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Arquivo da categoria Política

12/08/2009

às 21:08 \ Política

Não dá para não comentar

Estou bem longe do Brasil, trabalhando aqui nos Estados Unidos, sem acompanhar com atenção as notícias da terrinha. Portanto não quero me exceder nos comentários sobre a cada vez mais possível candidatura de Marina Silva a presidente, pelo PV. Não quero soar leviano, ou ingênuo. Mas não dá para um blog sobre sustentabilidade não comentar o assunto. Comento assim meio que de leve, pois.

PT e PSDB decidiram ano e tanto antes da eleição que a disputa seria entre Dilma e Serra, com Aécio no papel oficial de única surpresa permitida. Isso me desanima. Para mim é um indício gordo do estado lastimável da nossa democracia, e da necessidade de ela ser reinventada. Quer dizer então que se decide o presidente numa salinha fechada e nós só somos convidados para escolher um entre dois botões?

Tanto é assim que os candidatos e os partidos não estão nem preocupados em dizer ao Brasil qual é o modelo de país que eles propõem. A discussão, na imprensa, parece debate de torcida de futebol: “o seu é pior que o meu”, “não, o seu é que é péssimo”. Não é coincidência que muitos dos “analistas” políticos mais famosos do Brasil de hoje não fazem análise nenhuma – fazem só torcida.

Marina Silva, desapontada com a visão antiga que o PT tem da questão ambiental, chegou à conclusão de que não quer mais jogar esse jogo. De que quer discutir diretamente com o eleitorado sua visão de país, em vez de se curvar ao pragmatismo que matou o debate político no país nos últimos 15 anos e que convenceu todo mundo que só importam duas coisas:

  1. ganhar as eleições.
  2. ter apoio suficiente no Congresso para governar por canetada.

Essas duas coisas são importantes para os partidos e para os políticos. Mas não são as coisas mais importantes para o país. Mais importante é saber que tipo de país queremos ser. Muito mais importante é discutir um modelo que permita crescimento econômico sustentável para as próximas décadas. Nem PT nem PSDB parecem dispostos a tocar nesses assuntos. Em outras palavras: nenhum dos dois partidos que se consideram os únicos a disputar a presidência estão falando do mais importante.

A entrada de Marina na jogada seria, portanto, uma boa novidade. No mínimo, ela vai forçar as candidaturas favoritas a se pronunciarem sobre o que importa.

Mas ela é a melhor candidata? Vamos ver. Agora é esperar para acompanhar a discussão da campanha. Em especial, esperar para saber se ela tem algo a dizer além da questão ambiental.

Se ela vai ganhar? Duvido.

Mas, se ganhar, não seria a primeira vez que um candidato, nesses tempos de internet, desfaz no peito aquilo que se decidiu numa sala fechada de um partido político.

Voltarei ao assunto em breve.

Mas antes deixa eu abrir para o linchament… Quer dizer, os comentários.

Por Denis Russo Burgierman

23/07/2009

às 12:46 \ Política

Hipocrisia anti-gay

outrage

Quando adolescentes se juntam para infernizar seus colegas gays, ou bater neles, não é incomum que haja meninos gays entre os agressores. Não é difícil de entender por quê: num mundo em que ser gay é algo terrível, condenável, imoral, participar de um ataque covarde pode ser um jeito de desviar a atenção de si para os outros. “Eu não sou gay. Até bato em gays.” É também um jeito de descarregar a raiva contra sua própria homossexualidade.

O chocante é que esse padrão não se dá apenas entre crianças. Adultos gays não assumidos estão entre os maiores inimigos dos homossexuais. É esse o tema do documentário Outrage, de Kirby Dick, que assisti esta semana. O filme revela que vários dos políticos mais conservadores dos Estados Unidos, os mais ferozes oponentes de direitos para homossexuais, na verdade são gays firmemente trancados em seus armários.

O filme desmascara um a um esses políticos: os deputados David Dreier, Ed Schrock e Jim McCrery, o senador Larry Creig, o gerente de campanha de Bush Ken Mehlman, o atual governador da Flórida, Charlie Crist. Todos são republicanos. Todos são conservadores. Todos têm um longo histórico de votar contra o direito ao casamento ou à adoção, contra a inclusão da homofobia entre os chamados “crimes de ódio”, contra qualquer direito aos homossexuais. Não se trata de mera boataria: o documentário toma o cuidado de mostrar provas: fotos, gravações, depoimentos.

