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AMBIENTALISMO

11/01/2010

às 18:01 \ Oceano

Sea Shepherd 10 X 1 Baleeiros

Nesta época do ano, é inevitável para mim lembrar do reveillon de 2003, o mais incrível da minha vida, que eu passei no lugar mais remoto e selvagem do mundo, os mares da Antártica, a uma semana de viagem da cidade mais próxima. Eu estava num velho navio pesqueiro, sujo e enferrujado, cercado de icebergs esculturais, visitado todos os dias por pinguins, focas, orcas e baleias – várias espécies de baleias, inclusive uma das 10 000 baleias-azuis que sobraram nos oceanos do mundo. Vendo auroras austrais, mergulhando na água gelada, convivendo com gente incrível, cercado de beleza e paixão. Foi incrível, épico, lindo. E assustador.

A foto é do grande Ignacio Aronovich, fotógrafo que viajou comigo. Dê uma olhada no site dele e da Louise, mulher dele: é um dos melhores sites de fotografia que eu conheço.

A foto é do grande Ignacio Aronovich, fotógrafo que viajou comigo. Dê uma olhada no site dele e da Louise, mulher dele: é um dos melhores sites de fotografia que eu conheço.

Fui para a Antártica como repórter, a convite de uma organização eco-radical chamada Sea Shepherd. Um ano antes, eu tinha entrevistado o fundador da organização e capitão do navio deles, Paul Watson. Ele me contou que sempre sonhara em ir para a Antártica, um dos únicos lugares do mundo onde ainda se mata baleias em larga escala. Paul Watson e sua Sea Shepherd tinham no currículo o afundamento de 10 baleeiros, desde 1979, quando eles trombaram propositalmente com o baleeiro pirata Sierra na costa de Portugal. Durante a entrevista, eu tive certeza de que havia uma grande história aí, e fiquei no pé de Watson até ser convidado para a primeira campanha antártica da Sea Shepherd. Consegui.

Passamos seis semanas no mar. A campanha foi um fracasso. Não encontramos os baleeiros, que se moviam rápido demais para o nosso navio, o Farley Mowat, um calhambeque marinho construído em 1958 e comprado usado por algumas dezenas de milhares de dólares.

Semana passada, Watson e a Sea Shepherd apareceram nas notícias de novo – como aliás sempre acontece nesta época do ano, que é quando os japoneses caçam baleias. Mais uma vez, como acontece todos os anos desde 2003, eles foram para a Antártica incomodar os baleeiros. Só que, desta vez, em vez de pilotar uma lata velha, eles tinham três barcos, sendo que um deles era um ultra-moderno trimarã movido a diesel que vale 1,5 milhão de dólares e mais se parece o batmóvel – chamado Ady Gil, em homenagem ao milionário de Hollywood que doou a maior parte do dinheiro. Você deve ter visto as notícias. O Ady Gil trombou com um dos baleeiros japoneses e afundou. Desta vez os baleeiros ganharam.

[No vídeo, a imagem da esquerda foi feita por ambientalistas em outro barco. A da direita, que dá a sensação de que a culpa foi dos próprios ambientalistas, foi tomada pelos próprios baleeiros japoneses.]

Watson afunda baleeiros porque diz que eles agem ilegalmente. Realmente, há, desde 1987, um tratado internacional que proíbe a caça a baleias no mundo inteiro. Mas há uma exceção: é permitido matar baleias para pesquisa científica. E, uma vez mortas, é permitido vender a carne das baleias, para não desperdiçar. Os japoneses criaram seu “programa de pesquisas” em 1987, mesmo ano em que a moratória começou. Como é essa “pesquisa”? Mata-se o bicho, estuda-se seu ouvido e o conteúdo do estômago e intestino, empacota-se a carne e vende-se em peixarias. Trata-se de um estudo de seus “hábitos alimentares”. Para fazer isso, mata-se 900 baleias por ano.

Enfim, o tal “programa de pesquisa” não passa de um pretexto. E ninguém faz nada, porque a Antártica fica em águas internacionais e não existe polícia lá. Ninguém é responsável pelo planeta: os governos só têm jurisdição sobre seus próprios países.

