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Arquivo da categoria Cidade

20/06/2011

às 16:07 \ Cidade

O ponto-cego

Os 68 anos de vida de Antonio Bertolucci terminaram bruscamente numa gigantesca poça de sangue em cima de uma faixa de pedestres no acesso à Avenida Sumaré, em São Paulo, na semana passada. Ele trafegava de bicicleta, como fazia sempre, quando foi esmagado por um ônibus de mais de 15 toneladas. O motorista disse que Antonio, que era presidente do conselho de administração de uma fábrica de chuveiros e ciclista experiente, estava no seu “ponto-cego”. Sem saber, ele acertou na mosca na sua avaliação.

Ciclistas e pedestres, que são a maioria dos pagantes de impostos de São Paulo, estão mesmo no ponto-cego. Mas não é no ponto-cego do espelho retrovisor: é no ponto-cego da consciência da cidade. Assim como o matador de Bertolucci, a imensa maioria dos motoristas da cidade nem pensa em quem está lá fora, na rua, desprotegido, enquanto conduz seus monstros de metal. Somos invisíveis. Faixas de pedestre, como aquela manchada de sangue na zona oeste paulistana, são peças decorativas.

Ciclistas e pedestres estão também no ponto-cego da polícia. Mal o crime foi cometido e a polícia civil anunciou que tratou-se de uma “fatalidade”, como bem lembrou a cicloativista Renata Falzoni, neste vídeo:

Ciclistas e pedestres estão no ponto-cego dos controladores do tráfego da cidade. Os guardas de trânsito paulistanos jamais multaram alguém por ameaçar de morte um ser humano, avançando sobre a faixa, ultrapassando ciclistas a menos de 1,5 metro de distância ou desrespeitando a sagrada preferência do menor veículo sobre o maior. Na verdade, o que eles costumam fazer é incitar a agressividade dos motoristas. Não é incomum vê-los nos cruzamentos mais movimentados da cidade gesticulando com as mãos para APRESSAR os motoristas, como se eles precisassem ser estressados ainda mais. Claro que é assim: eles só se preocupam com a velocidade do fluxo dos carros. E quanto aos homens e mulheres e crianças que tentam sobreviver no meio de gigantes de aço? Hmmm, mal aí, esses estão no ponto cego.

Ciclistas e pedestres estão no ponto-cego da administração da cidade – e de quase todas as cidades do Brasil. Aliás, tudo aquilo que não é politicagem está no ponto-cego do prefeito Kassab, que está obviamente ocupado demais fundando um novo partido. Sua administração prometeu construir 367 quilômetros de ciclovias até 2012 – uma merreca para o tamanho da cidade. Construiu 10 quilômetros até hoje.

Não se trata só de números. Cadê a discussão pública que a cidade precisa urgentemente sobre o planejamento a longo prazo do sistema de trânsito e do modelo da cidade? Cadê as ideias? Cadê a nova mentalidade, com a qual a cidade se comprometeu, ao reconhecer, em 2005, que as mudanças climáticas são o maior problema ambiental, social e econômico que temos que enfrentar? Era só papo-furado? Era só blablablá? Era mentira para ganhar eleição?

Eu acho que Kassab é cúmplice do homicídio de Bertolucci e dos outros pedestres e ciclistas que morrem esmagados todos os dias no trânsito burro de São Paulo. Se não é o mandante. Eu acho que ele deu razão de sobra para um processo civil milionário e para um processo de impeachment.

Mas o que interessa o que eu acho? Ninguém está vendo.

Devo estar no ponto-cego.

+++

PS: existe solução possível, como demonstra o projeto Cidades para Pessoas, do qual sou um dos orgulhosos patrocinadores (doei R$ 130, na esperança de não terminar meus dias embaixo de um ônibus). Veja o vídeo, sobre Copenhague, na Dinamarca, e sobre o que isso tem a ver com São Paulo:

Por Denis Russo Burgierman

18/04/2011

às 22:38 \ Cidade

A moça brava e a cidade

Uma vez por ano, tenho esperança em São Paulo. É na noite da Virada Cultural, um evento de 24 horas no qual o centro da cidade é fechado para os carros, centenas de shows e performances artísticas tomam as ruas e a cidade toda sai da casa para celebrar. É uma das maiores festas do mundo. Fui para a rua aproveitar, como faço sempre.

Na madrugada fui assistir a um show de Eumir Deodato, o mítico músico brasileiro de jazz que vive há anos nos Estados Unidos. O palco estava armado no largo de São Bento, em cima da calçada e virado para a rua. O público ficava em pé no asfalto.