O problema de reprimir a sexualidade é que uma hora ela escapa (vide os escândalos recorrentes na Igreja Católica). Esses políticos conservadores, forçados a fingir que são maridos responsáveis e defensores dos valores da família, cedo ou trade escorregam e são flagrados em bares gays, na companhia de garotos de programa, ou em banheiros públicos. Muitas vezes eles são denunciados por ex-parceiros, que se irritam com a hipocrisia. Um blogueiro chamado Michael Rogers fez sua carreira desmascarando políticos anti-gay que na verdade são gays.

Saí do filme com a sensação de que muito do movimento conservador contra os direitos dos homossexuais na verdade se apoia em líderes que são gays e não conseguem lidar com isso. Não é incrível?

Foi inevitável fazer o paralelo com o Brasil. Aí, como aqui, a imprensa não fala abertamente do assunto. Mas talvez o sistema americano, com seu apego aos “valores da família”, acabe favorecendo a hipocrisia, o fingimento, principalmente entre os conservadores. O fato é que em nenhum dos dois países os homossexuais políticos costumam sair do armário: o risco eleitoral seria grande demais, eles avaliam. Será que seria mesmo? Ou será que parte dos eleitores acabaria premiando sua sinceridade? O que aconteceu na última eleição para prefeito de São Paulo, quando um ataque preconceituoso contra a sexualidade de Gilberto Kassab saiu pela culatra e acabou ajudando a elegê-lo, me faz ter essa dúvida.

Por Denis Russo Burgierman

25/06/2009

às 18:55 \ Política

Nossos políticos não gostam de democracia

O jornalista Fernando Rodrigues resumiu bem no blog dele o espírito da lei que a Câmara quer aprovar para regulamentar o uso da internet nas campanhas eleitorais: “a proposta acorrenta o Brasil ao século 20″.

A internet tem um potencial tremendo de democratizar a política. Qualquer um pode criar um site, qualquer candidato, rico ou pobre, pode divulgar suas ideias, qualquer eleitor pode ajudar seu candidato, qualquer pessoa pode doar dinheiro. É a nossa chance de dispor de mais informação, vinda de mais fontes, em vez de ter que decidir com base apenas em debates ensaiados, propagandas publicitárias e publicações parciais. Esse potencial democratizador ficou óbvio na campanha presidencial americana, quando um candidato pouco conhecido, sem o apoio dos manda-chuvas de seu próprio partido, soube mobilizar o país e ganhar a eleição, em grande parte financiado pelos próprios eleitores.

Mas os nossos políticos não querem saber de novidades desse tipo. Para quê? Eles estão satisfeitos em manter o clube fechado – já que eles já estão lá dentro.

Alguns dos absurdos que a proposta de lei contém:

  • sátira e humor sobre os candidatos estarão sumariamente proibidos.
  • um blog só poderá publicar uma entrevista com um candidato a cargo majoritário se der espaço equivalente a dois terços deles (o que praticamente inviabiliza a cobertura independente das eleições).
  • a propaganda só poderá começar no dia 5 de julho. Antes disso, temos que fingir que os candidatos não estão em campanha.
  • será proibido fazer qualquer alusão ou crítica a candidatos, exceto conteúdo jornalístico ou debates.

Fala-se muito na tal reforma política, que pretende modificar a forma pela qual os candidatos são eleitos. Isso é importante, claro. Mas por que ninguém fala sobre o mais importante? Sobre o fato de que há ainda no Brasil restrições ao direito à informação e à liberdade de expressão dignas de uma ditadura. De que os brasileiros não têm acesso a informação de qualidade para fazer escolhas bem informadas. De que nossos partidos políticos, todos eles, são autoritários, obscuros, cheios de segredos e tentam decidir a portas fechadas aquilo que deveria ser escolhido pelo povo. De que ninguém nunca quer saber nossa opinião e no único momento em que temos a chance de participar – a eleição – instaura-se um regime de exceção que controla a informação como e o AI-5 estivesse de volta.

