, mas a dos fundos é tão esquisita quanto a de qualquer boca de fumo do mundo.

No começo, quem supria a maconha da Holanda eram produtores tradicionais do Líbano. Mas, no final dos anos 1980, começaram a surgir plantadores no país, e a qualidade começou a ficar muito melhor. Mario Lap, o especialista que entrevistei, trabalhava no governo na época. Ele percebeu que era hora de resolver a outra metade do problema. “Propus que regulássemos, licenciando produtores. Naquela época, eram mamães e papais que plantavam. Era gente como eu e você: professores, motoristas, que tinham o dedo verde e queriam uma renda extra. Eu disse que tínhamos duas opções: ou regulávamos a produção ou o crime iria dominar esse mercado em cinco anos.”

Dessa vez, o governo não ouviu os cientistas. Temeroso com a reação internacional, optou por não regular, manter os produtores na ilegalidade e, pior, colocá-los na cadeia. Em muito pouco tempo, as mamães e papais saíram do negócio, já que não viam graça em ir presos. Surgiu um mercado lucrativo desatendido, e obviamente logo logo alguém apareceu para supri-lo. Desde os anos 1990, há grupos criminosos produzindo maconha na Holanda. A qualidade do produto caiu, o preço subiu, a vida dos donos de coffeeshop perdeu um pouco da alegria e ficou mais tensa. Mario olha com inveja para a Espanha, onde o problema da oferta está sendo atacado: há lá cooperativas de usuários que ganharam na justiça o direito de plantar para si mesmos, sem transações comerciais envolvidas (e portanto sem infringir as convenções da ONU). “A Holanda ficou para trás”, diz.

Hoje, o sistema todo dos coffeeshops está sob ameaça. A Holanda tem um governo “de minoria”, uma grande coligação que, para governar, precisa do apoio de um partido ultranacionalista xenófobo, que quer ver os coffeeshops fechados (eles também querem cobrar impostos de quem usa o véu muçulmano). Se eles ganharem a briga política, o controle para comprar maconha aumentará muito, centenas de coffeeshops serão fechados e os turistas serão proibidos de entrar. “Os traficantes de rua vão voltar, para vender para os turistas, que certamente não vão embora, e para os holandeses que não se submeterem às restrições”, diz Mario. Se isso acontecer, a Holanda voltará a ter um problema inteiro, como o resto de nós.

Estou dentro do trem, rumo ao sul. Vamos ver o que tem na Espanha que deixa os holandeses com inveja.

Por Denis Russo Burgierman

30/05/2011

às 16:59 \ Política

Vamos olhar os números

Não é hora para emocionalismos, sejamos pragmáticos. Vamos olhar os números.

Uma castanheira-do-pará é uma árvore gigantesca, de 50 metros de altura, que pode viver mais de 1.000 anos. Todo ano, a castanheira dá frutos, que têm uma casca dura como a de um coco. Dentro da casca há até 24 castanhas-do-pará, um produto apreciadíssimo no mundo inteiro, rico em selênio e em ômega-3, portanto extremamente eficaz para combater ao mesmo tempo os dois grandes vilões da saúde contemporânea: câncer e doença cardíaca. Na média, uma castanheira não muito grande dá cerca de 30 frutos por ano, o que equivale a quase 500 castanhas. É o suficiente para produzir 1,5 litro de óleo de castanhas, o que rende uns 200 ou 300 reais para um pequeno produtor, por árvore (castanheiras realmente grandes e saudáveis chegam a produzir até 20 litros). Supondo que alguém tenha 30 castanheiras nas sua terras, são pelo menos uns R$ 6 mil por ano em óleo, talvez R$ 10 mil, por toda a eternidade até o tataraneto do tataraneto do tataraneto.

Mas os tempos são de prosperidade no Brasil e os chineses precisam de ferro para construir réplicas da Torre Eiffel. Há inúmeras mineradoras arrancando ferro de dentro da terra, de maneira agressiva. Em boa parte do país, esse ferro, assim que sai do chão, é queimado em fornos a carvão. Na Amazônia, portanto, há uma grande demanda por carvão.

O que acontece então é que os madeireiros procuram os pequenos proprietários da Amazônia e oferecem algo como R$ 150 por cada castanheira. Se o sujeito tiver 30 castanheiras, recebe cerca de R$ 5 mil. O madeireiro vai lá, derruba a castanheira, picota-a, queima, faz carvão, constrói fornos lá mesmo e produz ferro. O dono dos fornos ganha uns R$ 2  mil por forno por mês. Com algumas dezenas de fornos, ele é um homem rico.

