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09/08/2010

às 17:36 \ Ideias

Ambientalismo X desenvolvimento

O post da semana passada bombou. Teve comentário raivoso, gente se chamando de idiota e inútil e, no geral, aquele mesmo clima de diálogo de surdos com o qual estamos tão acostumados sempre que se toca num desses temas quentes (ideologia, homossexualidade, drogas etc.). A grande maioria dos comentários seguia o mesmo script: há o meu lado e há aqueles cretinos que pensam diferente. Nós estamos certos, eles são débeis mentais. Simples assim.

Eu lamento.

Mas entendo.

Estamos dobrando uma curva civilizatória. Num momento como esse, é mesmo normal que haja confusão. Estamos no processo de inventar um novo modelo de produção para a humanidade. É normal que, numa hora assim, haja um monte de gente sem entender o que está acontecendo. E, consequentemente, um monte de discórdia.

O livro "Cradle to Cradle" propõe um novo jeito de produzir, no qual cada item produzido melhora o mundo um pouquinho (em vez de piorar)

O deputado Aldo Rabelo, por exemplo, não está entendendo nada, coitado. Você viu a entrevista dele para a Veja na semana passada? Lá o deputado diz que os ambientalistas querem impor garganta abaixo do país a obrigatoriedade de preservar a mata nas margens dos rios. Ora bolas, diz ele. “É uma loucura. Basta andar pelo interior do Brasil para ver: toda a agricultura tradicional sempre foi feita nas beiras dos rios, porque é lá que está a água.”

Verdade. Sempre foi assim.

E o resultado disso é que, no país inteiro, as margens dos rios, sem a sustentação das raízes, estão desmoronando. Isso vai entupindo o rio de terra (o chamado assoreamento), o que diminui o fluxo d’água e mata os peixes. Quando chove, o rio assoreado não dá conta de escoar a água e as cidades e plantações na margem são destruídas. Morre um monte de gente, perde-se um monte de dinheiro. Para completar, a água é contaminada por agrotóxicos e esgoto que escoam para o rio. O desmatamento também libera carbono no ar, o que aquece a Terra e aumenta a frequência de chuvas desastrosas, de maneira que um problema vai alimentando o outro.

Não é só no Brasil, como lembra o deputado Rabelo. Isso acontece no mundo todo, a não ser em sociedades muito desenvolvidas e bem educadas, o que obviamente não é nosso caso (a gente não sabe nem debater ideias sem xingar a mãe).

O interessante é que, no fundo, recuar as cidades e plantações para longe do rio é do interesse de todo mundo, inclusive do agronegócio. Garanto para você que a maioria dos grandes produtores tem consciência de que um modelo de negócio baseado em assoreamento, enchente, poluição e desmatamento não é bom para eles tampouco. A maioria, na intimidade do lar, lamenta a destruição do rio que eles amaram na infância. Eles também iriam preferir trabalhar de um jeito em em que a ameaça de uma enchente desastrosa ou de uma seca matadora não seja uma constante.

Mas, assim como o deputado Rabelo, eles também acham que “sempre foi assim”, e que portanto não poderia ser diferente. A maioria acha que os ambientalistas são uns chatos que só existem para colocar obstáculos no processo produtivo – e portanto diminuir as margens de lucro. (E, justiça seja feita, há mesmo muito mais ambientalistas apontando para problemas do que sugerindo soluções.)

Não deveria ser assim. Deveríamos inventar um novo sistema de produção em que a preservação do rio não seja vista como um obstáculo, mas como uma imensa oportunidade.

Como fazer isso? Difícil, sem dúvida. Mas tem jeito e certamente o mundo caminha para isso. De novo, busco inspiração neste livro sensacional que estou lendo (“Cradle to Cradle”, de William McDonough e Michael Braungart).

E se, como sugere o livro, imaginássemos um processo produtivo no qual, quanto maior a produção, maior o benefício para o ambiente? Loucura? Uai, por quê? A natureza sempre funcionou assim. Cada nova árvore plantada melhora o mundo (firma o solo, captura carbono, produz sombra, fertiliza a terra, abriga vida selvagem etc) e aumenta a produção ao mesmo tempo. E se as plantações seguissem essa mesma lógica em vez de focar unicamente em aumentar a produção em relação ao ano passado?

E se as cidades fizessem o mesmo?

Garanto que, no final, isso iria fazer bem até mesmo para o PIB.

Por Denis Russo Burgierman

02/08/2010

às 19:08 \ Ideias

Ambientalista é o cacete

Como escrevo um blog que tem a palavra “sustentável” no título (muito embora acompanhada da ressalva de que “é pouco”), volta e meia alguém me chama de “ambientalista”. Isso sempre me incomodou, mas eu ainda não tinha parado para pensar por quê. Pois andei pensando nisso. E cheguei a uma conclusão.

Quer saber?

Ambientalista é o cacete.

Quando me chamam de “ambientalista”, geralmente é com alguma condescendência. É como se “ambientalista” fosse o contrário de “desenvolvimentista”: uns se preocupam com a natureza, outros querem dar emprego para o povo. O cacete. Não existe essa divisão.

A psicanalista Maria Rita Kehl, em um artigo recente na sua coluna no jornal O Estado de S.Paulo, deu sua opinião sobre qual é a verdadeira divisão nessa história. “O objeto da disputa é o tempo”, escreveu ela. De um lado, há os que querem “agarrar tudo agora”. Do outro, estão os que “se preocupam com as gerações que vão continuar vivendo no Brasil quando todo o interior do País for igual às regiões mais secas do Nordeste atual – algumas das quais já foram ricas, verdes e férteis, antes de ser desmatadas pela agricultura predatória.”