Não bastasse a lei ser ruim prá dedéu, nossos excelentíssimos ainda correm o risco de não aprová-la a tempo (até setembro), o que nos deixaria com regras para internet ainda mais retrógradas. Eu, da minha parte, torço para que haja tempo de melhorar essas regras. Mas, se não houver, apóio uma campanha de desobediência civil. Que o Brasil ignore essa tentativa de censurar a internet. Não estou aqui propondo que se desrespeite a lei. Pelo contrário: precisamos é respeitar a lei maior, a Constituição Federal, que não deixa margem a dúvidas em seu Artigo 5:

É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de
comunicação, independentemente de censura ou licença.

Caso alguém ainda não tenha entendido, a Constituição deixa mais claro:

A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer
forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto
nesta Contituição.

Parágrafo 1: Nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço para a
plena liberdade de informação jornalistica em qualquer veículo de comunicação
social.

O resto é abobrinha.

Deixo vocês com um vídeo americano divertidíssimo que pega pesado com todos os candidatos a presidente na eleição do ano passado. Só como exemplo do que liberdade de expressão significa. As legendas estão em inglês.

Por Denis Russo Burgierman

03/06/2009

às 12:25 \ Política

O pito de Lula e o luxo da sustentabilidade

O ministro do meio ambiente está bravo. Carlos Minc está dizendo a quem quer ouvir que seu ministério está desprestigiado, que suas conquistas são atropeladas por interesses comezinhos, que o interesse de construir logo uma estrada a tempo de ajudar na eleição vale mais do que a preservação da biodiversidade. Lula, ontem, comparou essas divergências a meninos fazendo “algazarra” quando o pai sai de casa. Lá da Guatemala, passou um pito e deu a sensação de que talvez não haja mais muitos dias com Minc à frente do ministério.

Esse tipo de embate é do jogo. Por um lado, é muito bom que ele esteja sendo travado. É inevitável que haja discordâncias entre quem quer que o país produza mais e quem quer que a floresta fique de pé. Já é uma novidade a ser celebrada o fato de que haja dentro do governo alguém querendo que a floresta fique de pé.

Chato é que o debate seja tão pobre. Em vez de estarmos falando de uma visão estratégica para o país – em como criar uma economia florestal sustentável nos trópicos – a conversa é sobre as roupas espalhafatosas do ministro ou o seu linguajar. É sobre quem xingou quem do quê.

Desenvolvimento e sustentabilidade não deveriam ser ideias opostas. Na verdade, a esta altura do século 21, deveria estar claro para todo mundo que um sem o outro é inútil. A Suécia é um país riquíssimo e tem boa parte de sua economia baseada na exploração sustentável da floresta. A nossa floresta é imensamente mais complicada que a sueca – tem a maior biodiversidade do mundo, enquanto na Suécia há uma monotonia de pinheiros. Isso significa duas coisas: 1) aqui é muito mais difícil de explorar e 2) aqui tem potencialmente muito mais riquezas. Hoje lidamos com essa complicação de um jeito bem tosco: fogo nela! Botamos abaixo para colocar no lugar algo simples de lidar, como monoculturas de soja ou gado solto pastando. Tem que haver um jeito mais inteligente – e lucrativo – de explorar a floresta. Deveríamos estar discutindo isso, em vez de jogarmos o mesmo flaflu ideológico de sempre.

Enquanto isso, a crise avança, e o Brasil dá a sensação de que acha que essa história de sustentabilidade é um luxo que só vale quando tem dinheiro sobrando.

Por Denis Russo Burgierman

20/05/2009

às 14:53 \ Política

A outra corrupção

Um tipo de corrupção na política você conhece bem: é a corrupção dos políticos. É aquela dos mensalões, dos mensalinhos, da compra de votos, do desvio de impostos, da apropriação de verbas públicas para tirar férias, do uso indevido de apartamentos funcionais, das comissões em obras públicas. É se aproveitar do acesso ao poder para tirar vantagens próprias, para enriquecer, para favorecer seu grupo. É uma doença, que no Brasil atinge níveis epidêmicos.