Zé Claudio Ribeiro e Maria do Espírito Santo, os empresários e ambientalistas mortos na semana passada perto de Marabá, no Pará, sabem fazer conta, e por isso se recusavam a vender suas castanheiras (não só por isso, eles também amavam aquelas árvores, mas não é hora para emocionalismos). Eles mantiveram as árvores de pé e montaram uma pequena operação industrial para extrair o óleo na sua terra. O governo nunca lhes deu apoio nenhum. O Incra é imensamente burocrático e ineficaz. As estradas são terríveis. É por causa dessas dificuldades todas que muitos dos vizinhos venderam suas castanheiras para virar carvão.

Zé Claudio e sua maior castanheira, a Majestade. FOTO: FELIPE MILANEZ

Matar castanheiras é ilegal há séculos no Brasil, por causa do alto valor da castanha, mas isso não impediu que a espécie esteja hoje em extinção. Mesmo em Marabá, onde essas árvores magníficas surgiram, elas estão acabando. Zé Claudio e Maria denunciavam essas transações ilegais e a corrupção do estado. As denúncias os colocavam em conflito com os madeireiros, os donos de forno, os políticos, os funcionários corruptos e os traficantes de drogas (que, nesse mundo proibicionista, sempre estão metidos em tudo de ruim que acontece). Zé Claudio e Maria recebiam ameaças de morte há anos. Polícia, justiça, governo, ninguém fez nada para protegê-los.

Semana passada, eles foram assassinados.

Ainda sob o impacto das mortes, um deputado homenageou os empresários no Congresso Nacional. A turminha que estava lá para aprovar o novo Código Florestal vaiou, celebrando o assassinato.

A grande maioria dos agricultures e pecuaristas do Brasil é gente boa, que ama a terra onde vive, que não assassina ninguém e que entende que é melhor ter uma árvore viva que produz R$ 200 por ano e que dura 1.000 anos do que matar a árvore e vender a lenha por R$ 150. Mas os políticos que se dizem representantes dos agricultores e pecuaristas do Brasil – a auto-batizada “bancada ruralista” – tem uma alta proporção de picaretas. É gente oportunista, que se diz “desenvolvimentista” mas só está interessada em tirar o máximo possível antes que os nossos filhos tenham a chance de usufruir. Eles tentam fazer parecer que eles são os “pragmáticos”, atentos aos “números” e ao desenvolvimento do Brasil, enquanto os ambientalistas são “românticos” e avessos ao progresso. Mentira. Eles são usurpadores.

A lógica que matou Zé Claudio e Maria e que mata todos os dias árvores que já eram nascidas quando Cabral chegou ao Brasil é a mesma lógica que foi empregada no novo Código Florestal.

Com os assassinatos, a aprovação do acientífico Código Florestal, o pico de desmatamento na Amazônia em resposta à leniência do Congresso, a absoluta falta de preparação para os desastres climáticos que vêm aí, o governo Dilma já se configura como a pior tragédia ambiental no Brasil desde a ditadura militar.

Os números que forneço aqui, certamente imprecisos, foram calculados a partir de uma conversa com o repórter Felipe Milanez, especialista em Amazônia, que está no local apurando a história. Contribuições para melhorar a qualidade dos números são bem vindas.

Por Denis Russo Burgierman

16/05/2011

às 20:21 \ Drogas

Baldes para segurar cachoeiras

Em 1971, no seu primeiro mandato como presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon declarou a Guerra contra as Drogas. Uma das primeiras providências foi criar o Odale, sigla em inglês para Escritório de Aplicação da Lei de Abuso de Drogas, cujo objetivo era acabar de uma vez por todas com a oferta de drogas nas ruas do país.

Para comandar esse escritório, o escolhido foi o advogado Volney Brown, um ex-procurador público com fama de durão e de excelente investigador. O programa era prioritário para o governo americano e Brown recebeu recursos fartos. Abriu escritórios em várias cidades americanas, montou um time cheio de talentos ascendentes e pôs-se a trabalhar.

A primeira ideia de Brown foi prender todos os traficantes de uma cidade, de forma a secar a oferta completamente, na crença de que isso extinguiria o tráfico lá. A escolhida foi Phoenix, no Arizona, uma cidade grande e importante do sudoeste do país. A equipe de Brown gastou uma nota comprando informação nas ruas da cidade. Ao final, descobriu-se que havia em Phoenix um total de 76 passadores de droga. No meio da noite, Phoenix foi tomada por uma multidão de policiais estaduais e federais, que prenderam cada um dos 76. Não sobrou nenhum.