Semana passada, no sertão nordestino, um pesquisador da Embrapa, que além de tudo faz uma geleia de umbu incrível, me levou para conhecer uma propriedade rural onde ele construiu uma cisterna para captar a água da chuva. Coisa de pouco mais que R$ 1.000. A água captada pela chuva é conduzida por canos com gotejadores – tudo baratíssimo. Na outra ponta dos gotejos, àrvores frutíferas. Um pomar lindo, lindo, lindo. Conversamos com o proprietário, um homem orgulhoso, de peito estufado, que comandava uma família de oito. Estava de visita seu filho, um menino esperto que estuda enfermagem em Petrolina. O pomar, construído sob orientação do pesquisador, começou faz só dois anos, mas a família já não dá conta de comer toda a comida que ele produz. Mamão, acerola, coco, coentro, gergelim, graviola, caju, maxixe, batata-doce, mandioca, tangerina, limão, tomate. Tudo só com água da chuva. Estou falando do sertão do Nordeste.

Esta foto na verdade foi tirada no pomar-laboratório da Embrapa. (O pomar do agricultor, com todo respeito à Embrapa, é muito mais bonito.) Foto: Cia de Foto (C)

Perguntei a ele se ele vendia a produção. Nada. Ganharia muito pouco dinheiro concorrendo com grandes corporações cujas duas únicas preocupações são custo e receita. O que a família dele não consegue comer ele dá para algum vizinho. Não vi ninguém magrela na região.

Esse pomar lindo não contribui em um centavo furado para o PIB brasileiro. Mas, se você me dissesse que isso não é desenvolvimento, eu responderia “você está completamente louco e deveria procurar um especialista”.

Por outro lado, em 1991, quando o navio petroleiro Exxon Valdez derramou 100 milhões de litros de petróleo na costa do Alasca, o PIB da região aumentou. É que o trabalho de limpar a desgraça movimentou a economia. O efeito colateral foi que, oito anos depois, 21 das 23 espécies animais não tinham se recuperado. Centenas de pessoas que viviam da pesca perderam seus empregos. E é de se esperar que muitos deles tenham feito o que quem perde o emprego é tentado a fazer: beber demais, tornar-se violento, triste, amargo. Segundo o livro “Cradle to Cradle”, outros sinais de “prosperidade” com efeito positivo no PIB são “acidentes de carro, internações hospitalares, doença (como o câncer) e vazamentos tóxicos”.

Não estou insinuando que todo PIB seja ruim ou que tudo que é bom não dá PIB. Apenas que o pensamento dominante, de enxergar o PIB como onisciente, onipotente e onipresente, acima de tudo e de todos, é uma idiotice.

Lógico que tem muita gente interessada em defender que o futuro tenha mais vazamentos de óleo e menos agricultores auto-suficientes. Muitas empresas vivem de gente dependente. Para muitos políticos, então, é uma maravilha. Gente que tem pomar e cisterna não aceita vender voto em troca de uma visita de um caminhão-pipa.

Portanto, ambientalista é o cacete. Só quero que essa galera tire a mão da herança dos meus hipotéticos filhos, a Terra.

Foto: Cia de Foto (C)

Por Denis Russo Burgierman

28/06/2010

às 13:21 \ Ideias

Não entendo o Brasil

Escrevo este post no começo da tarde de segunda-feira. Daqui a pouco, 11 homens de amarelo vão se alinhar solenes em Johannesburgo enquanto aguardam os triunfais acordes iniciais do Hino Nacional Brasileiro, o popular “Ovirudum”. Todos eles acompanharão com os lábios os versos iniciais. E, depois, provavelmente, irão parar de cantar, por desconhecerem a letra.

Um hino nacional é um símbolo da pátria. Fico me perguntando o que o Hino Nacional Brasileiro simboliza então. Para mim, simboliza a falta de vontade do estado de se fazer entender pelo povão.

Como se sabe, a sentença inicial do hino, se fosse ordenada de maneira direta, seria “As margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heróico”. Simples assim. Aí, num esforço para complicar as coisas, a frase foi picotada em pedacinhos e remontada toda ao contrário. “A pátria não é para você entender”, é o que este hino me diz. Típico de um país inventado por uma elite que estava preocupadíssima em não se misturar com o populacho.

Vejo em todas as partes esse descompromisso do Brasil com facilitar as coisas para a população.

Por exemplo, acabei de pagar uma conta, pela internet. O site do banco me pediu para digitar a série de números acima do código de barras. Cada um dos dígitos mede pouco menos de dois milímetros de altura. A série de números começa assim: 85800000016-0. São seis zeros seguidos, um coladinho no outro, quase indistinguíveis. E depois vêm mais três outras séries de números como essa. Um total de 48 algarismos. Por sorte, aos 37 anos, minha vista ainda não está cansada. Mas enxergar esses números seria impossível para o meu pai, por exemplo. Lembro de como era pagar contas nos Estados Unidos: era digitar meu número de segurança social (algo como o cic de lá) e pronto.