Logo no começo do show, uma viatura policial apareceu e começou a se enfiar no meio do público – queria que todo mundo saísse da frente do palco para ele passar. Os músicos, claro, ficaram incomodados com a interrupção. Mas um policial, simpático, abriu a janela, pediu desculpas e licença e o povo saiu da frente compreendendo que emergências acontecem. Todo mundo se espremeu, o carro andou devagar, a massa de gente se fechou atrás dele, o show recomeçou

Uns 10 minutos depois apareceu uma ambulância. Mesma coisa. O público teve até mais boa vontade do que da primeira vez, como costuma acontecer com ambulâncias. Logo depois surge uma van. Dessa vez, Deodato, que mora em Nova York e quase nunca toca no Brasil, deu sinal de impaciência. Recusou-se a parar de tocar, incentivando o público a ficar onde estava. O motorista da van ficou contrariado, passou uns 5 minutos tentando empurrar o povo, mas foi bloqueado, acabou desistindo e indo embora de ré.

Mais uns 10 minutos e surge uma viatura de imprensa. O motorista, certamente escolado em lidar com multidões, encostou o para-choques na galera e foi acelerando devagar, técnica perfeita para tirar as pessoas da frente, quase sempre sem derrubar ninguém. O público se irritou e começou a chacoalhar o carro. Uma hora uma moça que estava dentro da van abriu a janela e começou a berrar:

– Saiam da frente. Estamos trabalhando.

Um espectador do show protestou:

– Estamos vendo o show, vocês estão atrapalhando.

A moça, impafiosa, retrucou:

– Vocês é que estão atrapalhando. Nós estamos trabalhando.

O show durou 1 hora, mais ou menos. Sete carros tentaram passar nesse intervalo, sempre atrapalhando os músicos. Placar final, Carros 6 X 1 Público (só conseguimos resistir à van).

A cena da moça loirinha de olhos azuis, berrando esganiçada e vermelha de raiva, não me sai da cabeça. Para mim ela é reveladora de tanta coisa. Aqueles gritos indignados são ecos de um Brasil escravagista, onde quem estava na rua era inferior, indigno de respeito. Aquela moça realmente achava que cobrir a Virada Cultural é mais importante do que a Virada Cultural.

Essa mesma atitude da moça está presente nos gestores públicos brasileiros. No fundo, eles se acham seres melhores do que o povão lá fora. Consequentemente, eles não vão muito lá fora. A Virada Cultural é a melhor coisa de São Paulo hoje, mas ela é cheia de traços que denunciam esse desprezo dos gestores públicos pelas pessoas. A programação musical é ótima, mas, de resto, quase nada é divertido, criativo, focado em melhorar a experiência das pessoas (nesse sentido, a Virada de 2011 foi um retrocesso em relação a 2009 e 2010). A sinalização do evento é confusa e cheia de erros. Vi uma seta apontando o lado oposto que deveria apontar – sinal de que a sinalização foi planejada dentro de um escritório com ar-condicionado. Se fosse planejada na rua, não estaria errada.

Gostamos de culpar os políticos pelos nossos problemas, e é mesmo verdade que os políticos são de uma ruindade de dar dó. Mas é importante reconhecermos que os políticos são ruins porque têm determinados traços de personalidade que estão presentes na sociedade toda. Não nos livraremos dos políticos ruins antes de nos livrarmos dessa mentalidade.

Por Denis Russo Burgierman

07/03/2011

às 12:13 \ Cidade

Chama o síndico?

Quando queima a lâmpada em casa, você compra uma lâmpada nova, sobe num banquinho e troca. Quando é um problema um pouquinho mais sério, sei lá, um chuveiro elétrico queimado, você talvez chame um eletricista e pode ficar sem banho quente por algumas horas. Quando entope a saída de esgoto, aí é mais sério: você bem possivelmente vai procurar uma boa empresa especializada, a não ser que tenha um encanador de muita confiança.

Pois bem: e se sua casa entrar em colapso? Todos os aparelhos elétricos começam a queimar, alguns com explosões, água suja sobe dos ralos, o teto se enche de goteiras, as paredes, de rachaduras, os armários, de ratos e insetos. O que você faz? Chama o síndico do prédio para “dar um jeitinho”?

