PUBLICIDADE

Ataque dos apaches

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010 | 16:21
apache-warrior1

Um guerreiro apache, em foto de 1903 (CC)

Quando os espanhóis chegaram às Américas, nos últimos anos do século 15, encontraram um monte de povos, vivendo os mais variados estilos de vida.

No México, deram de cara com os aztecas, e ficaram maravilhados. Sua capital, Tenochtitlan, depois rebatizada de Cidade do México, era uma cidade de 200.000 habitantes, provavelmente maior e mais imponente que qualquer metrópole europeia da época. Havia palácios, muito ouro, roupas luxuosas, uma cultura sofisticada e um líder tão poderoso quanto os reis europeus. Sua tecnologia de guerra era sofisticada (apenas um pouco menos que a dos espanhóis, que já conheciam a pólvora). Os aztecas sabiam trabalhar o metal e tinham armas capazes de perfurar armaduras espanholas.

Mais ao norte, onde hoje é o sudoeste americano, os espanhóis encontraram os apaches, e não ficaram nem um pouco impressionados. Esse povo nômade, disperso, decentralizado, era um amontoado de bandos aparentados sem hierarquia entre si, que viviam dos búfalos que conseguissem matar. Suas ferramentas eram poucas e rústicas, suas armas não iam além de flechas, lanças e machadinhas, feitas de pau e pedra. Não ergueram grandes edifícios. Quase não deixaram ruínas arqueológicas.

Pois bem. Os espanhóis derrotaram os aztecas em 10 anos. E levaram mais de 200 para imporem-se aos apaches, que mesmo depois disso continuaram incomodando os americanos que anexaram aquele pedaço do México aos Estados Unidos.

Por quê? Porque os aztecas, centralizados e hierarquizados, eram também muito menos flexíveis. Bastou aos espanhóis matar seu líder e os comandados passaram a obedecer ao rei da Espanha. Já os apaches, guerreiros, indóceis e sem líder, simplesmente não aceitaram o novo comando. Inspirados pelo exemplo dos guerreiros do passado, eles negaram-se a adotar novos valores. Não importava quantos espanhóis houvesse – enquanto um apache estivesse vivo, Madrid tinha um inimigo.

Quem me contou essa história foi o Helder Araújo, um jovem designer e empreendedor, amigo meu, citando um livro que ele leu (“The Starfish and the Spider”, de Ori Brafman e Rod Beckstrom). Helder, que é o sujeito que trouxe o TED ao Brasil (TED é o evento californiano que reúne palestras com “ideias que merecem ser espalhadas”), me contou isso enquanto discutíamos projetos que pretendemos fazer juntos. Ele acha que temos que trabalhar como apaches.

Afinal, vivemos uma época de transição (como os apaches e aztecas do século 16). Nascemos num Brasil hierárquico e desigual, insustentável e saudoso do escravismo – um país de estruturas rígidas e imutáveis. Bem azteca, portanto. O Brasil mudou muito: mais gente está conseguindo jogar o jogo. A desigualdade diminuiu, a economia estável significa que é possível empreender e a mobilidade de classes aumentou. Para complicar mais, o mundo inteiro está mudando: a grande crise do nosso modelo de sociedade significa que os gigantes que monopolizavam o mundo já não necessariamente mandam em nós. De repente, a colossal GM vê-se ameaçada por empresinhas de fundo de quintal.

No modelo antigo, o azteca, grandes empresas competem umas com as outras. Quando uma ganha, a outra perde. Aos consumidores resta escolher uma gigante e obedecer a ela.

Já no modelo apache, nem sempre é preciso competir. Trabalha-se muito mais com alianças. Uma empresinha que sabe fazer sites junta-se com uma empresinha que desenha produtos e com uma empresinha que faz filmes e de repente eles são capazes de fazer juntos coisas grandiosas. O público, em vez de mero espectador, é cada vez mais parte da aliança.

Tudo muito lindo, mas é bom não se esquecer de uma coisa: os apaches deram trabalho, mas, no final, perderam. Depois de apanhar por anos, eles finalmente sucumbiram – o golpe de misericórdia foi uma campanha deliberada para extinguir o búfalo, que liquidou o prato preferido dos apaches e, de quebra, sua identidade guerreira.

Acontece que os apaches, ao contrário de nós, não tinham internet. As novas tecnologias de comunicação significam que ficou infinitamente mais fácil se articular sem hierarquia e construir coisas grandes (apaches, ao contrário dos aztecas, não deixaram obras impressionantes).

Eu digo sempre aqui no blog que o nosso modelo de civilização está em transição – que o modelo insustentável em vigor vai dar lugar a uma outra coisa. Quando eu digo isso, às vezes me acusam de ser um stalinista saudoso, que acha que uma revolução vai colocar uma burocracia comunista no poder. Não é nada disso. Nosso modelo está é sob ataque de apaches. No lugar dele, não vai haver um outro modelo – o que vai aparecer é um monte de alternativas diferentes, decentralizadas, desierarquizadas, apenas articuladas umas com as outras por alianças baseadas em valores em comum.

Por Denis Russo Burgierman

Tags:
COMPARTILHE
Digg StumbleUpon del.icio.us Twitter
ENVIE
Email This Post

Você abre mão do quê?