Outro exemplo. Ontem à noite, peguei um ônibus. Reparei no “painel de informações” do ponto de ônibus. Era assim:

Absolutamente incompreensível. Olhando este mapa, não dava para saber como se conectar aos outros corredores de ônibus, não dá para ter ideia de que ônibus leva para que lugar, não dá para colocar a avenida onde eu estava no contexto da cidade. Claro, era minha obrigação saber qual ônibus pegar – assim como cabe a mim descobrir qual é o sujeito e qual é o predicado do hino nacional.

Exemplo ainda mais assustador dá para encontrar na linguagem jurídica brasileira, cheia de jargões, de referências cifradas, de palavras pouco usuais. Há um tempo atrás, editei uma revista chamada Gotas e um advogado divertido chamado André Salomé escreveu para nós uma matéria sobre o juridiquês. O exemplo dele: “pelo princípio da insignificância, a caracterização da conduta como furto famélico elimina a tipicidade material, excluindo-se, dessa forma, a tipicidade conglobante e, por conseguinte, a tipicidade penal. Dessa forma, sendo atípica a conduta, não há crime.”. Ou, em português: “roubar para comer não é crime”. Advogados, juízes e legisladores falam uma outra língua, incompreensível para o cidadão médio. Truque básico para deixar a lei inalcançável.

Eu mesmo, como jornalista, sinto a pressão por escrever difícil. A cada vez que uso um texto um pouquinho mais coloquial, recebo alguma reclamação afirmando que estou “baixando o nível”. Baixar o nível, no caso, é se fazer entender. E assim vamos perpetuando essa bobagem fundadora do Brasil: a de querer falar difícil para provar que não somos “qualquer um”.

Portanto, se eu estivesse alinhado, de amarelo, no campo de futebol, enquanto soa o belo Hino Nacional, manteria meus lábios cerrados. Que “fúlgidos” o quê? Que “penhor”, que “garrida”, que “fulguras”? O que importa é fazer gol. Isso eu sei o que é.

Por Denis Russo Burgierman

21/06/2010

às 15:07 \ Ideias

A resposta está na natureza?

Acredite: aqui já houve um rio e uma floresta

No mês passado, fui assistir a uma palestra da americana Janine Benyus, presidente do Instituto de Biomímica. Biomímica é uma ideia bem interessante. Trata-se de uma área multidisciplinar que mistura arquitetura, engenharia de materiais, design, biologia – a ideia central é buscar inspiração em sistemas naturais para criar materiais ou processos artificiais mais eficazes e sustentáveis. Por exemplo: estudar a química de vegetais ou animais para desenvolver formas de produzir materiais tão eficientes, silenciosas e sem resíduos quanto a produção de proteínas dentro das células.

O evento foi na Marginal do Rio Pinheiros, em São Paulo, lugar poeirento, quente e sobrenaturalmente fedido. Perguntei a Janine se a biomímica tem alguma ideia para melhorar São Paulo.

– A primeira coisa que você precisa fazer é olhar para a natureza. No caso de São Paulo, qual é a paisagem natural que havia aqui antes de construírem uma cidade? – perguntou ela.

Respondi que era Mata Atlântica. Ela pareceu chocada com a resposta.

– Mata Atlântica? Tem certeza? Isso não parece nada com a Mata Atlântica… Bom, o passo seguinte é entender como a Mata Atlântica funciona, como ela atua no ambiente, e projetar uma cidade que tente cumprir essas mesmas funções ambientais.

Pegue por exemplo as chuvas.

São Paulo fica bem na cabeceira de uma bacia hidrográfica. Explico o que isso quer dizer. Bacia você sabe o que é (deve haver uma de plástico na sua lavanderia). Para resumir, uma bacia é um objeto côncavo. Jogue água na bacia – em qualquer lugar da bacia – e ela irá fatalmente correr até o centro. Jogue água fora da bacia (e por favor me poupe de duplos-sentidos eróticos) e não há chance de essa água entrar. É que a água (como aliás todo líquido e sólido que existem) tem o hábito de ser atraída para baixo pela gravidade. Assim é uma bacia hidrográfica: uma área côncava da superfície que apanha toda a água que cai nela e a empurra para o mesmo lado, morro abaixo.

A cabeceira da bacia – onde São Paulo fica – é a beiradinha dela. É a parede da bacia. É o pedaço mais alto, onde a água começa a rolar. Acrescente a isso o fato de a Serra do Mar ser também o paredão de pedra que breca as nuvens carregadas de água que vêm do Oceano Atlântico. Portanto, a Serra do Mar faz chover muitíssimo. E essa chuva toda despenca no alto da Serra, cai em São Paulo e escorre com uma baita violência, dada a inclinação do terreno. Agora, com as mudanças climáticas, essas chuvas intensas estão aumentando ainda mais.

Quando havia Mata Atlântica aqui, a floresta densa ia lentamente freando essa enxurrada. A água ia espirrando aqui, desviando ali, até chegar lá embaixo tranquila. Mas, como tiramos a mata e no lugar asfaltamos tudo, a água hoje passa que nem esguicho: à toda velocidade. No caminho, vai arrancando casas e esmagando gente e arrancando terra que causa assoreamento lá embaixo. Nos lugares onde há assoreamento, tem enchente.

E como São Paulo lida com as enchentes? Constrói “piscinões”, que são imensas “catedrais subterrâneas”, que acumulam a água e depois vão soltando devagar. Os piscinões também acumulam lixo, terra, ratos, baratas, doenças. São ótimos negócios para as grandes empreiteiras, que além de lucrarem na hora de construí-los, garantem um contrato eterno com a prefeitura, para realizar as limpezas. Sem limpeza, a capacidade do piscinão diminui e as enchentes voltam.
Enfim, piscinão, além de sair caríssimo, causa alívio apenas temporário.

