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Varsóvia

06/06/2012

às 14:27 \ Europa, Futebol

O euro agoniza, viva o Euro!

 

Durante três semanas, a maioria dos europeus – e não só eles – vão acompanhar 16 equipes disputarem 31 partidas de futebol através de 31 câmeras de televisão de alta definição nos estádios da Polônia e da Ucrânia, antigos satélites soviéticos descongelados pela adoção da economia de mercado, onde a cerveja é a mais barata da Europa. O pint, pouco mais da metade do litro, custa 58 centavos de euro em Kiev e 1, 55 euros, nos bares de Varsóvia.

A mini copa sem o Brasil, Argentina, Uruguai e fora a melhor seleção africana do momento deve trazer benefício médio de 7 bilhões de euros para os países sede. Mas nem todos vão lucrar com a Eurocopa 2012. Durante a Copa do Mundo 2010, na África do Sul, por exemplo, a economia inglesa teve queda de produtividade da ordem de 6 bilhões de euros. Os torcedores da ilha devem saber que, quanto mais a equipe inglesa avançar na competição, maior será o prejuízo para o reino de Elizabeth II. “A glória não se calcula assim”, diria Charles de Gaulle, um dos piores amigos e melhores inimigos da Inglaterra.

Quem não gosta do esporte bretão pode encontrar outro atrativo. Contrário ao que acontecia na Inglaterra pela ação de marmanjos despudorados, as partidas do Euro 2012 correm risco de serem interrompidas pela entrada no gramado de feministas seminuas – ou totalmente –  para protestar contra o turismo sexual administrado pela oligarquia mafiosa local. E quem também não gosta dessas surpresas, pode encontrar sempre bom programa nas páginas dos suplementos VEJA Rio, São Paulo, etc. Diga-se de passagem, editadas sob o comando do talentoso jornalista Carlos Maranhão, veterano de todas as copas desde a criação da revista PLACAR.

Quais são os favoritos para erguer os 8 quilos de prata da Taça Henri Delaunay? Antes da bola rolar, a Espanha, atual campeã do mundo, a Alemanha e a Holanda recebem maior numero de apostas. Depois, pode ser qualquer outra seleção. Até a Grécia é capaz de fazer estragos ainda que a competição não seja economia e o euro, por mais valorizado, não tem nenhuma equivalência com a dracma.

A grande questão é saber se Xavi, Inesta e seus companheiros estão realmente tão cansados quanto se mostram e portanto, ansiosos pela chegada das ferias do verão europeu. Ou se vão conseguir, como a França de Zidane, a proeza de ganhar a Eurocopa depois de ter vencido a Copa.

Os governos da Península Ibérica e Itálica bem que gostariam de viver o dilema de La Roja em relação à crise do euro. Porém, seu adversário é bem mais forte que a simpática e multicultural Mannschaft do merengue de origem turca Mesut Ozil. Os teutos jogam como se deve: a linha de meio-campistas nunca está distante dos zagueiros e atacantes, mas eficiência ainda não trouxe títulos para Berlim. Os países endividados do sul da Europa, enfrentam o rigor orçamentário defendido pela chanceler alemã. Frau  Merkel, ainda que pouco apreciada, é quem apita.

O melhor jogador da Europa, o continente que sabiamente transferiu as disputas dos campos de batalha para as arenas esportivas, estará fora das quatro linhas do Euro 2012. Entretanto, Lionel Messi tentará ajudar sua Argentina a classificar para a Copa no Brasil. A maior atração individual, também antes da bola rolar, é o  português Cristiano Ronaldo. Na última temporada, o atacante teve melhor desempenho que Messi.  A vida como ela é. Mas para ganhar, CR7 terá que fazer  esforço de Hercules. Isso porque a Seleção das Quinas – se classificou empatando com Chipre e com a ajuda de derrota norueguesa – é ele mais nove, considerando que Pepe e  Fábio Coentrão entram, cada um, com meio.

A Polônia virou o jogo

Quando os cartolas da União das Federações Européias de Futebol (UEFA) escolheram  Ucrânia e Polônia para sediar o Euro 2012, o binômio parecia o sucesso abraçado com a encrenca. Em plena Revolução Laranja, crescimento econômico superior a 7% do Produto Interno Bruto (PIB), a Ucrânia demonstrava apreço, popular e por parte das elites governantes, pela democracia. O país achegava-se da candidatura para ingressar na União Européia (UE).  À época, a Polônia era governada pelo primeiro-ministro nacionalista Jaroslaw Kaczynski. O polaco marginalizou seu país em disputas estéreis com rivais históricos, a Alemanha e a Rússia. Jogo ruim de assistir.

Cinco anos depois, a situação se inverteu. A Polônia tornou-se a mais recente história de sucesso político e econômico da Europa. O governo do primeiro-ministro Donald Tusk, o único a ser reeleito desde a queda do comunismo, é estável. O país driblou bonito a recessão de 2009 – também desempenho único no Velho Continente. Tem um dos mais rápidos crescimentos econômicos da UE. A Polônia investiu, sem PAC e Delta, 30 bilhões de euros para acolher o Euro 2012. A maior parte do dinheiro serviu para criar infraestruturas e melhorar os transportes dilapidados, em sua maioria, de origem soviética. Só 5% da bolada foi usado diretamente para construção de novos estádios, como o de 58.000 lugares à beira do Rio Vístula, em Varsóvia – será palco inaugural da competição com o Polônia x Grécia, 8 de junho, às 15h45m  (Brasília), um jogo cheio de simbolismos de uma Europa a duas velocidades.

O esforço polonês se insere na ampla tentativa de mudar a imagem de país cinzento que emergiu da era comunista para a modernidade. Resta um grande desafio que vem de outros tempos: controlar as manifestações de grupos racistas e xenófobos nos estádios. Já inciou antes de começar. Durante treino em Cracóvia, um coro de torcedores fascistas insultaram os jogadores holandeses negros. Foram chamados de “macacos”. Isso depois da equipe ter visitado o campo de concentração de Auschwitz para render homenagem às vítimas da barbarie nazista.

Em contrapartida, a Ucrânia ainda tenta recuperar-se de uma contração econômica de 15% devido à recessão da década passada. Mesmo assim, aplicou 8 bilhões de euros nas suas quatro cidades sedes: Kiev, Lviv, Donetsy e Kharkiv. Em apenas 18 meses, foram construídos 4 aeroportos. Para receber os torcedores a Ucrânia tem doravante, 70 novos hotéis. Estima-se que 80% dos visitantes nunca pisaram antes no país. A esperança é que voltem.  Contudo, a imagem da Ucrânia está cada vez mais associada a de uma autocracia com corrupção disseminada.

Os deputados ucranianos vão além dos insultos pesados que acontecem durante as CPIs em Brasília. Trocam sopapos no Parlamento sem complexos. A ex-primeira-ministra e líder da Revolução Laranja, Yulia Tymoshenko, de 51 anos de idade, foi condenada a sete anos de prisão por apropriação de fundos públicos. Ela iniciou greve de fome contra o que alega ser uma vingança pessoal do atual presidente, Viktor Yanukovitch que lhe deu uma surra eleitoral. A situação chegou a suscitar ameaças de boicote ao Euro 2012. Suspeita-se que madame terá que tentar outra ocasião. O pessoal aqui, gosta de bola como ao sul do Equador, embora não manifeste da mesma maneira.

Atualização enviada pela leitora Paula Barcellos: “Os deputados gregos tambem aderiram aos sopapos sem complexos em pleno Parlamento.”

Por Antonio Ribeiro

 

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