No dia seguinte, a única clínica local de tratamento de viciados estava lotada. Ficou impossível encontrar droga em Phoenix. E assim foi no segundo dia, e no terceiro, e no sétimo. No oitavo dia, Phoenix estava de novo cheia de traficantes, totalmente desconhecidos da polícia e do Odale. Quando passou um mês, estava tudo igualzinho a antes, apesar de todo o trabalho de um time enorme e talentoso, e de todo o dinheiro gasto.

Brown tem uma mente científica, e por isso tentou várias formas diferentes de acabar com o tráfico em cada cidade, para descobrir o que funcionava e o que não funcionava. Nada funcionou. Em San Diego, por exemplo, o Odale descobriu que uma única gangue vendia toda a heroína da cidade. Prendeu a gangue toda, apenas para descobrir que, oito dias depois, várias outras gangues, desconhecidas da polícia, tinham ocupado seu lugar.

Brown é um dos muitos juízes cujos depoimentos fazem parte do livro “Why Our Drug Laws Have Failed” (por que nossas leis de drogas fracassaram), do juiz americano Jim Gray, um veredicto profundo e cheio de dados sobre a política de repressão às drogas que os Estados Unidos e boa parte do mundo estão seguindo há 40 anos.

“Basicamente, o que estamos tentando fazer é revogar a lei da oferta e da procura”, diz Gray. “Não é surpresa que estejamos fracassando.” Não teríamos resultados melhores se tentássemos revogar a lei da gravidade, diz ele.

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A comparação com a gravidade faz bastante sentido aqui onde estou agora, a fronteira entre o México e os Estados Unidos, a porta de entrada do país que é o maior consumidor de drogas do mundo. De Tijuana, quase dá para enxergar a violenta força de atração do outro lado do muro, puxando drogas do México e, no caminho, gerando guerras de gangues, massacres, erodindo as liberdades individuais e corrompendo os níveis mais altos do governo. Um comerciante em Tijuana resumiu para mim o que acontece: “tem um tsunami de drogas sendo puxado pelos Estados Unidos, e construíram uma barragem aqui para segurar esse tsunami. Claro que aqui é violento.” Para segurar o tsunami, o México fez uma guerra civil. Mesmo assim, mais de 90% da droga continua passando.

O juiz Gray compara a fortuna que estamos gastando na Proibição com uma tentativa desesperada de segurar uma cachoeira usando baldes. Nunca vai dar certo. Intoxicar-se é um apetite humano, tanto quanto comer ou fazer sexo. Tentar jogar um apetite humano na ilegalidade é a receita para gerar violência. Enquanto esse apetite existir – e existirá sempre – haverá demanda por drogas. E, enquanto houver demanda, haverá alguém disposto a fazer dinheiro com ela. Cada traficante preso atrairá um traficante a mais para o tráfico. Um dos resultados do endurecimento das nossas leis é o fato de que, em todos os países duramente repressores, hoje há crianças passando drogas. Foi essa a solução que a lei da oferta e da demanda encontrou diante da criminalização dos adultos.

Essa era está acabando. Em todo o mundo civilizado, os governos estão se dando conta de que é mais racional gastar o dinheiro protegendo e educando as pessoas. Também está ficando óbvio que, se um país quer viver em paz e não quer cair nas garras de criminosos, precisa criar canais legais de suprimento de drogas para atender a demanda. Só aí vai conseguir reprimir duramente o crime. A Guerra contra as Drogas cria um clima de tolerância ao crime, porque esvai todos os seus recursos comprando baldes para cachoeiras.

“Daqui a alguns anos olharemos para trás e ficaremos abismados com essa política, assim como hoje acontece com a escravidão”, diz Gray. O Brasil, aliás, foi o último país do mundo ocidental a acabar com a escravidão, diante da nossa tradicional relutância em contrariar interesses. Será que vamos chegar em último de novo?

Por Denis Russo Burgierman

10/05/2011

às 1:12 \ Drogas

Indústria de margarina

Sentei num café da cidade de Oakland com a minha entrevistada, a Dale Sky Jones. Dale é uma moça doce, de olhos azuis, com jeito de princesa de desenho da Disney. O tipo de nora que qualquer sogra do mundo adoraria ter. Ela trazia no colo um menino angelical, o Jackson, de quatro meses de idade, olhos azuis e uma penugenzinha loira na cabeça. Sob a luz dourada da primavera californiana, a mãe e o filhinho na janela do café pareciam uma propaganda de margarina.