É bem isso que está acontecendo nas grandes cidades brasileiras: um colapso. O sistema de trânsito e mobilidade urbana é uma porcaria. As pessoas passam mais tempo tentando chegar nos lugares do que em casa com a família, e todo dia uma centena de brasileiros morrem no caminho. O sistema de coleta de lixo é de uma tosqueira assustadora: algo como zero é reciclado ou compostado e os aterros crescem como cânceres. O asfalto está rachando em toda parte, porque a água da chuva não tem por onde escoar e se infiltra entre o piso e o solo. O clima está mudando rápido, com consequências desastrosas, e enchentes e deslizamentos ficam cada dia piores. O espaço público é horroroso: barulhento, fumacento, perigoso.

Diante de um colapso desses, nossas cidades tomaram uma decisão: chamaram o “síndico” e pediram para ele “dar um jeitinho”. É isso que as administrações públicas municipais brasileiras são: síndicos. São capazes de trocar uma lâmpada, ou, num dia inspirado, o fusível de um chuveiro, mas certamente não são habilitadas para lidar com colapsos e para repensar sistemas.

É fácil comprovar a incapacidade do poder público de lidar com complexidade: basta olhar para cima e ver uma instalação elétrica. Você contrataria esse eletricista? Foto: DRB (CC)

Nas últimas décadas, as grandes cidades se tornaram milhões de vezes mais complexas do que eram antes. Milhares de quilômetros de solo foram asfaltados, milhões de quilômetros de cabos foram estendidos, rios foram enfiados debaixo do chão e canos furaram tudo. Esse trabalho tem sido feito como um síndico faria: na base do “jeitinho”. Os profissionais que trabalham nas prefeituras podem até ser simpáticos e inteligentes, mas no geral não fazem ideia de como se lida com um sistema complexo: sabem apenas de suas respectivas áreas.

Mesmo nossos prefeitos são imensamente limitados. Pegue como exemplo Gilberto Kassab, aqui em São Paulo. Certamente parece um bom sujeito, e ninguém tem dúvida de que seja inteligente. Mas quantas vezes ele já veio a público para discutir a fundo grandes questões urbanas? Ele não discute porque não entende absolutamente nada sobre cidades. Kassab fala, e bem, sobre articulações partidárias, estratégias políticas, táticas eleitorais. Diante das enchentes que estão assolando São Paulo e dos protestos contra o custo extorsivo do transporte público, ele reagiu mudando sua assessoria de imprensa.

Não vai ser assim que resolveremos nossos problemas.

Tenho a convicção de que as respostas para as grandes cidades brasileiras não vão vir das prefeituras. Elas virão de articulações amplas da sociedade civil, com participação decisiva da vibrante classe criativa brasileira e investimento maciço do setor privado. As prefeituras poderiam ajudar muito se fossem menos autoritárias e deixassem a cidade ajudar. Elas poderiam reduzir imensamente seu inchado quadro de funcionários e gastar muito mais com projetos inovadores, experimentais, criados por grupos de gente criativa apaixonada pela cidade.

Nossas cidades vão mal, muito mal. Nós brasileiros temos uma mania irritante de ficar com nhenhenhém resmungando dos políticos. Os políticos são ruins mesmo, mas a responsabilidade pela cidade não é só deles: é de todo mundo.

Por Denis Russo Burgierman

31/01/2011

às 12:28 \ Cidade

Meu vizinho folgado

Meu vizinho estava com muito calor neste verãozão pelo qual passamos. Ele resolveu então comprar um aparelho gigantesco de ar condicionado, desses que ocupam uma parede inteira. Instalou o trambolho de frente para a minha janela. O dia inteiro, agora, aqui na minha casa, fica aquele vrrrrruuuuu. Da minha janela, a vista é uma grelha de metal preto. 24 horas por dia a minha sala é preenchida pelo ar quente que o aparelho tira da casa do vizinho. Minha casa virou um inferno.

Pergunta: meu vizinho tem o direito de fazer isso?

A história é fictícia, graças a deus. Mas não tanto. Quando saio à rua, que também é minha casa, já que é sustentada com o dinheiro dos meus impostos, o que vejo é basicamente a mesma coisa.

As ruas estão tomadas de carros, que são caixas de metal sobre rodas. Para que as rodas deslizem melhor, a prefeitura da minha cidade (com o dinheiro dos meus impostos) arrancou toda a vegetação e despejou por cima da terra um pixe grosso e negro.

Óbvio que, neste sol tropical daqui, não é muito agradável ficar dentro de uma caixa de metal sobre pixe endurecido, na barulheira do motor. Para aliviar esses problemas, há uma porção de soluções tecnológicas: ar condicionado, portas e janelas vedadas, vidros escurecidos, sistema de som. Com isso, o ambiente dentro da caixa de metal fica agradável, fresco e silencioso. Mas na rua aqui fora (minha casa, mantida com o dinheiro dos meus impostos), o inferno reina. O barulho, a fumaça e o calor ficam para fora, comigo.

