13/02/2009
às 20:11Um novo vocabulário

Vou me abrir com você, compreensivo leitor: neste exato momento eu estou me sentindo um completo incompetente. Afinal, aceitei o desafio de criar este blog e passei horas apenas tentando arrumar um nome para ele. Caramba, se eu estou sofrendo tanto para bolar um mÃsero nome, como eu vou fazer para abastecer diariamente esse espaço com assuntos fascinantes, com discussões empolgantes, com desafios ao senso comum e quetais?
Bom… Não quero soar defensivo, mas você há de concordar comigo: não é tão fácil assim pensar num nome bom para uma publicação sobre sustentabilidade. Blog Verde? HorrÃvel. Por que verde? A idéia aqui não é ficar falando apenas de folhas, matas, florestas e outros praticantes da velha arte da fotossÃntese. O conceito de “verde” é limitado, incompleto. Está cheio de coisas verdes no mundo que não são sustentáveis (e não estou falando de futebol), assim como tem coisas sustentáveis de todas as cores. Cheguei a pensar em batizar o blog de “Todas as Cores”, mas achei que o leitor talvez pensasse tratar-se de um blog gay. Melhor evitar essas confusões.
Eu podia então apelar para aquelas palavrinhas de sempre: “ecologia”, “meio ambiente”… Mas acontece que elas são péssimas. Ecologia é a ciência que estuda as relações entre as espécies vivas. Não tem nada a ver com o que quero discutir aqui. Meio ambiente, além de ser uma redundância meio ridÃcula (meio e ambiente são sinônimos), também não traduz a idéia certa. Dizer que é “defensor do meio ambiente” é uma bobagem que não quer dizer nada e que revela uma visão antiga, ultrapassada da natureza: algo que deve ser mantido intocado enquanto destruÃmos sem piedade tudo aquilo que não é natureza.
Caà então inevitavelmente na tal “sustentabilidade”, mas não fiquei feliz. Poxa, mesmo a idéia de “sustentabilidade” é irritantemente pobre. Ok, é verdade que, nas últimas décadas, abusamos do direito de ser insustentáveis. Nossos sistemas econômico, polÃtico, financeiro são todos concebidos em nome do ganho imediato, deixando de lado qualquer preocupação com sua viabilidade a longo prazo – estão aà a crise econômica mundial e o hoje inegável aquecimento global para provar isso.
Mas acontece que ser sustentável, apesar de ser um bom começo, não é suficiente. É o que disse o arquiteto Mitchell Joachim, sobre quem vou falar mais esta semana. “Eu não gosto do termo”, ele disse numa entrevista à revista americana Wired. “Não é evocativo o suficiente. Você não quer que seu casamento seja sustentável. Você quer que ele seja evolutivo, enriquecedor, interessante.” Sustentável, apenas, é miseravelmente pouco.
Aà me dei conta do seguinte: estamos tão atrasados nessa discussão que não temos ainda nem um vocabulário decente para ela. É tão difÃcil encontrar um nome para este blog porque ainda nem criamos as palavras certas para falar desse assunto. Este blog aqui parte desse princÃpio: o de que precisamos urgentemente encontrar um sistema novo de idéias e de crenças. Não espere encontrar aqui, portanto, nenhuma daquelas velhas discussões – por exemplo, a arqueológica divisão entre “esquerda” e “direita”, duas palavras que não significam mais nada. Este blog vai se dedicar todos os dias ao trabalho de construir junto com seus leitores um novo jeito de pensar, um novo vocabulário. “O mundo mudou. Precisamos mudar com ele”, disse Obama no seu discurso de posse. Este blog humildemente se propõe a ajudar.
Foto: NASA / Goddard Space Flight Center


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