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20/05/2009

às 14:53 \ Política

A outra corrupção

Um tipo de corrupção na política você conhece bem: é a corrupção dos políticos. É aquela dos mensalões, dos mensalinhos, da compra de votos, do desvio de impostos, da apropriação de verbas públicas para tirar férias, do uso indevido de apartamentos funcionais, das comissões em obras públicas. É se aproveitar do acesso ao poder para tirar vantagens próprias, para enriquecer, para favorecer seu grupo. É uma doença, que no Brasil atinge níveis epidêmicos.

Mas tem um outro tipo de corrupção na política da qual nós nunca falamos: é a corrupção do sistema político. Não se trata de surrupiar o bem público. Trata-se de tomar decisões com base em influências questionáveis, e não com vista no que é melhor para resolver problemas e melhorar o país. Trata-se de um sistema que funciona melhor para uns do que para outros. De um sistema que deveria nos representar, mas não nos representa. Não se trata de fazer coisas ilegais – trata-se de fazer coisas ilógicas, estúpidas, contraproducentes. Trata-se de um sistema político que não nos representa, que não foi construído para funcionar. Essa doença não é uma epidemia só no Brasil: é uma pandemia, que existe em algum grau em todas as partes do mundo.

Quem formulou esse conceito (de corrupção do sistema político) foi o americano Lawrence Lessig, na época professor de direito de Stanford, hoje transferido para Harvard. Lessig começou a vida pública como um tipo de “militante digital”. Foi ele que comandou o movimento Creative Commons, que pregava um novo modelo de direito autoral, menos injusto e anti-democrático e mais libertário que o tradicional. Em 2007, Lessig anunciou que estava mudando de área: estava deixando a liderança do movimento CC para se dedicar a arrumar soluções para a tal corrupção do sistema político.

Lessig criou então, em 2008, o movimento Change Congress, uma espécie de “selo de qualidade” para políticos, que é dado, independentemente de partido político, para todo mundo que assuma o compromisso de apoiar uma série de medidas. Todas essas medidas têm a ver com aumentar a transparência, usando as novas tecnologias para que os eleitores saibam como as decisões são tomadas, abrindo o processo eleitoral, fazendo força para diminuir a influência dos grandes doadores, aumentando a conexão entre eleitor e político. Tentando fazer que política seja um grupo de representantes da sociedade discutindo ideias para melhorar as coisas, e não um bando de marketeiros que só pensam em votos e em agradar financiadores de campanha. O Change Congress está liderando agora uma “greve de doações” para políticos: eles propõem que ninguém dê dinheiro para candidatos que não façam a promessa de apoiar a mudança do sistema de financiamento de campanhas.

Lessig e seu movimento são vistos como utópicos, claro. São acusados de ignorar um fato básico da vida: cada político só quer saber de garantir o seu e é o dinheiro que move todos.

Pode ser.

Mas mudança tem que começar de algum jeito. E cinismo em relação às possibilidades de mudar só interessa a quem está chafurdando na lama e gostando.

Nosso sistema político, além de corrupto, ineficaz e às vezes surreal, é totalmente baseado num modelo do século 19. Vivemos numa sociedade tecnológica, temos conhecimento científico profundo sobre comportamento humano, sabemos muito mais sobre o mundo do que qualquer um poderia prever um século atrás. Sei que é urgente consertar os problemas do sistema político que temos. Mas será que não é hora de sermos muito mais ambiciosos? Será que não é hora de começar a pensar em criar um sistema político novo, um que não esteja corrompido logo de saída? Será que o problema são os políticos malandros? Ou será que é o sistema que é tão ruim que acaba atraindo apenas a pior laia de gente?

Lessig sorri para uma foto Creative Commons

Lessig sorri para uma foto Creative Commons

Foto: Flickr/Joi (CC)

Por Denis Russo Burgierman
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