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010 | 16:14

Uma vez fui a um jogo de futebol especialmente lotado – um Brasil e Argentina no Morumbi. Na saída do estádio, havia uma multidão na rua. Fiz o que costumo fazer: saí andando em frente, me enfiando entre as pessoas, certo de que uma hora eu me afastaria o suficiente do estádio para que diminuísse o aperto. Mas o aperto foi aumentando, porque as pessoas vinham de todos os lados – umas subindo a rua, outras descendo, umas por trás, outras pela frente

Até que chegamos a um impasse. Os movimentos pararam. Não havia mais como avançar, dei de cara num paredão de gente. Não havia como recuar – atrás de mim um outro paredão de gente me empurrava, ainda na esperança de avançar. Por um instante, entrei em pânico.

“É assim que se morre esmagado?”, pensei.

Mas, depois de uns longos minutos, a pressão foi cedendo. As pessoas atrás de mim conseguiram dar um passinho para trás, as pessoas à frente também. E logo eu estava longe da multidão. Não aconteceu nada de grave. Poderia ter acontecido.

torcida

Conto essa historinha banal porque ela me veio à cabeça esses dias, enquanto eu pensava no atual momento do nosso modelo de civilização. Também aqui, chegamos a um impasse. Depois de algumas décadas com cada um de nós seguindo em frente, na esperança de que tudo fosse dar certo, estamos presos, imobilizados. Parte da humanidade clama por um passinho atrás. Outra parte segue empurrando para a frente. No geral, o que se vê é a galera entrando em pânico: uma sensação de que a coisa vai feder, de que estamos sendo esmagados, de que os empurrões vão ficar cada vez mais fortes até não haver espaço nem para o ar dentro dos nossos pulmões.

A aceleração das mudanças climáticas, a aceleração das extinções das espécies, as oscilações violentas da economia mundial, o colapso das cidades, tão bem exemplificado pelo trânsito ou pelas enchentes que tomaram São Paulo, são só alguns dos sinais de que não dá mais para continuar seguindo em frente. Precisamos mudar de rumo. Precisamos trocar de modelo.

Lógico que fazer isso é mais fácil de falar do que de fazer. Somos uma multidão, e cada um de nós tem sua própria vontade. Você pode até gritar “vamos todo mundo para cá”, ou “vamos todo mundo para lá”, mas cada um decide se obedece ou não. Cabe a cada um de nós resolver se vai diminuir o ritmo ou apoiar os cotovelos no sujeito da frente e empurrar mais forte.

Eu não sou santo. Tenho plena consciência de que faço parte do empurra-empurra. Tenho uma pá de hábitos insustentáveis: consumo demais, viajo demais de avião, gosto de cheeseburger. Nos últimos anos, no entanto, comecei a abrir mão de coisas: me livrei do meu carro, cortei meu consumo, abandonei os sacos plásticos, fiz uma composteira no quintal e reduzi bruscamente minha produção de lixo. Não sou santo, repito. Não tenho hábitos perfeitos. Mas estou fazendo força para dar um passinho para trás. Estou abrindo mão de algumas coisinhas, na esperança de que o aperto diminua para todo mundo (inclusive para mim e, principalmente, para o meu filho, que ainda não nasceu).

No geral, abrir mão dessas coisas tem sido mais um prazer do que um sacrifício. Livrar-me do carro, por exemplo, fez de mim um sujeito mais feliz, mais magro, mais saudável (e, nos últimos meses, mais molhado). Esqueci o que é ficar preso no trânsito e fiz um monte de amigos passando por eles de bicicleta.

Não acho que vamos “salvar o mundo”. Não acho que vamos nos mudar para o éden verde. Mas tenho esperança de que eu vá sentir de novo a mesma sensação daquela tarde de vitória brasileira no Morumbi: o alívio de saber que a vida continua.

Por Denis Russo Burgierman

COMPARTILHE
Digg StumbleUpon del.icio.us Twitter
ENVIE
Email This Post

Cidade de passagem

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010 | 11:21

Num 25 de janeiro como hoje, numa capelinha de roça poeirenta com paredes de barro, a quilômetros e quilômetros de qualquer lugar civilizado, longe do mar, longe de tudo, no meio do mato, nos confins do sertão, celebrou-se uma missa. Anos depois, a história escolheu essa missa como o marco da fundação de São Paulo. Mas, naquele 25 de janeiro de 1554, não se deu nenhum ato solene, nenhuma inauguração, nenhum festejo oficial. Apenas uma missa inconsequente, reunindo uma dúzia de jesuítas e sabe-se lá quantos índios curiosos.

A cidade de São Paulo não surgiu em 1554. O que havia, então, era apenas um colégio no qual padres, desiludidos de levar seus corrompidos conterrâneos brancos ao caminho de Deus, tentavam converter as almas mais puras dos índios. Os índios se deixaram converter, mas pouco depois foram perdendo o interesse naquela chatice de Deus e pecados e começaram a abandonar o colégio para voltar para o mato. São Paulo quase desapareceu, quase acabou.

Mas aí surgiu por aqui a primeira atividade econômica da terra, a primeira de muitas tentações atraindo forasteiros em busca de dinheiro: caçar índios para fazer escravos. Foi assim que São Paulo nasceu de verdade: como o foco de onde partiam os caçadores de escravos.