Se a cidade resolvesse usar a biomímica para lidar com seu excesso de águas, faria diferente. Mudaria o solo da cidade para deixá-lo mais parecido com o da Mata Atlântica. O piso e os telhados precisariam ser mais rugosos e irregulares, para reduzir a velocidade da água. Precisaríamos de mais trechos de terra exposta, que é permeável. Precisaríamos de uma cidade que fizesse o trabalho da floresta que existia antes dela.

Esse jeito de pensar está ganhando espaço em São Paulo. Em breve um grupo de pesquisadores ligados à USP vai divulgar seu projeto de “renaturalização do Rio Anhangabaú”: uma tentativa de evitar a construção de um piscinão bem no centro da cidade dando vida a um rio que hoje está coberto de asfalto. “Vai ser mais barato e mais eficiente que o piscinão”, adianta o engenheiro Sadalla Domingo, idealizador do projeto. O melhor remédio para as enchentes paulistanas pode ser “reconstruir” seus velhos rios

*

Pausa para os nossos comerciais: participei da elaboração de um site chamado !sso Não É Normal, que foi lançado na semana passada. O site discute São Paulo e as mudanças que a cidade precisa fazer para resistir às mudanças climáticas (como a renaturalização dos rios). Fizemos força para criar um conteúdo que fosse ao mesmo tempo divertido, acessível e aprofundado. Passa lá se der tempo!

Foto: Cia de Foto para o !sso Não É Normal.

Por Denis Russo Burgierman

31/05/2010

às 16:26 \ Ideias

A coragem de elogiar

Responda depressa: cite um exemplo de algo bom que alguém do governo fez recentemente.

Difícil, né? Difícil lembrar de uma só história.

Tente então lembrar o nome de um servidor público que seja honesto, que tenha ideias inteligentes e inovadoras e que esteja empenhado em melhorar o país.

Lembra algum? Um nome só?

Aposto que não.

Talvez isso queira dizer que, no Brasil, todos os funcionários públicos e políticos são imbecis completos e corruptos em potencial. Mas, honestamente, eu não acho que seja isso (até porque, na posição de jornalista, já conheci dezenas e dezenas de funcionários públicos que me pareceram bastante inteligentes, honestos e idealistas). Eu acho que isso revela uma doença da nossa sociedade.

Nós, brasileiros, gostamos mesmo é de nos achar espertões, malandrões. Então a gente nunca elogia ninguém, nunca aponta um bom exemplo – e se houver um defeito que não estou vendo e eu passar por ingênuo depois? No final, isso cria um desincentivo para gente talentosa se arriscar no serviço público. Para quê? Para virar saco de pancadas?

Na minha carreira de executivo, eu aprendi uma ou duas coisas sobre administração de recursos humanos. Aprendi que, se queremos ter uma equipe motivada, é importante avaliar o desempenho e conversar sempre sobre as falhas de cada um, com foco em corrigi-las. Mas, acima de tudo, é fundamental celebrar os acertos, elogiá-los publicamente, criar um ambiente em que todos os funcionários saibam o que se espera deles e sintam-se motivados a ousar, a inovar, a tentar algo novo.

Pois fazemos o contrário disso na maneira como avaliamos nossos servidores públicos. Quando eles erram, nós descascamos os caras, caímos matando, fazemos piada, fazemos os sujeitos se arrependerem de ter tentado. Nada de discutir o que poderia ter sido melhor – muito mais fácil e divertido é ridicularizar o que saiu errado. Quando eles acertam, na melhor das hipóteses, nós ignoramos. Na pior das hipóteses, nós damos um sorrisinho cínico e fazemos uma insinuação maldosa (e sem provas) sobre as reais motivações deles. “Devem estar levando algum por fora…”

Não estou aqui sugerindo que todos nós banquemos os polianas. É óbvio que espírito público é produto meio raro aqui na terrinha, não nego. Mas vivemos um período em que precisamos, mais do que qualquer outra coisa, de inovação. O mundo está mudando de maneira quase cataclísmica, e isso significa que precisaremos reinventar nosso sistema político, nossos modelos de produção, de consumo, de trabalho, nossos estados, nossas escolas, nossa economia, nossas leis. Esse trabalho de reinventar coisas já é difícil normalmente, e torna-se quase impossível num ambiente conservador, em que as pessoas têm medo de tentar, de ousar, de experimentar.

Precisamos aprender a celebrar os bons exemplos. Não porque precisemos de heróis, mas porque precisamos de gente motivada tentando fazer o melhor e acreditando na importância do seu trabalho.

Ser cínico é fácil prá caramba. Rir dos outros não oferece nenhum risco (a não ser a de um eventual – e merecido – tapa na cara). Mas elogiar exige coragem.

Foto: carderel (CC)

Por Denis Russo Burgierman

10/05/2010

às 13:25 \ Ideias

Desobedeça

– É uma criança tão boa, tão obediente!

O equívoco começa bem cedo na vida. Desde a primeira infância, a criança aprende a acreditar que ser “bom” é sinônimo de ser “obediente”. Mas não é. Aliás, muito longe disso. Quem quer realmente ser bom necessariamente vai ter que desobedecer autoridades em algum momento da vida.

