Blogs e Colunistas

Crise

19/10/2009

às 14:46 \ Cultura livre

Uma imagem chocante

Na semana passada, argumentei que o Nobel da Paz de Obama sinaliza que o mundo mudou. Hoje quero falar de um assunto parecido, mas dessa vez tem a ver com o Nobel de Economia.

Você conhece o Nobel de Economia, não conhece? É aquele prêmio outorgado anualmente pela Academia de Ciências da Suécia a um homem de terno e gravata. Pois então. Vocês viram o que aconteceu com o Nobel de Economia na semana passada?

Clique logo aí embaixo no link para continuar lendo este texto. Mas, antes, quero fazer um aviso: dependendo do seu senso estético e do seu grau de rigidez ideológica, a imagem que você vai ver pode ser chocante. Clique apenas se você achar que está preparado.

Por Denis Russo Burgierman

28/09/2009

às 12:58 \ Política

Chegou a hora de legalizarem a maconha?

Wálter Maierovitch foi Secretário Nacional Antidrogas no segundo governo FHC, entre 1999 e 2000. Dois anos depois, entrevistei-o sobre a política brasileira para drogas, para um livro que eu estava escrevendo sobre maconha.

livromaconha

Ele me contou que, durante seu período na secretaria, ele juntou esforços ao governo português para buscar para os dois países uma política de drogas mais liberal, que não criminalize o usuário, principalmente para drogas leves. O esforço foi em frente em Portugal, mas foi abruptamente interrompido aqui no Brasil. Por quê? Aparentemente porque, a uma determinada altura, o chefe de Maierovitch, FHC, barrou a mudança da lei. E por que FHC, que escolheu Maierovitch e parecia apoiar uma lei mais racional, mudou de ideia? Maierovitch não me respondeu diretamente, mas deu a entender que tinha certeza de que o presidente brasileiro tinha sofrido pressão do grandão do norte. Na opinião dele, o Brasil não descriminalizou o uso de drogas porque os Estados Unidos de Clinton não quiseram.

Não seria surpresa, claro. Faz quase 80 anos que a proibição internacional das drogas é uma bandeira dos Estados Unidos. No começo do século 20, surgiu nos EUA um forte movimento de inspiração religiosa puritana – as ligas de temperança –, que conseguiu proibir primeiro o álcool. Depois, quando o fracasso da proibição ao álcool ficou óbvio (custou uma fortuna e só serviu para enriquecer traficantes de bebidas e financiar o crime organizado), o movimento mudou seu alvo para as drogas hoje ilícitas, principalmente a maconha. De lá para cá, foram os EUA que carregaram a bandeira proibicionista na ONU e em todos os fóruns internacionais. Não sossegaram até que as drogas – que até os anos 1920 não eram ilegais em lugar nenhum do planeta – fossem proibidas em todos os países do mundo.

Mas parece que algo está mudando ao norte, embora seja uma mudança sutil. Sabe-se que Obama é contrário à criminalização do usuário, embora ele não fale muito sobre isso (veja este vídeo de 2004 no qual ele reconhece que a guerra contra as drogas foi um fracasso e afirma que precisamos repensar nossas leis e descriminalizar o uso). Até aí, nada de novo: Jimmy Carter, nos anos 70, já tinha dito praticamente o mesmo, mas só o que conseguiu quando foi presidente dos Estados Unidos foi mobilizar o país inteiro contra leis liberais e abrir caminho para que seu sucessor, Ronald Reagan, endurecesse ainda mais a repressão (o que só levou a gastos astronômicos e, veja você, um grande aumento no consumo de drogas pesadas e da violência associada a elas).

Este ano, dois países latino-americanos importantes – Argentina e México – descriminalizaram o uso de drogas, com leis ainda mais liberais do que a que o Brasil tentou instituir em 2000. Obama não se opôs. Não houve nenhuma gritaria americana. Pelo contrário. O que se vê, na imprensa americana, são elogios à coragem mexicana de finalmente enfrentar o problema que eles têm varrido para baixo do tapete há anos.

Na Califórnia, em 2010, haverá um plebiscito para legalizar a maconha – não apenas descriminalizar o uso, mas regulamentar a venda e cobrar impostos. O deputado Tom Ammiano, proponente da lei, disse que, “com o estado no meio de uma crise econômica histórica, regular e taxar a maconha é simplesmente bom senso.” Ele calcula que a Califórnia vai lucrar cerca de 1,4 bilhão de dólares em impostos. Esse argumento – de que proibir algo por questões morais, a custos elevadíssimos, é um desperdício em tempos de crise – é o mesmo que derrubou a proibição ao álcool após a Crise de 29.

A Organização Nacional para a Reforma das Leis de Maconha (Norml), uma associação americana que há 30 anos milita no tema, tem dito que nunca estivemos tão perto de uma legalização – nem mesmo nos anos 70 de Carter.

