20/06/2011
às 16:07 \ CidadeO ponto-cego
Os 68 anos de vida de Antonio Bertolucci terminaram bruscamente numa gigantesca poça de sangue em cima de uma faixa de pedestres no acesso à Avenida Sumaré, em São Paulo, na semana passada. Ele trafegava de bicicleta, como fazia sempre, quando foi esmagado por um ônibus de mais de 15 toneladas. O motorista disse que Antonio, que era presidente do conselho de administração de uma fábrica de chuveiros e ciclista experiente, estava no seu “ponto-cego”. Sem saber, ele acertou na mosca na sua avaliação.
Ciclistas e pedestres, que são a maioria dos pagantes de impostos de São Paulo, estão mesmo no ponto-cego. Mas não é no ponto-cego do espelho retrovisor: é no ponto-cego da consciência da cidade. Assim como o matador de Bertolucci, a imensa maioria dos motoristas da cidade nem pensa em quem está lá fora, na rua, desprotegido, enquanto conduz seus monstros de metal. Somos invisíveis. Faixas de pedestre, como aquela manchada de sangue na zona oeste paulistana, são peças decorativas.
Ciclistas e pedestres estão também no ponto-cego da polícia. Mal o crime foi cometido e a polícia civil anunciou que tratou-se de uma “fatalidade”, como bem lembrou a cicloativista Renata Falzoni, neste vídeo:
Ciclistas e pedestres estão no ponto-cego dos controladores do tráfego da cidade. Os guardas de trânsito paulistanos jamais multaram alguém por ameaçar de morte um ser humano, avançando sobre a faixa, ultrapassando ciclistas a menos de 1,5 metro de distância ou desrespeitando a sagrada preferência do menor veículo sobre o maior. Na verdade, o que eles costumam fazer é incitar a agressividade dos motoristas. Não é incomum vê-los nos cruzamentos mais movimentados da cidade gesticulando com as mãos para APRESSAR os motoristas, como se eles precisassem ser estressados ainda mais. Claro que é assim: eles só se preocupam com a velocidade do fluxo dos carros. E quanto aos homens e mulheres e crianças que tentam sobreviver no meio de gigantes de aço? Hmmm, mal aí, esses estão no ponto cego.
Ciclistas e pedestres estão no ponto-cego da administração da cidade – e de quase todas as cidades do Brasil. Aliás, tudo aquilo que não é politicagem está no ponto-cego do prefeito Kassab, que está obviamente ocupado demais fundando um novo partido. Sua administração prometeu construir 367 quilômetros de ciclovias até 2012 – uma merreca para o tamanho da cidade. Construiu 10 quilômetros até hoje.
Não se trata só de números. Cadê a discussão pública que a cidade precisa urgentemente sobre o planejamento a longo prazo do sistema de trânsito e do modelo da cidade? Cadê as ideias? Cadê a nova mentalidade, com a qual a cidade se comprometeu, ao reconhecer, em 2005, que as mudanças climáticas são o maior problema ambiental, social e econômico que temos que enfrentar? Era só papo-furado? Era só blablablá? Era mentira para ganhar eleição?
Eu acho que Kassab é cúmplice do homicídio de Bertolucci e dos outros pedestres e ciclistas que morrem esmagados todos os dias no trânsito burro de São Paulo. Se não é o mandante. Eu acho que ele deu razão de sobra para um processo civil milionário e para um processo de impeachment.
Mas o que interessa o que eu acho? Ninguém está vendo.
Devo estar no ponto-cego.
+++
PS: existe solução possível, como demonstra o projeto Cidades para Pessoas, do qual sou um dos orgulhosos patrocinadores (doei R$ 130, na esperança de não terminar meus dias embaixo de um ônibus). Veja o vídeo, sobre Copenhague, na Dinamarca, e sobre o que isso tem a ver com São Paulo:
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