09/08/2010
às 17:36 \ IdeiasAmbientalismo X desenvolvimento
O post da semana passada bombou. Teve comentário raivoso, gente se chamando de idiota e inútil e, no geral, aquele mesmo clima de diálogo de surdos com o qual estamos tão acostumados sempre que se toca num desses temas quentes (ideologia, homossexualidade, drogas etc.). A grande maioria dos comentários seguia o mesmo script: há o meu lado e há aqueles cretinos que pensam diferente. Nós estamos certos, eles são débeis mentais. Simples assim.
Eu lamento.
Mas entendo.
Estamos dobrando uma curva civilizatória. Num momento como esse, é mesmo normal que haja confusão. Estamos no processo de inventar um novo modelo de produção para a humanidade. É normal que, numa hora assim, haja um monte de gente sem entender o que está acontecendo. E, consequentemente, um monte de discórdia.

O livro "Cradle to Cradle" propõe um novo jeito de produzir, no qual cada item produzido melhora o mundo um pouquinho (em vez de piorar)
O deputado Aldo Rabelo, por exemplo, não está entendendo nada, coitado. Você viu a entrevista dele para a Veja na semana passada? Lá o deputado diz que os ambientalistas querem impor garganta abaixo do país a obrigatoriedade de preservar a mata nas margens dos rios. Ora bolas, diz ele. “É uma loucura. Basta andar pelo interior do Brasil para ver: toda a agricultura tradicional sempre foi feita nas beiras dos rios, porque é lá que está a água.”
Verdade. Sempre foi assim.
E o resultado disso é que, no país inteiro, as margens dos rios, sem a sustentação das raízes, estão desmoronando. Isso vai entupindo o rio de terra (o chamado assoreamento), o que diminui o fluxo d’água e mata os peixes. Quando chove, o rio assoreado não dá conta de escoar a água e as cidades e plantações na margem são destruídas. Morre um monte de gente, perde-se um monte de dinheiro. Para completar, a água é contaminada por agrotóxicos e esgoto que escoam para o rio. O desmatamento também libera carbono no ar, o que aquece a Terra e aumenta a frequência de chuvas desastrosas, de maneira que um problema vai alimentando o outro.
Não é só no Brasil, como lembra o deputado Rabelo. Isso acontece no mundo todo, a não ser em sociedades muito desenvolvidas e bem educadas, o que obviamente não é nosso caso (a gente não sabe nem debater ideias sem xingar a mãe).
O interessante é que, no fundo, recuar as cidades e plantações para longe do rio é do interesse de todo mundo, inclusive do agronegócio. Garanto para você que a maioria dos grandes produtores tem consciência de que um modelo de negócio baseado em assoreamento, enchente, poluição e desmatamento não é bom para eles tampouco. A maioria, na intimidade do lar, lamenta a destruição do rio que eles amaram na infância. Eles também iriam preferir trabalhar de um jeito em em que a ameaça de uma enchente desastrosa ou de uma seca matadora não seja uma constante.
Mas, assim como o deputado Rabelo, eles também acham que “sempre foi assim”, e que portanto não poderia ser diferente. A maioria acha que os ambientalistas são uns chatos que só existem para colocar obstáculos no processo produtivo – e portanto diminuir as margens de lucro. (E, justiça seja feita, há mesmo muito mais ambientalistas apontando para problemas do que sugerindo soluções.)
Não deveria ser assim. Deveríamos inventar um novo sistema de produção em que a preservação do rio não seja vista como um obstáculo, mas como uma imensa oportunidade.
Como fazer isso? Difícil, sem dúvida. Mas tem jeito e certamente o mundo caminha para isso. De novo, busco inspiração neste livro sensacional que estou lendo (“Cradle to Cradle”, de William McDonough e Michael Braungart).
E se, como sugere o livro, imaginássemos um processo produtivo no qual, quanto maior a produção, maior o benefício para o ambiente? Loucura? Uai, por quê? A natureza sempre funcionou assim. Cada nova árvore plantada melhora o mundo (firma o solo, captura carbono, produz sombra, fertiliza a terra, abriga vida selvagem etc) e aumenta a produção ao mesmo tempo. E se as plantações seguissem essa mesma lógica em vez de focar unicamente em aumentar a produção em relação ao ano passado?
E se as cidades fizessem o mesmo?
Garanto que, no final, isso iria fazer bem até mesmo para o PIB.