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Mas não é na indústria de margarina que aquela moça bonita trabalha. É na indústria de maconha. O café onde conversamos, o Bulldog, vende café na frente, mas nos fundos abriga fumadores de maconha. Se Dale morasse no Brasil, o trabalho que ela faz seria chamado de “tráfico de drogas” e daria cadeia.

Dale é gerente executiva da Universidade Oaksterdam, um prédio grande no centro de Oakland que se propõe a ser a primeira escola de nível superior dos Estados Unidos dedicada exclusivamente à indústria da maconha medicinal, que está bombando na Califórnia enquanto o resto da economia afunda. Ela é também, cada dia mais, uma espécie de porta-voz da indústria, participando com destaque da campanha de legalização. Com seu rosto de anjo, ela é adorada inclusive pelos conservadores. A Fox News sempre a entrevista.

Dale veio de um passado corporativo, gerenciando a comunicação de uma grande empresa alimentícia. Era uma executiva linha-dura, exigente, respeitadora das regras e durona com os indisciplinados. Mas fez uma reviravolta na carreira quando foi cuidar da comunicação de um consultório médico que receitava maconha para pacientes. A mãe dela ficou preocupadíssima, o pai nem ficou sabendo. Mas Dale sentia que precisa dar esse salto.

Dale sofre de uma síndrome que causa vômitos. Não é uma doença mortal, seríssima, mas é chata. A medicina tradicional tem tratamento para ela: uma pílula cara que muitas vezes não funciona porque é expelida do corpo. Muitas vezes Dale tinha que se internar num hospital e ficar cheia de tubos pendurados, tomando soro. Dale preferia tratar os vômitos enrolando um baseadinho e fumando um pouquinho. Funcionava que era uma beleza. Ela achava mais prazeroso, menos agressivo, mais confortável, mais barato.

Dale me contou que a indústria da maconha medicinal aqui em Oakland está indo de vento em popa. A cidade está atraindo alguns dos melhores horticultores do mundo, cansados de viver na ilegalidade em seus países. Há uma infinidade de novas empresas surgindo: produtoras, distribuidoras, centros de tratamento médico, um laboratório de análise de segurança que detecta fungos e agrotóxicos. A indústria lembra um pouco a do vinho, pela alta rentabilidade e pelo forte incentivo para buscar qualidade.

Oakland, a única cidade na baía de San Francisco que tem população majoritariamente negra, costumava ser a cidade mais complicada e violenta da região. Foi por anos a recordista nacional de homicídios. Era território de traficantes e policiais.

Melhorou. Os dispensários de maconha, num esforço de relações públicas, deram dinheiro para a polícia e ajudaram a melhorar a iluminação pública. Tem mais gente na rua. Oakland, quem diria, está atraindo até turistas: fãs de Bob Marley em busca de souvenirs de Oaksterdam (mistura de Oakland com Amsterdam). A economia local vai bem, mesmo enquanto o país mergulha nas profundezas da crise. As salas de aula da universidade de Dale estão abarrotadas de gente, apesar de os cursos, com aulas semanais ao longo de um semestre, custarem 700 dólares. Entre os comerciantes da região, os mais felizes parecem ser os donos de restaurantes.

Alguns dos pacientes têm doenças sérias, letais. Outros têm ansiedade (quem é que não tem ansiedade nos dias de hoje?). Tirar a carteirinha é fácil, acessível a qualquer um, custa 70 dólares e fica pronta na hora. O que está acontecendo aqui é um experimento importante neste momento da história da humanidade: o momento em que a classe dirigente do mundo está finalmente se dando conta de que precisamos de um novo modelo para combater o mal que as drogas fazem. O modelo atual faz mais mal do que as drogas. Dale se emociona enquanto fala disso. Aí ela olha no olho azul de Jackson, e suspira, com o coração de executiva durona amolecido pelos hormônios da maternidade:

– É por ele que eu estou fazendo isso.

O nó na garganta me deixou sem conseguir fazer outra pergunta por alguns segundos.