Por muitos e muitos séculos, São Paulo não era um lugar para construir a vida – era só uma passagem. Por aqui se passava a caminho da caça aos índios no interior, no Paraná. Depois, por aqui se passava a caminho das minas de prata e ouro de Minas, do Mato Grosso, de Goiás. Depois, por aqui se passava carregando o café, plantado no oeste do estado, a caminho do porto de Santos. Passagem. Sempre passagem.

São Paulo só foi virar um lugar mais definitivo, um destino, onde se constrói coisas para durar, no final do século 19, com a industrialização e a multidão de imigrantes que lhe forneceu mão-de-obra. Mas, ainda assim, permaneceu entranhada a sensação de um lugar temporário, de uma passagem. Tanto é assim que, numa pesquisa do Ibope divulgada recentemente, 57% dos 11 milhões de paulistanos declararam que mudariam daqui se tivessem condições.

São Paulo é tão passagem que, há anos, os prefeitos daqui dedicam a maior parte de sua energia e dos seus recursos construindo novas vias para os carros passarem. O atual prefeito, por exemplo, está alargando as avenidas marginais, que correm ao lado do decrépito Rio Tietê. Agora o asfalto vai até a beiradinha do rio, deixando espaço para um carro a mais passar.

Mais carros significa mais monóxido de carbono, o que aumenta a possibilidade de tempestades. Mais asfalto significa mais chuva, e menos capacidade de absorver a água em excesso. O prefeito, inocente, alega que as enchentes que estão submergindo a metrópole no último mês são culpa da chuva em excesso. Verdade. Mas ele parece não ver o óbvio: que as chuvas em excesso são consequência direta da nossa relação com a cidade, que vemos como apenas um lugar de passagem. Ninguém faz planos de longo prazo para São Paulo. Ninguém sonha com o futuro da cidade. Ninguém planeja a metrópole de 2030, de 2050, de 2080: um lugar de convívio, um lugar para viver. Apenas alargamos as avenidas para que São Paulo continue sendo um lugar para passar.

São Paulo é rica, é dinâmica, é uma força que vai mover um pedaço grande da economia mundial no século 21. Mas seu modelo urbano é caquético. Administrações visionárias têm proposto um novo modelo urbano em metrópoles latino-americanas como Bogotá e Cidade do México. Enquanto isso, nossos prefeitos continuam firmemente atolados no século 20.

Dois carros a menos em São Paulo

Dois carros a menos passando em São Paulo

Foto: Nathalie Gutierrez (CC)

Por Denis Russo Burgierman

COMPARTILHE
Digg StumbleUpon del.icio.us Twitter
ENVIE
Email This Post

Sobre tecnologia e baleias

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010 | 16:50
No convés do Farley Mowat, há uma "parede de troféus": cada bandeira representa um baleeiro cuja carreira a Sea Shepherd encerrou. A foto é do grande Ignacio Aronovich.

No convés do Farley Mowat, há uma "parede de troféus": cada bandeira representa um baleeiro cuja carreira a Sea Shepherd encerrou. A foto é do Ignacio Aronovich – clique nela para ver uma outras.

Faz pelo menos 5.000 anos que o homem caça baleias. No início, era uma atividade alucinantemente perigosa. Os homens numa canoa precária, a lança na mão, o gigante surpreendido em meio à sua migração anual. Era uma luta entre homem e baleia – às vezes um ganhava, às vezes ganhava o outro. Não por acaso, era cercada de rituais de agradecimento aos deuses, de respeito e de mitos.

Há registros ancestrais dessa luta em vários cantos do mundo: entre os inuits, os patagônicos, os chineses, japoneses, noruegueses, russos, portugueses, bascos. Geralmente caçava-se baleia franca.

Em inglês, baleia franca chama right whale, ou “baleia certa”. Baleia certa para matar. Certa porque tinha o imprudente hábito de viajar perto da costa, portanto ao alcance dos precários botes humanos. Certa porque era gigante – os adultos têm entre 11 e 18 metros, e já se registrou indivíduos de 100 toneladas –, e portanto uma luta rendia carne para um vilarejo inteiro. Certa porque, quando morre, flutua. Outras espécies gigantes, como as baleias-azuis, as cinzentas e as jubartes, afundam. Imagine a frustração dos primeiros humanos que mataram uma baleia-azul, o maior ser vivo que já existiu sobre a Terra, com até 170 toneladas, para depois descobrir que jamais seriam capazes de mantê-la na superfície.

No século 19, a caça à baleia virou empreendimento gigante, industrial. Barcos e mais barcos foram lançados à água, primeiro para varrer as baleias francas de perto de seus vilarejos, depois, quando elas começaram a desaparecer dessas águas, para vasculhar os oceanos mais remotos do mundo, em busca de francas e cachalotes, outra espécie que não afunda.

Acontece que baleias têm um baixíssimo potencial reprodutivo. Em outras palavras: elas têm poucos filhos. Na média, uma fêmea tem menos do que um filhote por ano. Se houver um monte de pigmeuzinhos pendurados em barcos matando baleias, essa taxa de natalidade é insuficiente para repor a população. Resultado: francas e cachalotes começaram a desaparecer. A indústria baleeira começou a quebrar, a pesca rareou, a tradição milenar começou a se extinguir.

Foi aí, lá por 1860, que surgiu um dos grandes heróis da indústria pesqueira e da era industrial: Svend Foyn, um capitão baleeiro norueguês. Foyn foi o inventor do arpão explosivo. Funcionava assim: um canhão disparava um arpão acoplado a uma granada. O arpão perfurava a cabeça da baleia, a granada explodia por dentro. A baleia era imediatamente puxada para perto do barco, onde um marinheiro aguardava com uma mangueira de ar comprimido. O ar era injetado na baleia. De repente, as baleias azuis, cinzentas, jubartes (e as pequenas minkes, que os japoneses caçam hoje na Antártica) não afundavam mais.

A moribunda indústria baleeira milagrosamente renasceu. Milhares de pessoas fizeram a vida e acumularam fortunas matando baleias. O homem desbravou o mundo, descobriu a Antártica, navegou cada metro quadrado do oceano, em busca de baleias. Até que, pouco depois da metade do século 20, baleias azuis, cinzentas e jubartes começaram a acabar também, e mais uma vez a indústria despencou.

Conto esta história porque, desde a semana passada, não consigo tirar as baleias da cabeça (em parte porque li o lindíssimo livrinho Pawana, do Nobel de Literatura Le Clézio, o relato de uma “lenda verdadeira” sobre baleias, que você deveria ler também). Conto essa história também porque ela me faz pensar no momento atual. Tem gente hoje que afirma que não deveríamos nos preocupar com as mudanças climáticas, porque o homem sempre foi capaz de encontrar soluções tecnológicas para seus problemas, e continuará sendo.

Soluções tecnológicas são ótimas para aumentar a eficácia e a eficiência das nossas operações – o arpão explosivo de Foyn, por exemplo, multiplicou em várias vezes o “estoque” de baleias no oceano, fazendo com que uma indústria decadente prosperasse por mais um século. Mas arpão nenhum fez efeito nos anos 1960, 1970 e 1980, quando a caça de baleias despencou de novo. É que, dessa vez, não havia mais espécies intocadas para descobrir: todas as espécies grandes estavam ameaçadas. Nem o mais poderoso arpão explosivo do mundo será capaz de matar baleias se não houver mais baleias no mar.

O livro de Le Clézio, lindo.

O livro de Le Clézio, lindo.

Por Denis Russo Burgierman

Tags:
COMPARTILHE
Digg StumbleUpon del.icio.us Twitter
ENVIE
Email This Post

Sea Shepherd 10 X 1 Baleeiros

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010 | 18:01

Nesta época do ano, é inevitável para mim lembrar do reveillon de 2003, o mais incrível da minha vida, que eu passei no lugar mais remoto e selvagem do mundo, os mares da Antártica, a uma semana de viagem da cidade mais próxima. Eu estava num velho navio pesqueiro, sujo e enferrujado, cercado de icebergs esculturais, visitado todos os dias por pinguins, focas, orcas e baleias – várias espécies de baleias, inclusive uma das 10 000 baleias-azuis que sobraram nos oceanos do mundo. Vendo auroras austrais, mergulhando na água gelada, convivendo com gente incrível, cercado de beleza e paixão. Foi incrível, épico, lindo. E assustador.

A foto é do grande Ignacio Aronovich, fotógrafo que viajou comigo. Dê uma olhada no site dele e da Louise, mulher dele: é um dos melhores sites de fotografia que eu conheço.

A foto é do grande Ignacio Aronovich, fotógrafo que viajou comigo. Dê uma olhada no site dele e da Louise, mulher dele: é um dos melhores sites de fotografia que eu conheço.

Fui para a Antártica como repórter, a convite de uma organização eco-radical chamada Sea Shepherd. Um ano antes, eu tinha entrevistado o fundador da organização e capitão do navio deles, Paul Watson. Ele me contou que sempre sonhara em ir para a Antártica, um dos únicos lugares do mundo onde ainda se mata baleias em larga escala. Paul Watson e sua Sea Shepherd tinham no currículo o afundamento de 10 baleeiros, desde 1979, quando eles trombaram propositalmente com o baleeiro pirata Sierra na costa de Portugal. Durante a entrevista, eu tive certeza de que havia uma grande história aí, e fiquei no pé de Watson até ser convidado para a primeira campanha antártica da Sea Shepherd. Consegui.

Passamos seis semanas no mar. A campanha foi um fracasso. Não encontramos os baleeiros, que se moviam rápido demais para o nosso navio, o Farley Mowat, um calhambeque marinho construído em 1958 e comprado usado por algumas dezenas de milhares de dólares.

Semana passada, Watson e a Sea Shepherd apareceram nas notícias de novo – como aliás sempre acontece nesta época do ano, que é quando os japoneses caçam baleias. Mais uma vez, como acontece todos os anos desde 2003, eles foram para a Antártica incomodar os baleeiros. Só que, desta vez, em vez de pilotar uma lata velha, eles tinham três barcos, sendo que um deles era um ultra-moderno trimarã movido a diesel que vale 1,5 milhão de dólares e mais se parece o batmóvel – chamado Ady Gil, em homenagem ao milionário de Hollywood que doou a maior parte do dinheiro. Você deve ter visto as notícias. O Ady Gil trombou com um dos baleeiros japoneses e afundou. Desta vez os baleeiros ganharam.

