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CALIFÓRNIA

21/07/2009

às 13:51 \ Cidade

Não paramos o trânsito: somos trânsito

Quando vim morar na Baía de San Francisco, não demorei para conhecer uma tradição da cidade: a Critical Mass, ou “massa crítica”, a mais anárquica manifestação de que já participei. Minha primeira foi em setembro de 2007, quando o “evento” completava 15 anos. Pegamos nossas bikes e fomos participar (você pode ver algumas das fotos no blog que eu tinha na época. Cuidado! Há cenas de nudez!!!!).

Funciona assim: toda última sexta-feira de cada mês, às 6 da tarde, ciclistas da cidade inteira se encontram em uma pracinha (em frente ao Ferry Building). Eles se concentram lá, vão se acumulando, até que alguém começa a buzinar. As buzinas vão se espalhando, a praça vira uma barulheira e aí, de repente, alguém começa a pedalar e os outros vão atrás.A massa crítica foi atingida. Não há roteiro definido. Quem estiver na frente decide onde virar, quem vier atrás segue. O prefeito não gosta (tive a chance de participar de uma entrevista com ele, e ele suspirou desanimado quando eu disse que costumava participar). A polícia não gosta. A maioria dos motoristas não gosta. O trânsito fica uma loucura. Mas é uma das muitas tradições esquisitas desta cidade esquisita e ninguém consegue acabar com ela. Acusam os ciclistas de parar o trânsito. Os ciclistas respondem que não param o trânsito: eles são o trânsito.

Para nós, ciclistas, é uma delícia. Uma vez por mês, pelo menos por alguma horas, a cidade é nossa. As ruas são tomadas por gente fantasiada em bicicletas estranhas. Muita gente carrega caixas de som e a música toma as ruas. O Critical Mass é tão legal que, ao longo dos últimos 17 anos, foi lentamente se espalhando pelo mundo. Hoje acontece em bem mais do que 300 cidades, incluindo quase todas as maiores cidades brasileiras (aí ele chama “bicicletada”).

familia

Mas, afinal, o que é o Critical Mass? É uma manifestação, uma passeata, um protesto, uma festa, uma invasão? Morria de curiosidade e não encontrava resposta para essas perguntas. A imprensa mal tratava do assunto. Aí encontrei um livrinho, e o organizador era o Chris Carlsson, parte do grupo que começou a história, em 1992. Acabamos conhecendo o Chris por acaso, e ele nos contou todas as histórias.

Da direita para a esquerda, minha mulher Joana, Chris e a mulher dele, a mexicana Adriana

A partir da dir., minha mulher Joana, Chris e sua mulher, a mexicana Adriana

O Chris é uma enciclopédia de contracultura e de conhecimento da história desta cidade. Editor e escritor, ele tem uma porção de livros sobre ecologia urbana, história dos movimentos sociais, mudança na relação com as cidades. Esta semana aparecemos na casa dele com uma garrafa de cachaça (ele é apreciador) e em troca ganhamos um belo jantar mexicano e uma caminhada guiada pela cidade. Não foi um tour comum: em vez de cartões postais vimos jardins comunitários, ruínas, espaços públicos tomados a força e outras relíquias da história da resistência dos moradores de San Francisco contra a morte da alma da cidade. O Chris contou que em meados do século 20 houve um projeto para aterrar toda a baía de San Francisco. A cidade viraria uma planície suburbana, sem fog nem ventania, com casas grandes e quintais: igual a qualquer cidade americana. Os moradores se organizaram e mataram a ideia. Para manter San Francisco estranha.

Hoje há gente pedalando em todos os cantos de San Francisco, a qualquer hora do dia ou da noite. As ciclovias e faixas compartilhadas estão por toda parte. Motoristas respeitam os ciclistas e reconhecem que eles ajudam a reduzir o trânsito. Todas essas conquistas devem um pouquinho à Critical Mass, que 17 anos atrás começou a colocar essas questões em discussão.

Por Denis Russo Burgierman

20/07/2009

às 13:39 \ Ideias

É grátis

Interessante estar em San Francisco, a capital mundial da contracultura, um ano depois do derretimento do sistema financeiro internacional. A cidade, que é rica pacas, dá alguns sinais de sentir a crise – lojas fechadas, gente preocupada. Mas, mais que tudo, o que eu sinto no ar é uma efervescência, uma sensação de que a cidade aposta suas fichas em ajudar a mudar o mundo depois do desastre.

Exemplo: esta semana, o jornal semanal alternativo SF Guardian tem uma edição especial – The Free Issue, “a edição grátis”.

guardian

A tese do jornal é que, nos últimos anos, caímos numa armadilha: fomos convencidos pelas corporações de que tudo na nossa vida se resume a transações financeiras. E que isso esvaziou nossas vidas de senso de comunidade, de colaboração, de generosidade. Preferimos contratar alguém para um serviço, em vez de pedir um favor para a vizinha – porque tememos a obrigação social que acompanha um favor, que é retribuir um dia. E não queremos ter que convidar a vizinha para um churrasco em casa.

O jornal traz uma defesa de um novo modelo, que é bem simples. Começa com você. Ofereça favores. Ajude. Doe coisas que você não usa para quem você acha que vai usar. Se gente suficiente fizer a mesma coisa, a tendência é de que uma hora esses favores desinteressados comecem a voltar para você. Afinal, se todo mundo doa, todo mundo recebe. E aí, como você vai ganhar coisas de graça, você não vai precisar de tanto dinheiro para viver. E talvez possa se estressar menos, trabalhar menos, se preocupar menos.

