21/03/2011
às 20:56 \ EnergiaEnergia custa caro (em grana ou em vidas)
Energia nuclear dá medo, óbvio. É natural que as pessoas percam o sono diante da possibilidade de ter o núcleo das células despedaçado por um inimigo invisível, que causa câncer e, horror dos horrores, transmite sua desgraça para as futuras gerações. Claro que está todo mundo acompanhando com apreensão o desdobramento da crise no Japão, torcendo para que o flagelo nuclear não se some aos outros dois que se abateram sobre o país – um terremoto terrível e um tsunami gigantesco.

Marie Curie, a criadora da teoria da radioatividade, morreu em 1934 vítima da radiação. Começa aí a má fama nuclear
Mas é bom lembrar que, apesar da má fama, a energia atômica não é a única que tem “efeitos colaterais”. A maior parte da energia gerada no mundo vem da queima de petróleo, que libera fuligem e gases de efeito estufa no ar. Queimar petróleo é certamente um jeito mais danoso de produzir energia do que quebrar núcleos atômicos. A energia atômica causou a morte de 56 pessoas em Chernobyl, em 1986, e, de lá para cá, não houve mais nenhum acidente nuclear digno de nota. Enquanto isso, a queima de petróleo mata gente todos os dias de doenças respiratórias e está por trás das mudanças climáticas globais, que já custaram a vida de milhares de pessoas no mundo. Energia atômica eventualmente mata alguns. Energia do petróleo mata sempre, e muitos.
Acidentes nucleares não matam apenas gente: matam pedaços de terra também. O vazamento de Chernobyl custou à Ucrânia a evacuação de uma cidade inteira e o de Fukushima provavelmente também vai inviabilizar o uso produtivo de parte da região. Isso é terrível. Mas vale lembrar que as usinas hidrelétricas, que compõem a maior parte da matriz energética do Brasil, também provoca a destruição de território e a remoção traumática de comunidades. A energia hidrelétrica também tem seus efeitos colaterais, e eles são terríveis para muita gente.
Nós humanos gostamos de dividir o mundo entre heróis e vilões e, nessa lógica, as usinas nucleares estão certamente na segunda categoria. Mas a realidade é que todas as formas mais populares de gerar energia têm vantagens e desvantagens. As desvantagens da energia nuclear provavelmente não superam muito as da energia hidrelétrica e são brincadeiras de criança se comparadas às da queima do petróleo.
Mais importante do que demonizar essa ou aquela fonte de energia é se conscientizar de que energia é um recurso precioso, que precisa ser poupado. No Brasil, desperdiçamos uma enormidade de energia nas linhas de transmissão e, em pleno século 21, continuamos tomando banho com ineficientes chuveiros elétricos. Fabricantes fazem aparelhos eletrônicos que, quando desligados, iluminam a casa inteira à noite, de tantas luzinhas inúteis. E ainda achamos bonitinha a decoração de Natal das cidades. Enquanto isso, abrimos mão alegremente de centenas de quilômetros quadrados de floresta valiosa, para aumentar a produção de energia.
Só faz sentido abandonar a energia nuclear se for para substituí-la por fontes realmente limpas e seguras, como as turbinas eólicas e as placas solares. Vão dizer que aí a energia ficará mais cara. Verdade. Mas queremos mesmo economizar uns trocados ao custo de terras alagadas, rios represados, clima modificado, ar poluído, radiação no ar?
Tags: MUDANÇAS CLIMÁTICAS






