05/04/2010
às 23:23 \ CidadeQuanto custa a fumaça?
Semana passada subi de bicicleta a ladeira da Avenida Rebouças, que separa a minha casa, em Pinheiros, da Faculdade de Medicina, junto ao Hospital das Clínicas, em São Paulo. Cheguei esfumaçado e suado à entrevista com o professor Paulo Saldiva, médico, professor de Harvard, especialista em saúde pública, um dos maiores pesquisadores de poluição do mundo.
– Veio de bicicleta? Hoje vim sem a minha, usei transporte público – ele disse.
Saldiva tem 60 anos. É um sujeito cheio de energia e de ideias.
– No meu momento da carreira, o carro usual de um professor universitário é um Audi. Eu ando de bicicleta. Eu estou bem melhor que eles. Como cientista, tenho duas hipóteses: ou bicicleta faz bem ou Audi faz mal.
Ele já teve a chance de testar a hipótese. Uma vez ficou dois anos dirigindo um carro, porque naquela época tinha que apanhar os filhos na escola.
– Engordei 20 quilos. Mas aprendi a tocar gaita. Eu ficava tentando acompanhar a música no rádio, com o trânsito parado.
Saldiva é um sujeito engraçado, já se viu. Mas ele sabe falar sério também. Por exemplo, ano passado, por determinação da Agência Nacional do Petróleo (ANP), a quantidade máxima de enxofre no diesel de caminhões deveria ter sido reduzida. Mas a ANP se esqueceu de entregar à Petrobras as novas especificações do combustível. A Petrobras se fez de morta e, quando ficou em cima da hora, alegou que não havia tempo hábil para fazer a mudança. A ANP então adiou a redução para 2012. Saldiva fez as contas:
– 14.000 pessoas vão morrer em conseqüência direta dessa prorrogação. O governo precisa saber que, ao aprovar o adiamento, autorizou a morte de 14.000 pessoas.
Ele não alivia. É especialmente crítico às empresas de petróleo, que segundo ele, deveriam incluir na sua conta o prejuízo que causam ao país, em dinheiro e em vidas.
Sim, poluição mata. Mata 12 pessoas por dia só em São Paulo. Mata mais idosos que jovens. Mata mais pobres que ricos. Quem mora na periferia e tem que esperar nos pontos de ônibus respira mais veneno do que quem está passando pelo ponto de carro soltando fumaça. Dê uma olhada no mapa que mostra a incidência de mortes por doenças respiratórias na cidade: quem mais morre é quem vive nas regiões mais pobres.

– É um racismo ambiental – diz Saldiva.
O médico está empenhado em colocar números nesse racismo. Suas pesquisas e as dos seus muitos orientandos tentam responder perguntas bem objetivas: quantas pessoas morrem a mais dessas doenças quando a frota de carros aumenta? O quanto isso está piorando com as mudanças climáticas (também causadas em grande parte pelas emissões de poluição)? Quanto custa ao país a poluição?
Quantificar é o caminho para cobrar de quem causa o prejuízo. Por exemplo: Saldiva calcula que um paulistano perca em média um ano de vida por causa da poluição. Como somos 12 milhões de paulistanos, os canos dos escapamentos tiram de nós um total de 12 milhões de anos-homem (sem contar atropelamentos e outros danos colaterais). Calculando pelo PIB per capita, essas mortes equivalem a 9 bilhões de reais. É esse o tamanho da grana que a fumaça dos carros está surrupiando de nós. Essa fortuna precisa ser incorporada ao valor do combustível, ao preço do carro.
Não se trata de culpar os motoristas pelas mortes e pelo prejuízo. Não dá para dizer que os motoristas tenham culpa de algo que não havia sido calculado. É por isso que essas pesquisas são importantes: elas quantificam o prejuízo. E, ao quantificar, tornam possível que cada um assuma sua responsabilidade na história. Ninguém paga por coisas que não têm preço. Torna possível também imaginar políticas públicas que salvem vidas e poupem dinheiro.
Na saída da faculdade, Saldiva nos mostrou uma palmeira em frente à sua sala, bem na beira de uma Avenida Doutor Arnaldo. A parte de trás da palmeira, protegida do ar da avenida, estava coberta de líquen. A parte da frente, virada para um ponto de ônibus, estava preta, e sem líquen nenhum.
- Não é ambiente propício à vida – disse ele.
Voltei para casa pedalando e respirando o ar da Rebouças. Por quanto tempo mais?