Por Denis Russo Burgierman

22/11/2010

às 15:14 \ Amazônia

Diários amazônicos – parte 3

O caboclo Iracildo desde menino gosta de estar na floresta. Nascido à beira de uma praia de areia branca na margem do lindo Rio Tapajós, que escoa as águas do Mato Grosso até o Rio Amazonas, ele passou a vida entre o mato e o rio. Vivia do que catava, do que caçava, do que pescava. Aprendeu com a vida a sentir o cheiro do tatu, a enxergar o rastro da paca, a ver o peixe debaixo d’água, a tecer telhados e erguer paredes com folhas, fibras e madeiras, a extrair remédios e comidas da casca e da seiva das árvores. Aprendeu a ler a floresta, a enxergar sua riqueza e a viver dela.

Iracildo trabalhando

O povo do vilarejo de Jamaraquá, onde ele vive, sempre achou que Iracildo era tímido, arredio, introvertido. Ele mesmo sempre acreditou nisso: que sua vocação não era interagir com as pessoas.

Aí, uns dois anos atrás, um gringo apareceu por lá, atraído pela beleza impressionante do lugar. Andou na canoa de Iracildo e perguntou se ele não o guiaria para dentro do mato. Iracildo foi, meio envergonhado. No caminho, foi contando um pouquinho do que sabia. Para sua surpresa, o gringo adorou. Ficou de queixo caído. Para ele, aquela floresta era só uma massa verde, um matão indistinguível. Andando com Iracildo, ele percebeu que havia lá um milhão de personagens diferentes. Percebeu que havia um mundo de conhecimento sobre a floresta. E a experiência de alguém num lugar é muito mais interessante quando se conhece melhor esse lugar.

Iracildo percebeu que ele não era arredio. Ele era, isso sim, um especialista. Um conhecedor. Ele percebeu que tinha um monte de gente interessada em conhecer esse lugar e disposta a pagar a ele para que ele os ajudasse.

Hoje ele é guia. O barco que usava para pescar agora busca turistas no balneário encantado de Alter do Chão, não muito longe de Jamaraquá. Os turistas dormem em redes numa cabaninha que Iracildo ergueu com troncos e folhas de palmeira. Ele cobra de cada turista 160 reais por três dias de passeio, que incluem andar de canoa ao pôr do sol, nadar num igarapé mágico, descansar à sombra de uma samaúna gloriosa, atravessar uma mata até chegar a uma praia, três belas refeições ao dia e uma infinidade de histórias incríveis que só quem passou 52 anos na floresta sabe contar. Ele não dá conta da demanda.

Explorando uma praia do Tapajós

Na hora do almoço, na casa de Iracildo, os turistas não têm como não notar a exposição de pulseiras, colares, brincos, cadernos com capa de látex de seringueira e bolsas confeccionados pela filha dele, a Nice. As mulheres, brasileiras e estrangeiras, enlouquecem quando vêm aquilo. No meu grupo, logo no primeiro dia, vi três mulheres avançarem aos gritos sobre todas aquelas coisas bonitas. Uma gastou 45 reais, outra, 60, a outra certamente mais de 100. Quase todo dia é assim. A Nice cresceu aprendendo sobre a floresta com o pai. Seu trabalho, imensamente criativo, é todo feito com sementes, ossos, fibras naturais e borracha das seringueiras. Ela me descreveu seu processo criativo: “à noite eu imagino o que vou fazer no dia seguinte. Quando não imagino antes, não sai nada interessante”. A floresta é sua matéria-prima, mas a mágica acontece dentro da sua cabeça, quando ela mistura a criatividade com a qual nasceu com o conhecimento que herdou do pai.

Iracildo, alguns de seus filhos e netos, e parte da obra da filha mais velha

Jamaraquá fica dentro de uma Floresta Nacional, ou Flona, uma área preservada, mas na qual é permitido que as populações locais exerçam atividade econômica, desde que não destruam a floresta. No vilarejo vizinho, Maguari, há uma fábrica de produtos de látex, o chamado “couro ecológico”, que exporta bolsas, sapatos e brinquedos para a Europa. Há pela Amazônia uma infinidade de tecnologias sendo desenvolvidas para transformar conhecimento tradicional em produtos e serviços, pelos quais o mundo está ávido.

O modelo das Flonas parece imensamente promissor para a região. Em vez do xiismo dos parques nacionais, que expulsam a população local, colocam fiscalização insuficiente em seu lugar e deixam a àrea vulnerável a invasores que vêem a floresta como apenas um estoque de madeira e caça, aqui o que se vê é um estímulo ao empreendedorismo baseado em conhecimento.