[No vídeo, a imagem da esquerda foi feita por ambientalistas em outro barco. A da direita, que dá a sensação de que a culpa foi dos próprios ambientalistas, foi tomada pelos próprios baleeiros japoneses.]

Watson afunda baleeiros porque diz que eles agem ilegalmente. Realmente, há, desde 1987, um tratado internacional que proíbe a caça a baleias no mundo inteiro. Mas há uma exceção: é permitido matar baleias para pesquisa científica. E, uma vez mortas, é permitido vender a carne das baleias, para não desperdiçar. Os japoneses criaram seu “programa de pesquisas” em 1987, mesmo ano em que a moratória começou. Como é essa “pesquisa”? Mata-se o bicho, estuda-se seu ouvido e o conteúdo do estômago e intestino, empacota-se a carne e vende-se em peixarias. Trata-se de um estudo de seus “hábitos alimentares”. Para fazer isso, mata-se 900 baleias por ano.

Enfim, o tal “programa de pesquisa” não passa de um pretexto. E ninguém faz nada, porque a Antártica fica em águas internacionais e não existe polícia lá. Ninguém é responsável pelo planeta: os governos só têm jurisdição sobre seus próprios países.

Watson tem todos os defeitos que dizem que ele tem. Ele mente com alguma frequência, é meio arrogante, é difícil de lidar, não é nada diplomático, é marketeiro até a medula. Ele me odeia – ficou bravo com alguns trechos do livro que escrevi sobre a expedição. E ele arrisca: um sujeito que já afundou dez baleeiros não tem muito o que dizer quando finalmente é um barco dele que vai parar no fundo.

Mas tenho que admitir que, no fundo do coração, tenho uma baita admiração pela sua coragem sem limites. E uma baita saudades da Antártida, o último lugar do mundo que ainda não foi inteiramente transformado em “estoque” de algum produto.

Por Denis Russo Burgierman

COMPARTILHE
Digg StumbleUpon del.icio.us Twitter
ENVIE
Email This Post

O deserto, a lua, o lítio e o cordeiro

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010 | 13:44

Na primeira vez que viemos ao Chile foi porque tínhamos umas milhas acumuladas e escolhemos o país sul-americano mais distante disponível, para fazer as milhas valerem. Não tínhamos nenhuma ligação especial com o lugar, nenhuma curiosidade específica. Mas, depois de um mês aqui, algo nos encantou, difícil saber o quê.

Na segunda vez, trouxemos nossas bicicletas e passamos o ano novo cruzando a Carretera Austral, uma espécie de Transamazonica chilena, que liga nada a lugar nenhum, construída por Pinochet mais para ocupar território do que para transportar gente. Pinochet é um herói naqueles ermos da Patagonia, e passamos uma noite numa casa que tinha o retrato dele na parede. Lá fora chovia pedra e o frio era de matar. O dono da casa colocou nossas botas encharcadas no forno a lenha e fomos gratos a ele. Posição política é uma bobagem quando a vida está em jogo.

No dia 31 colocamos as bicicletas num ônibus e fomos até uma cidade tentar virar o ano sem chuva e cercados de gente. Cada pessoa que subia no ônibus carregava um cordeiro inteiro morto. Nossas bicicletas viajaram com meia dúzia de cordeiros. É isso que se come na ceia de ano novo no Chile.

Este é um país orgulhoso, de hábitos simples. Da Patagonia ao Atacama come-se as mesmas comidas, segue-se as mesmas tradições, cultua-se ou odeia-se os mesmos heróis/vilões.

Estamos no Chile, eu e a Joaninha, minha esposa, é nossa terceira vez. Passamos a última semana pedalando no deserto. Dia 31, fomos convidados por uns chilenos para uma ceia.

Tinha cordeiro, claro. Metade de um animal, cortada ao meio e colocada sobre a brasa num imenso forno de barro. Foi o primeiro cordeiro que o Miguel, nosso novo amigo chileno, assou na vida. Mas ele sabia exatamente como preparar, depois de passar a vida olhando os outros assarem o bicho todo réveillon. Perguntei se eles já tinham tentado fazer pizza naquele forno. Eles torceram o nariz. Pizza é gringa. Empanadas, aí sim, e todos se derreteram em “hmmmmm”s imaginando o pastelzinho latino.

Antes de beber vinho, o Miguel derramou um gole no chão. Para Pachamama, a Terra, de onde o vinho veio.

Chegamos ao hotel caminhando cambaleantes pelas ruas de terra, só sob a luz da absurda lua cheia do Atacama, encantados com a simplicidade daqui.

Estou escrevendo do meu celular, conectado a um wi fi precário. Amanhã subimos a cordilheira, rumo à Bolívia, e a uma semana desconectados (por isso antecipo o post da segunda. Por isso, também, peço desculpas pelos erros de digitação e pela falta de imagens).