Watson tem todos os defeitos que dizem que ele tem. Ele mente com alguma frequência, é meio arrogante, é difícil de lidar, não é nada diplomático, é marketeiro até a medula. Ele me odeia – ficou bravo com alguns trechos do livro que escrevi sobre a expedição. E ele arrisca: um sujeito que já afundou dez baleeiros não tem muito o que dizer quando finalmente é um barco dele que vai parar no fundo.

Mas tenho que admitir que, no fundo do coração, tenho uma baita admiração pela sua coragem sem limites. E uma baita saudades da Antártida, o último lugar do mundo que ainda não foi inteiramente transformado em “estoque” de algum produto.

Por Denis Russo Burgierman

15/06/2009

às 17:21 \ Amazônia

Pão de Açúcar, Wal Mart e Carrefour não querem mais destruir a floresta

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Esta história é tão legal que é uma pena que seja tão raro acontecer algo assim no Brasil. Será que é a primeira de muitas? Para resumir:

Capítulo 1: o Greenpeace Brasil, depois de uma investigação séria e detalhada que levou 3 anos, divulgou no dia primeiro deste mês um relatório denunciando as empresas que indiretamente colaboram com a destruição da Amazônia ao sustentar a criação ilegal de gado. Na lista, tem um monte de marcas que você conhece. Nike, Adidas e Reebok, que compram na China couro do frigorífico brasileiro Bertin. Toyota, Honda, Ford e BMW, que compram nos EUA couro do mesmo frigorífico para bancos de carro. Boss, Louis Vuitton, Prada, Gucci, que compram o mesmo couro na Itália para fazer bolsas e sapatos. E, no Brasil, Pão de Açúcar, Wal Mart e Carrefour, que compram produtos bovinos da Bertin e também da JBS e da Marfrig, outros frigoríficos da Amazônia. Mais uma denúncia dos ambientalistas fadada a ser ignorada por todo mundo?

Capítulo 2: nananina. Uma semana depois, dia 8, a Associação Brasileira de Supermercados se reuniu e decidiu fazer alguma coisa. Em decisão conjunta, Pão de Açúcar, Wal Mart e Carrefour concordaram em, juntos, tirar seus nomes dessa lista feia. Na quarta passada, eles anunciaram que abandonariam 11 fornecedores do Pará que não conseguiam garantir que sua carne não provinha de desmatamento ilegal.

Capítulo 3: dois dias depois, sexta-feira passada, o Banco Mundial anunciou que estava cancelando seu contrato para financiar o frigorífico Bertin, maior exportador do Brasil e segunda maior empresa do setor do mundo.

Capítulos 4, 5, 6…: ficamos esperando o posicionamento das outras empresas envolvidas. Será que Adidas, Nike, BMW, Ford, Honda, Toyota também vão tomar uma providência ou vão ficar torcendo para os consumidores não ligarem para a destruição da floresta? E será que os frigoríficos envolvidos, em especial o Bertin, vão se mexer também para se adequar à lei e assim ajudar o Brasil a crescer? Não perca nos próximos capítulos.

Esta história é legal porque é uma das raras vezes em que o temor quanto a pressão dos consumidores embasou uma mudança de atitude da indústria. E também porque o Greenpeace fez o que se espera de uma ong séria: pesquisou, apurou, investigou, e assim embasou a pressão dos consumidores.

Não sou ingênuo. Eu mesmo sou executivo de uma grande empresa (a Editora Abril) e sei bem que há uma imensa pressão por resultados que faz com que se escolha sempre o fornecedor mais barato, sem se preocupar muito com o que esse fornecedor faz para conseguir preços tão baixos. As empresas só vão proceder de um jeito diferente se perceberem que os consumidores vão puni-las se elas não forem responsáveis. É bom ver que isso está começando a acontecer no Brasil. É pouco, mas é um começo.

PS: já estou até vendo os comentários que vão chegar. Gente aparentemente bem intencionada, mas desanimada, dizendo que nada disso adianta nada e que a Amazônia vai acabar de qualquer jeito. Já respondo antes que esses comentários cheguem: é essa atitude que impede a mudança de hábitos. Repito o que eu já disse uma vez: quem é cínico é cúmplice de quem tem interesse em que as coisas não mudem.