O que se vê aqui é prosperidade. Jamaraquá, que até cinco anos atrás era tão pobre quanto é possível ser, hoje tem água tratada saindo da torneira, luz elétrica, loja coletiva de artesanato e uma rádio comunitária. As crianças vão estudar numa escola em Maguari e a saúde vai muito bem. A associação dos moradores é rica porque recebe uma porcentagem do que os turistas gastam, e zela pelo cumprimento das regras da Flona. Na casa de Iracildo, tem televisão e geladeira e ele está pensando em mandar construir um segundo barco, para seus filhos levarem turistas. O construtor de barcos, seu genro, também mora na comunidade. O dinheiro circula. Todo mundo parece saudável, feliz e orgulhoso.

Bem diferente do que acontece mais ao sul, no mesmo estado do Pará, no chamado arco do desmatamento. Por lá, quem manda na floresta não conhece nada dela: só vê a massa verde, como aquele gringo antes de encontrar Iracildo. A regra é derrubar tudo, o que provoca um breve crescimento econômico, quando a madeira é vendida. Mas aí a madeira acaba e grandes pastos se instalam, abrigando um boi por hectare na média. O dono do boi não tem do que reclamar, embora provavelmente faça muito menos dinheiro por hectare do que a família de Iracildo. O resto da comunidade mergulha em depressão e criminalidade.

Aqui no Brasil a gente tem a mania de achar que a fórmula do desenvolvimento está fora daqui. Nossa auto-estima é baixa, então desconfiamos do conhecimento local. Achamos que desenvolvimento é produzir vinho no sertão do São Francisco. Muito lindo plantar uva no sertão, sem dúvida um grande feito. Mas não acrescenta nada ao mundo. Contratamos especialistas franceses para nos ensinarem a fazer vinho e, ao final, temos um vinho passável, embora obviamente não tão bom quanto o francês. Temos aqui a floresta mais rica do mundo. A solução para ela não vem de fora – vem de dentro, de quem a conhece. Pergunte para os franceses se não é esse o segredo de um bom vinho. Pergunte a eles se não é esse o segredo de um bom país.

Por Denis Russo Burgierman

12/11/2010

às 13:19 \ Amazônia

Diários amazônicos – primeira parte

Nasci e cresci lá no centro econômico do Brasil. Esta semana, um trabalho me trouxe à extrema periferia do país: a floresta amazônica. Vou passar três semanas viajando por aqui e contando pelo blog das coisas que vejo pela janela, das pessoas que encontro no caminho.

Vim para cá participar da organização de uma conferência independente, o TEDxAmazônia, cujo objetivo era refletir sobre ideias que tornem a vida melhor aqui neste planeta (entenda o que é aqui). Fiz parte do grupo de curadoria do evento. Convidamos para palestrar um monte de gente do centro econômico do mundo. Nova-iorquinos, londrinos, alemães, californianos e nórdicos aceitaram empolgados o convite (apesar da nossa política de não pagar cachê para ninguém).

A conferência durou dois dias e teve um pouco mais de 50 palestrantes. Não vou nem tentar resumir aqui o que aconteceu lá – eu nem seria capaz, de tão emocionalmente envolvido que eu estava na história. Mas, ao longo do fim de semana, uma certeza foi me dominando:

Não, aqui não é a periferia do Brasil.

Não, a Amazônia não é o lugar onde nove periferias problemáticas (Bolívia, Colômbia, Venezuela, Peru, Equador, as três Guianas, Brasil) se encontram. Aqui é o centro.

É o centro climático. É o termostato que regula a temperatura do planeta inteiro. Quando a concentração de carbono na atmosfera terrestre aumenta e a temperatura sobe, a floresta, alimentada de calor e gás carbônico, cresce. E, ao crescer, captura carbono e emite oxigênio, esfriando o mundo (um efeito que obviamente anda meio prejudicado pela nossa mania de desmatar).

É o centro hídrico. É uma bomba de ar quente que faz circular uma parte enorme da umidade da Terra. Não fosse a floresta, a América do Sul seria tão desértica quanto a África e não daria para se plantar nada em Goiás ou no Mato Grosso, não daria para se viver em São Paulo, no Rio ou em Buenos Aires.

É o centro energético. É aqui que fica a grande usina do mundo: a floresta, que captura a energia do sol e produz com ela quase toda a matéria orgânica do planeta. É essa energia que move nossa sociedade.

É o centro de biodiversidade. É o grande laboratório de pesquisa e desenvolvimento da evolução, gerando uma quantidade astronômica de espécies. Numa só árvore há mais insetos do que a maioria de nós vai ter chance de ver ao longo da vida. Em 1 hectare, o tamanho de um campo de futebol, há mais espécies de árvore do que na Europa toda.

