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CIDADANIA

04/04/2011

às 19:28 \ Trânsito

Cidade psicopata

Em 2007, um pesquisador de engenharia de tráfego chamado Horácio Figueira fez uma pesquisa no trânsito de São Paulo. Ele saiu pelas ruas de carro, com um assistente sentado ao seu lado armado com um bloquinho de anotações. Aleatoriamente, Horácio escolhia um carro no trânsito e seguia-o de perto, observando seu comportamento. O assistente ia anotando cada infração de trânsito que o motorista cometia. Ao todo, 628 carros foram pesquisados, todos com placa de São Paulo. As conclusões são apavorantes.

Se a lei fosse cumprida em São Paulo, em média, um motorista paulistano levaria pouco menos de 8 minutos para acumular 20 pontos e perder sua carteira de motorista. Na média, um motorista paulistano leva 2 minutos para cometer uma infração que deveria ser multada.

O recordista da pesquisa foi um carro que Horácio só conseguiu seguir por 2:58 minutos (os pesquisadores ficaram para trás num sinal vermelho). Nesse tempo, o motorista conseguiu cometer 10 infrações. Isso teria valido a ele 50 pontos na carteira e R$ 1.234,36 a pagar em multas – em apenas 3 minutos. Horácio foi checar quantas multas esse motorista efetivamente recebeu: apenas uma ao longo de um ano inteiro, por estacionar em local proibido. Ou seja, a impunidade é praticamente total. A partir da amostra de sua pesquisa, Horácio calculou quantas infrações são cometidas na cidade, e depois comparou com o número de multas aplicadas. Resultado: segundo sua estimativa, apenas 1 em cada 17.409 infrações de trânsito é punida em São Paulo. “O motorista em São Paulo tem certeza absoluta de sua impunidade”, diz o pesquisador.

São números tão imensos que parecem exagerados. Mas, se você é cético, proponho um teste fácil de conferir. Saia de casa e procure uma faixa de pedestres sem semáforo. A cada vez que um pedestre se aproximar da beirada da rua, verifique se o motorista que vem vindo dá passagem. Aposto que o índice de motoristas que desrespeitam a lei ficará bem próximo de 100%, principalmente se for uma via de alta velocidade.

O condutor do veículo com a placa EBW-2413, flagrado enquanto colocava a vida de um ser humano em risco

Outro dia vi uma senhora idosa parada na beira de uma rua, onde havia faixa de pedestres e semáforo. Estava verde para ela, mas ela não se mexia. Perguntei por quê. Ela disse que preferia esperar fechar e abrir de novo, porque na última vez não tinha se movido rápido o suficiente e tinha medo de ser surpreendida pelo sinal vermelho no meio da rua. Tente se colocar na pele dessa senhora. Para ela, cada esquina da cidade é uma ameaça de morte. Andar três quarteirões significa escapar da morte três vezes, uma em cada esquina.

Carros são a arma que mais mata no Brasil – mais que revólver. Seu uso deveria ser fiscalizado com atenção e rigor. O condutor de um automóvel deveria se comportar com cuidado absoluto, como quem carrega um objeto muito perigoso no meio de uma multidão.

Não é o que acontece. Praticamente ninguém é multado por colocar a vida dos outros em risco. Quase metade das multas aplicadas são por rodízio ou estacionamento irregular. Só é multado quem atrapalha o fluxo de veículos, não quem ameaça a vida alheia. Pela minha experiência, a situação é igual ou pior em quase todas as grandes cidades brasileiras.

Definitivamente, a prefeitura tem responsabilidade nisso, pela incompetência escandalosa em aplicar a lei. Mas, como costuma acontecer com problemas sistêmicos, o responsável não é um só. É quase todo mundo. O primeiro passo para resolver um problema sistêmico é reconhecer a responsabilidade de cada um. A cada esquina, cada motorista tem uma escolha a fazer: ele pode decidir se se importa com a vida dos outros ou não. Ultimamente, o índice de motoristas paulistanos que opta pelo não gira em torno de 100%.

Por Denis Russo Burgierman

07/03/2011

às 12:13 \ Cidade

Chama o síndico?

Quando queima a lâmpada em casa, você compra uma lâmpada nova, sobe num banquinho e troca. Quando é um problema um pouquinho mais sério, sei lá, um chuveiro elétrico queimado, você talvez chame um eletricista e pode ficar sem banho quente por algumas horas. Quando entope a saída de esgoto, aí é mais sério: você bem possivelmente vai procurar uma boa empresa especializada, a não ser que tenha um encanador de muita confiança.