Mas tem um outro tipo de corrupção na política da qual nós nunca falamos: é a corrupção do sistema político. Não se trata de surrupiar o bem público. Trata-se de tomar decisões com base em influências questionáveis, e não com vista no que é melhor para resolver problemas e melhorar o país. Trata-se de um sistema que funciona melhor para uns do que para outros. De um sistema que deveria nos representar, mas não nos representa. Não se trata de fazer coisas ilegais – trata-se de fazer coisas ilógicas, estúpidas, contraproducentes. Trata-se de um sistema político que não nos representa, que não foi construído para funcionar. Essa doença não é uma epidemia só no Brasil: é uma pandemia, que existe em algum grau em todas as partes do mundo.

Quem formulou esse conceito (de corrupção do sistema político) foi o americano Lawrence Lessig, na época professor de direito de Stanford, hoje transferido para Harvard. Lessig começou a vida pública como um tipo de “militante digital”. Foi ele que comandou o movimento Creative Commons, que pregava um novo modelo de direito autoral, menos injusto e anti-democrático e mais libertário que o tradicional. Em 2007, Lessig anunciou que estava mudando de área: estava deixando a liderança do movimento CC para se dedicar a arrumar soluções para a tal corrupção do sistema político.

Lessig criou então, em 2008, o movimento Change Congress, uma espécie de “selo de qualidade” para políticos, que é dado, independentemente de partido político, para todo mundo que assuma o compromisso de apoiar uma série de medidas. Todas essas medidas têm a ver com aumentar a transparência, usando as novas tecnologias para que os eleitores saibam como as decisões são tomadas, abrindo o processo eleitoral, fazendo força para diminuir a influência dos grandes doadores, aumentando a conexão entre eleitor e político. Tentando fazer que política seja um grupo de representantes da sociedade discutindo ideias para melhorar as coisas, e não um bando de marketeiros que só pensam em votos e em agradar financiadores de campanha. O Change Congress está liderando agora uma “greve de doações” para políticos: eles propõem que ninguém dê dinheiro para candidatos que não façam a promessa de apoiar a mudança do sistema de financiamento de campanhas.

Lessig e seu movimento são vistos como utópicos, claro. São acusados de ignorar um fato básico da vida: cada político só quer saber de garantir o seu e é o dinheiro que move todos.

Pode ser.

Mas mudança tem que começar de algum jeito. E cinismo em relação às possibilidades de mudar só interessa a quem está chafurdando na lama e gostando.

Nosso sistema político, além de corrupto, ineficaz e às vezes surreal, é totalmente baseado num modelo do século 19. Vivemos numa sociedade tecnológica, temos conhecimento científico profundo sobre comportamento humano, sabemos muito mais sobre o mundo do que qualquer um poderia prever um século atrás. Sei que é urgente consertar os problemas do sistema político que temos. Mas será que não é hora de sermos muito mais ambiciosos? Será que não é hora de começar a pensar em criar um sistema político novo, um que não esteja corrompido logo de saída? Será que o problema são os políticos malandros? Ou será que é o sistema que é tão ruim que acaba atraindo apenas a pior laia de gente?

Lessig sorri para uma foto Creative Commons

Lessig sorri para uma foto Creative Commons

Foto: Flickr/Joi (CC)

Por Denis Russo Burgierman

08/05/2009

às 19:09 \ Política

Justa causa

Vocês me perdoem a insistência, mas eu gostaria de continuar com o assunto de ontem. É que não consegui tirar da cabeça o tal deputado gaúcho Sérgio Moraes, aquele que está se lixando para a opinião pública.

É que fiquei pensando no significado do que ele disse. Opinião pública = opinião do povo. Estou me lixando para o que o povo pensa. Deputado – substantivo masculino, do latim deputatu, indicado, escolhido para representar. Enfim, o representante do povo está se lixando para a opinião do povo.

O deputado fez, nas entrevistas que deu, críticas pesadas à imprensa. Eu sou da imprensa. Não sou corporativista, como o deputado é. Concordo com ele em alguns pontos: alguns dos meus colegas de profissão são picaretas. Alguns são irresponsáveis. Alguns são incompetentes.

