14/02/2011
às 21:01 \ PolíticaDemocracia, do Egito ao Brasil
Quando o século 19 começou, não havia no Planeta Terra nenhuma democracia digna desse nome (naquela época, negros e mulheres eram proibidos de votar nos EUA). Em 1942, só 12 países do mundo eram democráticos, todos eles localizados na Europa ou na América do Norte. A Segunda Guerra Mundial estava no auge. Milhões de pessoas haviam sido mortas, em grande medida por causa da loucura de um punhado de ditadores. Foi aí que ganhou força um certo idealismo, uma convicção da superioridade da democracia e da necessidade de acabar com as tiranias.
De lá para cá, não dá para dizer que não tenhamos tido sucesso nessa missão. Há hoje no mundo cerca de 120 “democracias eleitorais” (aquelas que elegem seus líderes), o que dá 60% das nações da Terra, espalhadas por todos os continentes. O número de “países livres” – aqueles que, além de eleger seus presidentes, respeitam as liberdades básicas e possuem poderes independentes que se contrabalançam – já beira os 90, metade dos governos do mundo (mas bem menos que metade da população, já que a China desequilibra a balança).

O gráfico mostra a quantidade de países "livres" (verde), "parcialmente livres" (amarelo), e "não-livres" (vermelho), segundo os critérios da organização Freedom House
Esse número, que cresceu aceleradamente após o fim da Guerra Fria (quando ditaduras de esquerda e de direita proliferaram pelo mundo com o pretexto de que era o único modo de combater um “mal maior”), parece que está prestes a passar por mais um aumento dramático. Ajudado por ferramentas digitais, o povo foi às ruas na Tunísia e no Egito e derrubou velhos ditadores, e agora quase todas as ditaduras islâmicas estão balançando no pé. Ainda é cedo para saber se o que haverá no lugar dos ditadores será mesmo uma democracia, mas parece difícil acreditar que o povo, orgulhoso pelas vitórias, vá se contentar com muito menos que isso.
Isso é boa notícia, sem sombra de dúvida. Países democráticos são mais pacíficos, mais motivados, têm maiores índices de desenvolvimento humano, mais confiança entre as pessoas, economia mais dinâmica, mais possibilidades de realização pessoal, mais capacidade de inovar do que países autoritários. Apesar de serem aparentemente mais bagunçados, já que estão sujeitos à vontade do povão, a longo prazo eles são na realidade muito mais estáveis, porque têm regras claras, enquanto ditaduras quase sempre entram em crise à beira da sucessão. Ditaduras são caldeirões de frustrações e ressentimentos, cozidos a xenofobia.
Mas essa distinção entre democracia e ditadura esconde o fato de que há muitíssimos cinzas entre o branco e o negro. Há democracias de excelente qualidade, com três poderes independentes se fiscalizando mutuamente, muita transparência, muita responsabilidade, muitas oportunidades para participação cívica. E há outras mais capengas.
A brasileira, por exemplo, se não é das piores do mundo, está bem longe das melhores. Nossas instituições são fracas, o cidadão tem pouca voz, o judiciário é ineficaz, a polícia é corrupta e violenta, o legislativo é refém do executivo, os parlamentares se deram aumento de mais de 60% assim que passou a eleição e o deputado mais votado atende pela alcunha de Tiririca. Enfim, é uma democracia meia-boca.
Longe de mim querer desprezá-la. Ter uma democracia meia-boca é 1 milhão de vezes melhor do que não ter nenhuma – como não tínhamos há duas décadas e o Egito não tem ainda. Mas isso não significa que tenhamos que ficar satisfeitos com o pouquinho que temos – na realidade, a maior das vantagens da democracia é sua capacidade de melhorar, de incorporar contribuições da sociedade. No Egito, as novas tecnologias mudaram o espírito do país: aumentaram os anseios, os sonhos, as expectativas. Será que algo parecido está sendo gestado no Brasil?
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