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10/01/2011

às 17:11 \ Drogas

Duas drogas

Fundamental para melhorar é aprender com os erros. Para aprender, é importante estar atento ao que acontece no mundo lá fora, em vez de viver aferrado a suas crenças de infância.

Peguemos, por exemplo, o caso de dois compostos vegetais bem diferentes mas com muito em comum: ambos são divertidos, sociais, fazem mal à saúde, fazem bem à saúde, têm uma gigantesca cultura ao redor de si, acompanham a humanidade desde a antiguidade, inspiram ideias religiosas e artísticas e fazem girar uma imensa economia. Ambos têm um tremendo efeito no corpo humano, com óbvio papel farmacêutico. Ambos são produzidos num processo delicado e cheio de sutilezas, no qual cada detalhe do cultivo faz diferença na qualidade do produto final. Um é o suco fermentado de uma fruta, o outro é um composto químico presente em uma flor. Vinho e maconha.

Até 1920, nenhum dos dois era proibido. Ambos eram facilmente encontrados em armazéns e vendinhas. Os dois tinham papeis parecidos em partes diferentes do mundo. O primeiro a ser seriamente proibido foi o vinho, nos Estados Unidos, em 1920.

A proibição do álcool no país foi consequência de um movimento de fundo religioso chamado “temperança”. Deu imensamente errado. Em muito pouco tempo, os vendedores clandestinos de álcool começaram a fazer pagamentos mensais para a polícia, a justiça e a política para operar em paz. A corrupção afetou a moral do estado e diminuiu sua capacidade de governar. Como funcionava na sombra da lei, os vendedores de bebidas logo começaram a se armar e iniciaram guerras por território. Surgiu um violento crime organizado. A qualidade das bebidas despencou, já que os produtores eram gângsters, não someliers.

Quando a Proibição do álcool acabou, após a constatação de que era cara e ineficaz, deixou uma burocracia desempregada, e essa burocracia lobiou por algo para proibir. Não demorou para eles acharem: uma erva demoníaca que enlouquecia as pessoas e fazia-as matarem os outros (esse foi um dos mitos sobre a maconha depois desmentidos).

A proibição da maconha deu tão errado quanto a do álcool. Não conseguiu reduzir o consumo (pelo contrário, ele disparou), corrompeu a Justiça, o governo e a polícia, aumentou os problemas de saúde associados à droga. Gerou um comércio cada vez mais dominado por gente violenta. Mas o pior é que os produtores e comerciantes de maconha logo começaram a procurar substâncias mais lucrativas. E um jeito de aumentar os lucros é aumentar a potência (diminuindo o custo de armazenamento e transporte e o risco de ser pego) e a taxa de dependência (fregueses viciados são ótimos para os negócios).

Não demorou para as organizações que lucram com maconha começarem a vender cocaína e heroína (da mesma forma que os vendedores de álcool ilegal dos anos 1920 foram aos pouco trocando cerveja e vinho por um rum de fundo de quintal de péssima qualidade). Hoje, grupos criminosos brasileiros fazem venda casada de maconha com crack: se você comprar maconha precisa levar também um tantinho de crack.

Hoje o vinho é um dos produtos rurais mais lucrativos do mundo, o que reduz o êxodo rural e gera uma economia fortemente artesanal que emprega muita gente. Preza-se qualidade. Enquanto isso, a maconha está na mão de bandidos, que não sabem nada de qualidade, apenas se importam em não ser pegos, maximizar lucros e disputar territórios a tiros. A indústria não dá um centavo para o estado, apenas consome recursos.

Maconha e vinho não são iguais: são compostos diferentes, com efeitos diferentes. A maconha definitivamente não faz tão bem quanto o vinho, que possui substâncias que reduzem imensamente as chances de morrer do coração. Também não faz tão mal quanto o vinho, porque causa menos dependência que o álcool, não causa lesões cerebrais permanentes nem provoca comportamento violento ou completamente irresponsável, como o álcool.

Mas será que, ao proibirmos um e vigiarmos atentamente o outro, não estamos potencializando o mal do primeiro e o bem do segundo?

A propósito: maconha adora muito sol e pouca chuva. O sertão nordestino, pedaço mais socialmente vulnerável do Brasil, poderia ser a Bordeaux dessa cultura.

Por Denis Russo Burgierman

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