Pois bem: e se sua casa entrar em colapso? Todos os aparelhos elétricos começam a queimar, alguns com explosões, água suja sobe dos ralos, o teto se enche de goteiras, as paredes, de rachaduras, os armários, de ratos e insetos. O que você faz? Chama o síndico do prédio para “dar um jeitinho”?

É bem isso que está acontecendo nas grandes cidades brasileiras: um colapso. O sistema de trânsito e mobilidade urbana é uma porcaria. As pessoas passam mais tempo tentando chegar nos lugares do que em casa com a família, e todo dia uma centena de brasileiros morrem no caminho. O sistema de coleta de lixo é de uma tosqueira assustadora: algo como zero é reciclado ou compostado e os aterros crescem como cânceres. O asfalto está rachando em toda parte, porque a água da chuva não tem por onde escoar e se infiltra entre o piso e o solo. O clima está mudando rápido, com consequências desastrosas, e enchentes e deslizamentos ficam cada dia piores. O espaço público é horroroso: barulhento, fumacento, perigoso.

Diante de um colapso desses, nossas cidades tomaram uma decisão: chamaram o “síndico” e pediram para ele “dar um jeitinho”. É isso que as administrações públicas municipais brasileiras são: síndicos. São capazes de trocar uma lâmpada, ou, num dia inspirado, o fusível de um chuveiro, mas certamente não são habilitadas para lidar com colapsos e para repensar sistemas.

É fácil comprovar a incapacidade do poder público de lidar com complexidade: basta olhar para cima e ver uma instalação elétrica. Você contrataria esse eletricista? Foto: DRB (CC)

Nas últimas décadas, as grandes cidades se tornaram milhões de vezes mais complexas do que eram antes. Milhares de quilômetros de solo foram asfaltados, milhões de quilômetros de cabos foram estendidos, rios foram enfiados debaixo do chão e canos furaram tudo. Esse trabalho tem sido feito como um síndico faria: na base do “jeitinho”. Os profissionais que trabalham nas prefeituras podem até ser simpáticos e inteligentes, mas no geral não fazem ideia de como se lida com um sistema complexo: sabem apenas de suas respectivas áreas.

Mesmo nossos prefeitos são imensamente limitados. Pegue como exemplo Gilberto Kassab, aqui em São Paulo. Certamente parece um bom sujeito, e ninguém tem dúvida de que seja inteligente. Mas quantas vezes ele já veio a público para discutir a fundo grandes questões urbanas? Ele não discute porque não entende absolutamente nada sobre cidades. Kassab fala, e bem, sobre articulações partidárias, estratégias políticas, táticas eleitorais. Diante das enchentes que estão assolando São Paulo e dos protestos contra o custo extorsivo do transporte público, ele reagiu mudando sua assessoria de imprensa.

Não vai ser assim que resolveremos nossos problemas.

Tenho a convicção de que as respostas para as grandes cidades brasileiras não vão vir das prefeituras. Elas virão de articulações amplas da sociedade civil, com participação decisiva da vibrante classe criativa brasileira e investimento maciço do setor privado. As prefeituras poderiam ajudar muito se fossem menos autoritárias e deixassem a cidade ajudar. Elas poderiam reduzir imensamente seu inchado quadro de funcionários e gastar muito mais com projetos inovadores, experimentais, criados por grupos de gente criativa apaixonada pela cidade.

Nossas cidades vão mal, muito mal. Nós brasileiros temos uma mania irritante de ficar com nhenhenhém resmungando dos políticos. Os políticos são ruins mesmo, mas a responsabilidade pela cidade não é só deles: é de todo mundo.

Por Denis Russo Burgierman

28/02/2011

às 12:46 \ Trânsito

Questão de cultura

Hoje no Brasil 50 mil pessoas morrem em homicídios por ano, número digno de zona de guerra. A segunda causa de morte do país é o trânsito, com 40 mil por ano. Quem mais morre no trânsito são os pedestres. Não é difícil de entender por quê.

O trânsito está nervoso, agressivo. Quando o sinal abre, os motoristas pisam fundo, para aliviar a frustração de ficar parado, e freiam bruscamente alguns metros a frente, porque o trânsito para de novo. Entre um carro e outro, cidades superlotadas estão inventando de enfiar motos. Em São Paulo, 578 pedestres morreram no trânsito em 2009 (258 atropelamentos envolviam carros, 123 envolviam motos).