Por Denis Russo Burgierman

05/06/2009

às 13:02 \ Ideias

É para comemorar?

Hoje é Dia Mundial do Meio Ambiente. A Folha de S.Paulo trouxe um caderno Especial Meio Ambiente que eu recomendo para todo mundo. Tem lá um belo panorama dos problemas ambientais do Brasil de hoje. É para guardar.

Recomendo em especial o texto do Claudio Angelo mostrando como a destruição da Amazônia segue a mesma lógica em vigor desde o descobrimento, aquela que decretou a quase aniquilação da Mata Atlântica. E o do Marcelo Leite, mostrando como algumas ONGs brasileiras se tornaram o principal fórum de geração de dados e elaboração de políticas públicas do país. Depois de ler o caderno, fica fácil entender que os barracos em curso entre ruralistas e ambientalistas são muito mais do que uma curiosidade passageira protagonizada por alguém com coletes coloridos: são reflexo direto de um antiquíssimo equívoco cultural brasileiro para o qual já é hora de encontrar solução.

(Ah, posso elogiar as ilustrações também? São da minha irmã! Isso é nepotismo?)

Por Denis Russo Burgierman

03/06/2009

às 12:25 \ Política

O pito de Lula e o luxo da sustentabilidade

O ministro do meio ambiente está bravo. Carlos Minc está dizendo a quem quer ouvir que seu ministério está desprestigiado, que suas conquistas são atropeladas por interesses comezinhos, que o interesse de construir logo uma estrada a tempo de ajudar na eleição vale mais do que a preservação da biodiversidade. Lula, ontem, comparou essas divergências a meninos fazendo “algazarra” quando o pai sai de casa. Lá da Guatemala, passou um pito e deu a sensação de que talvez não haja mais muitos dias com Minc à frente do ministério.

Esse tipo de embate é do jogo. Por um lado, é muito bom que ele esteja sendo travado. É inevitável que haja discordâncias entre quem quer que o país produza mais e quem quer que a floresta fique de pé. Já é uma novidade a ser celebrada o fato de que haja dentro do governo alguém querendo que a floresta fique de pé.

Chato é que o debate seja tão pobre. Em vez de estarmos falando de uma visão estratégica para o país – em como criar uma economia florestal sustentável nos trópicos – a conversa é sobre as roupas espalhafatosas do ministro ou o seu linguajar. É sobre quem xingou quem do quê.

Desenvolvimento e sustentabilidade não deveriam ser ideias opostas. Na verdade, a esta altura do século 21, deveria estar claro para todo mundo que um sem o outro é inútil. A Suécia é um país riquíssimo e tem boa parte de sua economia baseada na exploração sustentável da floresta. A nossa floresta é imensamente mais complicada que a sueca – tem a maior biodiversidade do mundo, enquanto na Suécia há uma monotonia de pinheiros. Isso significa duas coisas: 1) aqui é muito mais difícil de explorar e 2) aqui tem potencialmente muito mais riquezas. Hoje lidamos com essa complicação de um jeito bem tosco: fogo nela! Botamos abaixo para colocar no lugar algo simples de lidar, como monoculturas de soja ou gado solto pastando. Tem que haver um jeito mais inteligente – e lucrativo – de explorar a floresta. Deveríamos estar discutindo isso, em vez de jogarmos o mesmo flaflu ideológico de sempre.

Enquanto isso, a crise avança, e o Brasil dá a sensação de que acha que essa história de sustentabilidade é um luxo que só vale quando tem dinheiro sobrando.