Na minha casa em São Paulo, sou vizinho de uma brasserie francesa, tem um restaurante baiano e uma pizzaria do outro lado da rua e, na esquina, um restaurante por quilo vende sushi, pastel e macarrão. Sei fazer alguns pratos vietnamitas. Sou um cidadão do mundo, urbano, desenraizado, meio cínico. Demorei para entender a gente daqui, firme, séria, digna, tradicional. Uma gente que come cordeiro todo dia 31 de dezembro.

Lá onde eu moro, o colapso ambiental é só mais um assunto para se discutir no bar, assim como política, futebol, filosofia. Aqui é o rio secando, a geleira derretendo, a lavoura escasseando.

Fiquei sabendo que o deserto do Chile supre o mundo de lítio. Lítio é um mineral bem século 21 - com ele se faz remédios contra depressão e baterias de celular. O Miguel está preocupado porque a chegada dos carros elétricos, com bateria de lítio, pode ser uma ameaça para o deserto. Mais uma. Para você ver como esse mundo é complicado.

Mas este texto aqui não é para lamentar as mudanças climáticas nem para polemizar com os fãs de Pinochet. Daqui, do meio de um deserto de milhões de anos, esses assuntos parecem pequenos, passageiros. Escrevo para contar da grandiosidade da paisagem que me cerca, da sombra monumental do vulcão Licancabur, da lua cheia nascendo quase ao mesmo tempo em que o sol se pôs.

Escrevo porque já é 2010, um número que nem parece um ano de verdade, mas uma daquelas datas inventadas dos filmes de ficção cientifica.

Escrevo para desejar, de verdade, um feliz ano novo para você.

E para o o Planeta Terra.

Por Denis Russo Burgierman

COMPARTILHE
Digg StumbleUpon del.icio.us Twitter
ENVIE
Email This Post

Mensagem de ano novo

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009 | 12:17

Tem uns canais de TV a cabo que passam uns programas legais, mas colocam intervalos comerciais imensos e frequentes, que vão ficando mais imensos e mais frequentes à medida em que o programa avança, quando você já está fisgado.

Tem uns shopping centers que projetam um sistema complicadíssimo de escadas rolantes para forçar você a passar em frente a dezenas de vitrines antes de chegar ao cinema.

Tem uns sistemas de assinatura que tiram dinheiro do seu cartão de crédito sem pedir antes, apenas com o argumento de que você não cancelou.

Tem uns restaurantes que colocam preços bem baixos nos pratos, mas cobram uma fortuna pelo couvert, sem perguntar antes se você quer, sem avisar que custa uma fortuna.

Tem gente que cria dificuldade para vender bem caro facilidade.

Legal.

Tudo isso aí faz o PIB crescer. É dinheiro circulando na economia. Quer dizer que é bom, então?

E ajudar um vizinho a construir algo, sem cobrar nada, não movimenta a economia.

É ruim então?

Dinheiro é bom. Dinheiro em troca de dedicação, de produto de qualidade, de esforço, de cuidado é ótimo. Mas dinheiro não é tudo, não. E não vale tudo para movimentar a economia.

Tirem o olho da minha carteira.

amor

Foto: Alexandre Hamada Possi / Flickr / CC

Por Denis Russo Burgierman

COMPARTILHE
Digg StumbleUpon del.icio.us Twitter
ENVIE
Email This Post

Hitler, formigas e transições

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009 | 18:26

Um dos assuntos mais delicados do movimento ambiental é população. O argumento é o seguinte: mudanças climáticas, extinções de espécies, colapso dos ecossistemas, caos ambiental são apenas sintomas. A doença é uma só: há demais de nós. Há uma infestação de humanos na Terra e é isso a causa de todo o resto dos problemas. Éramos 2 bilhões em 1927, seremos 7 bilhões em 2012. Nesse ritmo, é óbvio que o planeta não dá conta.

As barras de cor sólida são números reais, as listradas são projeções.

As barras de cor sólida são números reais, as listradas são projeções.

Esse assunto é delicado por razões históricas e emocionais.

Históricas: falar de superpopulação faz lembrar das campanhas eugênicas de esterilização forçada e de eutanásia dos nazistas. Da ideia de que vidas “que não valem a pena ser vividas” devem ser exterminadas. Faz lembrar que é hábito de ditaduras controlar o ritmo de crescimento da população.

Emocionais: a ideia central do ambientalismo é tentar poupar o planeta para as gerações futuras. É não consumir tudo agora, para que nossos filhos e netos possam saber o que é uma onça, uma baleia, uma praia, um outono. Se começarmos a dizer que não temos que ter filhos ou netos, a coisa começa a perder o sentido. Por isso, nenhuma organização ambiental importante defende que as pessoas deixem de ter filhos: eles não querem afastar sua audiência mais importante, os pais preocupados.

Hoje me deparei com uma entrevista inteligente com um químico alemão chamado Michael Braungart, professor da Universidade Erasmus de Rotterdam. Braungart teve a coragem de enfrentar esse assunto delicado. Olha o que ele disse:

“A biomassa das formigas é quatro vezes maior que a dos humanos. E, como elas trabalham mais duro do que nós, o seu consumo de calorias equivale ao de uma população de 30 bilhões de humanos. Mas elas não são um problema para o ambiente.”