Estamos acostumados com isso. Cidades são dominadas por carros em todo lugar e sempre foi assim, portanto não cabe questionar. Certo?

Errado.

Nem sempre foi assim: na verdade essa é uma onda muito recente, começada nos anos 1960. Também começou nos anos 1960 um aumento mundial da criminalidade nas ruas, das doenças respiratórias, das mortes violentas, do consumo de drogas como o crack e de outros sintomas da morte dos espaços públicos. Será que é coincidência? Eu acho que é consequência direta da infeliz escolha de fazer espaços para os carros.

E não é em todo lugar que isso acontece. Há pelo mundo um bom número de cidades que resistiu ao domínio dos carros e criou espaços públicos que priorizam as pessoas: Copenhague, Amsterdam, Paris, São Francisco, Melbourne são algumas delas.

Leio aqui no jornal de hoje que o prefeito de São Paulo está com um mega plano para aumentar a velocidade do trânsito da cidade. Aviso desde já: eu me recuso a seguir este plano. Vou desobedecê-lo, civicamente. Não reconheço um sistema que, embora pago com o meu dinheiro, não me consulta e não me leva em conta.

A cidade é minha, mano. Tenho direito de viver bem nela.

PS: a propósito: minha colega Natália Garcia, que trabalhou comigo na criação do site !sso Não É Normal, está com um projeto de passar um ano viajando por 12 cidades do mundo construídas para as pessoas – um mês em cada uma. A ideia é montar um grande banco de conhecimento sobre soluções urbanas. O projeto será financiado coletivamente, através de doações feitas neste site aqui. Se você se importa com isso, doe. Cada vez mais tenho a convicção de que só assim se vai mudar a lógica das coisas. A prefeitura não dá a mínima para os paulistanos. A universidade – igualmente financiada com a minha grana – não oferece alternativa nenhuma porque é refém da mesma lógica (a USP tem muito mais área dedicada a estacionamentos do que a laboratórios). Resta financiarmos a nós mesmos para conseguirmos o que queremos.

Por Denis Russo Burgierman

18/10/2010

às 17:59 \ Cidade

Por que nossas cidades não mudam?

Enrique Peñalosa foi prefeito da cidade de Bogotá, capital colombiana. Bogotá era um inferno, uma cidade arrasada pela violência, de baixíssima auto-estima, sinônimo de lugar ruim. Peñalosa foi um dos líderes de um renascimento que levou os bogoteños de volta para a rua e transformou a cidade numa surpreendente história de sucesso de renascimento urbano. Hoje, ele mora em Nova York, onde é presidente da ITDP, o Instituto para Políticas de Transporte e Desenvolvimento, uma organização mundial dedicada a melhorar os espaços urbanos e a mobilidade das pessoas nas cidades do mundo.

O ITDP de Peñalosa contratou o Jan Gehl Architects, um escritório de arquitetura de Copenhague, na Dinamarca, para fazer um projeto para o centro de São Paulo. Já falei do Jan Gehl aqui. Ele é o arquiteto que, nos anos 60, começou a transformar Copenhague na cidade que é hoje: cheia de gente na rua, mais dependente das bicicletas do que dos carros. Seu escritório está por trás de muitas das histórias de sucesso das grandes cidades da atualidade: as ciclovias de Londres, o renascimento do centro de Melbourne, as cadeirinhas da Times Square, em Nova York.

Enfim, juntou-se um “dream team” do novo urbanismo mundial para dar ideias para São Paulo. Os arquitetos do escritório de Gehl resolveram dedicar-se a transformar a região do Anhagabaú no centro vivo da cidade, um lugar onde a cidade toda se encontraria. Eles passaram semanas observando o jeito como as pessoas se relacionam com o espaço, entendendo o papel de cada um lá: os mendigos, as prostitutas, os policiais, os meninos de rua, os trabalhadores, os executivos, os camelôs. Ao final, eles propuseram um projeto lindo. Fiquei morrendo de vontade de passear pelo novo Anhagabaú.

Mas provavelmente não vou ter a chance. São Paulo recusou o projeto do dream team dos urbanistas do mundo. As ideias deles servem para Bogotá, Londres, Nova York, Copenhague, Melbourne, mas não para nós.

Por quê? Por quê São Paulo – e muitas cidades brasileiras – são tão refratárias a ideias inovadoras? (Mês passado escrevi uma carta aberta ao prefeito Kassab sobre uma outra ideia para a cidade, de um grupo de jovens arquitetos que oferecia o projeto de graça à cidade. Não mereci nem resposta do prefeito ou de sua equipe de planejadores urbanos.)

