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03/01/2011

às 10:31 \ Drogas

Zumbis

Primeira coluna do ano, que beleza.

Ótima chance de fazer um texto para cima, otimista, legalzão, dizendo como o mundo é lindo e como tudo vai ficar bem se cada um de nós abraçar uma árvore. Até vim viajar, para deixar meu espírito mais leve e facilitar a positividade do texto.

Fui para o Recife. Fui para Olinda. Agora estou aqui em Lençóis, na Chapada Diamantina, na Bahia. Três cidades tão lindas. Sabe o que vi em todas as três?

Crack.

Aliás, faz muito tempo que vejo crack em toda parte. Na minha cidade, o crack conquistou um território, a famosa Cracolândia, onde o cheiro de bosta está no ar e se cruza em toda parte com meninos novinhos com cara de zumbi. No Recife, o Recife Antigo, área a muito custo restaurada pela prefeitura, vai aos poucos mergulhando de volta na decadência. As esquinas se enchem de gente fedida, a arquitetura cai aos pedaços, as ruas são tomadas por garotos de olhar vazio.

Degradação: vista comum no centro de qualquer grande cidade brasileira

Diz a teoria básica 1.0 da proibição que, quando algo é proibido, a tendência é que surjam versões cada vez mais potentes e destrutivas desse algo. Para que ficar meia hora exalando o cheiro forte de maconha se eu posso discretamente fumar crack em um segundo e ficar muito mais doido? (Há registros de que, durante a proibição do álcool nos EUA, nos anos 1920, surgiram bebidas tão fortes que matavam de overdose.)

Crack é a droga mais barata do Brasil – por 5 reais se foge facilmente da realidade. É também a que vicia mais rápido (às vezes no primeiro uso), a que causa dano cerebral permanente mais rápido (dificilmente um usuário de crack por mais de um ano tem a capacidade cognitiva intacta), a que mata mais rápido (após dois anos, ou o usuário para ou morre, do próprio uso ou assassinado pelas bobagens que comete).

Mas para que se preocupar? O Brasil proibiu as drogas, não é? Já fizemos o que podíamos, melhor não discutir mais o assunto. Vamos falar de outra coisa?

Hmmm, me contam aqui que 98% das cidades brasileiras estão tendo problemas com crack. Não apenas as pessoas estão se ferrando, mas o espaço público vai para o beleléu, os índices de criminalidade disparam, uma geração é desperdiçada. Será que ninguém percebe que esse problema seriíssimo está diretamente ligado à nossa política de drogas burra, que proíbe tudo sem fazer distinção entre drogas relativamente inofensivas e venenos mortais? Uma política de drogas que persegue apenas o pequeno varejista (como o das favelas do Rio), deixando livres os chefões: os importadores, exportadores, políticos, juízes, delegados que realmente mandam no tráfico. Esse pessoal é gente de bem, usa gravata, não dá para por na cadeia.

Até quando entregaremos nossa política de drogas para os medíocres, os hipócritas e os ignorantes? Até os zumbis comerem nosso cérebro?

Ah, esqueci… Bom 2011!

Por Denis Russo Burgierman

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