Ou seja, mesmo com uma população imensa, é possível não destruir recursos finitos. Achei chocante pensar que, se você colocar a população mundial de formigas numa balança, ela vai pesar o quádruplo da população humana, e que seu consumo de energia para viver é quase o quíntuplo do nosso. Mas isso, obviamente, não resolve nosso problema. Nós produzimos esgoto, emitimos carbono, queimamos a mata e espalhamos sacos plásticos e latinhas de cerveja por onde passamos – elas não.

Mas, no mínimo, Braungart faz a gente pensar. A explosão populacional humana certamente é parte do problema – simplesmente não haverá recursos para todo mundo se continuarmos nos comportando como quando éramos 1 bilhão de pessoas. Mas isso não quer dizer que a única solução possível para nós seja reduzir a população. Há uma outra: reduzir drasticamente o impacto negativo que cada um de nós causa. De preferência, reduzir a zero, de forma que o aumento da população deixe de ser um problema.

Braungart é pesquisador do Instituto Holandês de Pesquisa para Transições (Drift, na sigla holandesa). O papel do Drift é imaginar um design para uma nova era. No futuro imaginado por eles, os produtos não consomem recursos da Terra, nem um pouquinho. Tudo aquilo que não consumimos é reaproveitado, compostado, reciclado. Tudo é eficiente, não se joga fora nem energia. Tudo é feito para durar.

Mais ou menos como as formigas fazem.

A boa notícia é que a explosão populacional está diminuindo de ritmo. As projeções indicam que a população pode se estabilizar lá pelo fim do século. Ou seja: se conseguirmos fazer a tal transição para um modelo de baixo impacto, não estaremos apenas adiando problemas inevitáveis. Estaremos efetivamente no rumo de um futuro sustentável.

Por Denis Russo Burgierman

COMPARTILHE
Digg StumbleUpon del.icio.us Twitter
ENVIE
Email This Post

Chefões, chefinhos e redes

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009 | 15:31

Deixeu tentar adivinhar como é que funciona o lugar onde você trabalha. Tem um chefão bem pago numa sala bem espaçosa, que dá ordens para alguns chefinhos. Não tem? Aí cada um dos chefinhos dá ordens para um certo número de pessoas e assim por diante, até chegar à peãozada lá embaixo, que faz o trabalho.

Pegue o organograma de qualquer grande estrutura – seja ela uma empresa, um governo ou uma ONG – e o mais provável é que ele se pareça com isso:

screen-shot-2009-12-14-at-31929-pmTem uma bolinha no centro de tudo (o chefão), ligada aos chefinhos, que se ligam à peãozada.

Esse modelo de trabalho tem seus méritos. A estrutura hierárquica garante que todo mundo esteja engajado num projeto comum. Há controle sobre todos.

Mas ele tem suas desvantagens também. O pessoal longe do centro não tem autonomia nenhuma para experimentar. O trabalho deles é observar o problema, mandar as informações para o centro, esperar a decisão voltar, e depois obedecer as ordens. Isso pode ser uma baita desvantagem em tempos de mudanças de paradigma, como os atuais, quando nada é mais importante do que ter flexibilidade para inovar.

Agora, imagine que a gente vivesse num modelo que fosse mais assim:

screen-shot-2009-12-14-at-31942-pmAs bolinhas são exatamente as mesmas, mas mudou o jeito como elas se conectam. Cada uma está ligada a um monte de outras. Não tem centro, todo mundo está em contato com os problemas e tem liberdade para decidir como lidar com eles.

Isso é uma rede. Cada indivíduo aí tem suas atribuições, trabalha do seu jeito, tem seus objetivos. Cada um é o chefe do seu pedacinho. O resultado são indivíduos mais engajados, mais motivados, mais criativos. Mil cabeças, em vez de uma cabeça só com 2.000 braços.

Por milênios, esse tipo de organização era uma impossibilidade prática. Era simplesmente impossível alinhar um monte de interesses de um jeito que essa rede não virasse um caos, com cada um trabalhando para o seu próprio bem. Mas, nos últimos anos, graças às novas tecnologias de comunicação, começaram a surgir pelo mundo experiências animadoras, que dão a esperança de que logo logo vai ser possível produzir coisas grandiosas sem hierarquias rígidas.

No mundo dos negócios, o exemplo mais impressionante é o Google, claro. O Google é uma empresa gigantesca, uma corporação. Mas é também um lugar onde todo mundo é incentivado a ter seus “projetos pessoais”, que na verdade não são exatamente pessoais, são do Google. Qualquer bolinha na rede tem liberdade para inventar algo, mesmo que o chefão nem saiba do que se trata. Cada funcionário pode se relacionar diretamente com o público, sem ter que passar pela hierarquia inteira antes. Isso dá a todo mundo liberdade para experimentar e aprender com seus erros e acertos. Resultado: em poucos anos, uma empresinha de garagem virou uma das maiores do mundo.

Rede é também a forma de (des)organização da internet. Ninguém manda aqui, não há uma hierarquia. Ainda assim, bilhões de coisas são produzidas – vídeos, fotos, softwares, enciclopédias, num ritmo assustadoramente rápido, um milhão de experimentações por segundo. O mundo está mudando rápido e tenho certeza de que vão ser redes, e não estruturas hierárquicas, que vão liderar essa mudança.