E é sim o centro econômico do Planeta Terra, não São Paulo ou Londres ou Nova York. Num mundo em que 50% do PIB é extrair e vender recursos naturais, o centro econômico não é onde estão os bancos – é onde estão os recursos naturais. São Paulo, Londres e Nova York é onde estão os atravessadores, mas a riqueza do mundo provem daqui. E vai-se embora sem deixar rastro, para irrigar o sistema econômico mundial.

A Amazônia é o centro do futuro do mundo. É onde estão as respostas para todas as nossas questões. Isso ficou claro durante a conferência, enquanto os palestrantes subiam ao palco, um após o outro – o economista, o designer tecnológico do Vale do Silício, o pensador da educação, o químico industrial alemão, a evolucionista, o ativista digital, a designer de moda, a executiva da indústria de cosméticos, os pesquisadores de felicidade da Finlândia, o ativista urbano.

Ao final do domingo, eu estava literalmente esgotado, física e emocionalmente. Foi intenso. Passei a segunda-feira balançando numa rede, com febre, me recuperando.

Por sorte, fui fazer isso na floresta. Eu estava acompanhado de um guia, o Samuel, etnicamente índio, mas que nasceu na cultura dos brancos. Seu pai, um homem culto e inteligente que fala línguas e toca violino, abandonou a tribo antes que o Samuel nascesse, em busca de uma vida melhor. Aos 13 anos, com a curiosidade alimentada pela convivência com o avô, que falava uma língua misteriosa, Samuel disse aos pais que iria tirar um mês de férias e entrou no mato perto da divisa com a Venezuela, na periferia da periferia. Bem lá no centro dela. Achou uma tribo, disse ao chefe que queria aprender a cultura deles e só voltou para casa, todo pintado e transformado, dois anos depois.

O Samuel e um outro guia incrível, o caboclo Manuel, nos ensinaram o que puderam sobre a floresta. Comemos cabeça de saúva, com gosto de erva cidreira e pimenta. Vimos como se faz corda, com a mesma fibra que está nas pastilhas de freio dos carros mais caros. Mastigamos cascas de árvore, raízes, sementes e seiva, e reconhecemos neles o gosto e o cheiro de um monte de alimentos, medicamentos e cosméticos conhecidos nossos. Ouvimos centenas de histórias que um dia ainda vou contar aqui.

É tanta riqueza.

É tanto potencial.

É o centro do mundo.

Depois dessa experiência, minha vida em São Paulo parece tão periférica.

*

(Quem quiser acompanhar o que aconteceu no TEDxAmazônia pode assistir às palestras no site. Vão subir uma por semana, ao longo de um ano inteiro).

Por Denis Russo Burgierman

20/09/2010

às 18:28 \ Diversidade

Nosso sistema é burro – precisamos de um outro

Imagine que tem dois cestos de frutas em cima de uma mesa. Um deles contém uma centena de maçãs vermelhas (é o da foto abaixo). O outro tem a mesma quantidade de frutas, mas elas são variadas: bananas, ameixas, peras, goiabas, melões, graviolas, mamões, cerejas. E maçãs. A pergunta é: qual dos dois cestos é o mais rico?

Do ponto de vista da biologia não há muitas dúvidas de que o mais rico é o segundo. A evolução, que é o motor da vida no planeta, favorece a diversidade. É assim que ela opera: criando mais e mais variações. Num ambiente rico – onde há muita energia e nutrientes – a diversidade será certamente imensa. É por isso que florestas tropicais têm tantas espécies. Pouca diversidade é sinal de crise, de carência de nutrientes, de pobreza.

Mas, desde a revolução industrial, a humanidade apostou no caminho oposto: o da supressão de diversidade. Isso porque, com menos opções, fica mais fácil padronizar processos e produzir em grande escala, reduzindo custos e aumentando margens de lucros.

Há sobre a Terra algo como 80.000 plantas comestíveis. Mas a humanidade usa apenas 30 delas para suprir 90% das calorias da dieta. Há pelo menos 1 milhão de espécies de animais, mas apenas 14 delas compõem 90% do nosso cardápio. Metade de todos os medicamentos que existem no mundo vêm de substâncias naturais e, ainda assim, só testamos 1% das plantas do mundo para determinar se elas têm potencial farmacêutico.