Por Denis Russo Burgierman

13/05/2009

às 15:38 \ Ideias

O kit cocô

Dois brasileiros e uma africana tentam sobreviver na neve

Dois brasileiros e uma africana tentam sobreviver na neve

Ano passado, me matriculei num curso de sobrevivência na neve. Foi uma experiência incrível. Durante a semana, tínhamos aulas teóricas super complexas: sobre formas de perder e de reter calor, doenças térmicas e de altitude, navegação, geologia, meteorologia, primeiros socorros, nutrição, liderança. Aí, no fim de semana, pegávamos um monte de equipamento, socávamos tudo dentro de uma mochila e viajávamos horas até as montanhas. Passávamos a noite acampando sobre a neve no pé da montanha e, de manhã, começávamos a escalar. Daí para frente, eram dois dias enfrentando tempestades de neve, tentando andar com esquis, cavando cavernas para passar a noite, tentando colocar em prática no meio das adversidades os conhecimentos aprendidos na teoria.

Mas o que eu quero contar para vocês não é sobre as paisagens incríveis ou o barulho dos animais ou o perigo de congelamento ou o prazer de desbravar. É sobre um detalhe menos glamouroso: o shit kit. Ou kit do cocô.

O shit kit era um saquinho plástico tipo zip cheio de areia. Acho que vou poupar você de uma descrição mais detalhada de como ele deve ser usado. Basta dizer que o objetivo é levar de volta para a civilização os traços da nossa presença no mundo selvagem. Sim, sim, você entendeu certo. Tínhamos que embalar nossos “detritos”, colocá-los na mochila junto com nossas roupas e com a comida e levá-los de volta para a civilização.

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Por Denis Russo Burgierman

12/05/2009

às 20:34 \ Água

Eu quero nadar no Tietê

Cheguei à esta conclusão depois de topar com este site aqui:

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Eu também, quero nadar sob as pontes do Recife Antigo. E quero nadar no Tietê. E na Lagoa Rodrigo de Freitas. Antes de morrer, eu quero dar braçadas e viradas olímpicas e quero encher a boca de água e espirrar para cima. Eu quero.

Não me satisfarei com nada menos do que isso.

E você? Quer nadar onde? Quer fazer o quê?

Por Denis Russo Burgierman

21/04/2009

às 18:00 \ Ideias

O experimento de um suicida

Em 1927, um desempregado de 32 anos, financeiramente quebrado, duas vezes expulso da universidade, pai de uma menina que morreu de paralisia infantil, foi às margens do Lago Michigan, próximo a Chicago. Sua intenção: suicidar-se nas águas do lago. Antes de tirar a vida, ele teve uma ideia: e se, e em vez de se matar, ele passasse o resto da vida fazendo o papel de cobaia em um experimento? O experimento:

“Descobrir o quanto um indivíduo miserável e desconhecido com uma esposa dependente e um filho recém nascido pode fazer em benefício de toda a humanidade?”.

Ele foi mais específico:

“Fazer o mundo funcionar para 100% da humanidade, através de colaboração espontânea, sem dano ecológico e sem prejudicar ninguém”.

O nome desse sujeito era Buckminster Fuller.

Por anos e anos e anos ouvi falar desse sujeito. Ele inspirou os hippies. E inspirou também os sujeitos que criaram o Vale do Silício e a revolução dos computadores. Foi amado por editores de revistas que eu adoro. Foi lido pelos criadores do ambientalismo, e muito dos termos que ele criou (por exemplo, “espaçonave Terra”) ainda ecoam por mercados orgânicos da Califórnia. Era chapa de Albert Einstein. Encantou gerações de arquitetos, de engenheiros, de tecnocratas e recebeu de Harvard um título de “poeta”. Inspirou físicos quânticos. Talvez ele seja um dos teóricos mais influentes do nosso século. Mas ninguém lê mais o que ele escreve. No máximo, lembram dele por ter criado aquela estrutura redonda usada no Epcot Center.

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Resolvi ler. Por anos, Buckminster Fuller: Anthology for the New Millennium ficou na minha prateleira, acumulando poeira e expectativa. Se você visse o livro, você me entenderia: são 388 páginas de letras pequenas e linguagem complicada. Mas, neste feriado, resolvi tirar o livro da minha lista das coisas que me aguardam no futuro. Já deu para sacar: Bucky é um sujeito interessante pacas. Vou cansar vocês com histórias sobre ele nas próximas semanas.

Por Denis Russo Burgierman


 

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