Prova disso é o clássico Experimento de Milgram, conduzido em 1964 nos EUA. A ideia foi do psicólogo Stanley Milgram, que queria estudar a propensão humana a obedecer a autoridade, mesmo quando isso implica em ser cruel com outros seres humanos (Milgram estava interessado em entender como Hitler foi capaz de mobilizar milhões de pessoas comuns no seu projeto genocida).

Foi um experimento engenhoso (e que hoje certamente seria considerado antiético). Começou com a publicação de um anúncio num jornal pedindo voluntários para um estudo sobre memória e aprendizado.

Os voluntários que se candidataram foram recebidos por um cientista de jaleco branco que explicou o experimento. Eles teriam que se sentar em frente a um vidro e operar uma máquina cheia de botões. Do outro lado do vidro, haveria outro voluntário, um senhor afável, que teria que decorar e repetir uma série de palavras. A cada palavra errada, o voluntário teria que apertar um botão, e o senhor do outro lado do vidro levava um choque. A cada erro, o choque ficava 15 volts mais forte. No final, o senhor dava gritos desesperados e dizia que ia morrer porque tinha um problema cardíaco. Os choques eram fortíssimos e o botão continha avisos de que havia risco de vida.

Bom, nada disso era verdade. Não havia choque nenhum. O senhor era um ator que errava por querer. O objetivo do experimento não era medir aprendizado, mas descobrir se as pessoas seguiriam ordens mesmo com um sujeito estrebuchando de desespero. Resultado: a imensa maioria segue ordens.

65% das pessoas administrou o choque até o limite máximo, de 450 volts. Todos os voluntários se sentiram incomodados e quiseram parar o experimento quando os gritos começaram, lá pelos 300 volts. Quando eles faziam isso, o cientista de jaleco reagia com dureza, dizendo que eles precisavam continuar, que não havia perigo e que eles tinham concordado com as regras do experimento (muito embora todos eles tenham sido avisados no começo de que poderiam parar se quisessem).

Uns poucos reagiram à autoridade e disseram que parariam mesmo assim. Mas a grande maioria obedeceu. O interessante é que, nesse ponto, eles deixaram de se incomodar com o outro. Alguns até começaram a demonstrar uma certa raiva sádica ao apertar o botão. A presença da autoridade como que “desligou” a culpa deles, o senso de responsabilidade sumiu. A partir da bronca do cientista, quase todos estavam dispostos a tudo. E, se o senhor afável morresse… Ora, não foi culpa minha, eu estava só cumprindo ordens.

Outro psicólogo famoso, que aliás estudou com Milgram na mesma escola do Bronx, em Nova York, é Philip Zimbardo, ainda ativo na Universidade Stanford (Milgram morreu em 1984). Zimbardo é autor de outro estudo clássico (igualmente questionado pela ética científica de hoje), o Stanford Prision Experiment. Ele recrutou garotos para fazer o papel de guardas e prisioneiros numa prisão fictícia. Em poucos dias, os guardas tinham virado torturadores covardes e os prisioneiros estavam tendo colapsos nervosos.

Zimbardo, comentando o experimento de Milgram, costuma dizer que o que o mundo precisa é de mais heróis. Só que, para ele, “herói” não é necessariamente alguém inalcançavelmente generoso, que entrega a vida a uma causa, como Gandhi ou Martin Luther King. Herói, para ele, é gente comum, que leva sua vida, mas que, quando vê algo errado acontecendo, tem coragem de dizer não (veja a palestra de Zimbardo no TED aqui).

No experimento de Milgram, algumas pouquíssimas pessoas se recusaram a dar choques, levantaram-se indignadas e saíram gritando que não participariam mais daquilo. Quando isso acontecia, todos os outros voluntários na sala recusavam-se também a continuar. Um único herói, provou-se então, tem o poder de catalisar uma reação positiva enorme.

A questão é que, quando educamos nossas crianças apenas para serem obedientes, a chance de elas agirem com heroísmo quando a oportunidade aparecer é minúscula. Crianças boas são aquelas que, quando chega a hora de escolher entre o certo e o errado, são capazes de desobedecer.

Por Denis Russo Burgierman

03/05/2010

às 19:01 \ Ideias

Estilo gafanhoto

O capitalismo não é o inimigo.

O inimigo, como eu já falei outras vezes, é uma certa mentalidade, e essa mentalidade é dominante tanto entre os “neoliberais” quanto entre os “comunistas”. “Capitalismo e socialismo são irmãos”, me disse numa entrevista semana passada o Secretário do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo, Eduardo Jorge. Irmãos, filhos da mesma herança cultural, com a mesma visão de mundo, que Jorge define assim: “há o econômico e há o social, que precisam ser equilibrados. Os recursos naturais são inesgotáveis e existem unicamente para dispormos deles infinitamente, seja para o econômico, seja para o social”. Esquerda quer que a balança penda pro social, direita puxa pro econômico, mas as duas estão igualmente erradas no essencial: os recursos não são infinitos.

A coisa central que precisa mudar, para a conta fechar, é essa crença que nós temos entranhada de que é preciso crescer sempre. Se a economia brasileira era de 1 trilhão em 2005, precisa ser de 1 trilhão e tanto em 2006, e precisa crescer todo ano para sempre. Veja bem, não me entenda mal. Não estou dizendo que crescer seja ruim. É bom, óbvio, e crescimentos precisam ser celebrados. Mas o financismo da nossa cultura impõe mais que isso: ele quer que crescimento seja a regra geral do mundo. Tudo tem que crescer sempre, todo ano. As empresas estabelecem metas de crescimento, e essas metas tendem a ser mais agressivas a cada ano. Muita empresa se exige crescer 20% de um ano para o outro, até 30%. E aí elas se medem por esse crescimento. Se crescer só 15%, não vai haver celebração: vai haver demissões, tristeza e suicídios eventuais.

