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30/08/2010

às 16:21 \ Ideias

O Brasil é um país criativo?

Você conhece o clichê, claro. Esta aqui é a terra da criatividade. Aqui fazemos diferente. Sabemos misturar, temos flexibilidade, jogo de cintura, malemolência, isquindô, telecoteco, balacobaco.

Mas, então, por que é que nossa economia, mesmo nestes tempos de prosperidade, é tão imensamente dependente do menos criativo dos setores: o das commodities?

No país de Garrincha, criatividade ainda é vista como algo próximo da inconsequência

Commodities são produtos em estado bruto ou muito pouco industrializados. São padronizados, para que possam ser comercializados nas Bolsas em grandes quantidades. Não importa de onde as commodities vêm. Não importa se o sujeito que a produziu é criativo. Só o que importa é baixar custos, melhorar processos. Commodity é tudo igual. O Brasil é o rei das commodities: petróleo, café, suco de laranja, minério de ferro, soja, alumínio e muito mais.

Este mês, o editor da excelente revista Monocle, o canadense Tyler Brûlé, esteve em São Paulo e reclamou da falta de criatividade da economia brasileira. Cadê as marcas brasileiras? “Petrobras e Vale não chegam ao consumidor final europeu e americano e muita gente acha que a Embraer é alemã. Chegou a hora de vocês irem além das Havaianas”, disse ele na ocasião.

Veja bem. Não se trata de ser contra as commodities. Ainda bem que o Brasil é rico delas. Foi essa riqueza que fez a balança comercial pesar para o nosso lado, inundando o país de dólares e dando origem à atual prosperidade.

Mas apostar todas as fichas em commodities é arriscado e ineficaz. O metro quadrado dedicado às commodities agrícolas tem rentabilidade baixíssima. Esse mesmo espaço poderia dar muito mais dinheiro para muito mais gente se fosse dedicado a uma finalidade criativa, que “agrega valor”, em língua de gente de negócios. Já as commodities minerais, incluindo o petróleo, dão bastante dinheiro. Mas, em compensação, são imensamente voláteis e expõem a economia à instabilidade, além de degradar o ambiente brutalmente.

Fico aqui me perguntando porque é que um país tão conhecido por sua criatividade está construído em bases tão pouco criativas. Tenho uma teoria. Acho que o Brasil sempre desconfiou de sua criatividade. Os políticos e os empresários sempre viram criatividade mais como um risco do que como um valor. O foco deles sempre foi “cortar as asinhas dos criativos”, uniformizar processos, padronizar.

Isso acontece tanto no setor público quanto no privado. Um e outro são autoritários, burocratizados e tornam a vida de quem quer inovar um inferno. Falo de camarote. Já trabalhei fazendo serviço criativo para governos e grandes empresas. Tanto uns quanto outras têm sistemas – diferentes mas igualmente eficazes – montados para matar ideias novas.

Nas empresas privadas é essa mania de querer ver uma “referência” antes – só se implanta um projeto se você mostrar que alguém já fez parecido em algum país desenvolvido. Garante-se, assim, que nada novo surgirá aqui.

Nos governos são as regras de contratação, super rígidas, super desconfiadas. Regras criadas para evitar corrupção, mas que matam qualquer possibilidade de fazer coisas de um jeito diferente. Para completar, além da dificuldade de contratar, demitir é quase impossível, matando a renovação e acomodando a força de trabalho.

A sociedade, de certa maneira, compactua com isso. A imprensa, por exemplo, só sabe bater em quem propõe um jeito diferente de fazer as coisas. Os jornais estão cheios de matérias irônicas criticando políticos ou servidores públicos que propõem políticas fora do convencional. Por todo lado se reproduz a ideologia do “sempre foi assim então só pode ser assim”.

Para mim, o salto do desenvolvimento do Brasil só vai se dar no dia em que este país estiver cheio de pequenos grupos criativos, multidisciplinares, informais e ágeis, inventando coisas novas à revelia da velha classe dirigente de políticos e empresários engravatados. Só no dia em que houver aqui uma agricultura criativa, uma indústria criativa, um serviço público criativo, cidades criativas, uma economia criativa. Aí sim, o Brasil será um país criativo.

Por Denis Russo Burgierman
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