Há pela cidade um bom número de faixas de pedestre, a maioria delas sem o reforço de um semáforo. Geralmente elas ficam nos cruzamentos, demarcando o caminho que os pedestres precisam cruzar para chegar ao quarteirão seguinte. Obviamente, os pedestres têm a preferência em cima dessas faixas. Na maioria das cidades brasileiras, os motoristas ignoram completamente esse fato. É como se as faixas não existissem. Se um pedestre tentar usar de seu direito de preferência, entrando na frente do carro, terá sorte se levar apenas um dedo médio erguido e uma homenagem à mãe.

Um pedestre, de muleta, com a preferência, na chuva, espera pacientemente que um carro lhe dê a preferência. Nenhum deu

Outro dia eu estava no boteco aqui em frente de casa e na mesa ao lado sentaram-se quatro fiscais do Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), exaustos, comendo um lanche no final do expediente. Perguntei a eles por que eles não multavam carros que desrespeitam a faixa. Eles responderam:

– É questão de cultura.

Cultura? E por que então não mudamos a cultura? Multas, sabe-se bem, mudam a cultura muito rapidamente. Pois qual não foi minha surpresa quando descobri o inesperado: os fiscais da CET são proibidos de multar por esse motivo. Seus talões nem sequer contêm a infração.

Ok, não têm a infração, mas têm a linha “outros”. Os fiscais, se quiserem, podem multar assinalando “outros”, não? Não exatamente. O “outros” raramente é utilizado. A CET padroniza o procedimento para cada tipo de infração e, nesse caso, até alguns meses atrás, não havia sequer procedimento estabelecido. Quando não há procedimento estabelecido, os fiscais são proibidos de agir mesmo que vejam um jipão com cara de tanque e vidro fumê passar numa poça e encharcar uma velhinha com um andador que tinha a preferência e estava na faixa de pedestres.

Uma coisa que me chamou a atenção na conversa que tive com os fiscais é que todos eles eram cidadãos bem educados, articulados, preocupados com a saúde dos cidadãos, inteligentes. Tivemos uma ótima conversa e eles tinham muitas boas ideias. Mas a prefeitura veda a eles usar seu próprio julgamento e influir no sistema.

Isso é típico do Brasil, uma das muitas lembrancinhas que a escravidão deixou no caráter nacional. Não confiamos nos “subalternos”. Por conta disso, toda decisão sobre o complexo trânsito das cidades é tomada em salinhas bege com ar condicionado por sujeitos gordinhos e de terno que andam com motorista. Os fiscais não têm liberdade de ação para colocar inteligência no sistema. Enquanto isso, a imensa maioria de nós – pedestres, usuários de transporte público, ciclistas e motoristas depois que estacionam – tenta sobreviver nas ruas.

Os gordinhos de terno só levam uma coisa em conta na hora de tomar decisões: o fluxo de veículos. Eles só são cobrados pelo prefeito por um número: quantos veículos passam pela via por hora. Esse número é uma baboseira – basta pensar que um carro, nessa conta, vale a mesma coisa que um ônibus. Contar veículos e achar que isso mede a qualidade do trânsito é uma estupidez.

Enquanto isso, as prefeituras brasileiras estão negligenciando sua tarefa de zelar pela vida dos cidadãos que pagam seus salários. Se ficar provado que a prefeitura tem instrumentos para zelar pelo bem público e pela vida do cidadão e conscientemente nega-se a utilizá-los, isso não é razão para processos civis, ações de impeachment e responsabilização criminal de gestores públicos?

PS: Quanto ao motorista que tentou assassinar dezenas de ciclistas em Porto Alegre na semana passada, só posso dizer que ficarei muito frustrado se ele passar na cadeia um dia a menos do que a pena máxima permitida neste país.

Por Denis Russo Burgierman

06/12/2010

às 18:19 \ Trânsito

Ciclovias são para vocês, motoristas

São Paulo tem uma rede de ciclovias só comparável à das cidades mais miseráveis da África, uma vergonha que depõe contra a cidade. Tem menos ciclovias do que Bogotá, Belém ou Sorocaba, cidades muito menos populosas e ricas. Houve alguns avanços microscópicos nos últimos anos, como a ciclovia da Marginal Pinheiros, que talvez venha a ser útil daqui a algumas décadas, quando estiver conectada às vias e às redes de trens e metrô (bastaria que um vagão fosse exclusivo para ciclistas com suas bicicletas), mas o cenário geral é de descaso. Gilberto Kassab, o prefeito da cidade, foi tão omisso no que se refere a esse assunto quanto qualquer prefeito antes dele.

Por que é assim? Por que a cidade trata tão mal aquelas pessoas que decidem se locomover de uma maneira que reduz o trânsito, as emissões de poluentes e melhora os indicadores de saúde da cidade?

Ativista demonstra na Avenida Paulista o tanto de espaço que um carro ocupa no trânsito

Parte da razão provavelmente tem a ver com um paradigma cultural. Kassab, como qualquer prefeito recente antes dele, tem carro. Ele está acostumado a ver a cidade através de um para-brisas. Ele é incapaz de criar empatia com um daqueles malucos suando lá fora –  simplesmente não consegue se colocar no lugar deles.

Por conta disso, nem passa pela cabeça dele o imenso absurdo que é construir uma nova ponte na cidade, com a pretensão de ser um cartão postal paulistano (a Ponte Estaiada), sem prever acesso para pedestres e ciclistas. Ele nem consegue imaginar o quanto nossos cruzamentos são ameaçadores para quem pedala, o quanto faz falta sinalização adequada. E não é só do prefeito que estou falando. Pouquíssima gente que trabalha na secretaria de transportes e na companhia de engenharia de tráfego pedala em São Paulo. Para eles, as ruas são dos carros – é esse o paradigma cultural no qual eles vivem.

Muitos motoristas têm o mesmo problema: eles estão tão acostumados a ver as ruas cheias de carro que acreditam que é assim que as coisas são, por natureza. Ciclistas são intrusos na ordem natural das coisas. Por conta disso, muitos motoristas, às vezes até bem intencionados, buzinam quando vêem uma bicicleta à sua frente. Na sua incapacidade de se colocar no lugar do ciclista, eles nem percebem que buzinadas são perigosas e desestabilizadoras para quem depende de ouvidos apurados para se manter vivo. Outros passam pelos ciclistas sem respeitar a distância mínima de 1,5 metro entre o carro e a bicicleta, colaborando para o altíssimo índice de mortes de ciclistas na cidade.

Nessa cegueira por causas culturais, o prefeito e os motoristas nem percebem o óbvio: ciclovias seriam boas para todo mundo, inclusive para os motoristas. Cidades com redes cicloviárias bem planejadas, como Londres, Nova York, Paris, Estocolmo, San Francisco, Bogotá, Copenhague têm muito menos trânsito. Vocês não querem menos trânsito, motoristas?

Sem ciclovias, vocês motoristas terão que dividir o espaço comigo. Eu pedalo no meio da pista, tranquilamente, sem pressa, e vou fazer isso enquanto não houver um espaço decente dedicado para mim. Você quer mesmo ter que dirigir devagarzinho atrás de mim? Não seria melhor dedicar uma faixa para mim e para os outros ciclistas da cidade, para que o seu carro tivesse também um espaço exclusivo e tudo fluísse melhor?

Ser contra uma boa rede cicloviária é ser a favor da lei do mais forte – da barbárie que vigora hoje em dia em São Paulo. Aqui carro maior tem mais direitos. Eu odeio ter que viver numa cidade regida por essa lógica tosca. Mas, se a lógica é essa, posso jogar o jogo: contra a ameaça de morte constante que os carros me oferecem, só o que tenho é a ameaça de chutar o retrovisor alheio.

Motorista, você não preferiria viver numa cidade que respeita o mais fraco e em troca ter seu espelhinho preservado?

Por Denis Russo Burgierman

22/11/2010

às 15:14 \ Amazônia

Diários amazônicos – parte 3

O caboclo Iracildo desde menino gosta de estar na floresta. Nascido à beira de uma praia de areia branca na margem do lindo Rio Tapajós, que escoa as águas do Mato Grosso até o Rio Amazonas, ele passou a vida entre o mato e o rio. Vivia do que catava, do que caçava, do que pescava. Aprendeu com a vida a sentir o cheiro do tatu, a enxergar o rastro da paca, a ver o peixe debaixo d’água, a tecer telhados e erguer paredes com folhas, fibras e madeiras, a extrair remédios e comidas da casca e da seiva das árvores. Aprendeu a ler a floresta, a enxergar sua riqueza e a viver dela.