Em parte é fácil de entender o porquê. Os setores imobiliário e de construção são os maiores financiadores de campanhas eleitorais, tanto à prefeitura quanto à Câmara dos Vereadores. A Associação Imobiliária Brasileira deu dinheiro a 29 dos 55 vereadores em exercício – o suficiente para ganhar com folga qualquer votação em plenário.

Não estou aqui insinuando que todos esses vereadores sejam corruptos e vendam seus votos. Mas claramente há em São Paulo uma tendência de defender os interesses desses setores: e esses setores adoram grandes obras, novas avenidas, túneis, pontes ou projetos de “revitalização” que envolvem demolir um bairro todo e construir outro no lugar. Eles não gostam tanto de projetos feitos para as pessoas, que envolvem pesquisa, observação, inteligência – em vez de apenas derramar concreto.

Aliás isso não é só em São Paulo, nem só nas prefeituras, nem é exclusividade do grupo político do prefeito Kassab (que é dos Democratas. O PT também tem as construtoras entre seus principais doadores e isso ajuda a entender projetos meio sem pé nem cabeça como a transposição do rio São Francisco, num país em que a maioria da população ainda não tem saneamento básico).

Quer entender por que o espaço público tende a ser tão ruim no Brasil? Talvez a resposta esteja nas regras de financiamento de campanhas e no sistema político. Talvez nosso sistema privilegie os candidatos que se preocupam em agradar empreiteiras e incorporadoras, em vez de se especializar em atender as pessoas e tornar a vida delas melhor.

Por Denis Russo Burgierman

06/09/2010

às 14:09 \ Cidade

Carta aberta ao prefeito de São Paulo

Hoje de manhã vi este grafite incrível no beco do Batman, na Vila Madalena, em São Paulo.

Me fez pensar. Você já notou que não se vê mais crianças na rua em São Paulo? Pelo menos não no centro expandido.

Comento isso por aí, parece que muita gente acha normal. Com essa violência, com esse trânsito, criança não pode mesmo ficar na rua. E elas têm videogames ótimos e super educativos. Elas nem querem mesmo sair.

Pois tem uma coisa que eu preciso dizer: não é normal.

Crianças pequenas têm praticamente todas os neurônios que terão na vida adulta. A diferença entre elas e nós é que elas têm pouquíssimas conexões entre os neurônios. Desconectados, eles não são capazes de fazer nada muito complexo. Em compensação, as desconexões tornam o cérebro imensamente flexível, capaz de aprender qualquer coisa. Com o tempo, essas conexões – as sinapses – vão se formando e a mente vai se tornando capaz de coisas impressionantes.

Para que as sinapses se formem, é preciso estímulos. Se o cérebro tem que lidar com uma situação na tenra infância, torna-se cada vez melhor em tarefas do mesmo tipo. Se ele não treina, não aprende. E, depois que chega a idade adulta, é tarde demais – a maleabilidade do cérebro vai embora.

Pois então, crianças que não saem à rua estão simplesmente abrindo mão de uma imensa quantidade de estímulos. Tem uma pesquisa dos anos 1990, do urbanista americano Bruce Appleyard, que mostra que meninos e meninas que vão de carro para a escola são menos capazes de desenhar mapas e de entender abstrações espaciais. Ao negar-lhes a rua, estamos simplesmente impondo limitações cognitivas aos nossos filhos. Em nome da segurança deles (um valor obviamente positivo), estamos tornando-os menos capazes de pensar o espaço e de se situar no mundo.

Pior ainda: ao fazer isso, restringimos o círculo social das nossas crianças. Elas interagem com menos gente e todas são muito parecidas entre si (é na rua que as diferentes classes sociais se encontram). Isso também é uma falta de estímulo, e também determina indivíduos que, quando crescem, serão menos capazes de conviver com a diversidade. Num mundo globalizado, essa habilidade é fundamental para ter sucesso.

Outro efeito é que, por passar menos tempo nas ruas, nossas crianças tornam-se menos felizes. Uma pesquisa de 2008 (Stutzer & Frey) mostra que, estatisticamente, pessoas que passam muito tempo dentro de carros são mais infelizes e têm menor capacidade de encontrar sentido na vida.

Resolver esse problema, na minha opinião, deveria ser a maior preocupação do prefeito de São Paulo. Para mim, se uma cidade reduz a capacidade cognitiva e a felicidade de suas crianças, não se pode dizer que seja uma cidade boa. Nada pode ser mais importante que isso.

Daqui a 4 anos, haverá Copa do Mundo no Brasil. A abertura, aparentemente, será em São Paulo.

Gente do mundo inteiro virá para cá. Eles vão andar pelas ruas de São Paulo e vão notar uma coisa: não há crianças brincando na rua.

Outro dia conheci alguns jovens arquitetos que têm um projeto interessante que lida com essa questão. A ideia básica é criar a “linha verde”, uma rede de parques lineares, construídos no meio de ruas secundárias, cercados de árvores, com uma grande ciclovia e vários espaços de lazer (cinemas, mesas de jogos, bibliotecas, quiosques, futebol, vôlei, taco, bocha). Essa linha verde ligaria todas as atrações do centro expandido da cidade – museus, estádios, praças e parques, monumentos, ruas comerciais. Ligaria também estações do metrô e poderia ser um bom caminho para chegar de qualquer lugar a qualquer lugar no centro expandido. Seria um espaço público, no qual a cidade se encontraria.

O projeto não sairia muito caro e seria viável ter o sistema basicamente pronto a tempo para a Copa. Os arquitetos nem fazem questão de ser remunerados: ficariam satisfeitos em ver a ideia implantada. A cidade não perderia nenhuma pista de circulação para os carros – só teríamos que abrir mão de vagas de estacionamento no meio-fio.

Não sei você, mas eu acho que a felicidade das nossas crianças vale mais do que o espaço para estacionar o carro de alguém. Voto em implantarmos esse projeto.

Prefeito, você tem uma ideia melhor para lidar com esse problema?

Por Denis Russo Burgierman

12/07/2010

às 16:52 \ Cidade

Nós não somos dinamarqueses

Em 1962, Copenhague, a capital dinamarquesa, foi tomada por uma polêmica. Estava nos jornais:

“Nós não somos italianos”, dizia uma manchete.

“Usar espaços públicos é contrário à mentalidade escandinava”, explicava outra.

O motivo da polêmica:

Um jovem arquiteto chamado Jan Gehl, que tinha conseguido um emprego na prefeitura meses antes, estava colocando suas manguinhas de fora. Gehl, que tinha 26 anos e era recém casado com uma psicóloga, vivia ouvindo dela a seguinte pergunta: “por que vocês arquitetos não se preocupam com as pessoas?”. Gehl resolveu preocupar-se. E teve uma ideia.

Havia em Copenhague uma rua central, no meio da cidade, cheia de casas imponentes e de comércios importantes. Era uma rua que tinha sido o centro da vida na cidade desde que Copenhague surgiu, no século 11 – a rua viva, onde as pessoas se encontravam, onde conversavam, onde os negócios começavam, os casais se conheciam, as crianças brincavam, a vida pública acontecia. Nos anos 1950, os carros chegaram e aos poucos essa rua foi virando um lugar barulhento, fumacento e perigoso. As pessoas já não iam mais lá. Trechos inteiros tinham sido convertidos em lúgrubes estacionamentos.

Pois bem. Aquele jovem arquiteto tinha um plano: fechar a rua para carros.

Copenhague não aceitou facilmente a novidade. Os comerciantes se revoltaram, alegaram que os clientes não conseguiriam chegar. São dessa época as manchetes de jornal citadas no começo do texto. O que os jornais diziam fazia algum sentido: Copenhague não é no Mediterrâneo. Lá faz frio de congelar – o mês de dezembro inteiro oferece um total de 42 horas de luz solar. Ninguém quer andar de bicicleta, ninguém quer caminhar. Deixe meu carro em paz.

Mas o jovem arquiteto ganhou a disputa. Nascia o Strøget, o calçadão de pedestres no meio da cidade que hoje é a maior atração turística de Copenhague. As pessoas adoraram a rua para pedestres desde que ela foi fundada. Na verdade, o comércio da região acabou lucrando muitíssimo mais, porque a área ganhou vida e gente passou a caminhar por lá a todo momento. É até lotado demais hoje em dia.

O arquiteto Gehl caiu nas graças da cidade e continuou colaborando com a prefeitura. Suas ideias foram se aprimorando. Ele descobriu que o ideal não é segregar pedestres de ciclistas de motoristas: é melhor misturá-los. Alguns de seus projetos mais interessantes são ruas mistas, nas quais os motoristas sentem-se vigiados e dirigem com um cuidado monstro. Outra sacada: que essa história de construir ruas para diminuir o trânsito é balela. Quanto mais rua se constrói, mais trânsito aparece. Quanto mais ciclovia, mais gente abandona o carro.

Em grande medida graças às ideias de Gehl, Copenhague é a grande cidade europeia com menos congestionamentos. 36% dos deslocamentos são feitos de bicicleta, mesmo com o clima horrível de lá, e a população tem baixos índices de obesidade e doença cardíaca.

“Copenhaguizar” virou um verbo: significa tornar uma cidade mais agradável à maneira de Copenhague. Jan Gehl abriu um escritório de arquitetura cuja filosofia é “primeiro vem a vida, depois vêm os espaços, depois vêm os prédios”. Ele passou a ser contratado por várias cidades australianas interessadas em “copenhaguização”. Seus projetos revolucionaram Sidney, Perth e Melbourne, tornando seus centros mais divertidos, cheios de cafés, arte e vida, reduzindo carros, atraindo gente para fora de casa. De uns tempos para cá, Gehl, que hoje tem 74 anos, passou a ser procurado pela “big league” das cidades: Londres e Nova York o contrataram como consultor para transformar seus espaços urbanos. Ambas têm feito muito desde então.

Enquanto isso, aqui na minha cidade, se alguém fala em melhorar o espaço público, logo ouve:

“Nós não somos dinamarqueses. Usar espaços públicos é contrário à mentalidade brasileira.”

50 anos atrasado.

Outra frase que se ouve muito aqui:

“Brasileiro adora carro.”

Adora nada, meu filho, presta atenção. Isso é propaganda de posto de gasolina!

Por Denis Russo Burgierman

25/06/2010

às 19:47 \ Cidade

Cidade ilógica

Falei na segunda-feira sobre o site que lançamos discutindo São Paulo e como adaptá-la às inevitáveis mudanças climáticas. Deixa eu aproveitar para mostrar para vocês um videozinho que fizemos, obra do pessoal talentoso da Cia de Foto.

Por Denis Russo Burgierman

24/05/2010

às 16:14 \ Cidade

De quem é a rua?

Alvo?

Passa carro, passa carro, passa carro, passa carro, passa carro, passa carro, passa carro, passa carro. Abre pro pedestre, corre, 2, 1, 0. Passa carro, passa carro…

Saiu hoje na Folha que o pedestre tem em média 15 segundos para atravessar uma avenida. Está muito claro que as ruas são dos carros. Pedestres podem usá-las comedidamente, mas apenas se prometerem não atrapalhar.

15 segundos para atravessar significa que, ainda que você esteja muito atento e coloque o pé na rua no mesmo segundo em que o sinal abrir, terá que andar a 1,2 m/s para chegar do outro lado antes que o sinal abra – 50% mais rápido que a dita “velocidade de caminhada” (que é 0,8 m/s). Ou seja, há que correr. O pessoal da Companhia de Engenharia de Tráfego diz que é “mais que suficiente”. Verdade. Dá tempo. Desde que o sujeito esteja atento. Desde que ele se mova rápido. Desde que o motorista respeite o sinal. O que nem sempre acontece.

Em 2009, o trânsito de São Paulo matou 1.382 pessoas. Só 222 eram motoristas. 671 eram pedestres. A maioria deles morreu em cima da faixa de pedestres. 30% das vítimas eram idosos, cuja velocidade é menor. Morre mais gente no trânsito do que por homicídio na cidade. Homicídios tendem a se concentrar na população de jovens adultos homens. Já as mortes no trânsito costumam privilegiar os mais fracos: idosos e crianças entre eles.

A gente está cansado de ouvir essas estatísticas. Cansado de ouvir comparações estapafúrdias. Que o trânsito de São Paulo mata mais em 4 meses do que toda a Guerra do Golfo matou nas forças ocidentais. Que mata mais do que o conflito da Palestina. Mata mais do que malária e dengue somados matam no Brasil inteiro.

Levando-se tudo isso em conta, não é curioso que a gente continue achando que o problema do trânsito é apenas sua lentidão? Os jornais diários e as revistas (incluindo a Vejinha) sempre fazem matérias sobre os buracos no asfalto, mas raramente comentam os buracos nas calçadas. Os projetos da prefeitura visam a aumentar o fluxo de carros. Só.

A prefeitura de São Paulo acabou de anunciar que, a partir de 2012, vai acabar com as vagas de estacionamento no meio fio. Motoristas vão ter que parar em estacionamentos fechados. Para quê? Para aumentar o fluxo de carros.

Ok, é óbvio que os carros precisam andar. Mas será que o foco não deveria ser diminuir a quantidade de carros? E se o prefeitura pegasse um quinto do espaço liberado no meio fio e criasse ciclovias? Isso faria as ruas infinitamente mais seguras para ciclistas. Certamente haveria uma explosão das bicicletas na cidade e o número de carros diminuiria (hoje, com o caos atual, já há mais gente se deslocando de bicicleta do que de táxi).

Tenho ouvido sugestões ainda mais criativas. Por exemplo: e se a prefeitura desse descontos no preço do aluguel de quem morar perto do trabalho? Assistencialismo!, já ouço berrarem. Na verdade não: é um jeito de economizar dinheiro público. Investir em diminuir os deslocamentos na cidade sai mais barato do que construir metrô.

E, ainda que não saísse… Por que é que o trânsito, que mata mais brasileiros do que a aids, a diarreia ou o câncer de pulmão, não vira prioridade para a saúde pública? Como é que o carro, que mata mais que o revólver, não tem seu uso controlado?

Foto: yuri__lima (Flickr / CC)

Por Denis Russo Burgierman

17/05/2010

às 18:33 \ Cidade

Aqui não é Paris

Talvez você conheça a sensação. Caminhar pelos bulevares de Paris, fazer uma pausa num café, sentar num banco de praça, ver a vida passar, os senhores elegantes carregando baguetes no sovaco, as moças lindas pedalando bicicletas coloridas. Ou sei lá: caminhar pelas avenidas de Nova York, entre galerias de arte e lojas de design. Pelos becos e pontes de Veneza. Pelas ruas de pedra de Roma. Mas… Caminhar em São Paulo?

Aqui não, óbvio. Aqui não é Paris. Aqui se vive a vida, se paga as contas, se anda com pressa. De carro. Janela fechada. Insulfilm. E, se alguém distrair na nossa frente, buzina nele.

Anteontem, resolvi ser turista em São Paulo. Eu e minha esposa, a Joaninha, pegamos nossas bicicletas e fomos para o centro. Era noite de Virada Cultural. Para quem não é daqui, explico: trata-se de um evento incrível, que já acontece há 6 anos. As ruas do centro são fechadas para os carros, dezenas de palcos são montados e, por 24 horas, da tarde do sábado à tarde do domingo, a cidade é tomada por música e arte e festa.

São Paulo, vista com olhos de turista

Joaninha e eu curtimos a festa até dar sono. Aí procuramos um hotel e nos hospedamos. Acordamos de manhã, passeamos um pouquinho a pé, tiramos fotos, vimos shows, comemos em restaurantes tradicionais, sentamos em bancos de praça. E voltamos para casa como quem tivesse passado um fim de semana em… Sei lá… Paris?

Havia 4 milhões de pessoas na festa (segundo os números oficiais, dos quais duvido um pouquinho). Todo mundo a pé. Como acontece todo ano, a Virada me encheu de esperança de que São Paulo tenha jeito.

Mais do que tudo, andar pelas ruas bloqueadas para o trânsito deixa uma coisa clara: é impressionante o mal que os carros fazem à cidade. Com eles, não dá para ser feliz nas ruas: as buzinadas, a fumaceira e a constante possibilidade de ser atropelado não deixam. E aí fico pensando nas melhores cidades do mundo… Nas grandes capitais europeias os carros estão em minoria no meio de gente caminhando. Nos EUA, a cultura do carro é mais forte. Mas, não por acaso, as duas cidades mais agradáveis – Nova York e San Francisco – são justamente as duas que são exceção a essa regra e que mais impõem limites aos motoristas. (Já sei o que vão dizer: que Paris e Nova York têm transporte público decente, enquanto SP praticamente nos força a usar carro. Mas, com os corredores de ônibus e as novas linhas do metrô, isso não é mais tão verdade assim).

Por mim, São Paulo não precisa de mais faixas na Marginal. Precisa é cobrar pedágio de quem entulha a rua com carros. Precisa é radicalizar a opção por transporte público: reduzir à metade as faixas para carros individuais, aumentar o espaço dos ônibus, das bicicletas, dos pedestres.

No final da tarde de domingo subimos a ladeira para a Paulista e de lá morro abaixo para Pinheiros, onde moramos. Foi um choque reencontrar os motoristas espaçosos, indignados com as bicicletas que ocupam uma faixa inteira da avenida. Fiquei pensando… Quantos deles adoram passar as férias em Paris? Por que é que a gente admite viver bem nas férias, mas não se permite nem sonhar com uma vida decente aqui na nossa cidade?

Foto: Joana Amador (CC)

Por Denis Russo Burgierman
 

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