Mas jornalistas (a não ser os muitos que trabalham para o governo) são funcionários de empresa privada. Se eles dão mancada, vão para a rua. Eu, por exemplo, tenho um crachá verde e branco da Editora Abril S.A.. O que vocês acham que aconteceria se eu escrevesse que estou me lixando para a opinião do dono da minha empresa? Imagino que eu seria sumariamente demitido, por justa causa.

Pois então: por que é que um representante do povo que afirma na imprensa que está se lixando para a opinião do povo não perde o emprego?

Por Denis Russo Burgierman

07/05/2009

às 20:47 \ Política

Lixar-se para a opinião pública é quebra de decoro

- Estou me lixando para a opinião pública. Até porque a opinião pública não acredita no que vocês escrevem. Nós nos reelegemos mesmo assim.

A frase é do deputado federal Sérgio Moraes, do PTB do Rio Grande do Sul, relator do processo contra aquele outro que construiu um castelo. É uma frase irritante. Assim como é irritante quase tudo que ele disse à imprensa hoje e ontem. E é irritante, em boa parte, porque é verdade. Sérgio Morais acertou na mosca. Eles se reelegem mesmo assim.

Por quê?

Será que é porque somos uns imbecis? Será que brasileiro é masoquista? Gosta de apanhar? Merece apanhar?

Hmmmm. Essa hipótese é tentadora. A sobrevivência política de alguns cretinos comprovados dá a sensação clara de que a maior parte da população do Brasil bate pino, cheira cola, queima dinheiro, come bosta.

Mas eu não acho que é por aí.

Sou um viajante. Já mochilei pela Romênia, pelo Vietnã, pelos Estados Unidos, pela Turquia, pela Holanda, pelo Peru, pela França, pela África do Sul, por Hong Kong, pelo Camboja, pela Antártica. Não é uma pesquisa científica, claro, é minha experiência subjetiva, mas a sensação que eu tenho é a de que a porcentagem de paspalhos pelo mundo é mais ou menos a mesma em qualquer lugar. Não acho que os brasileiros sejamos mais ou menos burros que nenhum outro povo. Não mesmo.

Também acho que a quantidade de canalhas varia pouco de país para país. Em qualquer lugar, há sociopatas. Em alguns lugares, os sociopatas crescem numa família estruturada, saudável, feliz, numa sociedade com princípios claros, regras justas e socialmente aceitas. Esses caras tendem a aprender a domar sua sociopatia e a viver pelas regras, até para evitar o ostracismo. Às vezes, quando ninguém está olhando, ou quando a tentação fica grande demais, eles fazem uma canalhice. Mas, no geral, ficam na deles e não incomodam ninguém. Uma professora minha contou que tentou pesquisar casos de corrupção na Noruega. O único que ela encontrou envolvia a compra de uma barra de chocolate.

Em outros lugares, a sociedade é permissiva. As regras são injustas e nem os próprios responsáveis por fazer cumpri-las acredita nelas. Nesses lugares, os sociopatas apitam. Com seu olhar desvairado, sua ética troncha, seu raciocínio maldoso, eles nadam de braçada na sociedade frouxa.

Não se trata de dizer que a Noruega seja melhor que o Brasil. Não existe sociedade sem doença, acredite. Cada país tem a sua. A Noruega inclusive.

Mas a doença do Brasil a gente sabe qual é, não sabe?

É a aboluta incapacidade de distinguir o que é público do que é privado. É por isso que ninguém paga imposto nem conserta a calçada nem acha esquisito desviar dinheiro de uma creche que cuida de crianças com câncer (exemplo hipotético, mas verossímil).

Essa é a nossa doença. O deputado Sérgio Moraes fez o diagnóstico perfeito, ao declarar que nós reelegemos esses caras mesmo assim, ou ao sugerir que se dê uma anistia completa a tudo que se fez no passado, porque não havia regra contra tirar férias com dinheiro público, ou contra contratar a si mesmo com dinheiro público, como se fosse preciso escrever uma regra dizendo que “usar dinheiro público para fins privados é errado”.

Doença a gente trata.

Que tal começar por esse Sérgio Moraes aí?

Por Denis Russo Burgierman

 

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