Essa agressividade das metas acaba significando que muitos funcionários de grandes empresas privadas acabam se comportando mais ou menos como batedores de carteiras. Eles saem às ruas com os olhos furiosos, inventam esquemas intransparentes de empurrar produtos, disfarçam gato de lebre, lucram vendendo o que deveria ser de todos. Há uma imensa agressividade no nosso jeito de atuar no mundo, e a humanidade fica meio parecida com gafanhotos: uma espécie que se espalha rápido e que, assim que chega aos lugares, seca tudo, come tudo, caga tudo e vai embora para outro lugar.

"O sorriso do gafanhoto", de e-du (CC).

"O sorriso do gafanhoto", de e-du

Mudar essa crença de que o crescimento é eterno é duro. Eu sei bem. Luto contra isso todo dia. Fui criado nessa cultura, vivo sob essa lógica, no fundo tenho dificuldade de escapar dela. Sou um sujeito competitivo. Saí da faculdade, fui trabalhar numa corporação, virei madrugadas, meu colesterol subiu, minhas pálpebras tremiam. Pouco depois dos 30, eu era um executivo bem pago, que fazia algumas dezenas de milhões de reais por ano para o meu chefe, ganhava bônus todo ano e dirigia um carrão, com a gasolina “por conta”. No processo, eu vi como as coisas funcionam. Vi a pressão por transformar em dinheiro qualquer asset que me caísse na mão, fosse ele renovável ou não: credibilidade, qualidade, saúde, recursos naturais. Vi como era difícil resistir a essa cultura, por mais que as pessoas sejam decentes e bem intencionadas (e, na empresa onde eu trabalhava, eu estava cercado de gente decente e bem intencionada).

Ano passado, pedi demissão, porque fui acometido da certeza de que é preciso mudar de lógica. Vou te dizer: meu colesterol não baixou nem minha pálpebra parou de tremer. Continuo vira-e-mexe perdendo o sono com preocupações. Sabe por quê? Porque, embora racionalmente eu saiba que estou fazendo a coisa certa, meu cérebro, moldado pela lógica do crescimento eterno, vive me perguntando “mas será que você não se precipitou, Denis?” Embora eu saiba que dirigir aquele carrão com gasolina “por conta” era insustentável e fazia minha barriga crescer, de tempos em tempos meu cérebro viciado pega no meu pé (geralmente é quando eu estou me espremendo num ônibus). Embora eu saiba que eu não preciso acumular tanto, morro de medo de faltar, e se acontecer isso, e se acontecer aquilo?

Enfim, não são só as empresas e os países que querem crescer todo ano. São as pessoas também. Todo mundo acha que merece ganhar mais este ano que no ano passado. Parece que ninguém percebe que as vidas mais incríveis e marcantes são aquelas que têm altos e baixos.

Foto: e-du (CC)

Por Denis Russo Burgierman

19/04/2010

às 20:05 \ Ideias

Use seu cérebro inteiro

Jill Bolte Taylor era uma cientista – uma neurocientista respeitada, chefe de laboratório. Uma mulher racional, responsável, ocupada, cheia de responsabilidades, autora de artigos com nomes indecifráveis, tipo “Colocalização de decarboxilase de glutamato, hidroxilase de tirasina e imunorreatividade de serotonina no córtex pré-frontal médio de ratos”.

Aí, numa certa manhã de 1996, quando ela tinha 37 anos, ela teve um derrame cerebral que paralisou o lado esquerdo do seu cérebro e mudou sua vida para sempre. Hoje ela é uma celebridade. Tem milhões de fãs – os adolescentes a adoram. Toca violão, faz vitrais coloridos, prega a paz e leva uma vida de artista. Não pesquisa mais com ratos (porque acha que é crueldade), conversa sobre viver um harmonia com o Universo e está seriamente empenhada em “mudar o mundo”.

Hoje de manhã, entrevistei Jill por skype para uma reportagem que estou escrevendo e ela me contou um pouco sobre os últimos 15 anos da vida dela, que foram bem movimentados.

Se você não conhece essa história, recomendo muitíssimo que você assista à palestra de 19 minutos que ela deu em 2008 no TED. Sério, veja. É uma das coisas mais incríveis que já assisti. (Para ver com legendas em português, clique em “view subtitles” e escolha “Portuguese (Brazil)”).

No dia seguinte a esta palestra ir ao ar no site do TED, 250.000 pessoas já haviam assistido. Seis semanas depois, a revista Time escolheu Jill como uma das 100 pessoas mais influentes da Terra. Em seguida, a apresentadora de TV Oprah Winfrey, talvez a maior celebridade televisiva americana, convidou Jill para uma longa entrevista no seu programa. Seu livro virou um mega best seller, traduzido em dezenas de línguas (no Brasil ele se chama “A cientista que curou seu próprio cérebro”). Hoje ela vive dando palestras, pedindo doações para pesquisas neurológicas, inspirando pacientes de derrames e viajando o mundo.

Perguntei para ela se o derrame a transformou numa hippie.

Ela negou enfaticamente. “Hippies tomavam drogas. Eu não defendo drogas. O que eu defendo é que encontremos um equilíbrio entre o lado direito e o esquerdo dos nossos cérebros.”