Iracildo trabalhando

O povo do vilarejo de Jamaraquá, onde ele vive, sempre achou que Iracildo era tímido, arredio, introvertido. Ele mesmo sempre acreditou nisso: que sua vocação não era interagir com as pessoas.

Aí, uns dois anos atrás, um gringo apareceu por lá, atraído pela beleza impressionante do lugar. Andou na canoa de Iracildo e perguntou se ele não o guiaria para dentro do mato. Iracildo foi, meio envergonhado. No caminho, foi contando um pouquinho do que sabia. Para sua surpresa, o gringo adorou. Ficou de queixo caído. Para ele, aquela floresta era só uma massa verde, um matão indistinguível. Andando com Iracildo, ele percebeu que havia lá um milhão de personagens diferentes. Percebeu que havia um mundo de conhecimento sobre a floresta. E a experiência de alguém num lugar é muito mais interessante quando se conhece melhor esse lugar.

Iracildo percebeu que ele não era arredio. Ele era, isso sim, um especialista. Um conhecedor. Ele percebeu que tinha um monte de gente interessada em conhecer esse lugar e disposta a pagar a ele para que ele os ajudasse.

Hoje ele é guia. O barco que usava para pescar agora busca turistas no balneário encantado de Alter do Chão, não muito longe de Jamaraquá. Os turistas dormem em redes numa cabaninha que Iracildo ergueu com troncos e folhas de palmeira. Ele cobra de cada turista 160 reais por três dias de passeio, que incluem andar de canoa ao pôr do sol, nadar num igarapé mágico, descansar à sombra de uma samaúna gloriosa, atravessar uma mata até chegar a uma praia, três belas refeições ao dia e uma infinidade de histórias incríveis que só quem passou 52 anos na floresta sabe contar. Ele não dá conta da demanda.

Explorando uma praia do Tapajós

Na hora do almoço, na casa de Iracildo, os turistas não têm como não notar a exposição de pulseiras, colares, brincos, cadernos com capa de látex de seringueira e bolsas confeccionados pela filha dele, a Nice. As mulheres, brasileiras e estrangeiras, enlouquecem quando vêm aquilo. No meu grupo, logo no primeiro dia, vi três mulheres avançarem aos gritos sobre todas aquelas coisas bonitas. Uma gastou 45 reais, outra, 60, a outra certamente mais de 100. Quase todo dia é assim. A Nice cresceu aprendendo sobre a floresta com o pai. Seu trabalho, imensamente criativo, é todo feito com sementes, ossos, fibras naturais e borracha das seringueiras. Ela me descreveu seu processo criativo: “à noite eu imagino o que vou fazer no dia seguinte. Quando não imagino antes, não sai nada interessante”. A floresta é sua matéria-prima, mas a mágica acontece dentro da sua cabeça, quando ela mistura a criatividade com a qual nasceu com o conhecimento que herdou do pai.

Iracildo, alguns de seus filhos e netos, e parte da obra da filha mais velha

Jamaraquá fica dentro de uma Floresta Nacional, ou Flona, uma área preservada, mas na qual é permitido que as populações locais exerçam atividade econômica, desde que não destruam a floresta. No vilarejo vizinho, Maguari, há uma fábrica de produtos de látex, o chamado “couro ecológico”, que exporta bolsas, sapatos e brinquedos para a Europa. Há pela Amazônia uma infinidade de tecnologias sendo desenvolvidas para transformar conhecimento tradicional em produtos e serviços, pelos quais o mundo está ávido.

O modelo das Flonas parece imensamente promissor para a região. Em vez do xiismo dos parques nacionais, que expulsam a população local, colocam fiscalização insuficiente em seu lugar e deixam a àrea vulnerável a invasores que vêem a floresta como apenas um estoque de madeira e caça, aqui o que se vê é um estímulo ao empreendedorismo baseado em conhecimento.

O que se vê aqui é prosperidade. Jamaraquá, que até cinco anos atrás era tão pobre quanto é possível ser, hoje tem água tratada saindo da torneira, luz elétrica, loja coletiva de artesanato e uma rádio comunitária. As crianças vão estudar numa escola em Maguari e a saúde vai muito bem. A associação dos moradores é rica porque recebe uma porcentagem do que os turistas gastam, e zela pelo cumprimento das regras da Flona. Na casa de Iracildo, tem televisão e geladeira e ele está pensando em mandar construir um segundo barco, para seus filhos levarem turistas. O construtor de barcos, seu genro, também mora na comunidade. O dinheiro circula. Todo mundo parece saudável, feliz e orgulhoso.