Tem muita gente que adora ficar discutindo se é melhor ser de direita ou de esquerda. A direita quer menos governo e mais mercado, a esquerda quer o contrário. Para mim, essa discussão é totalmente secundária. Importante não é escolher entre empresa privada e governo – é entender como eles se organizam. Hoje, no Brasil, tanto os governos quanto as empresas são imensamente hierarquizados e autoritários. É o chefe que manda, ninguém experimenta, ninguém inova. Tanto os funcionários públicos quanto os privados estão esmagados debaixo de uma pesada estrutura hierárquica. Morre-se de medo de perder o controle.

Enquanto não aprendermos a formar redes mais  flexíveis, seremos o país da burocracia, do medo de arriscar, do autoritarismo, da falta de inovação. Tanto no setor público quanto no privado.

Por Denis Russo Burgierman

COMPARTILHE
Digg StumbleUpon del.icio.us Twitter
ENVIE
Email This Post

“O que é certo” X “O meu direito”

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009 | 16:02

O Brasil aboliu a escravidão em 1888. Portanto, 75 anos depois da Argentina, 67 anos depois do Equador, Colômbia e Venezuela, 23 depois dos Estados Unidos, 2 depois de Cuba. Não é à toa que muitos fazendeiros das Américas conseguiram diminuir seu prejuízo revendendo escravos para o Brasil. Quando chegou a nossa abolição, os fazendeiros daqui ficaram com o mico: não havia mais para onde vendê-los. Éramos o último país da América a preservar essa instituição horrenda.

Acabei de ler um livro delicioso – A Capital da Solidão, uma história da cidade de São Paulo, de Roberto Pompeu de Toledo, colunista da Veja. Pompeu de Toledo conta dos bastidores da abolição. Muitos dos fazendeiros de café de São Paulo, uma gente culta, estudada na Europa, com princípios liberais (foram eles que fundaram o Partido Republicano, e que derrubaram o império), até concordavam com a imoralidade da escravidão. Mas eles achavam que era impossível viver sem ela. Sem escravos, o país quebraria.

solidao

O livro cita uma defesa da escravidão, publicada no jornal republicano A Província de S.Paulo (depois rebatizado de O Estado de S.Paulo):

“Um abolicionismo infrene, baseado unicamente na espoliação de direitos adquiridos e no assalto de propriedades penosamente constituídas, propaga-se aos quatro cantos brasileiros, como uma necessidade palpitante e urgente, ainda que em seu louco caminhar leve atrás de si a devastação e a ruína.”

Tem verdade nessa frase: o abolicionismo realmente desrespeitava “direitos adquiridos”. Os fazendeiros tinham gasto dinheiro para adquirir a propriedade de escravos, e agora se propunha que eles deixassem de ser coisa para virar gente. Com isso, os fazendeiros simplesmente perderiam sua propriedade. Mas “direitos adquiridos” valem mais que a liberdade, que a vida humana?

Esse impasse só se desfez quando ficou claro que os interesses financeiros não seriam assim tão desrespeitados. Em 1870, um fazendeiro fez as contas e descobriu que, pelos preços da época, o dinheiro necessário para comprar 100 escravos era equivalente a pagar 1.666 trabalhadores livres por um ano. Ao longo dos anos 1880, os fazendeiros paulistas, com ajuda de dinheiro público, criaram um esquema para trazer trabalhadores da Europa. Só em 1888, quando estava claro que os fazendeiros não teriam prejuízo algum e que haveria mão-de-obra para substituir os escravos, aboliu-se a escravatura.

No final, não houve nem devastação nem ruína, para surpresa dos escravagistas. A produtividade nas fazendas explodiu, porque gente livre tende a trabalhar melhor que gente forçada. E a economia deslanchou, impulsionada pelos trabalhadores assalariados. Mas resta o fato: mantivemos seres humanos na servidão por mais tempo do que deveríamos.

Num certo sentido, o atual momento histórico tem alguns paralelos com o que aconteceu 120 anos atrás. De novo, nos demos conta da imoralidade do nosso sistema produtivo. Do mesmo jeito que não faz sentido ser dono de outros seres humanos, está ficando claro que não podemos nos considerar donos de recursos naturais finitos, já que eles pertencem às próximas gerações. De novo, há um conflito entre o que consideramos certo e os interesses de alguns grupos (“eu comprei este rio, ele é meu”). E hoje, assim como no século 19, essa discussão só começou a ser levada a sério quando ficou claro que poderíamos mudar de paradigma sem prejuízos financeiros. Aparentemente, sustentabilidade pode dar lucros, porque significa que podemos explorar nosso negócio por mais tempo.

Mas isso não apaga o principal: surrupiar recursos dos nossos filhos e netos é errado, ainda que traga lucros. Dessa vez, o Brasil não pode se dar ao luxo de ficar 75 anos dando uma de migué. Até porque mudar antes o que tem que ser mudado de qualquer jeito é uma oportunidade. Deixemos o mico para outro.

Por Denis Russo Burgierman

COMPARTILHE
Digg StumbleUpon del.icio.us Twitter
ENVIE
Email This Post