Pegue um hectare da Amazônia – o equivalente a um campo de futebol. Em média, nesse espacinho, há 200 espécies diferentes de árvores, 1.300 espécies de aves, 1.400 espécies de peixes, 300 espécies de mamíferos. Estou falando apenas de um hectare: no hectare ao lado as árvores, os peixes, as aves e os mamíferos são outros, muitas vezes completamente diferentes. Numa só planta amazônica, é possível encontrar até 80 espécies diferentes de formiga.

Até hoje, para explorar esse hectare, seguimos a lógica industrial: cortamos tudo, separamos as pouquíssimas espécies de madeira com valor comercial e queimamos o resto. No lugar, tentamos fazer com que haja uma espécie vegetal só – geralmente capim para alimentar uma única espécie animal, a vaca.

Interessante é que a estratégia de suprimir diversidade está presente em várias esferas do nosso sistema econômico, não só no uso da terra. Veja por exemplo as políticas de recursos humanos das grandes empresas. Lembro que fiz um curso de “gestão de pessoas”. O consultor de RH, supostamente um psicólogo, nos ensinou que só há quatro tipos de pessoas e que nosso trabalho como gestor é identificar de que tipo cada um na equipe é e tratá-lo propriamente.

Outro exemplo: a lógica de nossas cidades é pensar em deslocamentos de grandes grupos de pessoas. Para isso se criam linhas de ônibus e vias para carros. Mas não se leva em conta que pessoas diferentes gostam de se deslocar de formas diferentes, e não se abre espaço para alternativas. Cidades que têm grande diversidade de opções de transporte, como San Francisco e Copenhague, tendem a ter menos trânsito e um espaço urbano mais feliz.

O que estamos fazendo em todas essas esferas é a mesma coisa. Pegamos cestos cheios de frutas variadas, separamos as maçãs e jogamos o resto fora. É desperdício. É abrir mão da riqueza para viver com escassez. É pouco inteligente. Com o avanço tecnológico que alcançamos, em especial no que se refere às tecnologias da informação, poderíamos fazer melhor que isso. Poderíamos inventar um sistema que preserve a diversidade enquanto produz.

Por Denis Russo Burgierman

19/10/2009

às 14:46 \ Cultura livre

Uma imagem chocante

Na semana passada, argumentei que o Nobel da Paz de Obama sinaliza que o mundo mudou. Hoje quero falar de um assunto parecido, mas dessa vez tem a ver com o Nobel de Economia.

Você conhece o Nobel de Economia, não conhece? É aquele prêmio outorgado anualmente pela Academia de Ciências da Suécia a um homem de terno e gravata. Pois então. Vocês viram o que aconteceu com o Nobel de Economia na semana passada?

Clique logo aí embaixo no link para continuar lendo este texto. Mas, antes, quero fazer um aviso: dependendo do seu senso estético e do seu grau de rigidez ideológica, a imagem que você vai ver pode ser chocante. Clique apenas se você achar que está preparado.

Por Denis Russo Burgierman

16/06/2009

às 18:01 \ Crise

A frase do dia

“Chamar os bancos de cassinos, como é feito frequentemente, na verdade é injusto com os cassinos, que têm a obrigação de manter reservas em dinheiro suficientes para descontar as fichas de seus clientes. Bancos, ultimamente, não precisavam fazer nem isso com seus contratos chave de derivativos.”

Fareed Zakaria, no seu “Manifesto capitalista”, publicado na última edição da Newsweek.

090613_capitalism_330

Por Denis Russo Burgierman

10/06/2009

às 17:17 \ Crise

GM: o quarto maior naufrágio da história

A esperta revista Good, da qual já falei aqui, sempre tem ideias legais de como representar visualmente assuntos complexos. Na edição mais recente, eles mostraram as maiores falências da história da economia humana (clique na imagem para ampliar).

naufragios

Quanto maior o barco, maior era o valor da empresa antes da falência. Quanto mais para baixo ele estiver, mais recente. Note como os barcos vão ficando maiores na parte de baixo da imagem (o que quer dizer que as falências foram ficando maiores nos últimos anos). A cor do barco sinaliza o ramo de atividade da empresa.

A falência da GM foi o quarto maior naufrágio da história. Os dois maiores, de longe, aconteceram no final do ano passado com grandes empresas financeiras: Lehman Brothers e Washington Mutual. O terceiro foi a gigante de telecomunicações Worldcom, afundada com a explosão da bolha da internet em 2002.

Por Denis Russo Burgierman

 

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