Bem diferente do que acontece mais ao sul, no mesmo estado do Pará, no chamado arco do desmatamento. Por lá, quem manda na floresta não conhece nada dela: só vê a massa verde, como aquele gringo antes de encontrar Iracildo. A regra é derrubar tudo, o que provoca um breve crescimento econômico, quando a madeira é vendida. Mas aí a madeira acaba e grandes pastos se instalam, abrigando um boi por hectare na média. O dono do boi não tem do que reclamar, embora provavelmente faça muito menos dinheiro por hectare do que a família de Iracildo. O resto da comunidade mergulha em depressão e criminalidade.

Aqui no Brasil a gente tem a mania de achar que a fórmula do desenvolvimento está fora daqui. Nossa auto-estima é baixa, então desconfiamos do conhecimento local. Achamos que desenvolvimento é produzir vinho no sertão do São Francisco. Muito lindo plantar uva no sertão, sem dúvida um grande feito. Mas não acrescenta nada ao mundo. Contratamos especialistas franceses para nos ensinarem a fazer vinho e, ao final, temos um vinho passável, embora obviamente não tão bom quanto o francês. Temos aqui a floresta mais rica do mundo. A solução para ela não vem de fora – vem de dentro, de quem a conhece. Pergunte para os franceses se não é esse o segredo de um bom vinho. Pergunte a eles se não é esse o segredo de um bom país.

Por Denis Russo Burgierman

21/05/2009

às 15:31 \ Ideias

Como melhorar o mundo

Há dois jeitos de melhorar o mundo.

Um é criar regras melhores. Regulamente os mercados, bradam os especialistas! Leis mais duras! Há que se proibir que deputados roubem dinheiro!

Outro é criar incentivos melhores. Molde o mercado para ele te ajudar! Repense as políticas de bônus! Remunere quem economiza energia! Torne a política mais atraente para gente bem intencionada!

Ontem vi este vídeo espetacular do psicólogo americano Barry Schwartz (com legendas em português). É uma palestra de 20 minutos, mas cada segundo deles vale a pena, garanto. A tese básica de Barry é a seguinte: regras e incentivos são importantes, claro, mas estamos exagerando a importância deles. E é justamente por isso que o mundo está tão ruim.

Regras demais impedem que a gente pense – que a gente converse com outras pessoas e decida por nós mesmos o que é certo e o que é errado. Incentivos demais têm mais ou menos o mesmo efeito – em vez de nos preocuparmos em fazer o que é certo, nos sentimos trouxas se não fazemos o que nos traz mais vantagem.

O que precisamos não é de mais regras ou de mais incentivos. Precisamos de mais sabedoria prática. Um bom começo é procurarmos exemplos de gente sábia, gente que teve que enfrentar um problema sem saber como resolvê-lo e que conseguiu agir certo nessa hora. Precisamos divulgarmos esses exemplos, para que eles inspirem os outros. Precisamos reaprender a ter heróis.

PS: Obrigado ao Vitor Leal, do blog Quintal (ideias para um mundo melhor), por sugerir este vídeo, num post sobre meu post de ontem.

PS2: Este vídeo é uma das palestras do TED (ideias que merecem ser espalhadas), que estão todas online, às vezes com legendas em português. O TED é hoje meu lugar preferido na internet. Vale muito a pena passar tempo navegando lá em busca de inspiração. Acho sinceramente que pode mudar sua vida.

PS3: Uma fofoca: o TED, que além de ser um site é um evento (onde as palestras acontecem), está chegando ao Brasil. Aguarde notícias.

Por Denis Russo Burgierman

20/05/2009

às 14:53 \ Política

A outra corrupção

Um tipo de corrupção na política você conhece bem: é a corrupção dos políticos. É aquela dos mensalões, dos mensalinhos, da compra de votos, do desvio de impostos, da apropriação de verbas públicas para tirar férias, do uso indevido de apartamentos funcionais, das comissões em obras públicas. É se aproveitar do acesso ao poder para tirar vantagens próprias, para enriquecer, para favorecer seu grupo. É uma doença, que no Brasil atinge níveis epidêmicos.