No fim de semana passado, FHC deu entrevista à Veja defendendo novas leis para drogas, em especial a descriminalização do uso de maconha. Desde o começo do ano, FHC tem falado abertamente sobre o assunto, o que está repercutindo bastante na imprensa americana e europeia. Dias depois da entrevista na Veja, Wálter Maierovitch escreveu em seu blog que Obama está prestes a descriminalizar o uso de maconha nos Estados Unidos (e aproveitou para dar uma espetada no ex-chefe FHC, que chamou de “oportunista” e “arrivista”, por abraçar hoje a causa que atrapalhou ontem).

Maierovitch não cita a fonte que lhe disse que Obama está prestes a agir (e não respondeu aos emails que mandei a ele). Mas ele é um sujeito bem informado. Há alguns anos, ele tinha certeza de que os Estados Unidos eram a força evitando que as leis antidrogas mudassem no mundo inteiro. Hoje, pelo jeito, ele pensa diferente. Se ele está certo, aguarde mais mudanças no horizonte.

Por Denis Russo Burgierman

21/08/2009

às 3:29 \ Cidade

Duas cidades-fantasma

vegas

A crise está no mundo inteiro, você sabe. Mas tem lugares em que ela é pior. Bem pior. Leio duas matérias, em duas revistas, sobre duas cidades – duas cidades absurdas, dois desvairios erguidos sobre a areia, duas das cidades mais insustentáveis do mundo. Na Time desta semana, um texto delicioso do sempre divertido Joel Stein sobre Las Vegas. Na Fast Company deste mês, um ensaio fotográfico chocante sobre Dubai. Dubai e Las Vegas, dois oásis de sonho inconsequente no meio do deserto. Dois símbolos de tudo que estava errado no mundo. Duas cidades moribundas.

Vegas e Dubai não produzem nada – nada, nada, nada – mas viram suas economias bombar nos últimos anos. Em Vegas, que é incapaz de produzir sua energia e fica longe de qualquer fonte de água, há um raio laser que chega até a Lua e um espetáculo de fontes dançantes. Dubai importa até areia – para dar conta do ritmo das construções. Ao longo das últimas décadas, o desvairio de Vegas gerou réplicas de Nova York, Veneza, Paris, Antigo Egito, Império Romano. Dubai, mais recente e tecnológica, fez Vegas parecer um playground de prédio. Lá se projetou o prédio mais alto do mundo, uma pista de esqui com neve artificial, réplicas em tamanho natural das sete maravilhas do mundo, o maior shopping center do planeta. E um arquipélago artificial de 300 ilhas com a forma dos continentes e uns 800 quilômetros de costa, para todo mundo poder ter casa na praia.

As duas reportagens são deprimentes na descrição do que aconteceu lá depois do derretimento do sistema financeiro. As duas cidades estavam crescendo que nem loucas – mas era um crescimento ilusório, a especulação imobilária gerava grana que alimentava mais especulação imobiliária. Agora a impressão que dá é que houve uma guerra.

Dubai está cheia de prédios não terminados e guindastes sem uso – um quarto de todos os guindastes do mundo está lá. Em Vegas, há bairros em que uma a cada três casas está à venda. Em Dubai, há carrões de luxo abandonados pelas ruas, às vezes com a chave no contato e a conta impagável do cartão de crédito no porta-luva – o dono fugiu para escapar da cadeia. Em Vegas, há casarões abandonados e depredados pelos ex-proprietários incapazes de pagar as prestações e revoltados com isso – alguns não têm nem mais a fiação elétrica, porque tudo que pode valer algum dinheiro foi saqueado. Em Dubai, imigrantes pobres sem emprego tiveram seu visto cassado e estão presos no país. Em Vegas, corretores de imóveis se especializaram em dar golpes em bancos: pegam uma família incapaz de pagar as prestações, vendem a casa deles antes da desapropriação e, com o dinheiro, compram uma casa maior. Em Dubai, cocô começa a se acumular: em meio ao desvairio, as mansões ficaram prontas antes do sistema de esgoto.

Na matéria da Time, tem um personagem símbolo: Sheldon Adelson, 76 anos, o homem que inventou Las Vegas como a capital mundial das convenções e que bancou muito da explosão de Dubai. Em 2007 e 2008, ele era o terceiro homem mais rico do mundo, dono de 40 bilhões de dólares. Sozinho, ele perdeu 36,5 destes bilhões, mais do que um Uruguai inteiro. Ele é o homem que mais perdeu dinheiro com a crise. Seu telefone vivia tocando – eram bancos oferecendo empréstimos. Hoje, banco nenhum empresta para ele, mesmo que ele implore. Joel Stein, o repórter, pergunta para ele se um dia ele vai querer pegar um empréstimo de novo. Ele responde na lata:

-    Assim que eles voltarem a me emprestar, sou o primeiro da fila.

Tem gente que não aprende.

(A foto é minha, parte de um ensaio fotográfico que fiz em Las Vegas em 2007, procurando mostrar como, por trás da alegria falsa de lá, se esconde uma das cidades mais tristes do mundo.)

Por Denis Russo Burgierman


 

Serviços

 

Assinaturas

Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados