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05/10/2009

às 16:12 \ Saúde

Farinha de trigo, açúcar e cocaína

Se um dia alguém resolver erigir um monumento em praça pública às boas intenções frustradas do pensamento científico, podia ser uma estátua monumental de um prato cheio de pó branco. Assim homenagearíamos de uma só vez três enganos cientificistas: a farinha de trigo refinada, o açúcar branco e a cocaína. Três pós acéticos e quase idênticos, três frutos do pensamento que dominou o último século e meio: o reducionismo científico. Três matadores de gente.

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Não é por acaso que os três são tão parecidos. Todos eles são o resultado de um processo de “refino” de uma planta – trigo, cana e coca. Refino! Soa quase como ironia usar essa palavra chique para definir um processo que, em termos mais precisos, deveria chamar-se “linchamento vegetal” ou algo assim. Basicamente se submete a planta a todos os tipos de maus-tratos imagináveis: esmagamento entre dois cilindros de aço, fogo, cortes de navalha, ataques com ácido. Até que tenha-se destruído ou separado toda a planta menos a sua “essência”. No caso do trigo e a da cana, o carboidrato puro, pura energia. No caso da coca, algo bem diferente, mas que parece igual. Não a energia que move as coisas do carboidrato, mas a sensação de energia ilimitada, injetada diretamente nas células do cérebro.

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Começou-se a refinar trigo, cana e coca mais ou menos na mesma época, na segunda metade do século 19, com mais intensidade por volta de 1870. No livro (que recomendo muitíssimo) “Em Defesa da Comida”, o jornalista Michael Pollan conta como a tal “cultura ocidental” adorou a novidade. Os cientistas ficaram em êxtase, porque acreditavam que o modo de compreender o universo é dividi-lo em pequenos pedacinhos e estudar um pedacinho de cada vez (esse é o tal reducionismo científico). Nada melhor para eles, então, do que estudar apenas o que importa nas plantas, e não aquele lixo inútil – fibras, minerais, vitaminas e outras sujeiras. Os capitalistas industriais também curtiram de montão. Um pó refinado é super lucrativo, muito fácil de produzir em quantidades imensas, praticamente não estraga, pode ser transportado a longuíssimas distâncias. A indústria de junk food floresceu e sua grana financiou as pesquisas dos cientistas, que, animadíssimos, queriam mais.

Sabe por que esses pós refinados não estragam? Porque praticamente não têm nutrientes. As bactérias e insetos não se interessam pelo que não tem nutriente.

Os três tem efeito parecido na gente. Eles nos jogam no céu com uma descarga de energia e, minutos depois, nos deixam despencar. Aí a gente quer mais. Como eles foram separados das partes mais duras das plantas – as fibras – nosso corpo os absorve como um ralo, de uma vez só. Seu efeito eletrificante manda sinais para o organismo inteiro, o metabolismo se acelera.  Aí o efeito vai embora de repente. E o corpo é pego no contrapé.

Cocaína, farinha e açúcar eram O Bem no final do século 19. Eram conquistas da engenhosidade humana. Eram a prova viva de que a ciência ainda iria conquistar tudo, de que o homem é maior do que a natureza, de que o progresso é inevitável e lindo. Cocaína era “o elixir da vida”. Nas palavras publicadas numa revista do século 19, “um substituto para a comida, para que as pessoas possam eventualmente passar um mês sem comer.” Farinha e açúcar davam margem a fantasias de ficção científica, como a pílula que dispensaria o humano do ato animal e inferior de comer.

O equívoco da cocaína ficou demonstrado mais cedo, já nas primeiras décadas do século 20. De medicamento patenteado pela Bayer, virou “droga”, proibida, enquanto exterminava uma população de viciados. A proibição amplificou seus males, transformando-a de algo que afeta alguns em algo que machuca o planeta inteiro, movendo a indústria do tráfico, que abastece quase todo o crime organizado e o terrorismo do globo.