Aí o jornal vem com um guia de coisas grátis para fazer nesta cidade caríssima. Bem legal.

Anteontem fomos visitar um amigo, o Chris Carlsson, que já vive em função desses valores. Ele é um dos ciclistas que, nos anos 80, criou o Critical Mass, o movimento anárquico de invasão das ruas pelas bicicletas que depois se espalhou pelo mundo inteiro. No meu próximo post, conto um pouco mais dele.

Por Denis Russo Burgierman

07/07/2009

às 16:34 \ Ideias

Garoto eu vou prá Califórnia

Por um ano, entre agosto de 2007 e agosto de 2008, morei no Vale do Silício, na Califórnia. Amanhã saio de férias e volto para lá para rever os amigos. Aproveito para passar 3 semanas trabalhando pelos Estados Unidos, fazendo uma pesquisa para a Editora Abril. Eu saio de férias, mas o blog não. Continuarei postando. Só não espere tanta periodicidade, nem assuntos tão sérios. Este é um blog de um homem de férias!

Para comemorar republico abaixo a coluna que publiquei na revista Vida Simples quando estava me despedindo de lá, ano passado. Pelo menos meu time melhorou de lá para cá.

A foto eu fiz junto com minha esposa, Joaninha, numa noite em que acampamos na praia, no meio da viagem de bicicleta que fizemos entre San Francisco e Los Angeles. É uma longa exposição – a câmera ficou aberta por vários segundos, enquanto a Joaninha escrevia a palavra “Califórnia” com a luz do farol da bicicleta.

noite1

Dê orgulho aos seus avós

As coisas que importam de verdade não podem ser encaixotadas

Por um ano, moramos na Califórnia. É daqui, da terra do Schwarzenegger e da internet, do Baywatch e do Chips, do skate e dos hippies, da mountain bike e do carro elétrico, de Hollywood e do faroeste, da new age e do surfe, dos bondinhos e dos conversíveis, que eu tenho escrito para você todo mês. E você tem sido minha conexão com o Brasil, junto com o Tom Zé, o Corinthians (que às vezes eu queria esquecer) e a caipirinha (não se acha uma cachaça decente por aqui).

Agora estou aqui, cercado de prateleiras vazias e caixas cheias, na casa onde eu e minha Joaninha estudamos e bebemos e cozinhamos e fizemos amigos e vivemos por um tempo. O DJ automático (meu I-Pod) achou que a cena merecia uma música triste e começou a tocar As Tears Go By, dos Stones. É verão, faz um calor de rachar, tenho um gim e tônica na mão cheio de pedras de gelo e a sensação de que vou lembrar deste momento pelo resto da vida. O dj I-Pod resolveu substituir a melancolia por uma alegre ironia pop e atacou de Banho de Lua, a versão dos Mutantes.

Estamos em meio ao trabalho de transformar tudo de concreto que sobrou deste ano em quatro peças de bagagem de 32 kg cada e duas bagagens de mão de 18 kg. Hora de encaixotar os livros e dobrar as roupas e esvaziar as garrafas (daí o gim e tônica). Hora de pegar aquelas torres de folhas de papel – tudo aquilo que acumulei na crença de que “pode ser importante” – e decidir, folha por folha. Isso é importante. Isso não é importante. Isso é importante. Isso não é importante. Tudo o que tivemos por um ano está separado em três pilhas: “para levar”, “gostaríamos de levar” e lixo. Lixo é, disparado, a maior pilha.

Ontem, chamamos um especialista em limpeza de tapetes para fazer um orçamento aqui em casa. A casa é alugada e por contrato temos que devolver ao proprietário com tudo em ordem. O sujeito da limpadora era um senhor bem californiano, os cabelos brancos presos num rabo de cavalo, o jeitão de velho hippie que já viu de tudo mal dissimulado pelo macacão bege. Ele entrou em casa, mas em vez de olhar para os tapetes foi logo reparando nos livros na prateleira, na minha camiseta com o nome de uma praia (“eu costumava ir lá nos anos 60 para pegar mariscos”, ele disse), nas fantasias empilhadas no chão (Halloween, o mais perto que a pernambucana Joaninha encontrou de Carnaval), nos cartazes na parede.

Um dos cartazes é uma foto preto e branca do Einstein andando de bicicleta. O limpador de tapetes olhou para a foto e disse: “Eu adoro o Einstein. Gênio é quem acha o conhecimento na ciência e consegue mudar o mundo real com ele”. Depois ele me contou que o filho dele é um gênio – um desses gênios de computadores que estão mudando o mundo a partir daqui da região onde eu moro, o Vale do Silício. Ele não quis me dizer o que o filho dele faz, segredo industrial eu acho, mas garantiu que eu ainda vou ouvir falar nele. Já é o terceiro velho hippie que encontro que tem um filho ficando rico com computadores.

Quando ele estava indo embora, eu perguntei: “você tem alguma recomendação?” Eu me referia ao tapete. Queria uma dica de como limpar. Ele entendeu errado, acho, e respondeu: “leve uma vida boa. Dê orgulho aos seus avós.”

Eu amo a Califórnia.

Denis Russo Burgierman morre de saudades do Brasil. Mas não de tudo no Brasil.

Por Denis Russo Burgierman


 

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