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Seja a mudança

terça-feira, 3 de novembro de 2009 | 0:01

shirky

A frase é de Gandhi: “seja a mudança que você quer ver no mundo”.

Não, não esqueci do que aprendi na faculdade de jornalismo: jamais começar um texto citando Gandhi, Einstein ou Chaplin se você quer ser levado a sério neste mundo cínico. Sim, esse pessoal fala coisas bonitas, mas eles não são “pragmáticos”. São “ingênuos”, desconectados das realidades do mercado, ignorantes das sujeiras da política, sonhadores, poetas, bobocas.

Mas não resisti. Lembrei de Gandhi quando estava lendo um outro autor, Clay Shirky, um teórico dedicado a entender as mudanças que estão acontecendo no mundo hoje em dia (autor do ótimo livro na foto acima). Shirky tem uma tese interessante: a de que, quando uma grande revolução acontece, as velhas estruturas desabam rapidinho, mas demora anos, às vezes décadas, para as novas estruturas surgirem (quando Gutenberg inventou a imprensa, os escribas reclamaram por décadas da baixa qualidade da escrita que isso provocou).

É exatamente isso que está acontecendo hoje em dia. Institiuições antigas, aparentemente eternas, estão desabando – os grandes jornais do mundo estão em crise de identidade, a indústria automobilística está tendo que se reinventar, os governos têm que redefinir sua atuação, as profissões mudam todos os dias. Estamos perdidos, sem referências, sem ter no que acreditar. As ideologias do século 20 se transformaram em teorias sem conexão com o mundo real.

Isso é tremendamente angustiante. De repente, tudo aquilo em que acreditávamos está evaporando. O mundo está mudando tão rápido, todos os dias, que fica difícil ter crenças. Fica difícil saber o que é certo e o que é errado. E os cínicos – esse pessoal que adora apedrejar qualquer um que esteja bem intencionado – fazem a festa no meio da confusão.

Mas o fato é que viver no meio de uma revolução, se por um lado é complicado, é também um baita privilégio. Significa que vivemos uma época de construir coisas, de criar, de propor. Não é hora de ser cínico. Não temos tempo para isso. Nossa geração tem um papel fundamental: o de criar as estruturas sobre as quais se assentará nosso novo modelo de sociedade.

Esse trabalho – o de reconstruir o mundo – é um empreendimento coletivo. Nesse mundo de hoje, absurdamente fragmentado, no qual qualquer pessoa tem acesso ao resto do mundo via internet, todos têm um papel – não apenas os políticos, os empresários, os intelectuais, os “líderes”. Todos nós estamos envolvidos no projeto coletivo e inevitável de mudar o mundo.

O mais divertido é que não há cartilha para seguir. Ninguém sabe para onde ir. Depois da queda do muro de Berlim, do colapso do clima e da crise mundial, restou apenas uma certeza: a de que precisamos de um rumo novo. Que rumo é esse? Cabe a cada um de nós propor. O resultado, imprevisível, será a combinação de bilhões de contribuições.

Nosso papel então é imaginar o que queríamos que o mundo fosse e trabalhar para implantar essa visão. No final, certamente o mundo não vai ser como eu quero, ou como você quer. Mas cada um de nós tem a capacidade de empurrar um pouquinho a História para o lado que prefere. Tem gente fazendo isso em tempo integral, trabalhando por uma causa, por uma ideia, por uma inovação, por um projeto. Tem gente fazendo isso de noite, depois de voltar do trabalho. Tem gente fazendo isso nas horas de lazer. Tem gente fazendo isso nas relações pessoais, na vida em família, no bairro, no trânsito.

Tem gente fazendo coisas imensas, importantes, transformadoras. Tem gente colaborando com o pouquinho que está ao seu alcance. Eu, por exemplo, sinto-me bem ao andar de bicicleta em São Paulo porque sei que, estatisticamente, quanto mais bicicletas houver na rua, mais seguro o trânsito será para todos os ciclistas. Temos esse poder: o de alterar a paisagem. Cada novo ciclista na rua melhora a vida dos outros.

É uma contribuição minúscula, mas é isso que nos resta neste mundo, e devíamos ficar satisfeitos. É uma boa notícia. Não há mais grandes ideologias. Não há mais grandes autoridades. Só o que há é isso: um conjunto de bilhões de pessoas, cada uma delas modificando um pouquinho a paisagem. Se a maioria de nós ficar imobilizada pela ansiedade e pelo olhar crítico dos cínicos, construiremos pouco. Se cada um fizer seu pouquinho, temos boas chances de ficarmos bem orgulhosos do resultado.

Por Denis Russo Burgierman

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61 comentários em “Seja a mudança”

  1. Felipe Araujo disse:

    A humanidade comete o incrível engano de entender que de alguma forma no passado já foi mais humanista, civilizada e de uma forma geral melhor. Eu como jovem me pergunto a qual época esses cínicos e falsos moralistas se referem. A mudança não é apenas constante , como é necessaria e incontrolável.