Mas tem um outro tipo de corrupção na política da qual nós nunca falamos: é a corrupção do sistema político. Não se trata de surrupiar o bem público. Trata-se de tomar decisões com base em influências questionáveis, e não com vista no que é melhor para resolver problemas e melhorar o país. Trata-se de um sistema que funciona melhor para uns do que para outros. De um sistema que deveria nos representar, mas não nos representa. Não se trata de fazer coisas ilegais – trata-se de fazer coisas ilógicas, estúpidas, contraproducentes. Trata-se de um sistema político que não nos representa, que não foi construído para funcionar. Essa doença não é uma epidemia só no Brasil: é uma pandemia, que existe em algum grau em todas as partes do mundo.

Quem formulou esse conceito (de corrupção do sistema político) foi o americano Lawrence Lessig, na época professor de direito de Stanford, hoje transferido para Harvard. Lessig começou a vida pública como um tipo de “militante digital”. Foi ele que comandou o movimento Creative Commons, que pregava um novo modelo de direito autoral, menos injusto e anti-democrático e mais libertário que o tradicional. Em 2007, Lessig anunciou que estava mudando de área: estava deixando a liderança do movimento CC para se dedicar a arrumar soluções para a tal corrupção do sistema político.

Lessig criou então, em 2008, o movimento Change Congress, uma espécie de “selo de qualidade” para políticos, que é dado, independentemente de partido político, para todo mundo que assuma o compromisso de apoiar uma série de medidas. Todas essas medidas têm a ver com aumentar a transparência, usando as novas tecnologias para que os eleitores saibam como as decisões são tomadas, abrindo o processo eleitoral, fazendo força para diminuir a influência dos grandes doadores, aumentando a conexão entre eleitor e político. Tentando fazer que política seja um grupo de representantes da sociedade discutindo ideias para melhorar as coisas, e não um bando de marketeiros que só pensam em votos e em agradar financiadores de campanha. O Change Congress está liderando agora uma “greve de doações” para políticos: eles propõem que ninguém dê dinheiro para candidatos que não façam a promessa de apoiar a mudança do sistema de financiamento de campanhas.

Lessig e seu movimento são vistos como utópicos, claro. São acusados de ignorar um fato básico da vida: cada político só quer saber de garantir o seu e é o dinheiro que move todos.

Pode ser.

Mas mudança tem que começar de algum jeito. E cinismo em relação às possibilidades de mudar só interessa a quem está chafurdando na lama e gostando.

Nosso sistema político, além de corrupto, ineficaz e às vezes surreal, é totalmente baseado num modelo do século 19. Vivemos numa sociedade tecnológica, temos conhecimento científico profundo sobre comportamento humano, sabemos muito mais sobre o mundo do que qualquer um poderia prever um século atrás. Sei que é urgente consertar os problemas do sistema político que temos. Mas será que não é hora de sermos muito mais ambiciosos? Será que não é hora de começar a pensar em criar um sistema político novo, um que não esteja corrompido logo de saída? Será que o problema são os políticos malandros? Ou será que é o sistema que é tão ruim que acaba atraindo apenas a pior laia de gente?

Lessig sorri para uma foto Creative Commons

Lessig sorri para uma foto Creative Commons

Foto: Flickr/Joi (CC)

Por Denis Russo Burgierman

14/05/2009

às 20:04 \ Consumo

Prisão domiciliar

Comprei uma geladeira no Ponto Frio. Eles pediram um prazo de 10 dias para entregar. Era para chegar hoje.

Que horas?

Entre 8 da manhã e 9 da noite.

Mas, mas, mas, mas…

Moramos sozinhos (eu e minha esposa, que está viajando). Passei o dia em casa, esperando o maldito caminhão do Ponto Frio. Agora são 7:47 da noite e nada dele ainda. Estou em prisão domiciliar.

Para mim essa história ilustra bem o jeito de tratar consumidores neste nosso mundo. O Ponto Frio criou uma belíssima rede de distribuição, com uma logística bem pensada, provavelmente toda coordenada por computador. O caminhão sai de manhã com um roteiro racional organizado de forma a maximizar a eficiência, percorrer o mínimo de distância, arriscar ao mínimo danificar os produtos. Mas e o consumidor? Ora bolas, cada um com seus problemas. O Ponto Frio investe dinheiro para melhorar a logística desde que isso aumente sua receita ou diminua seus custos. Mas, se o objetivo for melhorar a minha vida, eu é que me vire.

O pior é pensar que as soluções eram tão simples… Dar um celular ao entregador. Criar um site que torne a operação logística visível para mim também, não só para o motorista, para que eu possa me programar. Manter o serviço de atendimento em contato com o entregador, para que eles possam me dizer algo mais do que “não sabemos o roteiro dele” quando eu ligo lá. E eu estaria livre. Mas nada disso aumentaria o lucro do Ponto Frio.