O lado direito do cérebro é o lado criativo – o lado do aqui e agora, da experiência, o que nos faz sentirmos parte do Universo, o que cria a sensação de que há um fluxo de energia no mundo e que fazemos parte dele. O lado esquerdo é o racional, o analítico – aquele que passa o tempo todo focado no passado e no futuro e que nos dá um senso de individualidade, de que somos seres separados do resto do Universo. O derrame paralisou o lado esquerdo do cérebro de Jill – justo o seu lado dominante, já que ela era uma pessoa imensamente racional. Sua recuperação foi longa e trabalhosa – ela teve até que reaprender a ler. Mas, ao longo do processo, ela teve várias revelações sobre como o cérebro funciona de verdade.

Por exemplo, ela percebeu que a civilização ocidental, supostamente em nome da “racionalidade”, está subjugando o lado direito do cérebro. Achamos “ingênua” qualquer ideia vinda dele. E não tem nada de racional nisso. É na verdade uma burrice: jogamos fora 50% da nossa capacidade cerebral.

Ela me disse: “há muitas divisões no mundo: homens e mulheres, esquerda e direita, brancos e negros. E, enquanto isso, estamos matando o planeta. Precisamos ir além dessas divisões e trabalhar juntos para fazer com que a vida seja melhor.” Parece papo de hippie. Mas é uma neurocientista falando.

Por Denis Russo Burgierman

12/04/2010

às 12:43 \ Ideias

Como se fosse futebol

Futebol, para mim, não é um esporte. É um assunto para se discutir. É um campo de batalha retórica.

Não entendo nada do assunto – desconheço esquemas táticos, não sei recitar escalações passadas, não enxergo sutilezas em campo. Jogo desgraçadamente mal, tão mal quanto é possível jogar. Ainda assim, adoro futebol. Adoro falar sobre futebol. Para mim, futebol é narrativa. O que está em jogo é a história que eu vou contar depois. Falar sobre futebol, para mim, é meio como escrever ficção.

Sou corintiano. Assisto aos jogos, torço para o Corinthians. Depois, invento uma narrativa gloriosa, heróica. Aí vou provocar meus amigos sãopaulinos e palmeirenses com essa narrativa. Lógico que eles também criam a narrativa deles. Aí ficamos brigando de mentirinha com palavras. Obviamente nunca ninguém sai vencedor dessa batalha retórica.

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Por exemplo, semana passada o Corinthians foi desclassificado do Campeonato Paulista. Imediatamente elaborei uma história: foi melhor assim, agora focamos na Libertadores, que é o que importa. Mas, até o ano passado, eu costumava dizer para todo mundo que não dou a menor bola para a Libertadores – campeonatinho vagabundo cheio de bolivianos (afinal, como o Corinthians nunca ganhou a Libertadores, o melhor é menosprezá-la). Não se exige coerência nessas discussões futebolísticas – pelo contrário, quanto mais criativa e absurda a argumentação, melhor.

Ou seja, no futebol, para mim, não se perde nunca. Ou somos os vencedores ou os mártires, ou somos merecedores ou injustiçados – somos sempre heróis.

Isso é divertido. É uma brincadeira.

Mas o que eu acho menos engraçado é que esse estilo de debate – polarizado, desonesto e que não chega a lugar nenhum – parece ter dominado outros assuntos muito mais sérios do que a crônica esportiva. A discussão política, por exemplo. Para onde olho, vejo gente defendendo o PT ou atacando o PT. Uns são anti-Lula independentemente dos fatos, outros são pró não importa o que aconteça. Quem acompanha a discussão não consegue nem entender o que está acontecendo de verdade – as narrativas são tão fantasiosas que não dá para saber em quem acreditar.

Vejo o mesmo acontecer com outros temas que tento discutir a sério aqui no blog. Se falo que nossas leis anti-drogas são burras e ineficazes logo aparece alguém dizendo que eu sou um maconheiro lesado que só quer comprar droga sem ser preso. Se discuto como preparar a sociedade para as iminentes mudanças climáticas, em minutos alguém me acusa de fazer parte de uma conspiração estatizante.

Ninguém parece disposto a discutir com sinceridade – ouvir opiniões conflitantes, pesá-las, levá-las a sério, juntar dados, observar, aprender. Todo mundo parece já ter escolhido o seu time e estar disposto a inventar histórias para continuar acreditando naquilo em que já acredita. Ninguém reconhece que haja méritos em outros jeitos de pensar – ou se está 100% certo ou 100% errado.

Não tenho nada contra o direito de se discutir dessa maneira, claro. Eu entendo o prazer de inventar histórias – afinal, também faço isso, quando o assunto é futebol. Mas eu não espero que ninguém leve a sério minhas opiniões futebolísticas. E não entendo por que tanta gente leva tão a sério esse pessoal que discute política como se fosse futebol.

Foto: DRB (CC)

Por Denis Russo Burgierman

01/03/2010

às 13:10 \ Ideias

A doença do capitalismo

Tem algo profundamente errado no nosso modelo econômico. O problema não é o “capitalismo”, é uma doença do capitalismo: um pensamento financeiro criminosamente insustentável que se espalhou por toda a economia (inclusive em países comunistas). Precisamos erradicar essa doença se queremos ver a luz no fim do túnel.

Numa cena do filme "Gomorra", imigrantes ilegais fazem seu papel para alimentar o PIB e a máfia.