  2. Wolf disse:

    Denis, antes de Gandhi, os chineses salvo engano já diziam: Antes de começar o trabalho de mudar o mundo, dê três voltas dentro de sua casa. (Provérbio chinês). Isso é ter consciência, e cínicos, hipócritas e sociedade de classes e de consumo são carentes disso. Para se ter consciência, tem que se levar uma tijolada da vida, e olhe lá. E por falar em consciência, um videozinho que acredito, você já conhece: http://www.youtube.com/watch?v=DRJqrLd7MrE

  3. Larissa Veloso disse:

    Pois é, o problema é definir se devemos fazer essa mudança como trabalho ou depois do trabalho…

  4. carlos disse:

    Denis. Acho que vc e alguns de seus leitores esta usando a expressão errada. Cínico não cai bem, talves hipócrita. Mas se não fosse a hipocresia não existiria sociedade.
    Mas estou escrevendo para dizer exatamente o contrário do que disse o Berlato. O mundo seria muito melhor se as pessoas não tivessem ídolos como einstein, gandi, etc.., ia esquecendo, dalai lama. Esse dalai, especialmente, tenho uma antipatia de outras encarnações. Não sai de hotel 5 estrelas.
    Já que é para ter exemplos de pessoas que de fato fazem a diferença, eu ficaria com bil gates, ford, ermílio, etc…. além é claro, dos famosos historicamente já citados, como nilton, darvim, marx, betouvem, etc..
    Esse pessoal que vc elegeu como exemplo tem muito marketing e pouco resultado prático.

  5. berlatto disse:

    Prezado Denis! Gostaria de perguntar ao leitor Leonardo Nunes, qual a empresa que ele considera ética no jornalismo brasileiro. Já que acha que a Editora Abril não é.Será aquela dita chapa branca ou a soldo que só sabe contar as glórias do governo de plantão? Jornalismo independente e corajoso é para poucos no Brasil. Vou mais longe e questiono. Voce acha a Record do Bispo, ética? A minha “doutrina” é a democracia, o livre pensamento, o direito a propriedade, ética na politica, o fim de ideologias jurásicas, tanto de esquerda, direita ou sei lá o que mais. Para finalizar meu caro Denis diria o seguinte: O planeta Terra estaria bem mais adiantado, se Gandhi, Einstein, Chaplin fossem citados a toda hora como exemplos para a humanidade. Chega de cinismo e hipocrisia! Abraços.

  6. jales estevao da silva araujo disse:

    oiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii

  7. carlos disse:

    Denis. Quer ver outro aspécto interessante da luta de classes? Nega totalmente o racismo. O que existe é a ideologia do racismo. Sempre voltada contra as minorias e pobres do mundo. Trocando em miudos, o mundo é dividido em pobres e ricos. Assim, caso o poder econômico tivesse se desenvolvido na Africa negra e não na europa, o branco serio discriminado. Lembrando que os italianos foram discriminados e considerados subraças pelos ricos brasileiros no final do século 19.
    Denis. Vc tem idéia de quanto o greenpeace arrecada em doações?

  8. Cristiane disse:

    Olá!

    Muito se fala sobre o aquecimento global, consciência humana dos seus malefícios, cada um fazer a sua parte… precisamos mais que isso! Temos que ir além!
    Existe um sistema capaz (comprovado) de despoluir o ar jogado pelas chaminés e incineradores com toneladas de tóxicos, usando apenas água e equipamentos em série: Sistema Antipoluente 5F (o ar sai limpo, em temperatura ambiente e retém todos os resíduos e odores eliminados - parece mágica, mas é real). Este invento foi feito por um brasileiro que não tem apoio para levar isso adiante, acreditam? Uma coisa que todo mundo procura, pode ajudar contra o aquecimento global e ainda gera investimento para as empresas com os créditos de carbono. Temos a obrigação de colaborar para um mundo melhor!!! Vamos divulgar!!!

    Abraços,
    Cristiane

  9. Leonardo Nunes disse:

    Pobres daqueles que um dia acreditaram em “cartilha para seguir”. Hoje não é diferente, pois a necessidade de uma doutrina ainda rege a Humanidade, mas o cinismo é tanto que a própria cartilha jura não ser cartilha… Daí aparecem “executivos” de empresas como a Abril, jurando ser bem intencionados e julgando os cínicos. Burgierman, será q vc realmente acredita não ser cínico, trabalhando para a empresa menos ética do jornalismo brasileiro, citando apenas autores e publicações conservadores, a vomitar teorias no âmbito bem nascido do Primeiro Mundo?

  10. Anne disse:

    Essa frase de Gandhi sempre será coerente. Já está mais do que provado na História que a solução para os problemas sociais não está nos governos, apesar de passar por eles.
    Acredito que o novo modelo de sociedade deve ser fundamentado na educação para a Justiça. Formar homens e mulheres justos, pela palavra e pelo exemplo, já é grande coisa.

  11. Berenice disse:

    Como nao fiz faculdade de jornalismo…essa informacao a respeito do meu “trio” preferido, para mim e’ novidade. Ouso afirmar que o que voce “aprendeu” na faculdade esta’ errado. Poetas, sim. Sonhadores, talvez. Quanto ao mais…errado. Com capacidade intelectual superior a todos nos, todos os tres “conheciam” o mundo em que viviam, mas simplesmente nao podiam viver diferente pois alem de brutalmente honestos, eram na mesma proporcao inteligentes e iluminados.
    Voce fala em reconstruir o mundo. Como podemos reconstruir o que ainda nao foi destruido? As coisas ainda vao ( e precisam) piorar muito para que finalmente o Homem consiga fazer esse planeta melhor. E’ preciso que antes disso, os realmente “babacas” (provavelmente todos nos) desaparecam do planeta. O problema e’ que a “educacao formal real” e’ quase inexistente na face da terra nos dias de hoje. Tudo o que sabemos e’ que precisamos trabalhar duro, fazer dinheiro e consumir. Assim, ja estamos vivendo em uma lata de lixo. Precisamos urgente de um novo modelo que nos resgate a humanidade perdida.

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