Agora estou aqui decidindo se cancelo a compra ou se me preparo para passar mais um dia preso.

São 8:03 da noite. Nada até agora.

Update: 8:14 PM – nada ainda. Liguei para o serviço de atendimento. Fui informado que o horário deles é só até as 7 horas. Eu tenho que esperar. Eles não.

Update 2: 8:27 PM – tô com fome. Não tem nada na geladeira (que aliás não funciona). Pedi uma pizza. Agora estou esperando dois entregadores. Tenho mais fé na pizzaria.

Update 3: 8:50 PM – chegou! A pizza, claro. A geladeira não.

Por Denis Russo Burgierman

08/05/2009

às 19:09 \ Política

Justa causa

Vocês me perdoem a insistência, mas eu gostaria de continuar com o assunto de ontem. É que não consegui tirar da cabeça o tal deputado gaúcho Sérgio Moraes, aquele que está se lixando para a opinião pública.

É que fiquei pensando no significado do que ele disse. Opinião pública = opinião do povo. Estou me lixando para o que o povo pensa. Deputado – substantivo masculino, do latim deputatu, indicado, escolhido para representar. Enfim, o representante do povo está se lixando para a opinião do povo.

O deputado fez, nas entrevistas que deu, críticas pesadas à imprensa. Eu sou da imprensa. Não sou corporativista, como o deputado é. Concordo com ele em alguns pontos: alguns dos meus colegas de profissão são picaretas. Alguns são irresponsáveis. Alguns são incompetentes.

Mas jornalistas (a não ser os muitos que trabalham para o governo) são funcionários de empresa privada. Se eles dão mancada, vão para a rua. Eu, por exemplo, tenho um crachá verde e branco da Editora Abril S.A.. O que vocês acham que aconteceria se eu escrevesse que estou me lixando para a opinião do dono da minha empresa? Imagino que eu seria sumariamente demitido, por justa causa.

Pois então: por que é que um representante do povo que afirma na imprensa que está se lixando para a opinião do povo não perde o emprego?

Por Denis Russo Burgierman

30/04/2009

às 19:17 \ Trânsito

Ninguém para

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Tem uma faixa de pedestres logo aqui em frente de casa (fui lá agora fotografá-la). É uma faixa gasta, meio apagada. E, para todos os efeitos, absolutamente inútil.

Como não tem semáforo, ninguém para. Fica o pedestre no meio da rua, esperando pacientemente. Às vezes é uma velhinha de muletas. Às vezes é uma moça com um bebê no colo. Às vezes demora 5, 10 minutos para abrir uma brecha, e mesmo assim só dá para passar correndo. Ninguém para. Nem o carro do CET, o departamento de engenharia de tráfego.

Isso me irrita profundamente. Então tenho o hábito de ameaçar entrar na frente do carro. O motorista se assusta, às vezes xinga, às vezes freia. Às vezes acelera, possesso, como que dizendo para mim “tenta que eu te mato”. Quando estou de muito mau humor, dou um tapa no retrovisor. Isso eventualmente vira um barraco: o motorista gritando de dentro do carro que eu sou folgado, eu apontando para a faixa no chão. Minha mulher fica bravíssima comigo: ela acha que esses atos só servem para deixar os motoristas ainda menos tolerantes com os pedestres. Eu respondo que, se eu não faço isso, o motorista nem fica sabendo que ele está errado. Afinal, ele acha que o carro dele é um presente dos céus que automaticamente o transforma numa pessoa com mais direitos do que os pobres pedestres. E não chegamos a uma conclusão: como conscientizar os motoristas que esse hábito que eles têm há anos é um absurdo? Como, se ele passa correndo, janela fechada, alheio à rua, e não dá para conversar com ele?

Mas ele vai ter que estacionar um dia. E, quando estacionar, vai ter que atravessar a rua. Ok, ok, aqui em São Paulo os absurdos chegam a limites assustadores. Tipo: inventou-se aqui a mania ridícula de cada estabelecimento comercial ter seu próprio manobrista, para o sujeito poder se transformar diretamente de motorista em consumidor, sem o humilhante estágio intermediário de pedestre.

Eu, da minha parte, não uso manobrista. Acho que seria uma traição contra a minha cidade.

Por Denis Russo Burgierman


 

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