Numa cena do filme "Gomorra", imigrantes ilegais fazem sua parte para alimentar o PIB e a máfia.

Neste post eu quero tentar explicar que doença é essa. Vou partir de um exemplo concreto para deixar essa discussão mais clara.

O exemplo é do livro Gomorra, do jornalista italiano Roberto Saviano, transformado num filme com o mesmo nome. Saviano revela que as grandes grifes de moda italianas, para diminuir seus custos, tercerizaram os seus serviços de tecelagem. Para reduzir mais ainda os custos, eles criaram um sistema de concorrência. É assim: as grifes fazem o desenho das roupas e entregam para várias pequenas empresas de costura. Quem conseguir produzir mais em menos tempo ganha a concorrência e é pago. Quem perde a concorrência não ganha nada – trabalhou de graça e pode ficar com as roupas produzidas.

Do ponto de vista estritamente financeiro, esse sistema é um grande sucesso. O incentivo da concorrência garante preços baixíssimos e uma produção muito veloz. Desde que o sistema foi implantado, os custos de produção baixaram e as margens de lucro cresceram. Ou seja, o sistema funciona. Mas ele tem um monte de consequências, das quais Saviano (que está jurado de morte pela Camorra, a máfia napolitana) fala em seu livro.

Algumas dessas consequências afetam as próprias grifes. Exemplo: a pirataria cresce, gerando competição desleal para os produtos originais. É que as empresas que perdem a concorrência sobram com um monte de roupas. Óbvio que eles vão tentar reduzir o prejuízo vendendo o encalhe aos “comerciantes informais”. O resultado é que o mercado é inundado por roupas e acessórios piratas que custam várias vezes menos que as originais, mas têm um padrão de qualidade parecidíssimo, às vezes até superior (porque a concorrência seleciona apenas rapidez, fazendo com que produtores mais caprichosos saiam em desvantagem).

Outras consequências afetam a sociedade inteira. As regras da concorrência são um incentivo para contratar imigrantes ilegais (que topam trabalhar dia e noite, inclusive no fim-de-semana, num regime que só pode ser descrito como de escravidão). Diante desses escravos ilegais, profissionais italianos que prezam a qualidade (uma tradição do país) perdem seus empregos, o que desestrutura famílias. Todo esse ambiente ilegal atrai gangsters armados que se dedicam a extorquir as empresas. O dinheiro dos produtos de grifes acaba então sendo usado para comprar armas para o crime organizado

Essas consequências sinistras do modelo de produção – a pirataria, a escravidão, o desemprego, o crime organizado – são as chamadas “externalidades”. Externalidades são custos não computados. Quando os acionistas das grifes de moda olham os resultados da empresa, ficam felizões com os números. Eles acham essas concorrências fantásticas. Mas isso acontece só porque eles não estão computando custos reais à sociedade e à própria empresa. Por causa desse sistema, os governos perdem uma grana em polícia, hospitais, cadeias. Sem falar nas mortes – o mais definitivo dos prejuízos.

O corajoso jornalista Roberto Saviano, que está ameaçado de morte, vive sob escoplta policial e entrou em depressão. Quem mandou desafiar o modelo econômico?

O corajoso jornalista Roberto Saviano, que está ameaçado de morte, vive sob escolta policiale entrou em depressão. Quem mandou desafiar o modelo econômico?

Claro que eu escolhi um exemplo extremo. Nem todas as empresas causam tantos danos. Mas essa mesma lógica está em toda parte, no mundo inteiro, causando problemas maiores e menores. A imensa maioria das empresas hoje toma decisões baseadas apenas no quanto se economiza em custos e no quanto se aumenta as receitas, ignorando-se todos os outros fatores.

Algumas décadas atrás, as empresas eram no geral grupos de pessoas que sabiam fazer bem um trabalho. As grifes de moda italianas, por exemplo, contavam com os costureiros mais talentosos, tinham o melhor design, usavam o material de maior qualidade. Produziam, portanto, produtos melhores do que os outros e, por isso, vendiam mais caro.

Mas, a partir dos anos 80, uma onda financista se espalhou pelo mundo. Empresas de todo tipo começaram a perceber que podiam reduzir os custos (e a qualidade) e ganhar mais com isso. As grifes italianas, por exemplo, passaram a fazer um produto ordinário, mas ainda assim caríssimo (porque as pessoas já tinham se acostumado a pagar mais pelas grifes). Lentamente, o pessoal do financeiro passou a controlar todas as empresas. Hoje em dia, no geral, um CEO é um sujeito bom de cortar custos e aumentar preços, não um cara que entende do negócio da empresa dele.

Esse pensamento dentro das empresas na verdade é consequência de uma tendência da macroeconomia. Investidores querem ganhar cada vez mais com ações, por isso pressionam as empresas a lucrar mais, e assim as empresas espremem os funcionários, os fornecedores e os consumidores. Com isso, as bolsas sobem, os PIBs crescem, os bancos comemoram. Mas as externalidades se multiplicam, sem que o pessoal do financeiro se dê conta. Espalhamos poluição, crime, injustiça, exploração e morte pelo mundo, em troca de décimos de pontos percentuais no PIB.

Está na hora de as empresas tirarem a galera do financeiro da presidência e colocarem-na no seu lugar: o departamento de contabilidade. Esse pessoal é fundamental para que a economia funcione. Mas eles não podem mandar no mundo.

Por Denis Russo Burgierman

 

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