Levaria muito tempo até que os outros dois comparsas fossem desmascarados. Até os anos 1990, farinha e açúcar ainda eram “O Bem”, enquanto “O Mal” era a gordura, o colesterol. Os médicos recomendavam que se substituisse gorduras por carboidratos e o mundo ocidental se entupiu de farinha e açúcar. Começou ali uma epidemia de diabetes tipo 2, causada pelas pancadas repentinas que farinhas e açúcar dão no nosso organismo. Começou também uma epidemia de obesidade. Sem falar que revelou-se que açúcar e farinha estão envolvidos no complô para expulsar frutas, folhas e legumes dos nossos pratos, o que está exterminando gente com câncer e doenças cardíacas. Como câncer e coração são as maiores causas de morte do mundo urbanizado, chega-se à constatação dolorosa: farinha e açúcar são na verdade muito mais letais do que cocaína. É que cocaína viciou poucos, mas açúcar e farinha viciaram quase todo mundo.

Agora os três pós brancos são “O Mal”. A humanidade está mobilizada para exterminá-los. Há até uma nova dieta vendendo toneladas de livros pela qual corta-se todos os carboidratos da dieta e come-se apenas gordura.

Em 1870, caímos na ilusão de que era possível “refinar” plantas até extrair delas o bem absoluto, apenas para nos convencermos décadas depois de que tínhamos criado o mal absoluto. Mas será que o problema não é essa mania humana de separar as coisas entre “O Bem” e “O Mal” em vez de entender que o mundo é mais complexo que isso e que há bem e mal em cada coisa? Trigo, cana e coca, se mastigados inteiros – integrais – são nutritivos e inofensivos e protegem contra doenças crônicas. Precisamos parar de tentar “refinar” a natureza e entender que ela é melhor integral.

Por Denis Russo Burgierman

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19 Comentários

  1. luvisnai

    -

    17/08/2014 às 17:59

    Muito obrigado pela coragem de falar sobre o veneno refinado nosso de cada dia!!!!
    Temos outros carboitrados como os tubérculos assim que os índios se alimentavam

  2. Mônica Nóbrega

    -

    30/04/2014 às 12:14

    Texto excelente, de grande impacto e de grande poder de alerta. Denis é preciso, objetivo e inteligente. Meu respeito.

  3. Daisy

    -

    04/04/2014 às 15:55

    Parabéns pela excelente matéria. Adorei e vou mostrar aos amigos.

  4. Edson da Silva Bezerra

    -

    14/02/2014 às 14:53

    Gostei,um argumento bem embasado e verdadeiro.

  5. Edson da Silva Bezerra

    -

    14/02/2014 às 14:53

    Gostei um argumento bem embasado e verdadeiro…

  6. Diego Siqueira

    -

    06/02/2014 às 2:37

    Eu devia te processar pela perda do meu tempo. ;)
    Usualmente eu tenho usado-o mal, mas ler esta matéria foi dolorido.
    Quero fontes!!!
    O refino de açúcar e farinha tem a função (entre outras) de aumentar a durabilidade. Se tu tivesse o mínimo de bom senso entenderia que isso é fundamental em termo de logística/distribuição/venda.
    O problema não é o seu consumo per se, mas o consumo exacerbado.
    De boa, mais cuidado entre o limiar do que queres que seja verdade e do conhecimento científico.
    Abração

  7. Leila Alves de Lima

    -

    30/10/2013 às 13:14

    DEUS te abençoe hoje e sempre e todos ao teu redor! Promovendo o melhor de se viver para quem não conhece(nós os leitores)imagino para os que são da família e amigos…não deve ter ínimigos,se tem!até as dicas de saúde com certeza,estão anotando…e sem olhar a quem o que voce pública são ALERTAS de saúde para o nosso BEM ESTAR. Obrigada!

  8. Ney TUDE

    -

    19/08/2013 às 15:11

    Por isso aderi à dieta paleolítica, reservando um dia pro lixo

  9. Ana Carolina

    -

    09/03/2013 às 23:32

    Oi, como vc disse, quase tudo que comemos tem farinha de trigo e açucar. Como nao dá para viver na cidade só de frutas e legumes, até porque estao cheios de agrotóxicos, quais seriam as alternativas mais saudáveis?

  10. Mauricio

    -

    30/01/2013 às 14:27

    Denis, você já leu os livros Ciência do Bom Viver, Conselhos Sobre Saúde e O Grande Conflito? Há 150 anos isso tudo já havia sido predito.
    Abrs

  11. Vivi Lemes

    -

    02/09/2012 às 22:20

    oiii
    lendo seu texto só agora milênios depois de publicada, mas tudo bem. leio sobre nutrição desde a pré adolescência, quando comecei a me preocupar com o peso e acabei aprendendo muito sobre comida. desde aquela época eu tinha chegado a conclusão de que a farinha de trigo não era lá essas coisas. Gostei muito do seu texto, vou difundir a ideia por aí e continuar tentando reduzir o ingrediente da minha alimentação (venho de família italiana…).

  12. Ricardo

    -

    01/09/2012 às 17:21

    Eu já desconfiava de tudo isso, por experiência própria. Sempre comi essa tal farinha, pensava que não comendo gordura animal, eu estava protegido de todo mal. Mas após ser internado com um pré infarto, dores no peito e sobrepeso de 30 kg, resolvi abolir de vez da minha vida essa droga que é a farinha e o açucar, todos os sintomas passaram, agora já estou depois de 2 meses com 12 kg a menos, durmo melhor e tenho mukta disposição. Consegui descobrir tudo isso a tempo. Mas a industria alimenticia dos pães, bolos e doces não estão nem um pouco interessada na divulgação destas constataçõs. Por isso ainda muita gente vai ser vítima do pó branco que parece tão ingenuo, mas é um matador tão potente quanto a cocaína.

  13. Adoniran

    -

    28/07/2012 às 2:20

    Texto raso.
    Cadê a fundamentação teórica desse material? É tudo aqui realmente a opinião pessoal do redator ou é impresão minha?
    Finalizar a matéria com “precisamos parar de tentar ‘refinar’ a natureza e entender que ela é melhor integral” foi o ó do borogódó do senso comum.
    Parabéns por mais essa, revista VEJA! Fiasco total.

  14. Natanael

    -

    13/07/2012 às 14:54

    Sugiro que se informem sobre “economia baseada em recursos”, uma alternativa à atual economia monetária e que tem ganhado força nos últimos anos. É uma economia que justamente considera o planeta como um todo, sem reducionismos e calcada na abundância, eficiência e sustentabilidade, coisas que não vemos na atual economia monetária, baseada na separação por países e que necessita que tudo seja escasso para ter valor e “quebre” para ser vendido perpetuamente. Informem-se, é a nossa chance para inclusive termos abundância de alimentos realmente saudáveis!

  15. aprecido

    -

    12/05/2012 às 22:08

    achei muito boa essa materia

  16. Maria Angela Andreis

    -

    25/03/2012 às 7:32

    Muito bom seu texto sobre esses “produtos alimentícios”, que
    de alimento não tem nada. Servem apenas para provocar obesidade e dabetes. E o pior de tudo está no glúten da farinha de trigo, verdadeiro veneno para quem quer ter saúde. Não é apenas para os celíacos que o glúten faz mal.

  17. Suely

    -

    19/03/2012 às 1:17

    Ótimo, o artigo, com excessão da frase da filosofia mística do yng-yang ( bem no mal e vice-versa) que não tem nada a ver ( pois há, SIM, a separação do bem e do mal, senão seria tudo uma bagunça!!), todo o restante do estudo sobre os pós brancos é muito esclarecedor e bom! Grata.

  18. Tiago Rafael

    -

    02/03/2012 às 16:00

    Muito boa ,toda a matéria esta esclarecedora e faz muito sentido. Obrigado veja! Vou mudar meus hábitos.

  19. Fabricio

    -

    03/01/2012 às 0:40

    como ninguem comentou aqui!

    esse artigo está de parabéns, e é justamente o que eu estava procurando da farniha de trigo, e não procurando mas encontrando aqui, sobre o açucar! parabéns

 

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